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Júlio, o último fim de semana foi único na história do desporto em Portugal. Queres explicar-nos por quê?
Ora, bom dia. Pois quero, claro, e com todo o gosto, até porque há aqui um preâmbulo que é preciso fazer, que eu não sei se toda a gente sabe disto. Vamos ver se os nossos ouvintes e vocês também sabem. Provavelmente não se deram conta, porque neste fim de semana Portugal conquistou três títulos mundiais.
Três.
Dois coletivos e um individual. É verdade. Não sei se na história do nosso desporto há registro de um momento destes. Desta vez não foi no futebol, no hóquei, no andebol, enfim, nos desportos mais midiáticos e por isso talvez estejam vocês a apontar. Afinal, fomos campeões do mundo três vezes este fim de semana em que modalidades?
Olha, uma pelo menos é fácil. Deixa-me pegar na bola. Vamos ao primeiro título mundial, Júlio, porque este toda a gente soube e viu. Pedro Pichardo, não é? Campeão do mundo de salto em comprimento.
É verdade. Este cubano que fugiu um dia do seu país, veio parar a Portugal. Desde 2019 que representa a seleção portuguesa. Ontem na final disse que já é português, casou, o filho já nasceu cá e sabe o hino nacional de cor. Antes saltou os 17,25 m e conquistou a medalha de ouro no Campeonato do Mundo de Atletismo. Ele foi o único a trazer uma medalha, se bem se lembram, dos Jogos Olímpicos para o nosso país. O Presidente da República já o felicitou deste feito. Hoje, o L'Équipe em França traz uma página só com ele a explicar que ele é considerado um desertor em Cuba, não pode entrar em Cuba, o Pedro Pichardo. O pai pode, curiosamente, o pai é treinador e pode ir a Cuba. Até diz ao L'Équipe o pai que: "Nós conhecemos a Cuba dos turistas, não conhecemos a outra Cuba". E por isso é que ele diz que esta medalha é só de Portugal e já não tem nada a ver com Cuba. Aliás, ele nos campeonatos nem sequer pode falar com atletas cubanos. Mas não é o único. Há um Díaz Fortuna, que tem 21 anos, também cubano, é o segundo melhor atleta de Cuba no salto em comprimento, também fugiu e vai representar a Espanha. Muito bem, outras coisas do desporto.
Vamos ao segundo título mundial deste fim de semana. Este sei qual foi. No futsal, o mundial universitário foi disputado em Guimarães e aqui, Júlio, há uma grande história para contar.
É, sabes, mas não sei se toda a gente sabe. Ainda não sei se foram felicitadas pelo Presidente da República, mas provavelmente foram. Mas vamos a isso. Olhem, foi talvez das mais épicas finais que Portugal teve no futsal e quase diria no nosso desporto. Ontem jogou a final com o Brasil, no Multiusos de Guimarães, ontem à tarde. Estou a falar de futsal, do Campeonato do Mundo Universitário. São jogadoras de clubes não é mesma, mas são universitárias, todas estudam na universidade. Ao intervalo, Portugal perdia com as brasileiras por 5-1. Aliás, devo dizer que passei pelo jogo e quando vi o resultado ao intervalo, achei que a coisa estava resolvida.
Foste à tua vida, não é?
Fui à minha vida. Mais à frente, muito mais à frente, resolvi de novo passar pelo canal 11, que era onde estava a dar o jogo, e não é o meu espanto, e o jogo estava no prolongamento, na segunda parte do prolongamento, e estava empatado 5-5. Portugal, na segunda parte, foi do 5-1 para o 5-5 e acabou mesmo por ganhar nos penáltis. No último penálti, Portugal marcou cinco penáltis, o Brasil só marcou quatro, falhou o último. Foi inesperado, épico, vai ficar na história destas jogadoras que atuam nos clubes portugueses, mas são todas universitárias. Como vos disse, não sei se foram felicitadas.
Mas são agora por nós. Parabéns!
São felicitadas por nós e já vi dois jornais hoje e não vi nenhuma referência a isto. Mas ontem estavam lá 2 mil pessoas no Multiusos de Guimarães a ver este jogo e foi espetacular.
E foi espetacular. Então, Júlio, só falta o último título mundial. Já demos conta do atletismo, do futsal, qual é o outro?
Ora, vamos aos pormenores. Os nomes de Mafalda Mendes, Gilberto Gil, Luís Pais e Tiago Alves dizem-vos alguma coisa?
Assim de repente, não estou a ver.
Nada.
E estes nomes: Isco, Zinco das Lezírias, Horizonte e Aozido?
Nada.
Acho que ficou pior, ficou mais difícil. São campeões do mundo de quê, Júlio?
Ora, vocês vão ficar aqui a conhecer mais uma modalidade.
Então.
E os nossos ouvintes também. Se calhar, os nossos ouvintes até conhecem, e vocês também.
Então.
Fomos campeões do mundo este fim de semana em equitação de trabalho.
Equitação?
Já tinham ouvido falar disto?
Tanto é levar muito a sério o trabalho, controlar o trabalho. O que é isso?
Não, é mesmo prova com cavalo. São quatro cavaleiros. Os nomes que eu vos disse eram de quatro cavaleiros, os outros nomes são os cavalos que eles montam.
Claro, sim.
Portanto, o Gilberto montou o Isco, o Luís Pais montou o Zinco das Lezírias, o Tiago Alves o Horizonte e a Mafalda Mendes é que montou o Isco. São cavalos com quatro nomes. E esta é a equipa da seleção portuguesa que foi ao Mundial de Equitação de Trabalho e foi campeã do mundo. É uma modalidade que hoje tem uma expressão universal, esta equitação de trabalho. Já vem desde 1993, julgo eu. É praticada em muitos países e nós também já temos alguma tradição nisto e este fim de semana fomos campeões do mundo. Qual é a ideia da equitação de trabalho? A equitação de trabalho obriga ao uso do traje tradicional, aos arreios também tradicionais. O cavaleiro só usa apenas uma mão para a condução do cavalo. Isto foi concebido para destacar o tipo de montado utilizado nas diferentes vertentes do trabalho de campo. Portanto, há aqui uma associação entre o trabalho de campo e esta competição. Fomos campeões do mundo. Eu não sei se vocês leram isto em algum lado.
Não.
Mas se calhar não leram. Pois, só olhamos para o Catar.
Exatamente.
Mas tenho que dizer-te, Júlio, que nós também vimos vestidos a rigor para trabalhar. Eu e o Miguel estamos aqui incríveis, impecáveis.
Isto é equitação de trabalho, vocês é etiqueta do trabalho.
Olha, Júlio, ainda temos tempo para as notas de autor. Temos um minuto para as notas de autor.
Um minuto, notas de autor. Terminou o Tour.
Eu estava aqui a perguntar-me se tu não ias falar do Tour.
Amanhã vamos falar do Vingegaard e deste extraordinário Tour. Foi um dos melhores. Não sei se foi um dos melhores de sempre, que eu não vi os jornais todos.
Não viste todos, não é?
Mas foi um dos mais emocionantes dos últimos anos, não foi?
Mais emocionantes, mais interessantes e mais espetaculares, isso foi.
É verdade.
E amanhã vamos falar disso. Deixem-me só falar do portuguesão no Brasil. Ontem o Botafogo ganhou, do Luís Castro, o Palmeira, João Fel Ferreira, também ganhou e o Corinthians, do Vítor Pereira, também ganhou.
Ótimo. Isto andou ali um bocadinho tremido com o portuguesão.
Andava ali, vai que não vai, e afinal a coisa melhorou.
Está ao rubro o orgulho nacional.
Olha, e não há cartas de ouvintes?
Não, sabes por quê? Estão todos de férias.
Estão de férias.
Isto não anda fácil.
Não têm tempo pra nós.
É, não têm tempo. Já ninguém escreve cartas de ouvinte.
Júlio Magalhães a fechar o jornal das 20h.