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São 20h de 3 de julho de 1940. O Duque de Windsor está há pouco mais de três horas em Lisboa. Acaba de receber um telegrama que o deixa desorientado. Não sabe o que fazer. Quando chegou naquela tarde, era já um homem muito pressionado. A expressão preocupada, que não escapou aos jornalistas, escondia um dilema: regressar a Inglaterra e deixar cair as condições que tinha posto para voltar ou manter-se irredutível. Até aqui, conseguiu adiar ao máximo o regresso a Londres. Mesmo com uma guerra em curso que o obrigou a sair de França para o sul da Europa, não queria voltar sem ter o mínimo de garantias. Um homem que já foi rei não poderia regressar de qualquer maneira, precisava de um cargo à altura. E acima de tudo, Eduardo insiste numa obsessão que o persegue há anos. A família tem de reconhecer a mulher com quem casou e que o levou a abdicar do trono. Mas a posição de força não está a dar resultado. Governo e família real não aceitam nenhuma das condições e a margem de manobra está a chegar ao fim. O tempo começa a escassear. Lisboa é o último porto seguro da Europa Ocidental. Não há mais para onde fugir. Agora este telegrama deixa-o sem alternativa. Vem do Primeiro-Ministro Winston Churchill e é uma clara ameaça. José António Barreiros é advogado e tem vários livros publicados sobre a espionagem em Portugal durante a Segunda Guerra Mundial.

Eles estavam em funções militares em França, portanto, abandonou-os sem pré-aviso. E portanto, o Winston Churchill, através do embaixador Walter Selby, faz-lhe chegar uma carta em que diz: "Vossa Majestade terá que enfrentar a corte marcial, se não se apresentar neste país.". É uma carta humilhante.

O carro sai de manhã da Casa da Boca do Inferno, em Cascais. O duque dirige-se à Embaixada Britânica em Lisboa. Vai comunicar a decisão de abandonar o país naquele mesmo dia, às 23h40. Está finalmente resignado. Perante a ameaça de Churchill, deixa cair todas as exigências. Mas assim que chega à embaixada, um palacete na Rua São Francisco de Borja, Eduardo recebe um novo telegrama inesperado. E essa notícia vai mudar tudo. Ninguém o preparou para o dia seguinte. Na mesma noite em que abdicou, em dezembro de 1936, Eduardo VIII foi colocado num navio de guerra britânico e enviado para o exílio. Já com um novo título, passou a ser o Duque de Windsor. De repente, o homem que estava habituado a ter cada segundo da vida programado por conselheiros, ficou completamente sozinho, sem saber o que fazer. Era demasiado perigoso ter dois reis no mesmo país. E não foi só uma exigência do governo. A própria mãe, a rainha Mary, não queria que Eduardo ficasse e fizesse sombra ao irmão, o novo rei, George VI. Mas esse não era o único problema. O Duque era visto como sendo demasiado próximo da Alemanha e meses depois de abdicar, irá confirmar isso mesmo quando se encontrar pessoalmente com Hitler. Um encontro que até hoje está envolto em mistério. Em julho de 1940, quando vem para Lisboa fugido da guerra, o Duque está no centro de uma intriga internacional que se vai desenrolar em Portugal. E assim que chega à Casa da Boca do Inferno, Salazar não perde tempo. Vai ter um agente português a seguir todos os passos que der. Este é "Um Rei na Boca do Inferno", uma série para ouvir em seis episódios, que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Soraia Chaves, com banda sonora original de Cláudio Pascoal. Episódio dois: Um chá com Hitler.

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Já estava tudo planeado ao milímetro, mesmo antes da chegada do Duque. Salazar sabe que não pode facilitar. O caso do hóspede da Casa Cor-de-Rosa, em Cascais, é demasiado sensível para haver alguma falha. Por isso, o ditador entrega-o ao diretor da PVD, a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado, antecessora da PIDE. O capitão Agostinho Lourenço está há 10 anos à frente da temida Polícia Política do Estado Novo. Ficaria conhecido pela oposição ao regime como o anjo negro de Salazar Por esta altura, a oposição interna já está razoavelmente controlada. O problema é agora o enorme número de refugiados da guerra e agentes de serviços secretos de outros países que circulam por Portugal. Na maior parte dos casos, Lourenço limita-se a observar as atividades e as disputas entre as secretas inglesas e alemãs na capital, sem grande intervenção. Mas este não é um caso qualquer. A mansão da Boca do Inferno, onde os duques de Windsor se instalaram, é rapidamente inundada de agentes. Tanto nas proximidades, patrulhando a zona em redor e mandando parar todos os carros que se aproximam a menos de 1 km, como dentro da casa, infiltrados entre os empregados. A um desses agentes colocados no interior é atribuída uma missão especial. Nos próximos dias vai ter de seguir todos os passos do duque, relatar onde vai, com quem fala, a que horas sai de casa, a que horas chega. Os relatórios começam logo a 4 de julho, o primeiro dia completo do duque em Portugal. A descrição é bastante breve, constituída por uma frase apenas: "o duque de Windsor esteve na embaixada do seu país, tendo regressado a Cascais às 18h, não voltando a sair". Claramente, nesse dia, o agente português não estava dentro da embaixada, porque se estivesse, teria percebido que foi ali que a história começou a mudar. Churchill tem uma certeza: ter um antigo rei à solta numa Europa em guerra é um risco demasiado elevado. Por um lado, o primeiro-ministro britânico teme que os nazistas possam ter a tentação de o raptar para chantagearem o governo e a família real. Depois há um segundo cenário, impensável para Churchill, mas que os acontecimentos dos últimos anos obrigam a equacionar. Até que ponto estaria Eduardo disposto a colaborar com os alemães? É urgente forçá-lo a regressar a casa. Mas o duque mantém-se irredutível. Não volta a Londres sem que o governo aceite as condições dele. Ainda que aos poucos, as vá suavizando. Deixa cair a exigência de que a mulher Wallace seja tratada como Sua Alteza Real, quer apenas que seja recebida pela família. Quando nada mais resulta, Churchill ameaça o duque com a lei marcial, por ter abandonado o posto militar que ocupava então em França, sem qualquer aviso. Mas há um pormenor que vai mudar tudo. O telegrama com a ameaça de levar o duque a tribunal militar é enviado a 1 de agosto para Madrid, por onde os duques passaram antes da chegada a Portugal. Mas já não é lido por Eduardo, que entretanto tinha saído para Lisboa. Sem ter qualquer resposta durante dois dias, Churchill decide mudar a posição do governo e encontrar uma nova solução para o problema. E é assim que na manhã do dia 4 de agosto envia uma nova proposta para Lisboa, sem saber que à chegada, o duque tinha recebido finalmente o telegrama com a ameaça do tribunal militar e até já estava disposto a regressar a casa sem qualquer exigência. Era isto que o agente da Polícia Política Portuguesa não sabia, e por isso não podia ter escrito no relatório que seria lido por Salazar. "Quando Eduardo entra na Embaixada Britânica pronto para anunciar o regresso de avião nessa mesma noite, é confrontado com uma notícia inesperada", recorda Andrew Lownie, autor do livro "O Rei Traidor".

É dada uma escolha ao duque de Windsor. Ele é nomeado governador das Bahamas. Não era o trabalho que ele desejava, mas é alguma coisa. Serve os interesses dos britânicos porque o tira de Portugal e a alternativa é que Churchill o ameace com a lei marcial.

Para Churchill, que estava no cargo há apenas mês e meio, era a solução ideal para manter o duque afastado de Inglaterra. Mas para um homem que tinha sido rei, era uma humilhação. Governador das Bahamas, um pequeno arquipélago distante nas Caraíbas, era um cargo menor, sem qualquer relevância, numa das zonas mais remotas do império. Era, na prática, uma espécie de exílio forçado. Mais do que isso, era também um golpe pessoal. Quatro anos antes, Winston Churchill, que na altura ainda não era primeiro-ministro, mas apenas mais um deputado conservador, tinha sido um dos maiores apoiantes do Rei na crise da abdicação. A relação era próxima. Churchill tentou fazer tudo para que Eduardo VIII não desistisse do trono. E quando isso se tornou inevitável, até o ajudou a rever o discurso da abdicação. Mas assim que Churchill se tornou primeiro-ministro, tudo mudou. Agora estão os dois em lados opostos e a mensagem é clara: Churchill não confia nele e os acontecimentos dos últimos anos dão razões para isso. Junho de 1937, três anos antes da chegada a Lisboa. Eduardo e Wallis Simpson estão finalmente juntos depois de seis meses separados após a abdicação. Wallis tinha de esperar pela formalização do divórcio do segundo marido. Não podia estar com o amante sob risco de as suspeitas de adultério prejudicarem o processo. O duque passou esse tempo na Áustria, num castelo dos barões de Rothschild. Ela em Cannes, no sul de França, em casa de velhos amigos. Ele ligava-lhe todos os dias e escrevia-lhe cartas assinadas simplesmente com W. As iniciais de cada um, que juntas fazem também a palavra "nós", em inglês. Vivia num quarto rodeado de fotografias dela, que tinha colocado estrategicamente em cima de cadeiras à volta da cama. Estava completamente obcecado pela mulher que o levou a abdicar. Assim que o divórcio saiu, Eduardo partiu imediatamente no Expresso do Oriente para norte de França, onde finalmente se viriam a juntar e a casar. Ainda antes do casamento, Wallis dá uma entrevista ao New York Times. Garante que não tem qualquer desejo de ser rainha. E nega os rumores que apareceram na altura de que chegou a ter caso com Ribbentrop, o embaixador alemão em Londres. Confirma que o conheceu, mas que nunca trocaram mais do que duas ou três palavras banais.

"The romance of the century reached full flower at a castle in Mons, France. There, the king who abdicated his throne, married the woman he loved."

A cerimónia acontece a 3 de junho de 1937, mas está muito longe de ser um casamento real. Tem apenas 12 convidados. Ninguém da família real está presente e mesmo os amigos foram aconselhados a não ir. Para piorar tudo, dias antes, o duque recebeu a notícia de que o governo tinha bloqueado a atribuição do título de Sua Alteza Real a Wallis Simpson.

Quando ele foi informado, na véspera do casamento, que a mulher não iria receber o título de Sua Alteza Real, ele recebeu essa informação como uma bala e nunca recuperou desse momento.

A jornalista e escritora Anna Pasternak garante que este foi o momento decisivo. Eduardo nunca mais perdoou a família e o ressentimento pelo que aconteceu, acompanhado por desejo de vingança, pode explicar muito do que vai fazer nos próximos anos. O castelo onde o casamento acontece pertence a um milionário franco-americano. Charles Bedaux é considerado, na altura, o quinto homem mais rico da América. Mas o empresário tem também muitos interesses económicos na Alemanha nazista, e o castelo não foi uma oferta completamente desinteressada, explica o historiador Alexander Larman.

Bedaux organizou este casamento, que obviamente tinha todo o tipo de luxos que possam imaginar. Podemos dizer que era digno de um rei, mas o que aconteceu foi que a seguir Bedaux pediu, como uma espécie de quid pro quo, que Eduardo fosse à Alemanha e visitasse Hitler no final de 1937, porque Bedaux tinha muitos interesses comerciais na Alemanha e estava preocupado que os nazistas começassem a fazer muitas perguntas e possivelmente expulsá-lo do país. Por isso, ele queria mostrar essa amizade com Eduardo, mostrar que era alguém com quem ele podia contar, e isso reforçava a posição dele.

11 de outubro de 1937. Eduardo e Wallis chegam de comboio a Berlim e são recebidos na euforia. A estação está decorada com bandeiras do Reino Unido, alternadas com bandeiras nazistas, com a suástica. O duque decide ir para a frente com a visita à Alemanha, apesar de ser aconselhado pelo governo britânico a não o fazer. Oficialmente, o motivo é visitar fábricas e projetos de habitação social no país. Mas há outra razão que leva Eduardo a aceitar: dar a Wallis o tratamento real que ela nunca chegou a ter, explica a autora Anna Pasternak.

E o duque disse: "Se tratarem a minha visita como uma visita real, podem fazer com que todos se dirijam à minha mulher como Sua Alteza Real? Vão todos prestar-lhe cortesia?" "Sim." Então ele pensou: "Ótimo, é mesmo isto que eu quero. Quero que a minha mulher viva o que deveria ter sido o direito dela enquanto minha mulher, ter uma visita real." Na minha opinião, essa é a principal razão pela qual ele foi à Alemanha. Ele queria que a Wallis tivesse as mesmas honras que teria tido caso fosse rainha de Inglaterra.

Os duques passam 12 dias na Alemanha num programa intenso em várias cidades. Joseph Goebbels, o ministro da propaganda de Hitler, há de escrever no diário pessoal naqueles dias que o duque é uma figura simpática e agradável, e que é uma pena que já não seja rei, porque com ele os alemães poderiam ter constituído uma aliança. Depois de já terem organizado os Jogos Olímpicos no ano anterior, os nazistas usam a atenção internacional dada à visita de membro da família real britânica como uma forma de propaganda, diz o historiador Alexander Larman.

Ele foi sempre visto como a pessoa que eles queriam ter no trono. E claro, Eduardo era demasiado estúpido para perceber que estava a ser usado como peão. Por isso, quando foram à Alemanha em 1937, Eduardo transformou-se numa ferramenta de propaganda.

O ponto alto da visita acontece a 22 de outubro, um dia antes de partirem. Os duques de Windsor chegam a Munique e apanham um comboio especial para uma zona montanhosa, já perto da fronteira com a Áustria. Foram convidados para chá com Hitler, na casa de verão do ditador. Os relatos daquele dia dão conta de que os duques chegaram antes da hora e tiveram de esperar pelo fim da sesta do Führer. Quando finalmente aparece para os receber, Hitler insiste em usar intérprete, apesar de Eduardo falar alemão. Wallis é entretida por Eva Braun, a amante do ditador, numa outra sala. Hitler e Eduardo ficam a falar sozinhos, apenas com a presença do intérprete. A reunião começa por volta das 14h30. Não há registro escrito do que terá sido discutido nesse encontro, mas Andrew Lownie, autor do livro "O Rei Traidor", lança suspeitas.

Não temos registro disso. A sensação é de que o material ou foi destruído ou foi censurado, mas questiona-se sobre o que eles terão falado. A versão oficial é de que só falaram de banalidades, mas dado o que viria a acontecer apenas alguns anos mais tarde, e tendo em conta as simpatias do Duque pela Alemanha nazista, seria surpreendente que não tenha sido discutido algo de muito sensível naquele chá.

O único relato seria feito anos mais tarde pelo intérprete. O Duque e o Führer terão conversado durante cerca de duas horas. Hitler falou a maior parte do tempo. O intérprete garante que não ouviu nada que indicasse que o Duque simpatizava realmente com a ideologia nazista, ao contrário do que Hitler parecia assumir. Mas mesmo que isso seja verdade, Alexander Larman considera que, no mínimo, a atitude do antigo rei foi ingênua e imprudente.

Olhamos para a expressão na cara dele quando está no encontro, quando apertam as mãos. Ele está feliz, está encantado por estar com Hitler, está encantado por conhecer este homem que o está a elogiar, que o está a bajular. E nós pensamos: "Tu não percebes, pois não? Porque obviamente estamos em 1937. Sabemos quem Hitler é, sabemos o que se está a passar na Alemanha. Tivemos a Noite de Cristal, tivemos a Noite das Facas Longas. Sabemos que os judeus foram discriminados. Sabemos que é um país que se está a preparar pra guerra".

O New York Times escreve no dia seguinte que a Duquesa ficou visivelmente impressionada com a personalidade do ditador, que se despediu dela com afeto. Pegou-lhe nas mãos antes de fazer a saudação nazista, que o Duque terá retribuído. E de acordo com o intérprete, Hitler disse ainda uma frase que terá agradado especialmente a Eduardo: "Wallis teria dado uma boa rainha". Décadas depois, não há um consenso sobre o que aconteceu durante aqueles dias na Alemanha. O Duque foi ingênuo e alvo de aproveitamento pelos nazistas, ou tinha ele próprio intenções políticas escondidas? Da mesma forma, nunca haverá também um consenso sobre os acontecimentos que vão ter lugar três anos depois, em Lisboa. Mas há duas certezas. A primeira é de que o Duque tinha fortes ligações à Alemanha. Muitos dos antepassados eram alemães, fruto do cruzamento das duas casas reais. Na infância e juventude, Eduardo passou largas temporadas de verão no país e adorava a cultura alemã, garante a autora Anna Pasternak.

Ele era pró-alemão, ele adorava as ligações à Alemanha. A única coisa na qual teve sucesso em toda a carreira acadêmica foi no alemão. Mas ser pró-alemão não faz de teu pró-nazi.

A segunda certeza é de que antes da guerra, e mesmo já durante o conflito, o Duque faz parte dos que defendem a paz negociada com a Alemanha, mesmo que sejam necessárias concessões. Winston Churchill, o primeiro-ministro que conduzirá o Reino Unido durante a guerra, dizia que essa posição era a mesma coisa que alimentar um crocodilo na esperança de que ele só nos comesse em último lugar. Mas Eduardo esteve perto do campo de batalha durante a Primeira Guerra Mundial. Testemunhou os horrores da guerra e dizia que não queria a repetição de um novo conflito devastador na Europa. E quando os sinais de tensão com a Alemanha de Hitler começaram a surgir e uma nova guerra parecia cada vez mais certa, o Duque achava que a Inglaterra estava a virar-se para o inimigo errado, explica o historiador Alexander Larman.

Ele sempre acreditou que o inimigo principal não era a Alemanha ou o fascismo, era o comunismo ou a Rússia. Ele dizia sempre: "São esses que nós temos de combater. Nós estamos a lutar contra o inimigo errado. Devíamos olhar para este. Não devíamos olhar para pessoas que são nossos aliados naturais". E claro, o que ninguém conseguia explicar é que sim, a Rússia seria nossa inimiga a seu tempo também, mas agora tínhamos um louco expansionista cujo único objetivo era subjugar outros países e eliminar os judeus. Se calhar, era melhor olhar para mais perto de casa e ver as dificuldades que enfrentamos.

Nos meses antes de a Segunda Guerra Mundial começar, Eduardo multiplicou-se em esforços para evitar o conflito. Em maio de 1939, a convite de um amigo da estação norte-americana NBC, aceita gravar uma comunicação de apelo à paz. A gravação foi encontrada anos depois, perdida nos arquivos da BBC. Nunca chegou a ser transmitida no Reino Unido, apesar de ter ido pro ar no resto do mundo. Muitos interpretam-na como uma forma de o Duque estar a pedir aos britânicos para que se rendam antes mesmo de a guerra começar. Depois, a 27 de agosto, Eduardo envia um telegrama pessoal a Hitler. Recorda o encontro de há dois anos durante a visita à Alemanha e faz um apelo a uma solução pacífica. O Führer responde a 31 de agosto e garante que tem todas as intenções de evitar uma guerra com a Grã-Bretanha No dia seguinte, a 1 de setembro, a Alemanha invade a Polónia. É o início da Segunda Guerra Mundial. 5 de julho de 1940. A guerra está em curso há 10 meses. Dois dias depois de chegar a Lisboa, o duque volta à embaixada de Inglaterra. À tarde, regressa a casa. Em Londres, os britânicos preparam-se para serem bombardeados. No Estoril, o duque sai para jogar golfe. Relatório do agente da PVDE: "Quando estavam a meio do jogo, apareceram os fotógrafos da Lisboa Filme para o filmar, mas o duque ordenou-me que os impedisse de tal, pois não queria que dissessem que enquanto a sua nação estava em guerra, ele estava a jogar golfe". Mas no dia seguinte, volta a jogar golfe. Um homem escondido nos arbustos consegue tirar uma fotografia. O agente português repara e apreende-lhe a máquina. Nesse mesmo dia à noite, o duque recebe na casa cor-de-rosa o proprietário da mansão, o banqueiro Ricardo Espírito Santo e a mulher. Ficam até à 1 h da manhã. No dia seguinte, o encontro repete-se. O casal chega ao meio-dia e volta a sair depois da meia-noite. O duque tinha acabado de combinar com o banqueiro as condições em que ficaria ali a residir. A estadia em Portugal, que deveria ter sido apenas de um ou dois dias, estava afinal para durar. Outubro de 1939, oito meses antes da chegada dos duques a Lisboa. Com os nazis a avançarem na Europa, Eduardo é nomeado oficial de ligação com as forças francesas e é-lhe dado o título honorário de major-general. O duque é muito popular entre os soldados e faz várias visitas pelo norte de França para levantar o moral das tropas. É suposto ser uma função meramente cerimonial, dar-lhe algo para fazer durante a guerra e ao mesmo tempo mantê-lo afastado de Londres. Mas o duque leva o trabalho a sério.

George VI não queria realmente o irmão em Inglaterra, preocupava-se em ser ofuscado, por isso enviaram-no de volta para França e pensavam que esse trabalho seria um tacho, que ele não iria realmente fazer nada. Era só preciso observar, visitar as defesas francesas, fazer relatórios sobre o moral das tropas, a qualidade dos generais e dos soldados. Mas Eduardo levou o trabalho a sério. Ele foi nestas viagens, escreveu longos relatórios que foram ignorados pelos britânicos, o que o irritou.

Os relatórios são devastadores, recorda o escritor Andrew Lownie. O duque destaca a falta de preparação e disciplina das forças francesas e a demasiada dependência da Linha Maginot, a linha de fortificações e sistemas defensivos construída ao longo da fronteira com a Alemanha. Por essa altura, os duques continuavam próximos de Charles Bedaux, o milionário que lhes tinha emprestado o castelo para o casamento no norte de França e que tinha promovido a viagem dos duques à Alemanha. Hoje suspeita-se que terá sido através de Bedaux que muitas das informações recolhidas por Eduardo possam ter chegado aos alemães.

Quer tenha sido deliberado ou não, ele contou a Charles Bedaux o que tinha descoberto. Por exemplo, as vulnerabilidades da Linha Maginot, o facto de ter parado de funcionar era muito óbvio. E sabemos que este material foi passado para os alemães por Charles Bedaux. Isto até pode ter vindo de um mordomo que Bedaux tinha a trabalhar em casa do Duque de Windsor. Pode ter sido apenas uma conversa à noite, em que os segredos tenham sido revelados inadvertidamente ou deliberadamente, mas o resultado é que os alemães mudaram os planos de guerra. E como sabemos, em 1940, a França e a Holanda foram tomadas em poucos dias.

Na madrugada de 10 de maio de 1940, os alemães invadem França e os Países Baixos através das Ardenas, uma zona que os relatórios do duque tinham identificado como vulnerável. No fim do mês, Eduardo pede transferência para o sul. Apanha Wallis Simpson em Biarritz e dirigem-se para perto de Cannes, onde têm casa. Mas a entrada triunfal dos alemães em Paris, a 14 de junho, volta a mudar tudo. Cinco dias depois, uma caravana de carros organizada à pressa pela diplomacia britânica dirige-se para a fronteira com Espanha. A bordo vão os duques de Windsor. É dia 19 de junho. Wallis Simpson faz 44 anos. A viagem é um risco. Muitas das estradas estão já cortadas, cheias de soldados e refugiados. E mesmo que consigam chegar à fronteira espanhola, não têm vistos. O duque faz uso da popularidade que tem para conseguir transpor as barricadas que vão encontrando pelo caminho. "Sou o Príncipe de Gales, deixem-me passar." Na fronteira, os guardas hesitam em conceder o visto, mas depois de alguma persuasão, autorizam a entrada no país. Os duques passam por Barcelona e a 23 de junho, dia em que Eduardo faz 46 anos, chegam a Madrid. E assim que é informado disso em Berlim, há um alemão que vê na chegada do duque uma oportunidade que não pode perder. Ribbentrop tem um segredo. Sabe como impressionar Hitler, dizendo sempre aquilo que o chefe quer ouvir Isso faz com que faça parte do restrito grupo de pessoas que se podem encontrar com o Führer a qualquer momento, sem ter sequer de marcar hora. E fez também com que tivesse tido uma ascensão meteórica na máquina nazi. Se em 1936 era embaixador em Londres, com a missão de convencer o rei Eduardo VIII a alinhar num pacto com a Alemanha, agora, em 1940, já é ministro dos Negócios Estrangeiros. E assim vai manter-se até ao final da guerra. Foi escolhido pelo Führer por ter vivido fora da Alemanha, por falar várias línguas e por não ser um velho diplomata de carreira, apesar de ter sido embaixador em Londres. É que Hitler desconfia da lealdade de muitos dos embaixadores. Um desses diplomatas diria mais tarde que Ribbentrop nunca percebeu nada de política externa. O único desejo que tinha era o de agradar ao chefe. E Ribbentrop aprendeu depressa que perante um dado problema, o Führer era normalmente a favor da solução mais radical. Nas próximas semanas, o ministro dos Negócios Estrangeiros alemão vai ter uma única obsessão: está convencido, e vai convencer Hitler, de que o Duque de Windsor é a chave para ganhar a guerra. 26 de junho de 1940, lobby do Hotel Ritz, em Madrid. Os Duques de Windsor dão entrada no hotel com dezenas de malas para uma estadia que se vai prolongar por mais tempo do que imaginavam inicialmente. O embaixador inglês na capital espanhola está nervoso. Sabe que o Ritz é um dos centros mais ativos da espionagem alemã em Madrid. É preciso supor que qualquer palavra dita nos corredores do hotel vai parar aos ouvidos dos nazis. Espanha está numa situação muito diferente de Portugal. Não declara a neutralidade após o início da guerra, explica a historiadora Margarida Magalhães Ramalho.

É bom nunca esquecer que, numa primeira fase, a Espanha só declara não beligerância. Enquanto que nós declaramos neutralidade, eles mantêm uma posição muito mais ambígua. Tanto é que em Espanha, a Alemanha sempre teve um apoio enorme, muito mais do que teve em Portugal, e sobretudo havia aquela situação, que era um bocado caricata, que cá não era possível, de elementos fardados do exército alemão ou da Gestapo, ou o que fosse, poderem andar fardados ou aliados, ou o que seja. Portanto, isso era também, de alguma forma, uma diferença notória.

Em Portugal, um dos grandes receios de Salazar era precisamente a entrada da Alemanha na península Ibérica, através de Espanha.

Chegou a ser ponderado, logo em 40, na chamada Operação Félix, uma entrada, porque era a tal história, eles queriam chegar a Gibraltar para cortar as asas aos britânicos, mas depois tinham que ocupar a costa portuguesa.

Hitler ainda pensa em controlar Gibraltar para fechar a entrada no Mediterrâneo, mas acaba por abandonar o plano quando se vira para a frente leste e para a Rússia. Em Madrid, o embaixador inglês sabe que não tem tempo a perder. É preciso tirar os duques o mais depressa possível de Espanha. Mas Eduardo coloca três condições para regressar. Primeiro, quer um cargo adequado a Inglaterra. Segundo, não quer perder o estatuto de exilado fiscal, que lhe permite não pagar impostos do dinheiro que recebe do Reino Unido. E finalmente, já perdeu a ilusão de a mulher ser reconhecida como alteza real, mas quer que o rei e a família a recebam, nem que seja por uma vez. O casal não pode ser visto pelo público como tendo um estatuto menor. Segue-se uma acesa troca de telegramas entre o Duque e o primeiro-ministro Winston Churchill, com o embaixador inglês pelo meio. O diplomata começa a ficar desesperado. Dá sinais disso nas comunicações. Teme que quanto mais tempo o casal permanecer em Espanha, maior a probabilidade de serem raptados ou usados pelos alemães. Pede ajuda ao chefe do governo. Seria possível enviar reforços para Madrid? Alguém em quem o Duque confie e que o possa convencer? Os canais diplomáticos alemães também estão especialmente ativos. O embaixador em Madrid pede instruções a Berlim sobre o que fazer com o Duque. O ministro dos Negócios Estrangeiros não esconde o entusiasmo quando percebe que Eduardo está num sítio que os alemães controlam. Ribbentrop pede ao embaixador para tentar reter o Duque mais algumas semanas em Espanha, sem que ele perceba que essa ideia partiu dos alemães. O diplomata que usa a sua influência junto do ministro do Interior espanhol. O ministro alinha. Chega mesmo a oferecer ao Duque a possibilidade de ficar a residir num palácio na Andaluzia por tempo indeterminado. É uma oferta tentadora, mas Eduardo rejeita. Pressionado pelo governo britânico, que o continua a querer fora de Espanha o mais depressa possível, aceita ir para Portugal. Quando a notícia chega a Berlim, Ribbentrop desata os gritos. Não consegue esconder a frustração. Culpa a embaixada, mas também os espanhóis. Franco desiludiu-o. O Duque tinha-lhe escapado mais uma vez. Lisboa é a última oportunidade. Deveria ter sido tudo destruído no final da guerra, mas a poucos dias da rendição, os oficiais alemães já estavam em fuga e não tiveram tempo de se livrar das provas Em abril de 1945, os aliados começam a descobrir milhares de documentos oficiais que hão de revelar ao pormenor os segredos dos nazis. Entre eles estão 60 páginas que Winston Churchill e o governo britânico vão fazer tudo para destruir. As informações, se viessem a público, poderiam comprometer seriamente a imagem da família real. Os documentos revelam ao detalhe o plano que os alemães puseram em marcha em julho de 1940, em Lisboa, e implicam o duque de Windsor. Mas essa é uma história para o próximo episódio. No próximo episódio. No verão de 1940, o palacete cor-de-rosa é a localização ideal para receber os duques de Windsor. Fica num sítio isolado, perfeito para manter os hóspedes sob vigilância apertada.

Todo este espaço onde é a casa, está cercado, tem muros altos e é absolutamente controlável, quer por uma polícia política, quer pelos serviços secretos ingleses.

Anos mais tarde, a casa também vai aparecer nos picheiros alemães encontrados no final da guerra e que os britânicos tanto se esforçaram por esconder. "Um Rei na Boca do Inferno" é uma série em seis episódios e faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Soraia Chaves, e tem banda sonora original de Cláudia Pascoal. O guião e as entrevistas são de João Santos Duarte. A sonoplastia deste episódio é de Artur Costa. O design gráfico é de Miguel Ferraz Cabral. A edição é de Tânia Pereirinha e João Santos Duarte. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio, ouvimos sons retirados do YouTube. Podcast Plus do Observador é mais do que um podcast.

Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Kia.