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Olá, bem-vindos à " Vichy Soisse". O PSD venceu as Big Five, o PS resistiu, mas desceu em número de câmaras e o Chega ficou-se pelas três, o que até fica bem, porque é a conta que Deus fez. As notícias do fim do bipartidarismo eram, afinal, manifestamente exageradas.

Mais 30 mil votos quer dizer que querem que sejamos ainda mais moedas. Mas isto significa uma grande responsabilidade também para a oposição.

Nós temos noção da responsabilidade que temos em mãos.

Esses vereadores estão lá sentados e eu tenho que dirigir essas reuniões e tenho que encontrar soluções à volta dessa mesa, é aquilo que vai ser feito.

O Porto hoje não elegeu só o novo presidente da Câmara. O Porto hoje elegeu também o novo líder para o norte de Portugal.

Agora sim, agora sim vamos conseguir.

Como dizíamos há uma semana ou há alguns dias, o objetivo de Luís Montenegro era ganhar o Porto e Lisboa. Eu sou Rui Pedro Antunes, editor de política do Observador, e comigo tenho o Miguel Viterbo Dias, que é coordenador de política da Rádio Observador, e as jornalistas da seção de política, Mariana Lima Cunha e Rita Tavares. Vai começar a "Vichy Soisse". Hoje é uma sopa única, isto é mais uma emissão especial da "Vichy Soisse", e a sopa única é uma sopa municipal, mas tem lá dentro massas da Nacional. Porque há uma certa-

O Rui isto não desilude. Tu pensas: "Sopa municipal?" Não estou a perceber.

Eu acrescentei umas massas Nacional. Mariana, começo por ti. A tua sopa municipal com massas Nacional.

Vou virar as minhas massas da Nacional, passa publicidade, para o PSD, para a noite que o PSD teve, porque eu estava a acompanhar a noite de Pedro Duarte no Porto, que é uma das maiores vitórias do PSD e eu diria também uma das maiores surpresas. Não que as sondagens dessem como impossível uma eleição de Pedro Duarte. Manuel Pizarro começou por estar à frente, depois começou a haver um empate técnico com Pedro Duarte muito ligeiramente à frente e o PSD falava numa mudança de dinâmica. Eu diria que era sobretudo no estado anímico da equipa, quando começa a perceber que pode estar ao alcance, embora continue a ser muito difícil e não havia ninguém que arriscasse o resultado para o Porto nos últimos 15 dias. Mas dizia eu que estava a acompanhar a noite de Pedro Duarte e a certa altura Nuno Melo vai à sede da Avenida dos Aliados e proclama que esta é uma grande noite para o nosso espaço político. E de facto acho que foi isso que aconteceu. Há uma consolidação da marca da AD. É evidente que eu acho que autárquicas decidem sempre muito em função do concelho, do candidato em concreto, tudo isso é verdade. E se o PSD não tivesse ganhado estas eleições, se calhar até já estava a tentar retirar as implicações nacionais disso. Mas a verdade é que, tendo em conta não só estas eleições, mas as eleições regionais, as eleições nacionais, parece que há uma consolidação de facto.

Ganhou seis em sete. Também há três na Madeira neste espaço.

Sim, tem havido muito por onde os partidos provarem o que valem. Ou seja, há um domínio da AD e há claramente uma tendência de viragem à direita do país, que já tínhamos começado a prever e que se consolida com a AD e o PSD a conquistarem todas as principais câmaras do país, as maiores. E há esta sensação, acho eu, de que é um caminho em crescendo. Ou seja, ainda estamos nesse ciclo de viragem à direita. Começámos por ter Luís Montenegro a ganhar quase por uma unha negra a Pedro Nuno Santos na sucessão de António Costa, depois vímo-lo a ganhar como Marcelo Rebelo de Sousa tinha pedido que tentasse fazer, alargar a base de apoio popular na sua segunda eleição. Agora vemo-lo nestas autárquicas a ganhar terreno, a conseguir Lisboa e Porto, Gaia, Sintra. Tudo quanto eram parâmetros que tornariam inegável uma vitória foram conseguidos pelo PSD. Se houvesse aqui um mix, e nós obviamente discutimos isto muito em termos de análises antes, que era: e se eles segurarem Lisboa, mas perderem o Porto, se conseguirem Sintra, mas não conseguirem Gaia, acho que nunca se teve esse exemplo, porque era evidente que Luís Filipe Menezes, tendo em conta todas as sondagens, ou havia um trambolhão inesperado ou ganhava, mas havia várias análises mistas, o que é que poderia acontecer, como é que se ia ler um resultado mais misto, quando uma pessoa está sempre a tentar perceber se pode haver um cartão amarelo ao governo, como é natural quando há algum desgaste, etc. A verdade é que nada disso aconteceu. Luís Montenegro ontem, apesar de ter algumas más notícias, como é o caso de Bragança e de Viseu, que é uma câmara muito emblemática para o PSD, e nós vimos o PS a conquistar Faro, a conquistar Coimbra, capitais evidentemente importantes. É óbvio que não é um 100 em 100, um 308 em 308.

Não é em toda a linha, mas é quase.

É quase.

Mas o Luís Montenegro disse que era em toda a linha.

Sim, se eu fosse ele, eu também festejaria em toda a linha.

Eu acho que ele pode ser factual porque ele ganhou Sintra e Cascais, portanto ganhou na linha de Sintra e Cascais.

Em todas as linhas, é verdade. Acho que isto é importante, por quê? Porque dá ao PS esta sensação de reforço e de consolidação, que era uma espécie de reforço de legitimidade que o partido já vinha à procura desde a primeira eleição de Luís Montenegro. Nós tínhamos ontem um alto dirigente do PSD que nos dizia logo: "Isto quer dizer que nós estamos em sintonia com o povo", ou seja, isto vai ser usado para atirar contra a oposição, obviamente, daqui para frente, para dizer: "Os portugueses compreendem o nosso projeto e estão a aceitá-lo e a abraçá-lo." E Luís Montenegro tinha agora o que antigamente, naqueles tempos em que nós andávamos nos corredores do Parlamento, em orçamentos de 2011, etc, era um dossiê bastante mais complicado e espinhoso, mas tem um orçamento pela frente em que já era difícil imaginar que o PS, por exemplo, pudesse colocar grandes problemas. E acho que de fato não interessa muito a Carneiro fazer isso no seu percurso no PS neste momento. O PSD está relativamente tranquilo desse ponto de vista e tem algum fôlego e algum espaço neste momento para ir pressionando a oposição com o argumento eleitoral que teve agora, o trunfo eleitoral que teve agora, e para ir tentando impor aos poucos o seu programa, neste caso também o seu orçamento. É uma noite claramente de boas notícias para Luís Montenegro, não há muito por onde dar a volta a isso.

O PS passa de primeira força pra segunda força, Rita, a tua sopa municipal, porque apesar de tudo, face aquilo que eram as expectativas e o tsunami, como lhes chamou Carlos César, que aconteceu nas últimas legislativas, o resultado até acabou por ser bastante lisonjeiro para o Partido Socialista.

Tem graça que nós passemos aqui semanas a ouvir políticos a dizerem que não se fazem comparações entre o plano nacional e o plano autárquico, mas depois na hora de ter que agarrar-se a alguma coisa, as legislativas serviram ao Partido Socialista para construir a tal narrativa de que conseguiram estancar uma perda de eleitores do partido e que não assustam ninguém, que afinal continuam a ter força autárquica. Mas há aqui uma questão que eu acho que pode ser interessante: se nós conseguíssemos agora imaginar que as últimas legislativas não tinham acontecido, estas autárquicas seriam uma não derrota do Partido Socialista? Acho que dificilmente, tendo em conta que os próprios objetivos que José Luís Carneiro traçou, os dois, ficar com a Associação Nacional de Municípios, portanto, ter o maior número de câmaras, e chegou a dizer que Porto e Lisboa eram conquistas fundamentais, esses objetivos não foram de todo conseguidos. Pode dizer que no Porto foi à tangente, como ele disse, taco a taco. Mas o PS que, como ele disse, ganhou em 2013, ganhou em 2017, ganhou em 2021, agora não ganhou. Não há volta a dizer isto, não há como dizer: "Ah, mas agora foi taco a taco." Se tivesse aqui António Costa, se calhar chamava-lhe pocochinho. Não sei se alguém vai arranjar alguma expressão a esse nível, mas é no mínimo interessante como o PS se agarrou ao que pôde, e foi as capitais de distrito que aumentou, até José Luís Carneiro utilizou uma expressão, que o PS tem do seu lado um eleitorado exigente, o eleitorado urbano, por causa dessas capitais de distrito. Ele estava a falar em sítios como Coimbra, Évora. Estava ali a puxar por esse resultado eleitoral, porque não tem mais nada por onde puxar, porque puxar por quase vitórias, em alguns sítios, serve de muito pouco pra um partido que está na oposição.

Até porque sabemos que o Luís Montenegro é urbano rural, portanto não existe uma desvantagem pra quem quer ganhar no lado urbano.

E existiram duas vitórias pessoais pra Luís Montenegro em Espinho e pra Hugo Soares em Braga.

Sim, sendo que o Hugo Soares esteve ali meio tremido, mas conseguiu que o amigo e ex-sócio João Rodrigues fosse eleito. E também é preciso dizer, e o PSD também, o primeiro-ministro referiu isso ontem, que venceu em Baião.

É verdade. Ou seja, na marcação homem a homem, o PSD também saiu por cima.

Venceu na Junta de Freguesia de Algueirão-Mem Martins.

O Monté feliz ouviu isso.

Onde é natural, onde viveu André Ventura e também no Conselho de Sintra, e ainda fez questão de despesinhar mais um bocadinho Pedro Nuno Santos e disse que também o Luís Montenegro.

Também é São João da Madeira.

Também o valoriza. O primeiro-ministro a lembrar que também ganhou na terra do ex-secretário-geral do Partido Socialista. Mas nesse exercício, Rita, estava só a perguntar se fosse Pedro Nuno Santos ainda líder, se não tivesse acontecido se Pinho não vive aquelas eleições antecipadas, se calhar ao Pedro Nuno Santos isto seria ao contrário, seria imputada uma derrota com as circunstâncias similares.

Seria. E aliás, acho que há algumas derrotas que o Partido Socialista teve. Acho que provavelmente nos próximos dias ainda ouviremos alguém do PS dizer que podem ser imputadas a Pedro Nuno Santos, como por exemplo, a escolha pra Câmara de Lisboa, e uma coligação de esquerda que em vez de somar acabou por, foi com o bloco e não se estendendo ao PCP, acabou por subtrair em vez de somar Porque encolheu num vereador o PS como mais um partido numa coligação. Mas José Luís Carneiro, por si, claro que se está a agarrar àquilo que é vantajoso e sobretudo, e agora estamos um bocadinho nessa onda das percepções. E a percepção que existia era que o PS estava muito mal, que ia desaparecer, ia acontecer o mesmo que aconteceu ao PS francês, e de repente parece que em termos autárquicos ainda mexe. Mexe quase ao nível do PSD, foi isso que José Luís Carneiro quis mostrar, e não foi apanhado pelo Chega, que é o outro lado da análise que o PS faz para tentar afirmar-se como a segunda força política, porque essa dor ainda existe, ainda está muito recente das últimas legislativas, onde passou a terceira força política no Parlamento. E o PS o que quis foi, a partir deste resultado, mostrar que afinal a alternativa ao PSD é mesmo o Partido Socialista e que continua com essa forte implantação autárquica, que é muito importante, de facto, para a sobrevivência do Partido Socialista e por isso é que acho que o José Luís Carneiro está a fazer este aproveitamento de tudo o que puder para tirar daqui um ganho, inclusivamente o facto do Chega ter ficado apenas com três câmaras quando a ambição era maior. Algumas coisas eu acho que depois no meio disto e os próximos dias vão mostrar quando for feita a análise ao detalhe de cada um dos resultados, freguesias, câmaras, todas as diferenças, vão mostrar que se calhar há muita coisa que cada partido varreu para debaixo do tapete e o Partido Socialista com certeza muito mais coisas.

E mesmo assim o Chega ainda conseguiu 650 mil votos, creio eu, na última vez que olhei para as contas. Miguel, a tua sopa municipal.

Só para complementar isto, eu acho que José Luís Carneiro acaba por ser um bocadinho vítima do discurso que fez, porque ele até teve uma semivitória, mas depois não pode ir para o largo do rato dizer que foi extraordinário perder por pouco em Aveiro, em Braga, em Lisboa e no Porto. Quer dizer, o PS não se pode arrogar a ficar contente por perder por pouco. Se ele conseguiu conquistar algumas capitais-

Há uma frase dele que é mesmo um retrato, que é: "Ganhámos em 2013, ganhámos em 2017, ganhámos em 2021 e agora foi taco a taco."

E agora quase ganhámos.

Até a descer.

E portanto, acabou por ser um bocadinho vítima desse discurso demasiado, irritantemente otimista que tentou fazer na noite das autárquicas, porque a verdade é que não houve uma derrota copiosa para o PS, mas também não foi uma noite extraordinária como José Luís Carneiro quis vender. Depois, para além dessa questão, há a questão Chega, que teve uma noite de desilusão. O Chega venceu 60 municípios nas últimas legislativas, portanto há três, quatro meses, e agora transformou isso apenas em três autarquias e nenhuma delas particularmente relevante. A mais relevante é Albufeira, portanto não tem nenhuma capital de distrito, tem uma cidade importante no Algarve, mas ainda assim fica um bocadinho aquém. E isso acaba por provar esta matéria de que realmente o Chega, apesar de ter 308 candidatos e tendo André Ventura sempre em plano de fundo nos vários cartazes, precisa mesmo de André Ventura em primeiro plano em todos os municípios. E, portanto, o Chega acho que foi também um bocadinho o flop da noite face à expectativa que criou. Não só que criou, não foi só as 30 câmaras que André Ventura chegou a anunciar, foi a questão de ter ganho muitos municípios nas legislativas e não conseguir transformar isso em votos nas autárquicas.

Se nós depois compararmos o comportamento do Chega com um partido como o Bloco de Esquerda, vemos que este resultado do Chega não é assim uma coisa tão pequena para umas primeiras autárquicas em que está em mais força.

Isso é verdade.

Claro que nunca teve a mesma força o Bloco que o Chega tem na Assembleia da República.

É que também a expectativa era outra.

Mas nesse comparativo-

Porque o Bloco nunca ganhou grandes regiões.

As expectativas e as perceções que se criam depois fazem... Mas o Chega triplicou votação.

Sim, e também são um bocadinho vítimas disso.

Passou de zero para três câmaras, triplicou. Se nós formos ver em municípios muito urbanos, aquilo triplica.

Sim. Em termos líquidos, o resultado aumenta exponencialmente.

A entrar no eleitorado, isso está a acontecer.

Agora, face àquilo que conquistaram anteriormente e à expectativa que colocaram sobre esse resultado, houve algum falhanço. E depois houve a questão, que é a síndrome Rui Borges do PS e do PSD, que é Rui Borges no Sporting, treinador do Sporting, ganha os jogos do meio da tabela e depois os jogos importantes caem para o outro lado. E o PS e o PSD acabou por ser um bocadinho isso, que foi nas cidades mais populosas, nos grandes centros urbanos, acabou por cair tudo para o PSD. É certo que foi taco a taco e José Luís Carneiro fez gala disso, mas a verdade é que caiu tudo para o PSD, e o PSD consegue reconquistas importantes e mesmo algumas que há bocado estávamos a falar, por exemplo, perde Viseu é relevante, no histórico do PSD, mas por exemplo, perder Bragança, conquista Beja, que é uma coisa também histórica para o PSD, e portanto há aí um deve e um haver.

Não, e não é só isso. Fora das capitais de distrito, Vila Nova de Gaia, em termos de chamados centros de emprego dos partidos, de influência nas grandes áreas urbanas, até para depois ir buscar grandes votações, tem uma importância estratégica importante.

E se deixar só a questão dos números, a forma como mantiveram Aveiro e Braga também foi relevante, porque eram duas cidades que tinham tudo para correr mal.

Deixa-me só dizer sobre o Chega em Albufeira, quando disserem que não há criminalidade, Rui Cristina pode sempre ir à rua da Hora e dizer: "Estão a ver? Aqui há sempre. Isto tem segurança."

Pode ser de estrangeiros, no caso da cultura.

E há sempre estrangeiros.

É muito frequentada. Envolve estrangeiros.

Podem até ser estrangeiros de um país que já pertence à União Europeia, mas são estrangeiros na mesma. E há uma coisa que pouca gente sabe, é que a rua da Hora, na verdade, chama-se Avenida Sá Carneiro, portanto, há uma ligação umbilical também com o fundador do Partido Social Democrata, onde, aliás, Rui Cristina militava há bastante pouco tempo. E é com esta nota geográfica que chegamos ao fim da primeira parte da Vixi Suave. Voltamos já a seguir com o recém vitorioso em terras de Viriato, João Azevedo.