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Bem-vindos à segunda parte da Vixi Suave. Conosco hoje temos Felipe Santos Costa, dirigente nacional do Partido Socialista. Também faz parte do grupo de especialistas escolhido por José Luís Carneiro para preparar políticas públicas, acho que podemos sintetizar assim. Bem-vindo, Felipe Santos Costa. Esta semana o Partido Socialista permitiu a aprovação da PSU depois de uma negociação com o PSD. Esta foi uma derrota para o governo que estava a tentar passar esta nova prestação com o Chega?
O Partido Socialista aprovou, de facto, a PSU numa negociação de última hora. Os meus camaradas que estão na Assembleia da República disseram-me que só ontem mesmo foram contactados para este propósito e aprovou pela substância, como é natural. Portanto, a PSU é, sobretudo, um ganho de gestão que combina 13 prestações e traz aquilo que tem sido uma marca do PS ao longo dos governos, pelo menos durante o século XXI, que é a simplificação, a desburocratização, a aposta na transparência. É um instrumento também de melhoria de gestão e controle interno e que faz parte dos compromissos assumidos entre Portugal e a União Europeia no âmbito do PRR, que previa fortíssimos investimentos, muito avultados na melhoria dos sistemas de informação da Segurança Social. E portanto, foi nesse sentido que o PS aprovou.
O PS fez cair na PSU o canal de denúncia que existe em várias outras matérias do Estado. Por que é que neste caso era mais grave haver este instrumento?
Pareceu-nos desnecessário, uma vez que já existe canal de denúncias na Segurança Social, que se aplica a tudo e não apenas às prestações sociais.
Era, portanto, redundante, é isso?
Sim.
Este entendimento entre o PS e o PSD pode significar que o caminho fica agora aberto para mais conversações e mais negociações entre os dois partidos noutras matérias ou foi uma coisa pontual?
Há sempre essa disponibilidade. Há pouco referiu que o PSD ou o governo parecia inclinado a querer aprovar a PSU com o Chega. Tem havido aqui um padrão, em certa medida, do PSD correr atrás das bandeiras do Chega. Foi assim na imigração, foi assim na nacionalidade, em que a cada abertura do PS, o PSD radicalizava mais, porque de facto tinha já tomado a decisão política que naquela matéria, para cobrir as bandeiras políticas do Chega, queria aprová-la com o Chega e contra o PS. Independentemente da substância, o foco do governo PSD parecia ser a forma. Na lei laboral também foram um bocadinho nesse sentido e agora na Prestação Social Única também foram um bocadinho nesse sentido, um bocadinho correndo atrás daquela conversa demagógica típica do populismo de extrema-direita, que há que combater aqui os mandriões, combater aqui as pessoas que vêm para Portugal só para beneficiar destas prestações sociais. Mas, porventura esclarecido pela negociação falhada com o Chega na discussão da lei laboral. Eu pessoalmente apenas fico chocado por Luís Montenegro ficar chocado com a revelação de que não pode confiar no André Ventura e no Chega. E com o congresso entre o meio, o PSD deve ter achado que as coisas estavam a correr mal com o Chega e virado para o...
Entre os dois.
São os mesmos. Aliás, esta abertura do PS para à última da hora negociar com o governo a viabilização de uma proposta de PSU, que era aliás também um dos objetivos do anterior governo do PS, como eu já referi, mostra que o PS tem sentido de Estado e não guarda rancores táticos quanto a ser considerado ou menos considerado nas negociações que se vão discutindo. O PS está no Parlamento, tem 58 deputados, o governo é um governo minoritário e o PS cumpre as suas obrigações. O PS não é um partido de protesto, o PS não se vai eximir a um debate parlamentar sério para apreciar cada proposta em cada momento.
Mas, por exemplo, estava aqui a elencar as várias vezes em que o PSD procurou o Chega para fazer avançar propostas no Parlamento. A minha questão é se este último capítulo da PSU, se no fundo dá aqui um desanuvio ao ambiente e se permite, por exemplo, facilita a viabilização pelo PS do próximo orçamento do Estado.
Não, eu acho que o orçamento é um assunto absolutamente distinto. Acho que o orçamento de Estado não decorre em todo aqui da PSU. Estamos a falar no orçamento de Estado para 2027, que é apresentado agora em setembro, outubro. E lá que se verá. O governo é que tem a obrigação de propor um orçamento de Estado que agrade ou que seja pelo menos palatável para a maioria dos deputados. Se o governo apresentar um orçamento de Estado que apenas é palatável para os deputados da AD, reduz a sua aprovação. E quem diz AD, pode dizer, por exemplo, a AD mais Iniciativa Liberal e, portanto, isso obviamente não chegará para o orçamento ser viabilizado. Mas para o PS está tudo em aberto.
Está tudo em aberto. Por exemplo, o antigo secretário-geral do Partido Socialista, Eduardo Ferro Rodrigues
Veio defender recentemente que o partido até devia já definir o chumbo do orçamento do Estado. O PS não deve fazer isso? Não sei o quanto isso teve destaque.
O PS não deve fazer isso. O PS deve aguardar pela proposta de orçamento de Estado. A iniciativa e a responsabilidade de fazer uma proposta que colha a viabilização da maioria da Assembleia da República cabe ao governo. O governo é um governo de minorias, escolheu governar assim, é um governo apoiado apenas pelos partidos da AD, que são apenas, salvo erro, 91 dos 230 deputados, e portanto, tem a obrigação de apresentar um orçamento que além de agradar aos deputados da AD, que certamente fará, um que seja palatável para o mínimo de deputados indispensáveis, de forma que possa passar. E o PS tem as opções em aberto, obviamente, o PS pode votar contra, pode se abster, pode viabilizar. No limite, até imagino uma situação de guerra, pandemia, crise financeira, como já aconteceu no passado, até pode aprovar. Uma situação de extremo, claro.
Uma negociação prévia está excluída pelo Partido Socialista, uma negociação prévia do orçamento. Porque acabá de dizer que vamos esperar que o governo apresente. Mas há essa disponibilidade, por exemplo, para negociar previamente e garantir logo que é palatável para o Partido Socialista, utilizando a sua expressão.
Eu acho que devemos respeitar a Assembleia da República. Acho que a Assembleia da República existe precisamente para isto. E acho que tendo o Partido Socialista 58 deputados e tendo a AD 91 deputados e o Chega tendo 60 e a Iniciativa Liberal creio que nove, os partidos ali à esquerda ou próximos do PS 12, portanto, é um parlamento bastante fragmentado. E o Parlamento é que tem que aprovar a lei do orçamento, e eu acho que isso deve ser discutido às claras perante os portugueses no Parlamento. É o local certo para o fazer.
Ou seja, negociação prévia com o Partido Socialista a sentar-se à mesa com o governo, isso não.
Repare, eu não quero dar-lhe aqui um não rotundo a isso, porque a iniciativa terá que partir do governo. O governo é que tem que apresentar uma proposta de lei do Orçamento de Estado para 2027 e, portanto, ao Partido Socialista cabe aguardar pela ação do governo. É uma responsabilidade do governo, não é uma responsabilidade do Partido Socialista, nem é uma responsabilidade de nenhum grupo parlamentar, neste caso, é uma responsabilidade mesmo do governo. O governo tem que apresentar a sua proposta. Se o governo vai tentar falar com o PS antes ou com outras forças políticas antes, não sei. Isso só o governo poderá responder.
A definição da posição do PS sobre este assunto deve ter em conta apenas o conteúdo da proposta, ou também deve pesar o facto de o PSD ter procurado o Chega em temas importantes e poder vir a procurá-lo em outros, como a imigração, a reforma laboral, o pré-acordo para a revisão constitucional? O que é que deve ser tido em conta?
Deve ter sido em conta a proposta de orçamento.
Apenas. O PS chegou a subir nas sondagens previamente no período em que estava afastado de negociações com a AD. Isso não é um desincentivo a continuar nessas negociações?
Nós não devemos orientar a nossa ação política pelas sondagens. Devemos fazer aquilo que podemos recomendar ao governo e ao PSD que façam, que é seguir os seus princípios e defender as suas políticas. O Partido Socialista evita deixar-se influenciar por sondagens. O Partido Socialista está a fazer o seu caminho com o seu secretário-geral, que tem feito uma série de roteiros pelo país e uma série de propostas, e que tem insistido em chamar a atenção do governo para os problemas que afetam a vida dos portugueses.
Mas essa aprovação não podia significar uma aprovação...
A habitação, a saúde, os rendimentos contra o custo de vida. E a questão da aprovação é uma questão de sabermos qual é a proposta que vai ser apresentada, como diziam, se vai ser negociada previamente, se vai ser negociada no Parlamento, está completamente aberta essa questão.
Eu aqui perguntava no sentido de se as sondagens não indicavam que os portugueses gostam de ver o PS num caminho alternativo, numa alternativa à AD.
Sobre as sondagens, o que é que eu lhe posso dizer? Posso lhe dizer que é muito reconfortante ter sondagens em que o Partido Socialista sobe. É muito reconfortante ter sondagens em que o nosso secretário-geral e candidato a primeiro-ministro, José Luís Carneiro, sobe. E é muito reconfortante ver que os portugueses reconhecem, nas sondagens, cada vez mais, que o Partido Socialista é a verdadeira alternativa de governo. E esse é o caminho que o Partido Socialista tem feito. O secretário-geral do Partido Socialista tem corrido as áreas temáticas e tem corrido o país e tem insistido na sua mensagem. A experiência do Partido Socialista com as sondagens nas últimas duas eleições legislativas não é brilhante. Nas penúltimas, as sondagens indicavam que o PS ficaria muito atrás da AD. Bom, quase empataram. Nas últimas, começaram por dizer que o PS ganharia as eleições. Afinal, a AD saiu reforçada e o PS, apesar de ter ficado em votos à frente do Chega, até ficou atrás em representação parlamentar, como é amplamente sabido. Portanto, eu continuo a achar que seguirmos, orientarmos a nossa ação política olhando apenas para as sondagens ou dando excessiva atenção às sondagens, é a negação da política como ela deve ser. O Partido Socialista, com a liderança do José Luís Carneiro, apresenta-se ao país como a alternativa para todos os democratas progressistas e humanistas que sentem que o país não está a ser bem governado e que precisa de uma alternativa. O PS constrói as suas propostas políticas, como foi aliás dito na introdução, em todas as áreas, com foco muito particular nas três áreas que nos parecem neste momento críticas: o acesso à habitação, o Serviço Nacional de Saúde e a política de rendimentos face ao aumento do custo de vida. Portanto, seguimos um caminho de substância e não apenas um caminho de forma política.
Faz parte do grupo de economistas escolhidos por José Luís Carneiro. Perguntava-lhe sobre uma das propostas mais recentes anunciadas por Luís Montenegro, que é a questão do fundo soberano. Esta proposta pode vir a contar com o apoio ou a viabilização do Partido Socialista?
Nós não sabemos o que é esta proposta. Portanto, neste momento é difícil responder essa questão. O Congresso do PSD teve essa manobra de diversão, da apresentação do fundo soberano. Pareceu-nos uma manobra de diversão porque foi apresentada de forma muito pouco estruturada. Parece-nos uma ideia solta que foi arranjada à última hora para um congresso, que era um congresso que, como sabem, foi antecipado um pouco em resposta à provocação de Passos Coelho e dos elogios. Eu não sei se posso dizer isso, se isso é rigoroso, mas pelo menos de um puxar de Passos Coelho sempre pelo Chega e pelo entendimento à direita, e Luís Montenegro sentiu a necessidade de antecipar o Congresso Nacional para fazer este repto a Passos Coelho, que depois não apareceu, apareceu Santana Lopes, e o Congresso ficou marcado, obviamente, pelo chumbo da véspera da lei laboral, aquela que o líder parlamentar do PSD disse aos deputados de esquerda no Parlamento que ia ser aprovada. Na véspera, disse que ia ser aprovada no dia a seguir, gostasse ou que desgostasse, etc. Portanto, o PSD chegou bastante fragilizado a este congresso e apresentou esta proposta de fundo soberano, entre outras, sem a explicar, sem a fundamentar. E eu tenho alguma dificuldade com a informação disponível em perceber o que é. Superávit já não há. Espero que o governo não tencione aumentar ainda mais os impostos, porque, ao contrário do que tem sido dito, o governo conseguiu que a carga fiscal, não estou a falar na receita, estou a falar na carga fiscal, crescesse de 2024 para 2025. Subiu 0,2 pontos percentuais, ou seja, agravou-se em 6%. Isto num cenário de descida da receita do IRC e fortíssimo aumento da receita do IRS e do IVA. Portanto, a receita fiscal subiu, a carga fiscal, ou seja, o peso dos impostos no PIB, subiu e as famílias e os trabalhadores pagam mais impostos, porque o que subiu foi o IRS e o IVA e não desceu o IRC.
Falta explicar como é que se financia esse fundo soberano, sobretudo.
Portanto, déficit não é, espero que não aumentem os impostos, espero que não vão emitir dívida para isto. E portanto, eu vejo aqui duas hipóteses: ou é uma mão cheia de nada, é mais uma coisa que vai redundar numa PowerPoint presentation, ali a misturar umas coisas da Bar pública com o Banco Português de Fomento, ou então, e eu tenho receio que possa ser isto, é um levantar do véu para uma futura mobilização irresponsável do Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social. Se quisermos seguir aquele princípio do follow the money, é o único sítio onde me parece que o governo, até pela sua orientação ideológica de permanente ataque à Segurança Social, à escola pública e ao Serviço Nacional de Saúde, pode ter essa intenção.
No Congresso do PSD, foram vários os responsáveis do PSD e do governo que defenderam que o PS está radicalizado e que José Luís Carneiro até chega a parecer-se um pouco com Paulo Raimundo. Na hora da verdade, o PS está mais encostado à esquerda do que propriamente a uma solução de consenso ao centro?
Não acho isso. Acho que o PS se está a afirmar como o grande partido de centro-esquerda e como um partido que é hoje a casa comum de democratas, progressistas e humanistas. Temos tido muitas pessoas do espaço, por exemplo, da democracia cristã, a juntar-se aos nossos grupos de trabalho, que querem trabalhar com o Partido Socialista, que querem uma governação mais responsável, mais humanista. Eu não acho nada que o PS esteja a embarcar num caminho de radicalização e acho que isso é um léxico apenas de um partido, o PSD, que está um pouco desorientado entre as tentativas que vai fazendo de cobrir as suas bandeiras à direita e tentar agarrar nas bandeiras da extrema-direita, nalguns casos a radical-
No limite, foi o PSD que se encostou à direita e não o PS.
Eu acho que sim, até porque eu agora estava a dizer que o PSD parece querer agarrar algumas bandeiras da direita e algumas delas são mesmo literalmente bandeiras. Houve aquela polêmica das bandeiras, aquela decisão ultraideológica de tentar fazer uma política. São sinais um pouco preocupantes e que é até um pouco triste ver, porque já se sabe que em nenhuma democracia ocidental isto deu espaço ao centro-direita, apenas reforçou a extrema-direita. As pessoas preferem a original à cópia e não é natural ver o PSD a ir atrás do Chega em matérias como a imigração, ir atrás do Chega em matérias como a nacionalidade, ir atrás do Chega em matérias como uma guerra ideológica e cultural de pode pôr bandeira, não pode pôr bandeira. É até um pouco triste ver um grande partido como o PSD embarcar neste caminho. Espero que corrijam o caminho e espero que comecem a ter um léxico menos populista, que eu acho que até as pessoas sentem-se um pouco desconsideradas quando veem esta adoção de léxico, quando veem o PSD a copiar o léxico do Chega, é até um pouco triste.
Nas atuais condições, acredita que esta legislatura pode chegar ao fim?
Eu acho que é possível a legislatura chegar ao fim. Aliás, há pouco falavam sobre o Orçamento de Estado e nós sabemos que hoje em dia uma não aprovação do Orçamento de Estado não significa automaticamente uma dissolução da Assembleia da República, como significava com o anterior presidente. Não quer dizer que não signifique. Poderá ser um dos fatores concomitantes a uma dissolução da Assembleia da República, mas não significa, como aliás não tem que significar, uma dissolução automática da Assembleia da República. O governo pode apresentar um orçamento, pode apresentar um segundo, pode governar em duodécimos, pode ou não ser dissolvida a Assembleia da República na sequência de uma crise política de alguma espécie, porque não em torno da não aprovação do orçamento, mas isso já não é uma inevitabilidade.
Mas não acha que o chumbo do orçamento, por exemplo, deteriorava o ambiente político?
Não funcionando como uma dissolução automática, mas não deteriorava, não fazia com que andasse mais depressa uma crise política?
Não sei. Eu acho que o Partido Socialista, a obrigação que tem é de avaliar se o orçamento é aceitável ou não. Se entre uma governação de duodécimos e um orçamento que o Partido Socialista ache que é mau para o país, pode não ser pior uma solução de governação por duodécimos. Isso depende inteiramente do governo e é muito subjetivo, porque o que é melhor? É viabilizar um orçamento do governo, qualquer que ele seja, viabilizar um orçamento que o PS ache que é um bom orçamento para o país, ou viabilizar um orçamento que seja um orçamento ainda pior que o atual? Isto é tudo sempre muito relativo, mas o ponto aqui, em resposta à pergunta do seu colega, é que não há uma inevitabilidade da legislatura não chegar ao fim. E nós não nos podemos esquecer que a degradação do sistema político de que a Rita falava é uma matéria muito interessante se pensarmos nas duas últimas eleições legislativas que foram antecipadas. Uma delas foi, não podemos camotear, sob o signo da operação influencer. E outra foi, também não podemos camotear, sobre o signo do caso Pinum Viva. Não que algum destes dois episódios político-jurídico-mediáticos tenha, entretanto, dado em alguma coisa, mas foram estes os contornos com que os portugueses foram chamados a votar nas duas últimas eleições legislativas. E é um contexto que, a nosso ver, esse sim, degrada a situação política nacional e favorece o populismo de extrema-direita, ainda que depois nós vejamos o que acontece com os eleitos do CHEGA, seja na Assembleia da República, seja com as três câmaras municipais que conseguiram conquistar nas últimas eleições. É tudo um charrito de problemas e de coisas que, às vezes, se não fossem trágicas, eram cômicas, mas a verdade é que foram estas as duas eleições que tivemos. E portanto, compete ao governo, para salvaguardar as instituições democráticas, ter um bocadinho mais de sentido de Estado, evitar correr atrás das bandeiras do CHEGA, evitar adotar o léxico do CHEGA em matérias como a imigração, nacionalidade, etc. Apresentar propostas com mais seriedade, com mais honestidade e com mais franqueza, sem tentar adotar o léxico do populismo de extrema-direita no Parlamento. E também apresentar propostas de orçamento que acho que possam colher a viabilização da maioria da Assembleia da República, ou seja, apresentar proposta de orçamento de Estado para 2027, que ache que possa colher o apoio da maioria do Parlamento ou viabilização da maioria do Parlamento, num cenário de negociação ou não.
Acredita que Luís Montenegro está a apostar na narrativa das forças de bloqueio para mais à frente poder vitimizar-se e ganhar com uma possível crise política?
Tem sido uma constante a vitimização do governo. O governo tem tido, como acho que já estabelecemos aqui, todas as condições para governar. Os dois últimos orçamentos foram viabilizados pelo Partido Socialista, foram viabilizados também porque ambos seguiam uma viabilização de um programa de governo, era um primeiro orçamento, era natural que assim fosse. Não havia moção de censura a apresentar, mas o governo vai se vitimizando e eu acho que o governo está a preparar para justificar os maus resultados que tem na governação. Porque o governo, repare, isto é um governo que dizia que era fácil pôr o país a crescer mais do que 3% a 3,5% ao ano. E pegou num crescimento de 2,4 e arrastou para 1,9 já pelo segundo ano consecutivo. Era o governo da baixa de impostos e andou durante algum tempo a dizer que a receita fiscal tinha aumentado, mas não a carga fiscal. Surpresa das surpresas, como o Partido Socialista dizia, também a carga fiscal aumentou 2024 para 2025. Exauriram o superávit orçamental. Aliás, as contas públicas só tiveram, o ano passado, um superávit de 0,7%, ou seja, 2 mil milhões de euros pelo saldo da Segurança Social de 7 milhões de euros, porque a despesa do Estado propriamente dita foi negativa em 5 milhões de euros. Portanto, as contas estão péssimas, a economia está péssima, os portugueses sentem todos os dias que os seus rendimentos face ao poder de compra se degradam. A crise na habitação, que também ia ser resolvida, os preços da habitação não está melhor, nem o país está melhor. É que desta vez, não só a vida dos portugueses não está melhor, porque os portugueses sentem isso na degradação do Serviço Nacional de Saúde, na degradação dos seus rendimentos contra o aumento do custo de vida, sentem isso na inflação, sentem isso na intransigência do governo em ouvir o Partido Socialista quando o Partido Socialista propõe, por exemplo, baixar o IVA pra alimentação. Sentem isso, sentem que é um governo que baixa o IRC, mas carrega no IVA e carrega no IRS, carrega nos impostos sobre os trabalhadores e sobre as famílias. Sentem que a sua vida está pior, mas também os indicadores macros do país está pior. Portanto, está, de facto, tudo pior. E a gestão do PSD, que se tinha comprometido em resolver o problema da saúde, em que se tinha resolvido ia resolver o problema das contas públicas, ia resolver todos os problemas com base num crescimento econômico de 3,5%, está a falhar em tudo.
Mas tendo em conta o que está a dizer, imagino então que a vitimização do governo não sirva para adotar o modelo Cavaco Silva e tentar uma maioria absoluta.
A vitimização do governo acho que poderá ter como ambição máxima desculpar-se da sua incapacidade e da sua incompetência governativa. Eu acho que o governo já percebeu que a maioria absoluta não está ao seu alcance. Uma vitória numas próximas eleições legislativas também não está ao seu alcance, porque quem as vai ganhar é o Partido Socialista e José Luís Carneiro. Eu acho que o governo já percebeu isso e acho que é um governo acossado, é um governo em retirada e é um governo que vai tentar apenas justificar a sua incompetência e sua incapacidade de chegar sequer perto das promessas que fez Com as tais forças de bloqueio que estamos para saber quais são, porque a verdade é que não tem tido motivos de queixa, pelo menos da parte do Partido Socialista.
Filipe Santos Costa, estamos mesmo a chegar ao fim. A última questão é porque no congresso do último fim de semana, o PSD sugeriu que pode voltar a recuperar a reforma laboral mais à frente. A Ministra do Trabalho virou-se para o Primeiro-Ministro e disse: "Lá iremos outra vez." Podem vir a existir condições para que o PS possa negociar esta reforma na sua segunda vez?
Isto, no fundo, não é uma reforma. O que o governo tenta fazer é uma contrarreforma em relação à reforma que foi feita pelo Partido Socialista nas últimas legislaturas. Aliás, é até sintomático. Costuma-se dizer que o Partido Socialista não fez reformas, a prova que fez é que o governo está a tentar aprovar uma contrarreforma, uma reversão laboral. Tudo depende daquilo que o governo apresenta. Se o governo apresentar uma contrarreforma laboral como esta, com certeza que não colherá o apoio do Partido Socialista, o Partido Socialista nisso foi claríssimo. Se fizer um simulacro de apresentar uma ou duas medidas avulsas que não tenham impacto absolutamente nenhum, para poder chamar outra coisa qualquer, não sei. Com a máquina de comunicação e a torrente de PowerPoints, de eventos e de anúncios que o governo vai fazendo, é difícil de prever. Mas eu não estou a ver que, permanecendo a ministra do Trabalho no governo e voltando a haver uma proposta que seja minimamente sucessora da atual, não estou a ver que haja abertura do Partido Socialista para aprovar.
Muito bem. Filipe Santos Costa, passamos agora à fase do carne ou peixe. Tem que escolher uma de duas opções ou então ficar com fome. Nós não costumamos a considerar.
Vai a uma dieta.
O primeiro dilema que lhe trago é se preferia ser ministro da Defesa do primeiro-ministro Duarte Cordeiro ou conselheiro para a Defesa do presidente António Costa Seguro. E defesa no sentido internacional.
Eu diria que preferia servir num governo de José Luís Carneiro. Acho que essa pergunta não faz muito sentido, porque Duarte Cordeiro está na sua vida privada e está na sua vida empresarial. Saiu dos órgãos nacionais do partido, saiu da Assembleia da República, está na sua vida privada, na sua vida empresarial e eu não acho que isso seja...
Portanto, Duarte Cordeiro está arrumado, é isso?
Não, credo. Isso na democracia ninguém está arrumado, desde o irrevogável Paulo Portas.
Arrumado no sentido de que neste momento não está na política.
Acho que ele não está na vida política ativa. Mantém alguma ligação ao partido, mas sobretudo desenvolve a sua atividade privada, empresarial e muito bem. Eu próprio também não trabalho na política, digamos assim. Tenho a minha vida profissional privada e a minha vida acadêmica, e acho muito bem que as pessoas tenham participação cívica, compatibilizando com vida profissional no setor privado e acadêmica, no meu caso, nas duas.
Vamos ao segundo carne ou peixe: preferia beber um café com Vladimir Putin ou Benjamin Netanyahu?
Olhe, eu acho que apesar de tudo, preferia beber um café com Benjamin Netanyahu, porque acho que tinha mais opiniões para lhe dar sobre algumas das coisas que têm sido feitas.
Eu não beberia esse café com qualquer um destes dois. Ia ter lá qualquer coisa.
Era um risco.
Tentei tão ao de ir ao facto com Putin, era mais provável que tivesse envenenado. Se calhar com Netanyahu, apesar de tudo, havia menos risco de ele ter plutónio ou qualquer coisa assim. Também obrigado por zelarem. Ficamos com Netanyahu, então.
Se tivesse que trocar de lugar com alguém, preferia trocar com o antigo jornalista Filipe Santos Costa, seu homónimo, ou com o secretário-geral do PS, José Luís Carneiro?
Eu conheço o meu homónimo e gosto muito dele. Às vezes recebemos correspondência cruzada. Isso já me aconteceu, porque havia um presidente do IAPMEI que era o Luís Filipe Santos Costa e na altura também havia coisas que não se sabiam se eram para o Filipe Santos Costa da AICEP ou o Luís Filipe Santos Costa do IAPMEI. É quase uma vantagem de anonimato. E como eu não quero que o José Luís Carneiro deixe de ser secretário-geral, porque acho que o país precisa que ele seja secretário-geral para depois ser primeiro-ministro, preferia trocar de lugar com o outro Filipe Santos Costa.
E preferia partilhar painel na televisão com Pedro Nuno Santos ou Fernando Medina?
Acho que preferia com Pedro Nuno Santos. Acho que seria mais interessante porque haveria mais matéria.
Mais contrastes.
Exatamente, é por isso.
Muito bem, chegamos agora ao fim mesmo do programa com a sobremesa, que é a música que nos trouxe. E queria lhe perguntar o porquê. Escolheu o Radiohead, qual a música que escolheu e por quê?
Escolhi o "Everything in Its Right Place". É uma coisa sem grande profundidade, é uma coisa quase de ocasião, porque há pouco tempo, um dos meus filhos, por eu estar sempre a chatear para arrumarem as coisas, e como eles são um bocado anglófonos, um deles disse que isto devia ser o meu hino quando ouvimos a música no rádio e eu achei graça e revejo-me um bocadinho nisso, porque eu sou um bocadinho obsessivo-compulsivo. Portanto, para mim as latas não basta estarem arrumadas, têm uma ordem, têm cores, são alimentos diferentes. Tenho esse problema, sim. Gosto das coisas todas muito arrumadinhas.
O senhor quer arrumar o José Luís Carneiro em São Bento, não é? Todo arrumadinho em São Bento, seguro em Blake.
Eu acho que é por isso que eu gosto do José Luís Carneiro, porque ele tem as ideias muito arrumadas, é muito meticuloso, está permanentemente a desenvolver o seu conteúdo político para apresentar aos portugueses e isso dá resultados. Eu aliás aproveito para acabar a relembrar que José Luís Carneiro foi eleito e reeleito presidente de câmara com um track record impressionante. Ganhou pela primeira vez com 52%, se não me engano, depois foi reeleito com 68%, depois foi reeleito com 75%. E é uma pessoa com provas dadas, eleitorais, e é uma pessoa que sabemos que quando conquista o eleitorado, a seguir o que acontece é conquistar ainda mais eleitorado e é o líder certo do Partido Socialista. Está neste momento a construir uma série de políticas alternativas às políticas do governo, porque é um homem de substância.
Muito bem, vamos ver se consegue desse laboratório de Beão transportar isso para o país. Obrigado, Filipe Santos Costa.
Obrigado eu.
A Vistisual regressa, como sempre, na próxima semana.