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Olá, bem-vindos à "Vichy Suave". No momento em que o país enfrenta uma crise de habitação, os deputados parecem estar imunes ao problema. Não só têm habitação própria, como convidam os seus pares para um convívio no lar. Um deputado disse a outro: "Eu dou-te a morada." Esse outro deputado, eventualmente com problemas de audição, ou é só goxa, digo eu, percebeu outra coisa e claro, fez queixinhas. Pelo meio, foi aprovada a nova lei dos estrangeiros e pelo país fora arrancou a campanha oficial das autárquicas. Olhando para as sondagens, caso queiram ganhar, há alguns vencedores anunciados ou antecipados que têm mesmo de acordar, agora que setembro chegou ao fim.

Mais lixo, menos casas, mais ocupas.

É completamente absurdo.

Quem vai lá estar para denunciar? Quem vai lá estar para abrir caminho?

Recusam-nos de fazer porque continuam a pensar que eles são os donos disso tudo.

É não conhecer a cidade de Lisboa.

E há quem aqui se deixe também instrumentalizar e já tenha vendido a alma ao diabo. Aconteceu em municípios geridos pelo Partido Socialista e pelo Partido Comunista.

Siempre decimos: o socialismo ou liberdade.

Não estão cá para compor o ramalhete, desculpem a expressão.

Eu sou o Rui Pedro Antunes e esta pausa foi porque yo no estoy aquí para combatir el socialismo, como a Ayuso. Eu sou editor de política do Observador, não combato aqui nada. Aqui tenho o Miguel Vítor Dias, coordenador de política da Rádio Observador e a jornalista da secção de política e grande repórter, Rita Tavares. A começar a "Vichy Suave". Muito bem, estamos aqui com uma coordenação muito boa. Gostaria que avançássemos já para a sopa de chicharro.

Estamos em várias antenas. Estamos no Porto, estamos em Lisboa.

Estamos a arrancar devagarinho com estas autárquicas.

Ora bem, Rita Tavares.

Eu estava à procura do botão.

É preciso ter calma que agora setembro acabou, que é um mês muito difícil.

Sopa de chicharro verde. Podem estranhar o nome da sopa, mas é só porque pensei numa terra distante.

Nazaré?

Bragança. E posso perguntar uma coisa? É no interior e a sopa típica de lá é sopa de chicharro verde. Parece que sim. Pelo menos é isso que dizem alguns motores de busca famosos. E é só por isso, porque as autárquicas são de facto uma festa da democracia, desde Vila Real de Santo António a Melgaço. Já não se pode dizer Timor a Omin, que isso já não existe, mas são uma festa da democracia desde o Algarve até ao norte do país e passando também pelas ilhas. E portanto, era sobre isso. Embora eu suspeite que nós possamos ter aqui algum centralismo, uma vez que vocês têm acompanhado de forma mais permanente a campanha de Lisboa. Rita, parece que está tudo em aberto e no Porto também.

Sim, parece que está tudo em aberto, verdade, mas há quatro anos também estava tudo ganho para Fernando Medina, campanha que eu cobri, e eu vejo que há algum trauma no Partido Socialista com isso. Portanto, ainda ninguém mandei em arco e andam com algum cuidado a falar de sondagens e mesmo assim, já se vai notando alguma noção, mas também já era anterior. De facto, é estas notícias sobre as sondagens, que é a noção que o PS tem, que tem que dar ao pedal na Câmara de Lisboa se quer ir a algum lado e que tem que centrar o discurso e tentar que a campanha se bipolarize, que seja entre Alexandra Leitão e Carlos Moedas. É pelo menos esse desejo claro da candidata da coligação encabeçada pelo Partido Socialista, é que haja aqui uma em que isto pareça uma coisa entre ela e Carlos Moedas e que o PCP não meta a colher, como se costuma dizer, porque de facto, nos debates, e já falámos disso na semana passada, João Ferreira fez sombra e Alexandra Leitão já se queixou até nesta semana num debate na Rádio Renascença, voltou a-

Queixar-se é simpático.

É sim.

Foi bastante assertivo.

Queixar-se talvez no nosso debate. Nem foi queixar-se, fez um aviso a João Ferreira sobre ela ser a única alternativa ao Carlos Moedas e no debate que houve na Renascença, a coisa foi um bocadinho mais vocal.

Arisca.

Arisca, boa expressão.

Miguel.

E até adequada, porque hoje a Alexandra Leitão andou com gatinhos.

A Rita diz que é preciso mais pedalada, suponho que também à direita seja preciso mais pedalada. Não sei se o Almirante Reis ainda lá está.

Sim, Carlos Moedas tem feito uma campanha que tem sido, do ponto de vista jornalístico e mediático, praticamente inexistente. Teve um almoço no International Club of Portugal, teve aquele lançamento.

Eu vi, viste perfeito.

É um almoço que apesar do nome internacional, foram-lhe colocadas queixas sobre estacionamento em Lisboa, problemas com plátanos em Benfica, portanto, Carlos Moedas viveu mesmo toda a dimensão da autarca nesse almoço. Mas isto para dizer, teve um almoço à porta fechada, teve aquele arranque de campanha que foi um bocadinho para mobilizar as bases, mas a sala ficou A meio gás, ficou apenas meio preenchida. E a verdade é que se hoje de manhã, ou na manhã desta quinta-feira, para quem nos ouve em podcast, o Miguel Santos Carrapatozo notava e destacava a pouca dinâmica de campanha, a verdade é que esta tarde Carlos Moedas já acrescentou mais dois pontos de agenda para amanhã. Amanhã, por exemplo, não havia nada marcado. É certo que o presidente da Câmara de Lisboa tem tido uma agenda paralela, ou seja, combina com as estruturas locais fazer contatos com a população, aquilo que tipicamente se designa por arruadas, e isso não é comunicado à comunicação social. Portanto, faz esse contato mais pessoal, porta a porta, com o staff da campanha, com os candidatos de cada freguesia. Na sexta-feira não ia ter sequer nenhum ponto de agenda. Acrescentou agora dois, o que não deixa de ser curioso, porque pode ser lido não só como uma resposta a essa falta de dinâmica, mas também a alguns números de sondagens que vão acendendo alguns sinais vermelhos na coligação. É preciso polarizar. A Rita já falou disso, Carlos Moedas procurou fazer isso no arranque da campanha, procurou polarizar o discurso encostando mais uma vez Alexandra Leitão muito à esquerda, até referiu por mais do que uma vez a questão dos ocupas, de que Alexandra Leitão agora está aliada a um partido que defende ocupações ilegais de casas. Portanto, está a carregar nas tintas no discurso, porque sabe melhor do que ninguém essa vacina que Fernando Medina recebeu há quatro anos, de que se a campanha acabar por ser desinteressante, as pessoas não se vão mobilizar para votar e isso pode ser mau para quem está atualmente no cargo. O que é estranho, porque tendo essa vacina, a estratégia inicial foi esperar para ver. E agora os primeiros resultados ou os resultados intermédios, um bocadinho como nas provas de ciclismo, o primeiro ponto intermédio aponta para algumas dificuldades e é preciso agora pedalar mais nessa segunda metade.

Não sei se também está a ser castigado nas sondagens, como há quatro anos, e depois não foi bem assim, mas a Rita falava em bipolarização. Eu tenho a ideia que o voto útil está a funcionar à esquerda, onde João Ferreira não descola e, portanto, Alexandra Leitão consegue manter, e depois não funciona à direita, em que quem quer votar no Chega vota mesmo e isso está a prejudicar Carlos Moedas. Ou seja, a polarização que o PS quer para ajudar Alexandra Leitão não está a acontecer à direita e, portanto, o voto útil não está bem a funcionar e isso é um problema. Por outro lado, no Porto, parece que as coisas estão em aberto e com a possibilidade dos dois partidos vencerem. Queria só perguntar antes de passar para a próxima sopa, se os dois partidos acabarem um deles ganhar as duas e o outro não ganhar nenhuma, se o que não ganha fica em más lençóis.

Ganhar nenhuma, estás a falar de Lisboa e Porto?

Sim, o PS já não tem nenhuma das duas.

No caso do Partido Socialista, se ganhar uma dessas e perder, por exemplo, Sintra, se calhar fica ela por ela. Acho que ganhar uma câmara como Lisboa ou Porto é uma coisa que apaga tudo o que possa ter acontecido mal numa noite eleitoral. Era preciso que tivesse havido um hecatombe, que também é possível. Aliás, eu acho que no PS há uma coisa que para além de maior número de câmaras, maior número de capitais de distrito, também vai contar, e se calhar vai ser uma leitura interessante de fazer na noite eleitoral, que é como é que fica o PS em sítios em que pode até ganhar, mas ganhar com uma margem tão curta que não tem governabilidade absolutamente nenhuma e que, portanto, vai ter que andar ali ou a fazer acordos ao sabor do vento, e até com o Chega, como nós já vimos a semana passada, que dentro dos autarcas do Partido Socialista há uma espécie de pragmatismo com isso, que não querem ficar para trás. Mas a verdade é que nós não sabemos se esse quadro que sair com o PS eventualmente a poder ficar com algumas das câmaras que já tinha pelo país e com isso fazer o somatório e as continhas e continuar a liderar a Associação Nacional de Municípios, a verdade é que não sabemos até que ponto é que isso depois não significa ter vitórias a prazo. É uma vitória que se calhar daí a dois anos esbarra numas eleições intercalares, por exemplo, porque o presidente da câmara não consegue fazer nada, porque teve mais votos, mas depois teve o Chega a entrar por dentro do eleitorado e a dividir os votos de tal forma que as câmaras ficam ingovernáveis.

Miguel, portanto isso não ter acontecido bem nas legislativas em que foi o PS a cair e o PSD ainda conseguiu reforçar ligeiramente a votação, há aqui a ideia de que em algumas câmaras podem estar em risco para o PSD, por exemplo, Faro, porque há divisão de voto entre o PSD e o Chega e o Partido Socialista sai favorecido disso. Pode acontecer em Sintra, pode acontecer em Faro, pode acontecer até em Lisboa, por aquilo que estamos a ver, em Braga. Portanto, a entrada do Chega cria aqui uma variável que não existia antes, apesar do Chega já existir em 2021, não causou mal a ninguém diretamente, agora é assim ponderável.

Sim, embora dentro do PSD, pelas conversas que vão surgindo nos corredores, o PSD acredita que o Chega vai retirar mais votos ao PS do que propriamente ao Partido Social-Democrata. E tem sido esse, pelo menos, o discurso que têm feito internamente e de análise dos números que vão recebendo das várias sondagens nos diferentes concelhos, embora lá está também as sondagens em eleições locais sejam mais difíceis de fazer e de interpretar, sobretudo na leitura nacional, mas a leitura é de que o Chega vai roubar mais ao PS do que propriamente ao PSD, como aconteceu, aliás, até nas últimas legislativas e, portanto, isso vai mais ou menos também ao encontro disso. E o day after, como a Rita estava a dizer, também parece mais complicado para o PS do que para o PSD, porque no PSD também já se ensaiaram os discursos de que no dia a seguir é preciso falar com todos e os problemas nunca são tão grandes como dentro do Partido Socialista.

Sim, há menos pudor em aliar só chega.

A questão das linhas vermelhas tem-se debatido de forma mais ou menos orgânica em várias medidas no Parlamento. A lei dos estrangeiros foi uma delas e vai debater-se nas autárquicas no dia em que for preciso garantir maiorias. Mesmo que não sejam atribuídos pelouros, esse acordo vai lá estar mais ou menos.

Vamos já passar para a próxima sopa. Deixa-me só dizer isto, que há aqui uma outra dinâmica engraçada que é o Partido Socialista, se formos imaginar que vencia Lisboa e é Pedro Nunista, que já não é, mas faz de conta que é Alexandra Leitão e foi escolhida por ele. Se Manuel Pizarro ganhar eventualmente no Porto, José Luís Carneiro queria ser ele o candidato e não Manuel Pizarro, também foi escolhido por Pedro Nuno Santos. Portanto, se António Braga eventualmente, com espinhos e confusões, vencer a Câmara de Braga, embora aí também A Iniciativa Liberal e a força de Rui Rocha pode ter algum resultado. Também será uma vitória de Pedro Nuno Santos, porque foi o que explicou.

E Ana Abrunhosa, que chorava de Pedro Nuno Santos. Tinha o coração apertado.

O que é curioso no meio disso é que José Luís Carneiro está numa situação tal que vai ficar felicíssimo com uma vitória de Manuel Pizarro.

O curioso disto é que Pedro Nuno Santos pode ter a sua primeira vitória de estar fora de líder do PS.

É um visionário.

Sopa estrangeira, antes de irmos para o nosso convidado que já aqui está sentado, já vou dizer quem é. Sopa estrangeira, Miguel, tu assististe a esse debate no Parlamento da primeira fila.

Sim, foi mais uma manhã animada e mais calma até do que o previsto. Não sei se por André Ventura não ter marcado presença. Talvez tenha sido por isso. Curiosamente, poucas horas depois de André Ventura... Não foi poucas horas, estou a confundir com o debate quinzenal em que André Ventura falou daquilo "não voltamos para trás" e depois na lei dos estrangeiros, o Chega acabou mesmo por voltar para trás nalguns detalhes que para o Chega eram linhas vermelhas, mas acabou por ser uma vitória para o governo de Luís Montenegro, para António Leitão Amaro, no sentido em que o governo conseguiu manter sempre plataformas de diálogo, quer com o PS, quer com o Chega. Depois, no fim, acabou por ter apenas a aprovação do Chega e sai sem, pelo menos, a obrigação escrita daquela questão de bloquear os apoios sociais. Portanto, é uma conversa que fica para depois. Veremos como é que vai ser feita, se vai ser feita. E houve ali alguma cedência por parte de André Ventura. Aliás, nesse dia, o PS acabou por falar no fim, José Luís Carneiro acabou por falar no fim e o Chega acabou por estar muito discreto. Foi Cristina Rodrigues a quem coube esse trabalho de defender o recuo do partido Chega. Embora eles peçam mais, a verdade é que acabaram por ceder às exigências do PSD e o texto ficou mais ou menos como o PSD tinha pensado. Houve ali umas abébias de um lado, um toma lá dá cá, mas são em questões de prazos que não são propriamente muito relevantes ou que não diferem muito do original. E eu acho que o mais curioso disso tudo foi mesmo André Ventura, por motivos que o próprio ainda não esclareceu, não esteve nesse dia e não deixa de ser curioso, depois de ser tão assertivo no não voltar para trás, o Chega ter recuado, mas sem a presença do líder.

Agora vou ameaçar as pessoas com o artigo 98, nem com o número quatro do 101, mas são mesmo pequenas nuances que existem de alteração, que não são assim tão fundamentais e André Ventura não está. E na altura também registámos isto, creio que foi uma razão pessoal, não foi uma coisa que ele pudesse escolher, mas de qualquer das formas, obviamente que fez falta ao Chega, porque ele é a alma do Chega e nesse dia não falou. Rita, estamos mesmo a chegar ao fim da primeira parte.

Só para falar na parte disto tudo, que é de um acordo envergonhado que aconteceu, que era isso que estavas a falar, ninguém aparece na altura, André Ventura fica para trás e Luís Montenegro fez declarações aos jornalistas que foram não declarações, porque acabou por não esclarecer o que é que são as contrapartidas de que fala, mas que não diz o que é que foram. O que é importante é que haja contrapartidas para as pessoas, dando a entender que o que interessa é o desenho final, mas na política acho que interessa um bocadinho mais do que isso. Interessa perceber o que é que foi negociado pelo meio. E acho que o primeiro-ministro saberá disso, porque já não anda nisto desde ontem. E foi importante, por exemplo, nos tempos da geringonça, nós percebermos a negociação que era feita por trás, para depois perceber como é que eram aprovados outros diplomas fora do orçamento, por exemplo.

Sim, e estamos em vésperas do orçamento.

Irritou-se demasiado. Irrita-se muito. Eu percebo, às vezes também me irritam porque fazem quatro vezes a mesma pergunta e nós queremos fazer outra.

Às vezes até jornalistas te irritam, Rui.

Exatamente, é isso. Fazem quatro vezes a mesma pergunta e depois estás eu não conseguimos fazer e os políticos fogem. Mas não é preciso ele irritar-se.

Aquele prazer é dispensável.

Sim, mas ele pode criticar à vontade. Acho que os jornalistas não estão acima da crítica, mas ele irrita-se muito e aquilo não o favorece nada.

Pode criticar à vontade. É um facto, pode criticar à vontade, qualquer pessoa é criticável. Mas aquilo passa um limite quanto a mim. Não é limite, mas passa uma barreira entre a crítica e o facto de estares a dizer ao jornalista quais são as perguntas que ele deve colocar. Ora, ainda bem que não há essa coincidência entre um primeiro-ministro e um jornalista. É muito bom que assim seja, que não haja coincidência de perguntas entre aquilo que o primeiro-ministro sobre aquilo que quer ser questionado e aquilo que o jornalista questiona. Às vezes pode até haver um tema em que esteja à espera, outras vezes não, e tem que se desenvencilhar.

E às vezes a forma pode não ser boa, mas a pergunta em causa era precisamente se havia alguma-

É que cheira a 1900 e qualquer coisa. Já não estamos nessa altura

...se havia uma contrapartida ao Chega e, de facto, pelos vistos, não houve nada de significativo de contrapartida. Vamos vendo isso dos apoios sociais e aquelas três propostas de alteração que são quase de detalhe e, portanto, Luís Montenegro até estava por cima, ou seja, não havia razão aparente.

Certo, mas isso começa a parecer muito Luís Montenegro, que não há nada a esconder, mas ele esconde. Para quê? Só cria confusão, diria eu. Se não há nada a esconder, é dizer.

Ele, nestes momentos, acaba por ser um bocadinho o maior inimigo dele próprio. Nós vamos fechar aqui a primeira parte e ao contrário do que é habitual, vai ser mesmo muito rápida a segunda parte. Volta já a seguir.