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Olá, bem-vindos à Vixi Suave, numa semana, como diria José Sócrates, que é sempre bom de citar: o mundo mudou. Na última quinta-feira, quando gravamos a Vixi Suave, toda gente acreditava que o PSD e o Chega iam aprovar a legislação laboral. Parecia que o tabuleiro ia mudar, mas não. Ventura votou ao lado da esquerda e já esta semana o Hugo ligou a Eurico para voltar a pôr a trabalhar o velho centrão.

Nós precisamos de trabalho de equipe pra resolver muitos dos problemas do país e muitos dos desafios.

Se o governo quer manter um ano de residência ilegal pra se poder ter subsídios, a proposta não vai passar, pelo menos da nossa parte.

A forma como ela está, permita-me a expressão, como ela foi golpeada na própria Assembleia da República.

Se o governo deixar cair a sua desumanidade, julgo que há condições para podermos aprovar a prestação social única.

O Partido Socialista chegou a acordo com o governo e com o grupo parlamentar do PSD.

E que prefere fazer o PS voltar atrás na sua palavra. Não sei como é que o PS vai descalçar isso, mas também não é um problema meu.

Na hora da verdade, deixe-me utilizar esta expressão, que eu creio que todos os portugueses vão perceber, não é a mais bonita: voltou a borregar.

Não sei como é que o PS vai descalçar isso, mas há um neto sapateiro que deve perceber de calçar e descalçar. Eu sou o Rui Pedro Antunes, sou editor de política do Observador e tenho comigo o coordenador de política da rádio, Miguel Vitor Dias, e as jornalistas da seção de política, Rita Tavares e Mariana Lima Cunha. Vai começar a Vixi Suave. Vou propor aqui uma-

Olá, para mais uma semana.

Com uma manita, cinco zero. A seleção correu bem, vamos ver se as nossas escolhas foram bem feitas. Já temos todos, a partir de agora, só precisariam de mais minutos com o Gonçalo Inácio e com o Diogo Dalot e outros tantos. Mas queria começar por propor uma sopa única. Propor sopa única, PSU.

Nada é por acaso.

Brilhante.

Miguel, queres começar por aí?

Posso começar. PSU, não é verdade? Ora bem, se tudo correr bem, há de ser aprovada com os votos do PS e do PSD, que neste país e nesta vida nunca se sabe.

Obrigado, Miguel. Mariana.

À partida, Hugo Soares estará mais descansado nesta votação do que na da reforma laboral, porque pelo menos o PS tem sido mais confiável quando assume os seus compromissos. Mas este acordo entre o resto do bloco central, no que toca à PSU, levanta uma questão também interessante. Nesta ânsia que todos queremos que o país quer de reformas e que Luís Montenegro seja o grande reformador do país, que é: afinal, compensa mais fazê-las ou compensa mais fazê-las como o PSD idealizou? Porque a aprovação da PSU prova que o que terá que acontecer muitas vezes é que o governo vai ter que acabar por desvitaminar totalmente uma proposta face àquilo que idealizou e que apresentou originalmente. Na reforma laboral, a versão que ia ser discutida na especialidade ia ser muito diferente da versão original e na PSU, como há esta urgência em aprovar até o final do mês, como há a questão do PRR, como o Chega voltou a virar costas à AD, o PSD foi basicamente com um documento em branco perguntar a Eurico Brilhante Dias e ao PS o que é que queriam fazer pra aprovar a iniciativa. Portanto, cai o canal Denúncias, o trabalho social ainda não se percebeu bem como é que vai ficar, porque um diz que deixou de existir, o outro diz que continua a existir, mas de uma maneira ligeiramente diferente, e portanto é um PSD que teve que passar um cheque em branco ao PS pra conseguir os votos a favor, o que revela que não há só a dificuldade de aprovar reformas, mas também se ao fim de quatro anos o PSD conseguiu transformar o país como desejou ou não.

Foi isto que o povo pediu, com o Parlamento com três grandes partidos, dividido. Rita, queres ir? Vamos aqui pros ponteiros do relógio.

Vindo da semana passada, terminou de uma forma um bocado surpreendente, com o Chega a largar a mão ao PSD mesmo ao cair do pano da votação da reforma laboral. E esse distanciamento prosseguiu na semana seguinte, com o Chega a ser posto de parte aqui, já não a pôr-se de parte, mas a ser posto de parte. É sempre engraçado ver o Chega, porque quando o Chega deixa de fazer parte de um acordo, consegue sempre vender que parece que foi por vontade própria. A conferência de imprensa de André Ventura, que foi feita ali enquanto o PSD e o PS firmavam o acordo pra PSU, era uma posição de como se ele até ali não estivesse a dizer que estava quase a haver um entendimento com o PSD sobre a prestação social única. Portanto, consegue sempre ali fazer o seu sapateado, mas o sapateado está a ficar um bocadinho mais difícil e limitado no terreno, porque André Ventura já está cingido às suas bandeiras mais radicais, digamos assim, aquelas que têm efeito junto da massa que vota no Chega. Parece ter alguma dificuldade em alargar essa base e em mostrar-se como uma força política com capacidade de influenciar a governação. Influenciar sequer a governação. Porque tem um problema de credibilidade, que não é de hoje. Vamos ver se o PSD desta vez percebeu de vez. Pelo menos na prestação social única, já se virou para o Partido Socialista, até se calhar usando aqui um bocadinho o facto de o Partido Socialista também estar comprometido com esta reforma. Porque foi iniciada no tempo de governação socialista, com Bruxelas a exigir esta junção de prestações sociais no âmbito da negociação do PRR. Estavam €620 milhões em jogo e, portanto, o Partido Socialista também não podia expor-se à margem disto. O PSD percebeu que havia ali matéria. Depois eu acho que há aqui sempre falhas de todas as partes, porque o PSD também entra nesta negociação de mão dada com o Chega, larga a mão do Chega, agarra-se ao Partido Socialista já in extremis e depois tenta vender aquilo como se tivesse conseguido manter a essência da reforma que tinha proposto, mas não manteve. Evidente, como o Miguel estava a dizer, há muita coisa que era importante e que estava a ser colocada à cabeça desta alteração.

Mesmo a questão do IAS, que o Miguel não falou disso, mas também foi outro.

A questão do IAS.

Não manteve a essência da proposta de António Costa. Não a teve que gerir.

Voltou-se ao que tinha antes do socialista.

O IAS que o governo entendia que fosse 30 e passou para 60 e ainda mais 60 complementares.

Pois, eu pela matemática já não entro.

Tudo isto para dizer que o PSD está a fazer estas negociações, e já começou, se nós nos lembrarmos de 2024 e de José Pedro Aguiar Branco, que também meteu confusão com o Chega na eleição do presidente da Assembleia da República, ainda não aprendeu a entrar na negociação procurando outros parceiros além do Chega, ou seja, não afunilando a coisa no Chega, como desta vez parecia que estava afunilada, e preparar uma negociação que seja mais alargada e da qual possa tirar mais do que um parceiro. Parece que é sempre aqui tudo uma mata-cavalos e esta por maioria de razão, porque ainda por cima tinha um prazo muito apertado para ser cumprido.

Depois de André Ventura dizer que não sabia como é que o PS descalçava a bota, a Rita falou no sapateado que o Chega fez, o Fred Astaire. De Loures não, de Mem Martins.

Loures na variação, Mem Martins no nascimento.

Loures é porque ele foi candidato a Loures, o André Ventura.

Mem Martins de criação.

A tua sopa única, Mariana.

A Rita falou na Madeira como onde mudou esta semana e, na verdade, mudou muito em relação ao que nós dissemos na semana passada, portanto mea-culpa nossa, porque na altura nós cometemos o erro que o PSD também cometeu.

Toda a gente.

Que é acreditar em André Ventura. Pronto, foi isso que aconteceu. E neste caso, reparem, eu tenho sempre imensos cuidados quando interpreto promessas de André Ventura, porque já se sabe que só, como dizia o outro, prognósticos só no fim do jogo. Mas neste caso, nós tínhamos André Ventura a anunciar já o que é que ia acontecer. Tinha-o a dizer, isto é em relação à reforma laboral, "Amanhã vamos ter uma vitória que o PS nunca conseguiu." Eu já nem ia pela palavra do Hugo Soares, que também dizia que ia aprovar a reforma. Dizia porque André Ventura a estava a anunciar. Mas eu vou dar-nos o benefício da dúvida de somos pessoas que nunca se sentarão à mesa com o André Ventura para negociar nada. É mais difícil dá-lo ao PSD, portanto, é mais difícil perceber a surpresa com que o PSD encarou a notícia de que não pode confiar no Chega.

Deixe-me só acrescentar isto, que tem a ver com isso. A credibilidade do André Ventura está tão por baixo que ele veio dar várias entrevistas esta semana a dizer que a idade da reforma tinha sido até um compromisso assumido pela própria ministra do Trabalho e já ninguém lhe dá a cada coisa. Já nem o governo vem propriamente defender o seu.

Lembrou-se aquelas conversas quando André Ventura dizia que tinha tido reuniões em São Bento, já não sei se era por causa do orçamento na altura. E na altura era um escândalo. Nós andávamos a perguntar a toda a gente, ao governo, ao Chega, como é que tinha sido e hoje em dia já se desvalorizam, às vezes, até coisas que André Ventura assume, nem ó ni, com as quais se compromete, porque nunca se sabe como é que vão de facto acabar. Mas enfim, chegados aqui, chegamos ao Congresso do PSD e chegamos a um PSD um bocadinho perdido. Porque, por um lado, quer mostrar o trabalho que faz e por outro, quer dizer que as forças de bloqueio da oposição não o deixam governar. Acho que esta semana com a aprovação da PSU, teve uma oportunidade de corrigir um bocadinho a sua rota, porque o PSD estava, de facto, a encostar-se muito ao Chega em muitos dossiês, que acabam por ser aprovados com o partido de André Ventura. E assim pelo menos pode mostrar uma prova de que está a fazer o que disse que ia fazer, que era tentar planar entre a esquerda e a direita. E esta semana conseguiu executar essa estratégia e não afastar completamente o PS, não deixar o PS completamente com rédea solta para estar a criticar o governo e a crescer nas sondagens. Agora, é uma estratégia muito periclitante para fazer a longo prazo. Eu acho que isso se notou no Congresso, que se nota que o PSD está com alguma dificuldade em saber para onde é que há de ir, além de proclamar constantemente que há de negociar com os dois. Tem havido uma preferência clara pelo Chega. E agora temos de perceber como é que as coisas encaminham daqui para a frente, mas acho que é uma estratégia que pode ter um tempo de vida um bocadinho limitado. E aí aparece o segundo problema, que é para que a vitimização serve. Ou seja, se chegados a um momento em que o PSD diga que de facto não está a conseguir governar assim ou todas as suas reformas saem lá está desvitaminadas, não tem força suficiente para aprovar as reformas como queria, aí vai ter de chegar num ponto em que as pessoas confiem tanto neste governo que lhe queiram dar uma terceira, neste caso, oportunidade, por ganho das duas primeiras eleições. E aí é que acho que está a chave. É perceber se Luís Montenegro consegue agradar ao eleitorado o suficiente, mexer no bolso das pessoas, neste caso para pôr dinheiro, não para retirar, melhorar a qualidade de vida das pessoas e conseguir reformas, que aparentemente não era o caso da laboral, que sejam populares, pelo que sabemos pelas sondagens, esta não era uma reforma popular, para ter argumentos para se vitimizar, porque senão a vitimização ficará curta. E eu acho que o governo percebeu isso e por isso é que tivemos tantos ministros, incluindo aqui no Observador, em entrevista durante o congresso, a desvalorizarem a hipótese de uma crise política e a dizerem que para já têm condições para governar e que vão continuar a lutar até ao fim. Acho que também sabem que não lhes interessa neste momento vitimizar para ir além, qual é o resultado?

Também não interessa ao Partido Socialista, na verdade.

Pois, sim.

Tem dado sinais claros disso.

Nesta fase, ainda estamos um bocadinho todos a ver o que é que acontece.

Acho que talvez o Chega tivesse interesse, porque tem crescido sempre que há eleições antecipadas, mas mesmo assim parece que pode ter medo das consequências a desencadear e as pessoas também podem não estar muito interessadas nisso e ficar irritadas em quem avance para aí.

Miguel, temos aqui dois minutos. Houve um congresso do PSD pelo meio.

PSD.

Pelo meio de um campeonato do mundo de futebol.

Parece como o Mugaza ganhou. Aqui há uns anos, a Nova Meta dos Leitões cobrou a mais aos dirigentes do CDS como resposta àquilo que eram as imposições da troika e o IVA na restauração e por aí fora. Mas foi essa a preferência.

Foi um dos prémios. Sobre o congresso, a data calhou mal, porque como calhou muito em cima da rejeição da reforma laboral, o discurso foi meio titubeante, o que se foi ouvindo durante o fim de semana. Portanto, aguardamos por uma atualização desse discurso para as próximas semanas.

Mariana, tu também foste ao congresso. Há alguma coisa que queiras destacar, não?

Eu acho que só destaco a tentativa do governo e do PSD de afinar o discurso. E depois houve aquela tentativa de voltar a lançar o discurso reformista, sendo que acabaram por ficar mais dúvidas do que certezas. À cabeça, aquela medida do fundo soberano que Luís Montenegro anunciou. Portanto, mais uma vez ficamos com perguntas a que o governo ainda não respondeu.

E tiveram ali uma questão, que foi o facto de esta questão da afinação do discurso, fica muito clara essa necessidade na medida em que apareceram ministros, como o ministro da presidência e o ministro dos assuntos parlamentares, a dizerem que não havia um problema de crise política, quando no palco também se queixavam, nomeadamente Luís Montenegro, de haver umas forças de bloqueio. A expressão não era forças de bloqueio.

Neste momento, acho que são forcinhas de bloqueio, deve ser isso.

Pois, mas quer dizer.

Ou bloqueiozinho.

Ao queixar-se e ao ter ministros a dizerem que apenas uma proposta foi chumbada, que foi a reforma laboral, e fazerem toda a queixa de que não conseguem fazer reformas no atual quadro parlamentar, mas ao mesmo tempo dizerem que são um governo que tem feito mais reformas.

Ou dá para reformar ou não dá.

Ou é para uma coisa ou para outra. Portanto, acho que aí falta essa afinação.

É uma contradição. E António Leitão Amaro está certamente num dilema, vamos fechar assim, já que Kevin Bacon mudou o nome em nome dos direitos dos animais, ficamos à espera se António Leitão Amaro poderá ter a mesma dúvida. A Vichy Suave regressa já a seguir para a segunda parte.