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Olá, bem-vindos à segunda parte da Vixi Suave. Temos conosco Bruno Ventura, deputado e líder da distrital do PSD Lisboa. Bem-vindo, é uma estreia aqui na Vichyssoise. É inevitável começarmos pela questão dos exames nacionais, acabou por marcar esta e a outra semana. Ao longo de todo o processo, Fernando Alexandre disse várias coisas, algumas delas contraditórias, que os problemas com os exames eram fake news, que a culpa era dos agrafadores, dos diretores da escola, da empresa informática, dos pais que tinham imprudentemente marcado férias. Não temos tempo, naturalmente, para dissecar tudo o que aconteceu, mas do ponto de vista político, e pergunto-lhe, a comunicação de Fernando Alexandre foi a mais acertada ou levou-lhe desnorte?

Muito bom dia a todos. Bom dia aos Miguels, à Inês. Antes de mais, quanto a mim, mais importante que avaliar a qualidade de comunicação contextual de ministro é avaliar as decisões políticas do ministro neste contexto. Portanto, vamos primeiro situar, não vou fazer aqui uma conversa de partideirite sobre o assunto, não é o meu gênero. Eu julgo que este é o momento que gera consternação. Devemos assumir isso como políticos. É momento definidor para famílias, é momento definidor para os alunos e esta incerteza que existiu nos últimos dias gera consternação e preocupação, e devemos assumir esse erro que tem uma origem operacional. O ministro tinha aqui algumas decisões para tomar. A primeira decisão é se abdicava do financiamento do PRR para a digitalização das avaliações dos exames. E optou por não abdicar desse financiamento, porque entendeu o seguinte: esta digitalização das avaliações traz mais-valias no rigor da avaliação, traz mais-valias na transparência da avaliação. Após o erro, que é, repito, operacional, o ministro tinha uma de duas decisões a tomar: ou mantinha os prazos ou adiava os prazos. E eu julgo-

E tomou as duas, porque disse que mantinha e depois decidiu adiar.

Não, peço desculpa. Quando se verificou, de fato, esta consternação que vos falei, ele tomou a decisão de adiar os prazos.

Depois de ter dado garantia de que não iam ser adiados, então é.

Deixe-me só responder. Quando chegou ao momento em que se tinha que decidir se se comprimia o prazo, repare, no momento em que os técnicos, as instituições do Estado estão a dar indicações ao ministro que tudo é cumprido dentro dos prazos e que isso não compromete o rigor, é normal que nesse momento o ministro informe o país que os prazos serão mantidos. Após a verificação e a informação técnica que têm que ser comprimidos prazos de avaliação, que são professores que o fazem, o ministro ou insistia em manter os prazos, que estavam comprimidos, ou dizia: "Eu prefiro comprometer os prazos em três, quatro dias por média, mas garantir que os alunos são avaliados com justiça e com rigor, sem sobrecarregar professores." Dir-me-á assim: há um custo político nisto? Claro que há um custo político, mas ele tomou uma opção política. Nós às vezes, como políticos, não lidamos sempre com cenários perfeitos, que gostamos todos. Às vezes não há o cenário, temos que tomar uma decisão por mais impopular que ela seja. E ele deu prioridade, este ministro, quanto a mim, deu prioridade ao que é mais importante para a vida dos alunos e das famílias, que é o rigor na avaliação neste momento que é definidor.

O ministro não fica, portanto, fragilizado depois de todo esse processo?

Não, não tenho mesmo essa opinião. Repare-

Mas não faltam pedidos de desculpas.

Não, mas ele fê-lo ontem na entrevista e disse que lamentava. O líder parlamentar do PS também o disse. Eu estou aqui a dizer que também é lamentável. Quer dizer, não há dúvidas nenhumas sobre isso. Nós sabemos que isto, nós todos somos pais, quase todos. Isto tem impacto. Também todos já fomos alunos. Isto tem impacto, é um momento definidor, é um momento de ansiedade. Esse não é o ponto. Agora repare, há um custo de transição, de mudança de modelo de avaliação. O ministro apostou num modelo, como sabem, que traz mais qualidade na avaliação, porque padroniza, não é um professor a avaliar mil testes e os testes todos. Portanto, há itens por avaliação, reduz e garante padronização nessa avaliação. Houve aqui um custo de transição e a consequência desse custo de transição é um adiamento dos prazos da avaliação do ensino superior em média três, quatro dias. É um quadro ideal? Não, não é. É um quadro que gerou consternação? Sim, mas o ministro deu prioridade ao rigor e à segurança da avaliação.

Uma última questão antes de mudarmos de tema. Se a segunda fase de exames nacionais enfrentar os mesmos problemas, a vida de Fernando Alexandre fica mais difícil, a vida política, naturalmente.

Miguel, eu sou político, eu não estou aqui pra antecipar esses cenários e dizer: "Olhe, se acontecer isto, aquilo, o ministro fica fragilizado."

Mas tem a obrigação política de garantir que nada aconteça.

Não, eu julgo que os problemas foram identificados e, portanto, hoje, com serenidade, podemos ter muito mais garantias de que os problemas têm sido identificados e corrigidos onde é que aconteceram, que isso não ocorrerá. Agora, estar aqui a perguntar, a fazer adivinhação, esse exercício eu não consigo.

É líder da distrital do PSD Lisboa. Tivemos há umas semanas o congresso do partido com muito governo, quase todos os ministros discursaram em horário nobre. E ao mesmo tempo, nesse congresso, Sebastião Bugalho foi escolhido para vice-presidente e para porta-voz do partido, quando tem apenas dois anos de militância. Isso é um bom sinal para as estruturas do PSD ou estão a ser atiradas pra um plano secundário?

Eu julgo que é um ótimo sinal. E o que isso significa? É que o meu partido tanto consegue atrair quadros de qualidade, que têm muitos anos de militância, como consegue atrair quadros políticos que não eram militantes do partido e projetá-los ao serviço da visão que o meu partido tem de sociedade. Eu acho que isso é uma mais-valia, isso não nos diminui. Olhe, e tenho muito gosto em ter ministros a falar no congresso, significa que estamos a governar

Mas essas pessoas, com muitos anos de militância, não tiveram um espaço tão relevante como outras figuras e parece que, no fundo, Luís Montenegro teve de ir buscar essa tal figura com apenas dois anos de militância para representar o partido. Chamou-o a porta-voz, não é um cargo de desmenos. Não é um sinal de esvaziamento, pelo menos das estruturas locais do partido?

Não, nada esvaziado. Eu estou muito contente com o papel que a Distrital de Lisboa representou nesse congresso, com a opção que apresentámos, com a reflexão pública que lançámos. Não nos sentimos de todo diminuídos, pelo contrário, para nós foi um bom congresso para afirmar no partido aquilo que defendemos, e aquilo que defendemos onde é que o governo deve aprofundar futuro. Mas eu julgo que, e vocês têm uma responsabilidade sobre isso, nesse debate, parece aqui um bocadinho de esquizofrenia. Nós ou criticamos muito os partidos, porque eles não vão buscar gente nova, porque não atraem para além das suas fileiras, ou estamos aqui a fazer um quadro dramático, porque alguém que há dois anos não era militante e hoje é vice-presidente do partido. A Comissão Política Nacional tem quadros do PSD confirmadíssimos e eu estou muito contente que tenha um quadro novo como o Sebastião Bugalho a dar a cara pelo futuro do PSD.

E a ideia de ter Sebastião Bugalho como um futuro líder do PSD agrada-lhe?

Deixe-me ir direto ao assunto. O PSD tem um líder que é primeiro-ministro. E eu julgo que as pessoas esperam tudo de mim, como presidente da Distrital de Lisboa, de estar a fazer esse exercício, de estar aqui a dizer qual é o melhor ou deixa de ser o melhor, ou o futuro. O que as pessoas, julgo, esperam de mim é, perante o quadro que o país enfrenta, o quadro do governo, o quadro parlamentar, o que a Distrital de Lisboa pensa sobre mudanças que são essenciais. Isso eu estou disponível para responder. Estou muito mais disponível para responder sobre políticas de futuro, que têm a ver com a visão que o PSD tem de sociedade, do que sobre os políticos, porque o futuro do PSD nesta fase chama-se Luís Montenegro.

A questão é se há um conforto generalizado com esta ideia de que Sebastião Bugalho pode de facto ser líder a longo prazo.

Inês, eu peço desculpa, possivelmente eu não vou vos dar o título da entrevista que vocês desejavam. Não vou vos dar. Não vou mesmo, porque eu acho que as pessoas estão indistintas para isso. O PSD tem um líder partidário que é primeiro-ministro em funções. É um líder que tem a oportunidade de fazer o que este partido não fez desde 1991. O PSD não tem uma oportunidade de um ciclo longo de transformação portuguesa, merecedora da confiança dos portugueses desde 1991. É nisso que a Distrital de Lisboa está concentrada. Não é estar aqui a discutir nomes. Eu peço desculpa, o meu pensamento não está aí. Mesmo.

Deixemos os nomes e vamos às políticas, aos problemas na saúde e no acesso à habitação, somou-se agora a instabilidade na educação, enquanto o custo de vida também continua a aumentar. Os alertas sobre o estado das contas públicas portuguesas repetem-se e o ministro das Finanças já afastou mais descidas no IRS e o prometido bónus nas pensões, que aconteceu nos últimos anos. Cheira a fim de festa no PSD?

Não, nós nunca estivemos em festa, estivemos a governar. O que cheira é responsabilidade. E ainda bem. Repare no seguinte: nós quando fazemos uma avaliação orçamental, é uma ferramenta financeira que reflete uma ação política, mas é de iniciativa do governo. Portanto, eu não vou aqui, como devem calcular, é exclusiva iniciativa do governo, antecipar o debate sobre o orçamento. Posso lhe dizer dados macroeconômicos daquilo que a AD tem representado. Redução da carga fiscal sobre a classe média, como não acontecia há duas décadas. Não acontecia mesmo. Nós sacrificamos a carga fiscal sobre a classe média para poder aumentar salário mínimo. Nós com a AD, com equilíbrio, conseguimos subir salário mínimo e reduzir o IRS sobre a classe média, o que é um sinal importante, porque é um sinal de que quem diz que quem tem o rendimento mínimo: "Olha, se por acaso te esforçares, trabalhares e ganhares mais dinheiro, o Estado não vai atrás de ti, buscar o dinheiro do teu esforço". E este é um sinal muito importante que reflete, repito, uma visão que a AD tem da sociedade. Mas tivemos dois anos sucessivos com superávit. Reduzimos a dívida pública. Esse aumento de despesa que fala é o aumento referido pelo professor Mário Centeno, que é a despesa líquida do Estado, que dizem mais ou menos assim: a despesa fixa, que fixámos maioritariamente em pessoal, sem contar com juros. É isso que o Miel se está a referir. Ora bem, isso aconteceu de facto, mas aconteceu porque nós enfrentamos em 2024 um quadro de emergência, de sangria de talento na educação, sangria de talento ou de falta de atração em áreas de soberania, como a segurança pública e a defesa nacional, na saúde, em que deixávamos de dar resposta, e nós fizemos uma opção. Nós tínhamos que responder a essa emergência e claro que remuneramos com dignidade essas profissões que respondem no Estado em áreas vitais, áreas de soberania, áreas sociais vitais. Com isso, aumentamos a despesa líquida do Estado. Mas repare, por que o fizemos? Porque a despesa que não é líquida foi diminuída, porque tivemos uma política orçamental responsável que permitiu baixar a dívida pública. Portanto, poupamos em juros, foi uma opção política consciente. Poupamos em juros da dívida, em mau financiamento, substituindo por bom financiamento, para permitir dar esta resposta de emergência.

E, no entanto, um governo de centro-direita, depois de anos de governação socialista, pode voltar aos défices. Isso não é um problema de reputação para o governo da AD?

Não. A União Europeia estipula claramente até quando é que um déficit é saudável e até quando é que um déficit não é saudável. O que não é saudável é um déficit que é gerado com economia a crescer quando não é necessário impulso e para além daquilo que a receita gerada pela economia portuguesa é capaz de pagar. É o que piora o risco e, portanto, onera mais o Estado português. Agora, se nós temos contas públicas saudáveis e decidimos, ou por momentos de catástrofe, como aconteceu duas vezes de forma sucessiva agora, com a questão energética derivada do estreito de Hormuz e antes com o comboio de tempestades. É nesses momentos que o Estado é preciso. E portanto, se para responder a choques externos Dos quais o governo não tem responsabilidade. Temos que recorrer a financiamento, se nós só o conseguimos fazer em boas condições, tivemos boas contas públicas.

Mas essa questão de déficit anda de mãos dadas também com a questão de crescimento econômico, que era a grande promessa do governo da AD e, até ver, não tem conseguido apresentar resultados de monta nesse sentido.

Eu julgo que temos. E teremos.

São resultados de encher o olho?

Deixe-me responder. Não são resultados assim de encher o olho como os 10 anos do professor Cavaco, com duas maiorias absolutas. Mas nós cá lutaremos. Somos um partido de vocação majoritária, cá lutaremos para pedir essa maioria de confiança aos portugueses, para que possamos produzir mudanças que permitam esse nível de crescimento econômico. Mas mesmo assim, deixe-me dizer, nós crescemos acima da média europeia. E crescemos acima da média europeia não com o bloco regional no qual nos integramos na União Europeia a crescer, que é grande parte do nosso mercado exportador. Não, nós crescemos acima da média europeia quando o nosso maior mercado exportador, que são os países da União Europeia, estavam à contraía. Portanto, isto é um fator de sucesso. Dir-me-á, crescemos tanto como gostaríamos? Não, não crescemos, mas o contexto internacional também era bem diferente.

Sabe muito bem que os socialistas poderiam dizer o mesmo, enfrentaram uma pandemia, enfrentaram a guerra da Ucrânia e, no entanto, o PSD acusava o governo António Costa de não conseguir crescer.

Mas esse não é o ponto. Quanto a mim, esse não é o ponto. É que quando isso aconteceu, o mercado europeu estava em crescimento. Nós produzimos um crescimento com o mercado europeu em contração, que é o nosso maior mercado exportador. Mas deixe-me terminar. Agora será corrigido esse tal milagre socialista. Tendo em conta o que se passou com a imigração, nós veremos, e se calhar, quando compararmos uma coisa com outra, se calhar veremos melhor o sucesso da política da AD quando virmos, de facto, os dados macroeconômicos verdadeiros dos últimos quatro anos de governo socialista. Só um último apontamento. Nós, para além disto e de nos compararmos com o governo anterior, eu acho que o ponto essencial aqui tem que ver com a missão do governo por uma razão. Nós explicamos isso, parte da missão da Testal de Esboa era isso. O PSD sempre enfrentou momentos de impasse ou político, ou de desenvolvimento econômico, ou de dignidade nacional entre 2011 e 2015. E nós procuramos na Testal de Esboa transmitir o seguinte: e o PSD sempre foi forte porque teve uma ligação muito umbilical às expectativas da sociedade portuguesa e às suas necessidades. E eu julgo que hoje o país vive um impasse de expectativas. Nós aderimos à União Europeia na década de 80, com 75% do tempo ocupado por governos socialistas que nos levaram à estagnação, nos levaram a recuar nos índices. E é legítimo que esta geração que fez o Erasmus, que já tem filhos, diga assim: "Mas nós estamos desde 85. Por que não podemos crescer a este ritmo? Por que não podemos ter esta qualidade de vida?" E quando às vezes vemos algumas medidas do governo, mesmo que se confronte com a impopularidade, é porque temos esse desígnio. É porque nós não nos resignamos a comparar permanentemente com ciclos anteriores, dizendo que nós fazemos parte desse espaço político e temos a ambição de chegar lá. E para isso é preciso produzir mudanças.

Esta semana o PSD teve as suas jornadas parlamentares, que foram marcadas por novas críticas tanto ao Chega como ao PS. Depois de tudo a que temos assistido, não é de assumir que o governo está bloqueado no Parlamento?

Eu julgo que as melhores pessoas para lhe darem essa resposta não é o Luís Montenegro, não sou eu, nem nenhum membro do governo. É mesmo o secretário-geral do Partido Socialista e o líder do partido Chega, se a intenção deles é bloquear ou não o governo. Repare, estamos a falar de partidos que não inviabilizaram o programa do governo. O PSD olha para essa questão de uma forma muito simples, que é o que há cerca de um ano os portugueses disseram. E não houve dúvidas quem os portugueses escolheram para liderar o governo. Não houve dúvida. Deixe-me terminar, peço desculpa, fez a pergunta, eu gostaria de dar a resposta. Houve, se quiser, dúvidas de quem lidava a oposição, porque houve um partido que teve mais votos e houve outro partido que menos votos, teve mais deputados. Portanto, essa era a dúvida, mas não houve dúvidas quem os portugueses tinham para governar. Se o PS e o Chega entendem que a melhor forma de estar na oposição é bloquear, é serem o governo da assembleia, têm que assumir perante os portugueses. Não podem fazer de conta, para segurar o seu eleitorado, uns que são muito contra o socialismo, diziam que iam tirar o socialismo da vida política do país, varrer o socialismo, e outros que disseram que havia um pânico, era preciso linhas vermelhas, que não se podia conversar, que é o Chega, e agora em matérias nacionais, a última foi em defesa nacional, votam juntos. Isto é uma reflexão democrática que devemos fazer. Em democracia, não se responsabilizam só governos. O papel da oposição também é a responsabilizar. Nós não pedimos adesão, nós não passamos a vida a pedir adesão. O que nós dizemos é o seguinte: respeitem-nos. Não é respeitem-nos, peço desculpa, respeitem a vontade do povo português. Nós temos um programa de governo para executar. Vocês não têm que votar a favor. Permitam-nos é ser responsáveis.

Esse apelo será certamente feito agora quando se aproxima o orçamento de Estado. O Chega já sinalizou que estará fora nessa viabilização. Acredita que será José Luís Carneiro a salvar mais uma vez um orçamento do governo?

Não faço a mínima ideia. Eu julgo que o papel do governo é apresentar um governo que garanta rigor nas contas públicas, mantenha a orientação transformadora do país e depois caberá ao governo dialogar com os parceiros e tentar a aprovação do orçamento de Estado. Miguel, deixe-me dizer-lhe só o quadro em que vamos enfrentar o orçamento de Estado. Isso também é muito importante. Nós vamos enfrentar no orçamento de Estado os últimos reembolsos do PRR que serão pagos em 2027. O ano do restauro das consequências do tal comboio-tempestado, do PTRR, será em 2027. Tivemos num quadro internacional de insegurança. Acabamos de ter, aliás, a conferência da NATO, que no pilar europeu, reforçou significativamente o investimento em defesa para aumentar as nossas capacidades, perante um mundo em que as democracias estão mais pressionadas. Acham que é a altura certa para andar a chormar orçamentos para garantir o seu próprio eleitorado? Será que estes partidos não conseguem olhar um bocadinho para fora da sua fronteira partidária e perceber que o país precisa ter um orçamento? Julgo que esta é a principal questão que deve ser colocada.

Portanto, neste contexto, governar em duodécimos seria um drama

Governar em duodécimos nunca é bom para o país. Eu julgo que o Presidente da República o que quis garantir foi que não fazia do orçamento uma questão de uma relação automática com uma crise política que levaria a eleições, precisamente porque o país teve muitas eleições. Agora, não vamos mentir, num quadro internacional e nacional destes, por motivos partidários, chumbar um orçamento de um governo que foi a votos há um ano e meio, isto é explicável para algum português? Eu julgo que não. Eu julgo que há muitas perguntas que daqui para frente terão que ser feitas, mas também terão que ser feitas às lideranças da oposição.

E acredita convictamente que a legislatura vai chegar até o fim?

Claro que acredito.

Com o quadro que descreveu dos bloqueios da oposição, de um eventual risco do duodécimo.

Não, deixe-me dizer-lhe, eu acredito porque foi nisso que os portugueses votaram. É uma questão de respeitar a vontade dos portugueses. Os portugueses estão fartos de eleições. O facto de não nos terem dado uma maioria absoluta não significa que a mensagem política não tenha sido evidente. Luís Montenegro é primeiro-ministro de Portugal, deve formar governo, deve governar e ser responsável pelos resultados. E o que nós estamos a dizer é que esse é o caminho que iremos seguir.

Se houver eleições antecipadas, o PSD deve pedir maioria absoluta?

Se houver eleições antecipadas... Repare, o PSD fez história na democracia portuguesa pelo seguinte: nós, com toda a humildade, acho que isto é um facto inegável, nós deixamos sempre um país melhor do que aquele que o recebemos. Não deixa de ser também verdade, também o fizemos porque somos um partido de vocação maioritária. Conquistámos maiorias de confiança para fazer essa transformação. E esse é, de facto, o desafio central do partido onde tenho responsabilidades e deste governo, da entrega de resultados por este governo. Mas nós só poderemos ser responsáveis se conseguirmos entregar políticas e resultados. Este é que é o ponto.

Logo, sim, deve pedir maioria absoluta.

Claro, não tenho dúvida nenhuma. Eu sei do partido que faço parte. Nós somos um partido de vocação maioritária e não vamos abdicar disso.

Percebemos que não queira antecipar cenários, mas é importante perceber a sua posição numa questão que se pode vir a colocar no futuro. Se o Partido Socialista vencer as eleições legislativas, mas existir uma maioria de direita, vamos simplificar, o PSD deveria governar com o Chega?

Miguel, eu peço-lhe que me respeite um bocadinho. Eu não sou analista, eu sou político. Eu nem quero equacionar. Do que tenho visto do Partido Socialista...

Está à frente nas sondagens.

Não, tudo bem. As sondagens são um barómetro importante e não vou aqui estar a fazer a avaliação dessa, daquela...

Estamos a pedir uma posição de princípio, que é uma discussão que existe no Partido Social-Democrata.

Essa discussão não existe, porque no Partido Social-Democrata estamos confiantes que as eleições são em 2029 e eu não sei do que o Partido Social-Democrata está a falar. Eu sou dirigente de uma estrutura distrital, e uma importante, e essa discussão não existe. Quer dizer, nós queremos cumprir a legislatura, queremos cumprir o mandato que o povo nos deu, queremos entregar resultados. Agora, está-me a pedir para fazer de analista. Eu não sou analista, Miguel. Seja lá o que for...

Por isso é que eu disse que era uma posição de princípio. Imaginemos que as eleições são só em 2029, porque é o calendário natural. Qual é a sua posição de princípio em relação a acordos com o Chega?

A minha posição de princípio é esta: deve governar quem ganha.

Muito bem, já é uma posição de princípio que responde em parte à segunda questão que tínhamos para si, que é se o Chega ficar em primeiro lugar em futuras eleições, PS e PSD não devem juntar-se para impedir que o Chega governe, é isso?

Miguel, eu julgo que já lhe respondi, mas esse não é um cenário. Repare, eu sou dirigente do PSD e o Miguel está a perguntar-me, a sua única equação é: e se o PSD perder eleições? Eu não tenho outra equação, mas não tenho mesmo outra equação que não seja o PSD ganhar eleições. Eu não sou analista.

Mas já disse que governa quem ganha.

Isto é uma convicção de princípio minha, que eu acho que deve governar quem ganha. Agora, as circunstâncias em que tudo isso acontece, etc. Vá, por amor de Deus.

Mudando aqui de assunto, na primeira grande entrevista como líder do PSD de Lisboa, não escondeu uma profunda admiração por Pedro Passos Coelho e defendeu que o partido deve ouvir e valorizar as intervenções do antigo primeiro-ministro. Se Luís Montenegro falhar, o futuro do partido deve passar pelas mãos de Pedro Passos Coelho? É mais um cenário.

Não, eu sei. Pronto, um dia contratem-me e eu venho aqui fazer de analista, mas têm que me pagar, eu sou político. Eu vou voltar a repetir, eu não tenho outra equação. O Luís Montenegro mereceu a confiança dos portugueses. É não conhecer o PSD. Um líder do partido que merece a confiança dos portugueses, o meu partido dá-lhe o direito a governar e a recandidatar-se, e a lutar por essa maioria de confiança e merece esse apoio. Não cá agora essa equação. O que eu sou contra é esse automatismo de uma figura com a estrutura política do Pedro Passos Coelho, que eu julgo que acrescenta valor à democracia, por emitir uma opinião, tem que ser imediatamente candidato a alguma coisa. Epá, eu só acho que isso revela, se querem que vos diga, alguma imaturidade democrática, porque não é assim.

O próprio Pedro Passos Coelho disse que voltaria se isto que existe neste momento corresse mal. A pergunta que lhe estamos a fazer é se considera ou não que esse regresso é um assunto fechado.

Eu não tenho a ousadia nem a arrogância de falar em nome do Pedro Passos Coelho. Vejo aí muita gente que parece que tirou licenciaturas e mestrados em comunicação do Pedro Passos Coelho. Eu não tenho essa ousadia. Do que identifico com a personalidade política dele, ele é o primeiro interessado em que isto corra bem para o país. E é por isso que eu o admiro É um homem muito menos preocupado com essas análises e quadros partidários e muito mais preocupado com o futuro do país, com o futuro que deixamos. Portanto, isso não se coloca, Inês, eu peço desculpa.

Essa confessa admiração que tem por Pedro Passos Coelho não ficou afetada quando o antigo primeiro-ministro falou em prostitutos sem caráter?

Não, não ficou. E acho que esse é um exercício desagradável. Pedro Passos Coelho estaria a falar numa conferência, de certeza que lhe fizeram uma pergunta em abstrato sobre um determinado tema.

Não foi uma pergunta, foi uma intervenção do próprio.

Certo, Miguel. Mas pode estar a responder a uma questão que lhe tenham colocado no ambiente de conferência. Eu não estive lá. E no meio, tiram uma citação e por que isso tem imediatamente que ver com o PSD? Estava a abordar como é que na Europa estava a reagir ao populismo, possivelmente era uma coisa dessas. Epá, por amor de Deus! Acho que isso é um exercício...

Seguindo em frente, surgiram notícias que nunca foram desmentidas de que Carlos Moedas tentou convencer Sebastião Bugalho a concorrer contra si na eleição para a distrital do PSD de Lisboa. Conseguiu perceber quais é que seriam estas motivações do presidente da Câmara?

Não, nem procurei perceber. E eu só falo por mim. Eu quis liderar a distrital de Lisboa, apresentei uma candidatura e fui procurar apoios para fazê-la. A minha preocupação era o que a minha liderança podia oferecer à distrital de Lisboa. Não estava minimamente contente.

Mas ficou desagradado com esse gesto de Carlos Moedas?

Não. Carlos Moedas na sua liberdade, eu não sei se isso é verdade, se deixa de ser verdade, mas se for verdade, não havia problema nenhum. É dirigente do partido, é presidente da Câmara de Lisboa, por amor de Deus. Era só o que faltava, não me mudou nada.

Carlos Moedas vai a caminho dos cinco anos de presidência na Câmara de Lisboa e tarda em encontrar soluções para problemas como o lixo e também existem outros problemas na cidade como na questão da mobilidade e na habitação. Moedas tem feito um bom trabalho?

Eu julgo que o Moedas tem feito um trabalho extraordinário, naquilo que depende dele: aceleração de prazos de licenciamento para nova habitação, entrega de resultados concretos com nova habitação, reforçou a equipa precisamente por causa de um problema crónico que tem a ver com higiene urbana, que começa a apresentar resultados, reforços de meios. Agora existe neste mandato em que o Carlos Moedas conquistou uma maioria e estamos num período ainda muito recente, que possa entregar resultados. Eu tenho total confiança, tal como os lisboetas lhe deram, na capacidade gestionária do Carlos Moedas, em responder a essas questões e responder por elas.

E depois de Carlos Moedas ter adiado até ao máximo o anúncio da recandidatura em 2025, faz-lhe sentido ou compreende que tenha anunciado uma pré-candidatura a 2029 no Congresso da Naria do PS?

Eu não posso responder pelo Carlos Moedas. Possivelmente o racional que ele tinha para ter tomado a decisão no exercício de funções mais próximo da candidatura, não são exatamente as mesmas condições que ele entende ter agora de manifestar o desejo de se recandidatar. Eu, como presidente da distrital de Lisboa, como deve imaginar, fico contentíssimo pelo presidente da Câmara de Lisboa deixar clarinho que irá a votos procurar a confiança dos portugueses. Quanto ao quadro decisório de eleição, é uma pergunta que eu nem sequer me atrevo a responder, porque não estou dentro da cabeça do Carlos Moedas, só ele mesmo é que pode responder.

Temos mais um desafio para o analista Bruno Ventura. Falávamos do futuro do PSD no pós Montenegro. Esse futuro pode passar por Carlos Moedas? Seria um bom presidente do partido e bom candidato a primeiro-ministro?

Eu vou responder nos mesmos termos. Vocês escrevem muito sobre isso. Eu acho que aqui tenho um alinhamento com os portugueses. Estou nas tintas para essa conversa. Deixe-me ser absolutamente claro: nas tintas. A minha concentração como presidente da distrital de Lisboa é como é que eu ajudo o meu partido a fazer algo que não consegue fazer desde 1991, com políticas que mudem para melhor a vida das pessoas, nomeadamente nas periferias urbanas, que respondam a questões que vivem na área da saúde. Como é que o Governo pode fazer essa mudança na área da segurança, na escola pública? Esta é a minha preocupação, é responder a estes problemas que gerou frustração na vida das pessoas e ajudar o meu país a construir uma maioria de confiança com o Luís Montenegro, que está no início do ciclo político. Essa conversa sobre políticos e futura liderança, com honestidade é uma conversa para vocês. A mim interessa-me nada e aos portugueses que trabalham todos os dias e muito, interessa-me também.

Deixe-me fazer-lhe uma última questão antes de avançarmos para o segundo segmento do nosso programa, até porque falou e tem refletido muito sobre isso mesmo, sobre os problemas que existem nas periferias das grandes cidades e também das frustrações que se foram acumulando, que coincidem em grande parte com o crescimento do Chega. E aqui peço-lhe também alguma capacidade de autorreflexão. Se o Governo falhar, o Governo está em funções neste momento, falhar em responder a esses problemas que se têm acumulado nessas regiões muito particulares do país, o crescimento do Chega pode ser um problema sério para o PSD e para o Partido Socialista, aqui no caso, o PSD que está no poder. Dito de outra forma, se o Governo não resolve os problemas, o Chega pode ultrapassar o PSD.

Eu vou responder-lhe de outra forma. Repare no seguinte, eu estou muito convicto que o crescimento de forças políticas como o Chega, germinaram precisamente com a frustração dos portugueses comuns que trabalham sobre falta de respostas em áreas essenciais como a segurança, como a escola pública, como a saúde. A missão do meu partido no Governo é de facto resolver esses problemas. Em alguns setores já estamos a conseguir fazê-lo. Portanto, com certeza que o combustível de um partido da natureza do Chega reside na frustração das pessoas. Agora nós não resolveremos isso com berro No meio do ruído. Nós resolvemos isso com política e com proposta política. E foi isso que a distrital de Lisboa trouxe ao congresso do partido. Repare, para nós é inconcebível que a escola pública seja um reduto para famílias que não têm recursos, deve ser uma opção de qualidade.

Mas se fosse hoje a votos, esse descontentamento já se atenuou nos últimos anos, sendo que o Chega poderia não crescer?

Deixe-me dar-lhe um exemplo. Às vezes nós discutimos muitas reformas estruturais, eu acho que o país precisa delas, não sou daqueles que tem medo do nome, mas há mudanças políticas, que nós não chamamos reformas, mas que são muito importantes. Eu vou lhe falar duas: o IRS Jovem e a política de habitação para jovens. Voltou a fixar talento em Portugal. Isso faz diferença. São pais, mães e avós que veem os seus netos, os seus filhos, a poder comprar casa, a terem dignidade salarial e a ficar no seu país. Um exemplo. Um segundo exemplo muito importante sobre a escola pública, e não estou a dizer que não têm que ser produzidas mudanças, porque defendo e defendi publicamente que o governo deve aprofundar as mudanças. A escola pública que construímos respondeu ao país da década de 90. Já não consegue sem mudanças, responder às expectativas de hoje. E eu, como pai, acho absolutamente inadmissível construirmos um país em que a qualidade da educação dependa da carteira dos pais. E por isso, temos que produzir mudanças. Mas deixe-me dar-lhe um exemplo de uma mudança muito simples conduzida pelo ministro Gonçalo Matias. Hoje o país tem mais 300 professores a dar aulas, porque olhámos para o Estado. Olhámos para o Estado e percebemos que havia professores a fazer trabalho administrativo duplicado e pusemos os professores nas salas de aula. Há matérias que são precisas mudanças de paradigma, mas há também decisões que o governo pode tomar, que produzem resultados positivos e este é um exemplo destes. E isto, já agora, na qualidade de presidente da distrital de Lisboa, este mesmo princípio de atuação deve ser aplicado. Às vezes nós falamos sempre à socialista e resolve-se tudo com aumento de taxas e de recursos. Aqui tem o exemplo que não se resolveu assim. E o mesmo pode ser feito em relação às forças de segurança. O mesmo princípio de atuação pode ser feito em relação às forças de segurança. Colocar os recursos que temos onde existe perceção de crime, para preveni-lo, apostar mais nisso e olhar para que polícias devem estar na rua a proteger os nossos cidadãos, a fazer política de proximidade, a garantir uma sensação de segurança onde existe perceção de insegurança, que hoje estão a fazer trabalho administrativo. Eu acho que o governo irá nesse caminho e eu apoio esse caminho.

Muito bem, Bruno Ventura, vamos avançar para o segundo segmento do nosso programa, o bloco Carne ou Peixe. Só pode escolher uma de duas opções. Vai perceber rapidamente as regras do jogo. Venha daí a trilha. É de Vila Franca de Xira, terra de toureiros e de touradas.

Peço desculpa, e de touros também.

E de touros, obviamente. Quem preferia ter como parceiro numa pega, Paulo Núncio, que já tem um currículo nessa matéria, ou António Leitão Amaro?

Não, de longe, Paulo Núncio, porque ele já está experimentado. Não é que não confie no António, confio imenso no António, ele não me iria deixar mal em frente a um touro, mas o Paulo Núncio já está experimentado na tourada.

Vou fazer uma batota aqui. Paulo Núncio ou Pedro Pinto, que também gosta muito de tourada.

Paulo Núncio, sempre. Porque sei que esse aguenta a dor. Não muda de posição porque fica mais difícil.

Com quem gostaria de assistir a um jogo do seu Benfica, André Ventura ou José Luís Carneiro?

André Ventura.

E quem levava para umas férias em Cabo Verde, Sebastião Bugalho ou Alexandre Poço?

Alexandre Poço.

Por fim, quem preferia ter como guia turístico num passeio pela capital, Ricardo Mexia ou Carlos Moedas?

Turístico?

Chame-lhe o que quiser. Pode ser um passeio pelo rio Tejo.

Eu não consigo escolher. Acho que seriam os dois companhias agradáveis. Aí eu peço desculpa, mas não consigo.

Muito bem, Bruno Ventura, como é hábito no nosso programa, o convidado serve a sobremesa, no caso, uma música. Que música que nos traz e por quê?

Olhe, eu sei que isto vai parecer comercial e pouco larujo, mas é uma música que diz muito às pessoas que são as pessoas mais importantes da minha vida. E então eu escolhi uma música chamada "Beautiful Things", do Benson Boone.

Muito bem. Bruno Ventura, muito obrigado por ter vindo a esta Vichy Soares. Os nossos ouvintes já sabem, podem ouvir esta entrevista nas plataformas habituais ou lê-la na íntegra no site do Observador. Até à próxima.