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Seja bem-vindo ao "Vozes Circulares". É um podcast da Associação Smart Waste Portugal, onde fica a saber tudo sobre economia circular e sustentabilidade. No episódio anterior falamos de ecodesign, mas hoje vamos saber o que é produção eficiente. E para isso tenho comigo a Cláudia Coelho, é partner responsável pela área de sustentabilidade e alterações climáticas da PwC Portugal, e também a Silvia Machado, diretora executiva de sustentabilidade na CIP, Confederação Empresarial de Portugal. Muito obrigado por terem vindo à Rádio Observador participar aqui no "Vozes Circulares". Começaria aqui com a Cláudia. Cláudia, de que é que falamos quando falamos de produção eficiente? E o que este conceito tem que ver também com a economia circular?
A economia circular é um conceito abrangente, que no fundo procura otimizar tudo o que tem a ver com uma produção, desde o seu desenho até ao destino final. E, portanto, quando nós falamos aqui de produção eficiente, estamos a focar-nos numa etapa específica do processo, que é a etapa de produção. Complementa aquilo que referiu anteriormente com tudo o que tem a ver com o ecodesign, a montante, e depois é complementada também a jusante, com tudo o que tem a ver com as etapas de reciclagem, reutilização e tudo o que tem a ver com a otimização desta fase pós-uso. Portanto, nesta fase de produção eficiente, nós referimo-nos a tudo o que tem a ver com a otimização dos processos produtivos.
E aí há uma série de conceitos também nessa parte, não é?
Há uma série de conceitos e há uma série de temas envolvidos. Ou seja, quando falamos de produção eficiente-
Tecnologias de automação, eficiência energética.
Sim, e aplicadas a várias áreas. Ou seja, não estamos só a falar de energia, estamos a falar d'água, estamos a falar de todas as matérias-primas que são usadas. No fundo, estamos a falar de usar da forma mais eficiente os recursos, de forma a produzir a mesma quantidade utilizando o mínimo de recursos e produzindo o mínimo de desperdícios. Mas é um conceito que, na prática, integra desde este uso consciente das matérias-primas, da água, da energia, até a questão como o tempo alocado à produção. Portanto, é abrangente e é um tema de sustentabilidade. Nem sequer tem só a ver com o ambiente, tem a ver com a parte de recursos alocados e tem necessariamente uma ligação muito grande com a própria sustentabilidade do processo.
Há, de facto, já uma relação que se pode estabelecer entre a produção eficiente, a redução de custos e o aumento da competitividade das empresas que optam por isto?
Há, naturalmente. Eu diria que a produção eficiente é algo que faz sempre sentido para uma empresa, e o conceito da economia circular, no fundo, destaca a importância de pensar também na eficiência nesta fase da produção, mas para uma empresa, logicamente, que tudo o que tem a ver com reduzir o custo associado a um consumo de uma matéria-prima, d'água ou de energia, é aumentar a sua eficiência e aumentar a sua competitividade e, portanto, nesse sentido é um conceito que por si se justifica e que não seria necessário chamar economia circular para ele fazer sentido para uma empresa.
Silvia, bem-vinda também. Estas transformações mais operacionais de que estava aqui a falar a Cláudia, presumo eu, devem ser acompanhadas de mudanças também, se calhar, na cultura organizacional das próprias empresas. O que é que pode ser feito para iniciar esta transformação? Presumo que há aqui adaptações que se tenham que fazer também a esse nível.
Sim, bom dia, obrigada pelo convite para estar aqui. Sim, como qualquer mudança, a probabilidade de sucesso é maior se todos estiverem focados no mesmo objetivo. E a economia circular, como um modelo de produção sustentável, exige uma mudança na forma como as pessoas, neste caso os colaboradores e todos os stakeholders da empresa, veem e utilizam os recursos. A integração de práticas de produção eficiente implica ter objetivos, ver os recursos como algo mais valioso do que só um meio para chegar a um fim. E o objetivo de eficiência integrado na estrutura implica uma alteração de comportamento da cultura, da estrutura da empresa, alinhar os valores e objetivos da empresa e colaboradores. Uma cultura alinhada promove esse compromisso da própria estrutura, incentiva os colaboradores a adotarem práticas mais sustentáveis e reduz então aquele problema que é as transformações operacionais normalmente enfrentam sempre algum atrito, alguma resistência. Se todos estiverem focados no mesmo objetivo, esse atrito é ultrapassado. E, por outro lado, as empresas que promovem a economia circular e a eficiência com autenticidade, portanto, vamos pôr de lado a ideia do greenwashing.
Já temos falado aqui nalguns episódios sobre esse conceito também.
Além de terem maior capacidade de melhorarem a sua imagem perante clientes e parceiros, aumentam também a sua atratividade para atrair e reter melhores competências.
Estas transformações são mais desafiantes para pequenas e médias empresas?
Sim. As pequenas, desde logo, porque não têm estrutura suficiente, a maioria delas não tem as competências ainda certas e necessárias para desenvolver uma estratégia de sustentabilidade que inclua as boas práticas da economia circular e, portanto, logo de início, têm a barreira do custo de investimento inicial em aquisição dessas competências ou subcontratação dessas competências.
E há apoios para esses casos?
Muito poucos. Teoricamente, existem intenções, boas intenções, mas, na verdade, por exemplo, o Portugal 2030 tem quatro avisos previstos para abrir no último trimestre de 2024 e só um é que está aberto. Os outros três ainda não se tem notícia nenhuma da abertura do concurso. O PRR não tem praticamente nada explícito relacionado com a economia circular. Tem algo lá que tem a ver com edifícios, creio eu, lá num item. O último aviso que foi aberto para a medida Vale Economia Circular, que era aquele mais O apoio mais vocacionado para PMEs, o último aviso foi de 2018. Incentivos também não são muitos, são mais regulatórios do que incentivos de fato. Por exemplo, a obrigatoriedade de incorporar uma certa percentagem de matérias-primas secundárias em obras é algo que existe teoricamente, mas na prática não é fiscalizado e não podemos dizer que existe. Assim como os contratos públicos ecológicos têm já critérios relacionados também com boas práticas de circularidade, mas no fundo, qualquer pessoa da administração pode dizer que o preço continua a ser o fator principal na escolha. E vamos ter metas de incorporação de matérias-primas secundárias em quase todos os produtos com a implementação do regulamento Ecodesign, mas podem não existir as matérias-primas secundárias com qualidade suficientes no mercado. E o que as empresas encontram é muitas vezes obstáculos administrativos, burocráticos, custos para conseguir desclassificar um resíduo, por exemplo. Teoricamente, o processo foi facilitado, deixou de ter uma taxa associada, mas depois tem que recorrer a um centro tecnológico que ateste que esse produto não é perigoso e fazer imensos testes. Isso tudo é muito oneroso e muito complicado para as pequenas empresas, é muito difícil.
Principalmente para essas.
Principalmente para as pequenas.
Cláudia, eu tinha, por acaso, essa questão para você, que era: quais são, de fato, as principais dificuldades que as empresas encontram na implementação destas mudanças, se são financeiras, se são muitas vezes culturais, haver se calhar uma ausência de literacia para este assunto também.
É um misto. A Silvia já tocou aqui em alguns dos pontos, mas nós temos, por um lado, toda esta questão mais cultural, que tem a ver quer com hábitos, quer com a componente de conhecimento e literacia, mas depois temos, inevitavelmente, a questão financeira. Muitas vezes estes processos, apesar de terem, logicamente, um retorno financeiramente e do ponto de vista ambiental, eles implicam sempre um investimento. Não existindo este contexto de apoio ao investimento, as empresas muitas vezes acabam por ir adiando este tipo de iniciativas. Ao mesmo tempo que nós temos estes entraves, temos nova legislação permanentemente a colocar às empresas mais exigências. Eu diria que este é um momento difícil para as empresas, até para as empresas de menor dimensão, porque se veem perante um quadro de apoios que não é muito favorável, quando depois têm legislação, e estou a pensar, por exemplo, numa diretiva que vai obrigar a fazer um relatório de sustentabilidade e dizer de forma concreta que metas é que as empresas têm para melhorar determinados aspectos.
Algumas empresas já fazem isso. Já têm o seu site, o seu relatório de sustentabilidade.
Já fazem, mas fazem-no de uma forma, em muitos casos, voluntária, e isso vai mudar. A partir do momento em que fica a ser algo que é obrigatório, e esta diretiva tem muito mais do que ser uma lógica de comunicação do desempenho, é muito mais uma lógica de comunicação da estratégia da empresa nestas áreas. Neste contexto, as empresas vão mesmo ter que assumir algumas metas, e para assumir essas metas têm que ter associadas ações, comunicar quais são as ações. É suposto que esta diretiva venha promover, incentivar e ser um driver relevante para a implementação de todas estas medidas. Precisamos é que exista, em complemento, um quadro de apoio, apoio financeiro, apoio do ponto de vista de conhecimento, de ferramentas, que efetivamente ajude as empresas a criar aqui sinergias, porque uma coisa é pensar nisto ao nível das grandes empresas, outra é pensar em empresas de menor dimensão, muitas vezes empresas familiares, que não têm, de fato, esta cultura enraizada.
Estamos aqui também numa fase em que as tecnologias estão em franco desenvolvimento. Nos últimos tempos, muito se tem falado em inteligência artificial e outras. Acredita que as novas tecnologias podem ser um aliado nas empresas, na adoção de práticas de produção mais eficiente?
Podem, claro. Vai demorar. Eu acho que vai demorar um pouco a chegar, mas sem dúvida, porque tudo o que tem a ver desde as ferramentas ao nível da monitorização e detecção, detectores, sensores, podem otimizar processos e sobretudo adaptar aquilo que são os consumos, otimizando e evitando o desperdício. Relativamente à inteligência artificial, também com grande potencial, na medida em que nos permitem antecipar e antever falhas, perceber onde é que há áreas de melhoria e gerar também aqui oportunidades de melhoria e de eficiência. Outra área em que toda a parte da tecnologia vai ser determinante é mesmo na capacidade de monitorização destes aspetos, que muitas vezes, como não são medidos, também é muito mais difícil efetivamente conseguir perceber onde é que há áreas de melhoria, definir objetivos e procurar então alcançar melhores resultados.
É preciso, pelo que percebi, ter muita informação para avançar depois com um plano que faça estas alterações ao nível da produção, não é?
É.
Perceber onde agir, como agir.
É isso. Sobretudo porque são áreas que tradicionalmente não estão tão habituadas a produzir informação para gestão. Muitas vezes, esse foco está na informação mais financeira ou até tem uma vertente mais financeira, quando aquilo que se pretende é cada vez mais ter vertentes operacionais que ajudem efetivamente a otimizar processos.
Silvia, como é que está o tecido empresarial português na adoção destas práticas e metodologias? E se calhar pensar também em comparação com os nossos vizinhos Concorrentes europeus, diria. Estamos bem posicionados ou ainda estamos muito atrás?
Estamos um pouquinho atrás, mas as empresas nacionais nesta fase estão mais sensíveis e mais à frente até do que se possa pensar, porque não comunicam ainda tudo aquilo que fazem, que pode ter motivações diversas. Uma delas é a eficiência pela poupança de custos. Depois, não conhecem bem os conceitos. Nós fizemos um projeto de um ano sobre a economia circular, em que fizemos a fotografia das empresas em Portugal, isto já foi em 2020, creio eu, e descobrimos imensos exemplos de boas práticas que as próprias empresas não identificavam como tal. Portanto, há aqui um bocado de falta de literacia sobre os conceitos, sobre aquilo que podem alegar que fazem bem e sobre como transmitir o que fazem para o exterior. Voltamos à primeira questão, à da cultura da organização, à mudança do paradigma de todos nós como consumidores e como colaboradores das empresas. Obviamente, as empresas com maior exposição ao consumidor são as que mais avançaram por exigências do mercado.
Ia perguntar isso, porque essas empresas tornam-se mais atrativas também do ponto de vista do consumidor, que olha para os seus produtos de uma forma que os valoriza mais.
É, claro que sim. Já há muitos estudos e muitos inquéritos que provam que as pessoas estão mais interessadas em produtos mais sustentáveis, em que a performance da própria empresa, e não só do produto, é mais sustentável. Depois, vai um grande espaço ainda desde o terem essa intenção até à realização dessa intenção, por uma questão de custo do produto, que normalmente é mais elevado do que outro tipo de produto. E as exigências regulamentares e o enquadramento económico também estão a promover esta necessidade de implementação dessas boas práticas. Todo o enquadramento geopolítico, os custos elevadíssimos que temos hoje em dia de matérias-primas, a escassez de matérias-primas, o seu preço e o preço sobretudo da energia, levam a essa necessidade de implementar práticas de produção mais eficiente. E depois já esta questão mais profunda, muito mais alargada, que é a das estratégias de sustentabilidade, que cada vez mais as empresas vão sentir que têm que ter realmente a informação muito mais estruturada, um levantamento muito mais quantitativo daquilo que fazem e como fazem, porque embora as mais pequenas não estejam abrangidas por esta diretiva do que a Cláudia estava a falar, do reporte de sustentabilidade, elas estão em cadeias de valor, quer a nível nacional, quer a nível internacional, e portanto vão acabar por lhes ser exigido que comuniquem o seu nível de performance em vários itens, e muitos deles estão relacionados com a economia circular e com a eficiência. E portanto, seja por redução de custos, seja por obrigatoriedade regulamentar, seja por estas questões do mercado, seja B2B ou B2C, as empresas vão ter obrigatoriamente que investir nesta área da economia circular e da sustentabilidade de uma forma geral.
Muito bem, falámos hoje com a Cláudia e a Silvia no "Vozes Circulares" a propósito de produção eficiente, otimização, melhoria contínua, são conceitos associados também às práticas de economia circular. Pode ser desafiante, muitas das vezes, para as empresas, mas já percebemos que é um fator, já hoje, de enorme competitividade entre elas e um conceito indispensável para que cada dia esta economia se torne mais circular. Junte-se a nós no próximo "Vozes Circulares", aqui na Rádio Observador e nas plataformas de podcast.