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Incêndios 2016

Como é que é ser bombeiro em Portugal?

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Mais de 90% dos bombeiros portugueses são voluntários. Homens e mulheres que colocam a vida em risco para combater as chamas e ajudar os outros. Sem pedir nada em troca.

Existem cerca de 30 mil bombeiros no ativo em Portugal

NUNO ANDRÉ FERREIRA/LUSA

Combatem as chamas até ao último homem, mas o trabalho dos bombeiros portugueses não se resume a extinguir fogos. São socorristas, transportam doentes, atuam em situações de risco e até arrombam portas quando alguém se esquece da chave de casa. Hoje em dia, são o principal agente da Autoridade Nacional de Proteção Civil e, apesar de ganharem maior destaque nos meses quentes de verão, só 7% da sua atividade é que está relacionada com fogos florestais. Na maioria das vezes não recebem salário, mas não se importam com isso. O que fazem, fazem por gosto — pela paixão por uma profissão que é muito mais do que isso. Ser bombeiro é uma forma de vida.

Existem cerca de 30 mil bombeiros no ativo em Portugal. Destes, 92% são voluntários que exercem a profissão nos tempos livres. A diferença de números é grande e pode parecer estranha para quem está do lado de fora. Jaime Marta Soares, porém, acredita existirem boas razões para isso. Históricas e não só.

Os bombeiros nasceram há quase 650 anos a partir de estruturas associativas que, com o passar do tempo foram “criando um grande espaço de resposta”. Por esse motivo, nunca houve necessidade de “criar estruturas profissionais, porque havia uma estrutura associativa”, explicou ao Observador o presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses. Além disso, é preciso muito dinheiro para sustentar um corpo de bombeiros.

“O Orçamento do Estado para os bombeiros é de cerca de 26 mil euros. Só dois corpos de bombeiros profissionais custam 65 milhões de euros a duas câmaras municipais”, referiu Jaime Marta Soares. É essa a razão que explica a existência de apenas sete corpos profissionais de bombeiros em Portugal, localizados em sete grandes cidades portuguesas. Funcionam de maneira diferente daquela que caracteriza as corporações associativas, porque estão sob a alçada das câmaras municipais.

Os restantes não são corpos “amadores, são profissionais”, frisou o presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses. Tratam de “tudo o que é necessário para uma vida em sociedade”. “Quando desaparece uma pessoa de casa, vão sempre os bombeiros. Se uma pessoa se esquece da chave de casa, chamam-se os bombeiros. Se há um enxame de abelhas na chaminé, chamam-se os bombeiros. Se o gato está em cima da árvore, chamam-se os bombeiros.”

Mas não só. São também os bombeiros que fazem o transporte de emergência de doentes e que atuam em situações de socorro, trabalhando em conjunto com o INEM. “Os bombeiros são responsáveis por 95% da atividade do INEM. Até muitas vezes, quando dizem ‘já chegou o INEM!’, o que chegou foi o carro porque quem lá vai são os bombeiros. Os bombeiros são hoje o principal agente da proteção civil em Portugal, porque em todos os teatros de operações andam na ordem de 97%.”

São voluntários por opção, mas profissionais. É como um amor de um rapaz por uma rapariga. É como apaixonar-se. Apaixonam-se pelos bombeiros, como eu me apaixonei.”

Quanto ganha um bombeiro em Portugal? Pouco mais de 500 euros

Miguel Ferreira, de 24 anos, é um desses apaixonados. Bombeiro na Póvoa de Varzim, é profissional e voluntário ao mesmo tempo, uma situação rara em Portugal. Durante a semana, faz transporte de doentes em ambulâncias e outras tarefas relacionadas com assistência médica. Ao fim de semana, se a sirene tocar, combate o fogo como bombeiro voluntário.

Escolher a profissão foi fácil. O pai, os tios e os primos são todos bombeiros. E Miguel Ferreira cresceu no interior de um quartel. “Até há bem pouco tempo, a minha família era a maior no ativo dentro de um corpo de bombeiros. Cresci dentro do quartel”, contou ao Observador. “Muitas vezes ia com o meu pai. Quando havia um incêndio e eu não podia ir porque era pequeno, ficava horas à espera que ele voltasse.”

Como bombeiro, recebe cerca de 500 euros por mês, dependendo dos subsídios. Mas a maioria dos seus colegas nem isso recebe. Entre os voluntários, são cerca de 20% os assalariados, de acordo com Jaime Marta Soares. Para esses, o salário é pouco mais do que o ordenado mínimo, como o de Miguel. Há ainda aqueles que, nos meses mais problemáticos, recebem 1,75 euros por hora e que integram uma escala rotativa. Esta escala, composta sempre por cinco elementos, é formada nas corporações onde não existe equipa de intervenção permanente, reforçando assim a presença no quartel. Mas “1,75 à hora é quase voluntário”, desabafou Miguel Ferreira.

Portugal: Incêndio em Vila Nova, Viseu

NUNO ANDRÉ FERREIRA/LUSA

Os bombeiros da Póvoa de Varzim são uma das muitas corporações portuguesas onde não existe uma equipa permanente. “Sempre tivemos gente muito boa. Toca a sirene e aparece. Nunca foi preciso criar algo assim”, contou Miguel. “Mas essas pessoas têm família, têm de pagar as contas. Não é a apagar um incêndio que isso vai acontecer. Todos o fazemos com imenso gosto, mas não é isso que vai pagar as contas ao final do mês. Em Portugal, o ordenado de bombeiro é ridiculamente baixo. Em Espanha, ganham entre 2.000 a 2.500 euros.”

Entre os profissionais, o ordenado depende da posição hierárquica que ocupam. “Os sapadores têm ordenados razoáveis, com alguma dignidade”, referiu o presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses. Um bombeiro profissional em início de carreira pode chegar a receber cerca de 900 euros que, com os subsídios de alimentação e de turno, pode chegar aos mil euros. Mas os números podem variar.

Para Miguel Ferreira, porém, os problemas vão muito além dos ordenados. O bombeiro acredita que devia haver um maior reforço nas corporações. Como muitos dos seus colegas têm outra profissão, isso faz com que muitas vezes tenham de trabalhar longas horas. Os acidentes acontecem. “O meu primo, que é adjunto do comandante, esteve a combater o fogo até às 6h e tinha de ir trabalhar às 7h. Quando estava a ir trabalhar, teve um acidente de carro.”

Queremos fazer tudo e não queremos ficar a dormir e pensar que o fogo vai ficar pior. Mas, depois, quem sofre as consequências somos nós. Acho que não podemos contar só com a entreajuda. Porque, se esta não existe, é o fim. As coisas ficam descontroladas.”

Jaime Marta Soares também defende que deve haver um maior apoio, principalmente ao nível do financiamento e de incentivo ao voluntariado. “Um corpo de bombeiros tem muitas despesas. As viaturas têm desgaste, os quartéis precisam de manutenção.” É preciso comprar fardas, equipamento, e os bombeiros profissionais precisam de receber o ordenado ao fim do mês. “Os bombeiros andam alegremente a dar o seu melhor, muitas vezes a vida, para que a associação seja dignificada. A vida de bombeiro é de alto risco. Não é como um voluntário numa misericórdia.”

É por isso que Jaime Marta Soares acredita que é importante apoiar as associações de bombeiros. Não só para que “possam sobreviver para garantir o funcionamento da estrutura”, mas também para que os próprios bombeiros sintam que “a sociedade os reconhece como pessoas que dão tudo de si para que a vida das pessoas seja melhor. Para que a sociedade viva com mais segurança.”

Portugal tem um tesouro maravilhoso. Estas mulheres e estes homens são um tesouro — são os diamantes da sociedade.”

A forma como os corpos de bombeiros têm lidado com a situação difícil que se vive em Portugal é, na opinião do presidente da Liga dos Bombeiros, um reflexo claro da sua “grande competência”. Para Jaime Marta Soares não há dúvida: “Posso afirmar que são dos melhores da Europa e do mundo.”

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