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Falámos com o professor universitário que descobriu a Yupido por acaso

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Académico que descobriu o capital social de 29 mil milhões da Yupido explicou ao Observador a "anomalia estatística" que destacou a Yupido das mais de 300 mil empresas que estava a analisar.

"A missão da Yupido é dar aos seus clientes a infraestrutura e o apoio que precisam para operar com menos custos e maior eficiência", escreve a empresa

yupido

O investigador da Universidade do Minho estava a trabalhar na base de dados Amadeus — que reúne informação financeira pública de cerca de 20 milhões de empresas europeias — quando descobriu a “anomalia estatística” que pôs o capital social de 28,8 mil milhões de euros da Yupido a descoberto. Do total de organizações inscritas na base de dados utilizada em várias universidades no país — mediante um pagamento anual de cerca de 40 mil euros –, mais de 300 mil são portuguesas. É com os dados nacionais que o académico trabalha.

O professor que descobriu a história mistério da Yupido não quer ser identificado, mas explicou ao Observador como pôs as redes sociais (e mais tarde a imprensa) à procura de Torcato Jorge, Cláudia Alves e Filipe Besugo, os fundadores da empresa de consultoria lançada em julho de 2015.

Um dos seus trabalhos de investigação consiste em analisar a performance das empresas portuguesas. Correlacionando variáveis como o capital social, o número de trabalhadores, as vendas, lucros, entre outras, o investigador tenta identificar aquelas que são as empresas portuguesas com melhores desempenhos financeiros.

Às vezes, aparecem valores anómalos nesta pesquisa e tento perceber se é um erro da base de dados ou não”, explicou ao Observador, frisando que a base de dados é utilizada por vários alunos de mestrado e doutoramento. “Não fiz nada de estranho para chegar a esta informação”, acrescenta.

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Imagem da base de dados utilizada pelo investigador

Durante o trabalho de análise estatística, o professor da Universidade do Minho fez várias correlações entre os dados financeiros. Neste caso específico, bastou-lhe o valor do investimento inicial da empresa — os tais 243 milhões em “dinheiro ou equivalente” de capital social –, porque o aumento de capital ainda nem sequer estava inserido na base de dados. Na altura da “anomalia”, o académico desconhecia que a empresa tinha um capital social avaliado em 28,8 mil milhões de euros em bens intangíveis, em espécie.

A anomalia detetada na base de dados tinha por base apenas uma correlação: o capital social dividido pelo número de colaboradores da Yupido. Como a empresa não tinha colaboradores, este valor individual apareceu com um total de 243 milhões por colaborador.

Temos empresas com capital social superior aos 243 milhões, mas quando dividimos o valor de uma Galp, por exemplo, pelo número de trabalhadores da empresa, o valor que nos aparece é razoável. Na Yupido, o valor que aparecia era 243 milhões por trabalhador. Este número ainda é pior do que os 28 mil milhões”, explicou ao Observador.

O investigador conta que há várias empresas que lhe aparecem no radar com vários tipos de anomalias, mas que o da Yupido se destacou logo das restantes. “Suscitou-me curiosidade e, habitualmente, nem perco muito tempo com isto, tiro a empresa da amostra e pronto. Mas neste caso fui à Internet pesquisar e vi toda a informação que tinham online”, conta.

Um dos fatores que mais despertou a curiosidade do académico foi o facto de a empresa manter os 243 milhões em depósitos bancários. “Como é que a empresa tem 243 milhões de euros parados no banco?“, questiona.

Quando o professor se deu conta do aumento de capital que avaliava a empresa em perto de 29 mil milhões de euros, bastou-lhe uma pequena partilha no perfil privado que tem no Facebook para a informação chegar ao Twitter. A hashtag #yupido tornou-se de imediato numa das principais tendências da rede e os utilizadores começaram a disponibilizar cada vez mais informação. Depressa, a história da Yupido chegou à comunicação social.

243 milhões como capital inicial “não é habitual”

A Yupido é uma empresa de consultoria fundada a 20 de julho de 2015, por Cláudia Sofia Pereira Alves, Torcato André Jorge Claridade da Silva, Filipe Antunes Besugo e pelos advogados da Pares Advogados Tiago André Rodrigues Gama e Sofia Cristina Asseiceiro Marques Ferreira, com um capital inicial de 243 milhões de euros. A sede jurídica da empresa é na Rua Tomás da Fonseca, Torre G.1, 1º andar, em São Domingos de Benfica, mas não há lá ninguém a trabalhar — o endereço corresponde a um escritório virtual das Torres de Lisboa, onde estão sediadas várias empresas.

Encontrámos o escritório secreto da Yupido. Estes 29 mil milhões moram em Telheiras

O aumento de capital num valor superior a 28 mil milhões de euros — feito através de bens em espécie, ou seja, não envolvendo transações monetárias –, só foi realizado no início de 2016, e a divisão pelos acionistas foi feito da seguinte forma: 19,9 mil milhões de euros para Cláudia Alves, 8,3 mil milhões para Torcato Jorge e 275,8 milhões para Filipe Besugo. O Observador descobriu que os fundadores trabalham num escritório em Telheiras, onde costumam reunir com pessoas externas à empresa, mas quando o Observador lá foi, optaram por não abrir a porta.

Não se sabe muita coisa sobre os fundadores da Yupido. Torcato Jorge e Filipe Besugo desapareceram entretanto das redes sociais. Foram militantes da Juventude Popular (organização política jovem autónoma do CDS-PP) até lançarem a empresa, pertencendo à concelhia de Loures, mas demitiram-se em novembro de 2015 e no início de 2016. Torcato Jorge, que estudou Ciência Política no ISCTE, foi o primeiro a sair da Juventude Popular “por motivos profissionais”. Pouco depois, Filipe Besugo informou que ia juntar-se ao amigo e demitiu-se também. “Sumiram-se” depois disso, disse ao Observador fonte da Juventude Popular. Não deverão ter mais do que 26 anos, sendo que Filipe Besugo nasceu em 1993.

Questionado sobre se é habitual encontrar empresas portuguesas com fundadores tão jovens a iniciarem atividade com um capital social de 243 milhões de euros, o investigador da Universidade do Minho diz que não.

O valor não é habitual e quando o encontrei nem sabia a idade dos indivíduos, porque esses dados não aparecem na base de dados. “Aqui não houve nenhuma fuga de informação, nada, qualquer investigador que acede à plataforma tem acesso a estes dados”, disse.

O aumento de capital teve por base uma “plataforma digital inovadora de armazenamento, proteção, distribuição e divulgação de todo o tipo de conteúdo media”, tal como o Eco avançou, e a avaliação foi certificada pelo revisor oficial de contas (ROC) António José Alves da Silva, que era independente à empresa.

Contactado pelo Observador, José Alves da Silva confirmou o valor que deu ao bem intangível da Yupido e que a tal plataforma digital inovadora “era uma coisa do outro mundo”. José Alves da Silva é consultor da sociedade de advogados Rogério Fernandes Ferreira & Associados, tem mais de 50 anos de carreira e é reconhecido pelos seus pares como um dos profissionais mais respeitados da área.

O relatório e contas de 2016 mostra que a Yupido teve prejuízos de 21.570 euros, tem um passivo a fornecedores no valor de 217,23 euros e um aumento de capital em bens em espécie ou intangíveis (isto é, não em dinheiro) no valor de 28.524.864.970, ou seja, de 28,5 mil milhões de euros. Lê-se no relatório que foi emitida uma certificação legal das contas da empresa, e que esta se apresentava “sem reservas”.

Contudo, o relatório não tinha anexada a habitual certificação assinada pelo revisor da empresa, que comprova a veracidade desta informação. O Observador apurou que não foi emitido qualquer relatório pela parte do ROC, porque o auditor não “estava satisfeito com a informação que foi dada” para justificar o aumento de capital da empresa.

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