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Ana Hatherly e a reinvenção do Barroco

A exposição "Num Jardim Feito de Tinta", no Museu Gulbenkian, em Lisboa, faz a ponte entre o Barroco e a obra da portuguesa que nos deu a conhecer um tempo já esquecido, reinventando-o.

“A Ana Hatherly reinventou o Barroco.” As palavras são de Paulo Pires do Vale, curador da nova exposição temporária do Museu Calouste Gulbenkian, que pretende fazer uma ponte entre a obra da artista portuguesa, que desde sempre se interessou pelo estudo da estética barroca, e o movimento artístico do século XVIII. “Deu-nos a conhecer o Barroco que não conhecíamos. A nossa ideia do Barroco também é outra por causa dela.”

A “exposição-ensaio”, como a descreve o curador, apresentada no âmbito do ciclo Conversas, inclui dezenas de obras da artista, realizadas em diferentes formatos (pintura, escultura e até filmes), que mostram a transversalidade da sua obra e a forma como a arte barroca cujos temas centrais, como o tempo, o jogo ou a morte, explorou até à exaustão — a influenciou. Além de uns nomes grandes da poesia experimentalista portuguesa, Ana Hatherly foi também artista plástica e realizadora.

Dividida em quatro núcleos, criados a partir de quatro temas fulcrais do Barroco que Paulo Pires do Vale sintetizou a partir de textos escritos pela artista, a mostra Ana Hatherly e o Barroco — Num Jardim Feito de Tinta inclui algumas peças que nunca estiveram em exposição.

É o caso de duas composições musicais originais (apesar de poucos saberem, a artista portuguesa estudou música antes de se dedicar ao estudo da literatura) e de um dos muitos diário de sonhos que manteve ao longo na vida. Hatherly, que tinha um grande interesse pelo estudo dos sonhos, que também explorou na pintura, acabou por reunir 68 destes relatos num livro, Anacrusa, publicado em 1983.

O diário surge exposto na terceira ala, dedicada à a “Alegoria: a folia da interpretação”, a estratégia retórica barroca por excelência. “A alegoria significa que tudo e outra coisa, é um escada”, explicou o curador, durante a visita de imprensa esta quinta-feira. Foi por essa razão que, junto ao caderno de Hatherly, foi colocado um “quadro de Jacob, que sonhou que havia uma escada por onde os anjos subiam e desciam”.

A pintura, pertencente à coleção da Fundação Abel e João Lacerda do Museu do Caramulo, é uma das várias obras emprestadas por outros organismos ao Museu Gulbenkian de propósito para esta nova exposição, que inclui dois quadros de Josefa de Óbidos, pintora de que Ana Hatherly gostava muito.

Além de obras de Ana Hatherly, a exposição inclui obras do século XVII e XVIII. Duas delas são de Josefa de Óbidos, pintora de que Hatherly gostava muito

É que as peças de Hatherly não surgem sozinhas — aparecem lado a lado com obras do Barroco (pinturas, mas também livros), fazendo a ponte entre duas épocas distantes que, à partida, nada têm anda em comum. Mas, como frisou Paulo Pires do Vale no início da visita guiada aos jornalistas esta quinta-feira, “o tempo da arte é sempre presente”. A história não é estanque. E é exatamente para aí que aponta a frase que abre a exposição, um excerto do livro A casa das musas, escrito pela artista portuguesa em 1995:

A incorporação do passado no presente é uma ação subversiva, porque um dos efeitos mais surpreendentes da ação do tempo é transformar o usual em estranho, o conhecido em desconhecido, o ordinário em exótico. A incorporação de elementos antigos num contexto moderno rompe a continuidade, dispersa a continuidade nociva que conduz ao hábito, criando um conflito, um contraste, que não pode senão despertar o nosso consciente. Toda a cultura é diálogo e não há diálogo sem confrontação.”

Além de dar a conhecer o trabalho de Ana Hatherly nas mais variadas vertentes, Num Jardim Feito de Tinta mostra também uma faceta da artista que poucos conhecem — a de estudiosa da arte e literatura barroca. E é exatamente por aí que a exposição começa.

No corredor que dá acesso à mostra, foi montada uma vitrina com alguns livros que a artista escreveu sobre o tema e alguns exemplares da revista literária Claro-Escuro, a única em Portugal dedicada ao período barroco e que teve Hatherly como diretora. Não muito longe dali, foi montado um projetor que exibe alguns dos filmes que a pintora e escritora fez com os seus alunos de cinema do Ar.Co, onde deu aulas, e que mostram o “carácter experimental” mas, acima de tudo, “pedagógico” de muita da sua obra.

A exposição termina com o excerto de um poema escrito pela própria Ana Hatherly, “A Idade da Tinta”, que deu nome à exposição

No último recanto da exposição, é possível assistir a uma apresentação com 335 slides que ilustram a relação entre palavras e imagens, que a artista começava mostrar aos seus alunos do Ar.Co. Numa parede branca, mesmo ao lado da projeção, foi reproduzido um excerto de um poema de Hatherly, “A Idade da Tinta” (1998), que, para Paulo Pires do Vale, sintetiza toda a exposição. De tal forma, que acabou por lhe dar o nome — Num Jardim Feito de Tinta:

Ponte pensada
arquiteto do não-útil
por entre o cosmos e o caos
o poeta olha o mundo
e reinventa-o
no seu jardim feito de tinta.”

A mostra continua no piso de cima, nas salas da Coleção do Fundador do Museu Calouste Gulbenkian, onde foram expostas algumas obras de Ana Hatherly (grafitti e um filme, intitulado Revolução, que mostra vários murais e cartazes expostos em Lisboa depois do 25 de Abril) com o objetivo de frisar, mais uma vez, a ponte que pode — e deve — ser feita entre o passado e o presente. Uma coisa que Hatherly sempre tentou fazer. “A intenção é subtil, mas é importante para nós”, afirmou já no fim da visita guiada Penelope Curtis. “Mostra que o museu também pode mudar, que está em movimento.”

Uma programação complementar para celebrar Ana Hatherly

Paralelamente à exposição, a Gulbenkian organizou uma programação complementar dedicada à artista plástica. Além de visitas guiadas com o curador Paulo Pires do Vale, haverá também uma aula aberta em novembro, com o tema Qual a relação possível de um artista com uma época passada ou já «histórica»?, e duas conferências — Ana Hatherly e o Barroco e Ana Hatherly – Território Anagramático –, em janeiro. A primeira terá como convidadas Christine Buci-Glucksmann e Maria Filomena Molder, que participará também na segunda conversa, acompanhada por Fernando Aguiar. A programação completa pode ser consultada aqui.

A exposição Ana Hatherly e o Barroco — Num Jardim Feito de Tinta, com curadoria de Paulo Pires do Vale e colaboração de Nuno Vassallo e Silva, vai estar patente no piso inferior do Museu Calouste Gulbenkian até 15 de janeiro de 2018. Pode ser visitada todos os dias, exceto terças-feiras, entre as 10h e as 18h. Os bilhetes custam 3 euros.

Texto de Rita Cipriano, fotografia de João Porfírio.
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