Presidente Marcelo

Marcelo abre caminho a consensos entre PSD e PS. De preferência, “já”

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O Presidente da República sugeriu, na conferência Portugal e o Futuro, que o PSD e o PS devem procurar "amplos consensos" em áreas como a dívida, as finanças públicas ou o investimento privado.

ANTÓNIO COTRIM/LUSA

De Marcelo costuma dizer-se que tem a capacidade de antecipar cenários políticos de forma certeira. A conferência em que participou este sábado era propícia a isso, tendo como mote “Portugal no futuro”, e o Presidente da República não deixou de demonstrar onde quer que sejam feitos os grandes consensos nacionais: ao centro. No evento organizado pela Plataforma para o Crescimento Sustentável — presidida pelo antigo vice-presidente do PSD, Jorge Moreira da Silva — Marcelo Rebelo de Sousa defendeu ideias daquele grupo, como a redução da dívida, os superávites primários, o alinhamento europeu e mais incentivo ao investimento privado. Para tudo isto é possível consenso no centrão (PS-PSD-CDS), mas são ideias que colidem com a agenda da esquerda.

Numa altura em que o PSD vai mudar de líder — sendo agora mais provável que dê a mão ao PS em algumas circunstâncias — o Presidente desafiou os membros da plataforma (da órbita do PSD, embora seja independente do partido) a não esperar que os sociais-democratas cheguem ao poder para tornar as propostas reais, pedindo que as façam chegar “já” ao atual Governo. Numa conferência realizada este sábado no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, Marcelo fez o encerramento dissecando os vários temas da plataforma.

Sobre a sustentabilidade da dívida, Marcelo concordou na “compreensão” de que é “necessária uma redução da dívida para ser possível um desafogar das finanças que permita mais investimento e mais exportações“. O Presidente lembrou que há um “amplo consenso nacional” na defesa de um “crescimento sustentado”, dentro das exigências europeias, e defendeu a existência de “superávites primários“. Ora, este é uma ideia que só PS, PSD e CDS podem apoiar. Rui Rio disse durante a campanha do PSD que iria defender que, em alguns anos, Portugal tenha superávite nas contas públicas. Não será inocente, a escolha de palavras de Marcelo.

Mas o piscar de olho ao aos consensos entre PS e PSD não ficou por aqui. Relativamente ao peso do investimento público e privado, Marcelo parece enviar um recado ao Bloco de Esquerda e ao PCP, quando diz que “a realidade encarregou-se de ir criando factos consumados, alguns dos quais positivos, permitindo convergências pontuais, outrora impossíveis” e que “onde persistem resistências doutrinárias, esses factos têm-se encarregado de falar mais alto”. Para o Presidente da República “é evidente que o incentivo ao investimento privado, que já considerei limitado no Orçamento do Estado para este ano, tem de merecer um reforço significativo“. Mais uma anotação para Costa fazer.

Marcelo defendeu ainda a necessidade de consensos para uma verdadeira aposta na ciência e na tecnologia, bem como na resposta à crise demográfica (à qual considera que os políticos têm dado pouca importância, devido à “despreocupação do eleitorado). Ou seja: não dá votos, os políticos não querem saber. O Presidente falou ainda na necessidade da modernização do Estado, um conceito que “em abstrato todos concordam”, mas onde, na prática, não se consegue fazer uma reforma significativa.

Num apelo a Jorge Moreira da Silva, o grande dinamizador da iniciativa, Marcelo Rebelo de Sousa pediu à plataforma que passe “da reflexão à ação”, já que “está cheia de razão”. Mas é necessária a “capacidade de transformar a razão em factos”. Para Marcelo seria uma “frustração” se estas propostas não tivessem impacto na “vida das pessoas”. Por isso, sugere a Jorge Moreira da Silva que as faça chegar ao Governo: “Não depois de depois de amanhã, mas já”. Marcelo quer assim que se consigam “antecipar mudanças que são inadiáveis”.

No que diz respeito às alterações climáticas, Marcelo Rebelo de Sousa aproveitou para mandar uma indireta (crítica) ao presidente dos EUA, Donald Trump. O Presidente da República é claro a defender que “nunca” se deve “ignorar as alterações climáticas” que “são mais que uma moda ou um slogan”. Mesmo sem o apoio do presidente norte-americano já que “não é pelo peso, de um ou de outro, apostados na negação do real — por mais importante que seja — que deixaremos de insistir no diagnóstico e na terapêutica de um dos pontos mais sensíveis da nossa existência coletiva.”

Esta sábado, o antigo Presidente da República e antigo secretário-geral do PS, Jorge Sampaio, desafiou Bloco de Esquerda e PCP a decidirem se querem continuar a fazer parte de uma solução de governação ou querem voltar a fazer parte de uma oposição mais inconsequente. Na conferência “Portugal no Futuro” Marcelo dá sinais de que prefere que o futuro do país passe por consensos no “centrão” político do que à esquerda, mais imprevisível (e mais distante das ideias de Marcelo).

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