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A revolta de um coro de igreja, em defesa do seu maestro gay

11 Março 20173.176

Depois de viajar para Paris com o namorado, toda a gente ficou a saber que o maestro da igreja de Castanheira de Pêra era gay. Muitos aceitaram-no. Menos na Igreja, que agora é acusada de o expulsar.

Em Paris já puderam andar de mãos dadas. Em janeiro de 2016, João Cláudio Maria e o namorado, cada um na casa dos seus pais, fizeram malas. Era a primeira viagem que faziam como casal. Embora não o pareça no mapa, sair de Castanheira de Pêra e chegar a Paris foi como viajar para um planeta diferente em menos de um dia.

Ali, na capital francesa, puderam agir como qualquer casal que não tem de se preocupar com olhares indiscretos ou com quem pudesse estar ao virar da esquina. Deram as mãos, trocaram beijos, abraçaram-se e, comme il faut, puseram um cadeado numa ponte parisiense. Não era a Pont des Arts, onde na altura já era proibido deixar cadeados. Mas era Paris — e dali até Castanheira de Pêra iam mesmo vários mundos de distância.

Ainda assim, era precisamente daquela vila, que fica do lado leiriense da fronteira com o distrito de Coimbra, que alguns dos seus pouco mais de 3 mil habitantes os observavam. João e o namorado, que pede para não ser identificado, foram colocando fotografias nas redes sociais onde apareciam juntos. Cada nova fotografia alimentava os sussurros entre os habitantes de Castanheira de Pêra que, aos poucos, se aperceberam de que o maestro do Coro de São Domingos era homossexual.

Desde que João foi afastado da liderança do coro, o grupo tem ido a todas as missas em protesto. Vestem-se de preto, em sinal de luto. Já houve momentos tensos, com insultos e trocas de acusações. E já cantaram música sacra em jeito de revolta.

“Até termos ido a Paris, já se dizia muita coisa sobre nós”, conta João ao Observador. “Já se dizia muita coisa, mas era só uma desconfiança. A partir daí, tudo ficou mais claro. Não pusemos nenhuma foto esclarecedora, mas as pessoas juntaram as coisas e a partir daí é que começou a falar-se mais.”

Quando voltou a Castanheira de Pêra, as reações não se fizeram demorar. Uma a uma, as pessoas que o conheciam perguntavam-lhe, afinal, se era mesmo gay. João explicava-lhes que tinha um namorado e que era essa a sua vida. “Não tenho de esconder a minha vida, porque é que haveria de esconder?”, diz. Assim se espalhou a palavra. A maioria aceitou juntar ao João que já conheciam — o jovem que estudou Comunicação na Universidade da Beira Interior, que depois voltou à terra para trabalhar num empreendimento turístico e que além de dirigir o Coro de São Domingos fundou uma associação recreativa e cultural, a Teares da Serra — aquilo que se tornava então num facto: a sua homossexualidade.

João Maria, 21 anos, dirige o Coro de São Domingos há sete anos. Agora, acusa o padre da vila de ter cedido a pressões para expulsá-lo por ser homossexual (João de Almeida Dias / Observador)

Embora não passeassem pelas ruas daquela vila da mesma maneira que passearam na capital francesa, João e o namorado conquistaram o que, na altura, parecia uma normalização da sua relação. Era bom demais para ser verdade — e era.

Agora, mais de um ano depois dessa viagem, João está no centro de uma polémica que passou bem para lá do concelho. Aos 21 anos, João acusa a Igreja da vila e o seu Conselho Económico de o quererem afastar do cargo de maestro do Coro de São Domingos. Segundo a versão de João, o seu afastamento da liderança do grupo coral, que entretanto se juntou em solidariedade ao seu maestro, deve-se apenas ao facto de ele ser homossexual. Já a Igreja e o Conselho Económico, que não quiseram falar aos jornalistas, acusam João de roubo, maus modos e também de agressão ao padre José Lopes de Carvalho, que está em parte incerta.

Este sábado, o padre Pedro Miranda, vigário da diocese de Coimbra, confirmou ao Observador que proibiu João de dirigir o Coro de São Domingos — e que este está “por arrasto” proibido de atuar. Ainda assim, diz que esta decisão “não tem nada a ver” com a orientação sexual do jovem de 21 anos. “Isso é rotundamente falso”, garantiu. Horas mais tarde, seria lida uma mensagem por ele assinada numa missa em Castanheira de Pêra, onde acusava João do delito de “desobediência e rebeldia para com a autoridade” do padre.

Enquanto esta polémica se arrasta, o coro e outros populares têm assistido às missas em silêncio, num tom fúnebre. Fazem-no em defesa de João e que dizem ter revitalizado a igreja em Castanheira de Pêra com a sua música — é por isso que lhe chamam o “Anjo Branco”. Por vezes, o silêncio dá lugar a trocas de insultos, acusações e até agressões. Este sábado, foi lida na missa uma mensagem do vigário de Coimbra onde este dizia que, enquanto houver revolta, a vila continuará sem padre.

“Eu tenho um amigo que tinha essa doença e que se curou”

Castanheira de Pêra deixou definitivamente de ser Paris alguns meses depois da viagem de João e do namorado. Horas antes do ensaio do coro, João foi, como era hábito, à casa do padre José tirar fotocópias das partituras que mais tarde seriam distribuídas pelos coralistas. Ao seu lado, tinha Fernando David, atualmente com 18 anos, também ele membro do do coro e seu secretário.

Quando chegaram à casa do padre, este recebeu-os e pediu a atenção de João. “Sabes, eu tive um amigo que tinha uma doença”, disse segundo o relato que João faz ao Observador, corroborado mais tarde por Fernando. “Ele era muito doente, a doença dele era gostar de homens. Mas ele depois curou-se, com ajuda.” João diz que ouviu estas palavras com espanto, sem que na altura tivesse conseguido reagir. Foi assim, também, quando o padre José lhe terá dito: “Eu se fosse a vocês, ia procurar ajuda e ia curar-me já dessa doença da homossexualidade”.

“Foi a partir daí que se fez luz”, conta João ao Observador. Aos poucos, algumas reações que o padre José tinha tido recentemente começaram a fazer sentido. “Antes da minha viagem a Paris, o padre agradecia-me pessoalmente e aos coralistas no final de todas as missas, fazia-me elogios públicos perante a assembleia de fiéis”, recorda. Depois disso, o padre José passou a criticar o trabalho do Coro de São Domingos, apontando-lhe defeitos que até então João não ouvira. “Quando eu ia à sacristia despir a túnica ele chamava-me e colocava logo mil defeitos. Porque o Aleluia não se canta assim, porque a apresentação dos dons foi mal feita… Ou seja, aquilo que era perfeito, imaculado e adorado começou a cair.”

João diz que o padre da vila o aconselhou a procurar uma cura para a "doença" da homossexualidade. "Eu tive um amigo que tinha uma doença”, terá dito o padre. "Ele era muito doente, a doença dele era gostar de homens. Mas ele depois curou-se, com ajuda.”

Era apenas o começo. Em junho do ano passado, em dia de missa, dirigiu-se ao padre para lhe perguntar quais iam ser as leituras daquela cerimónia. “Quando cheguei ele já estava a discutir com alguém e então começou a descarregar a raiva toda em cima de mim”, conta João. “Eu perguntei-lhe qual era o salmo e ele respondeu-me que não havia salmo”, recorda. O padre ter-lhe-á dito que havia missa, sim, mas sem salmo. “Mas assim não faz sentido o que estamos a pregar”, observou João na altura.

Perante uma situação que lhe pareceu estranha, João pisou o risco. Pegou no missal e viu quais eram as leituras. Por experiência, sabia quais eram os salmos que correspondiam a cada uma delas. Guardou essa informação, informou o coro e, no final da missa, cantaram um por um os salmos que tinham estado em falta na cerimónia.

“Desobedeci”, reconhece. “Aí, desobedeci-lhe.”

No final da missa, foi despir a túnica à sacristia. Foi então que deu de caras com o padre José. “Ele veio muito agressivo para mim, direito a mim a dizer que foi a última vez que lhe desobedeci, que vai ter de tomar uma atitude”, recorda. Depois, garante João, o padre “agarrou-se” a ele. “Ele agarra-se a mim e eu, para o afastar, bati com o missal em cima de um armário para o afastar.” A única testemunha desta discussão foi Maximiano António, membro do Conselho Económico da igreja e seu tesoureiro. Segundo João, pouco tardou para este espalhar uma versão diferente da história, dizendo que o jovem tinha agredido o padre.

Este incidente, em junho, ficou a fermentar durante o verão. Nessa altura do ano, João trabalha na Praia das Rocas, um complexo turístico de Castanheira de Pêra. Uma vez que o domingo é o dia de maior atividade, é impossível para João ir à missa de domingo. E, assim, durante os meses mais quentes do ano, nos seus pensamentos mais otimistas, João pensava que esta polémica esfriara.

Já de regresso, em setembro, percebeu que afinal continuava bem quente. João ofereceu-se para dar catequese ao primeiro ano, onde a sua irmã de seis anos iria entrar. Já o tinha feito durante três anos e agora quis retomá-lo, para poder acompanhar a irmã de perto. Nessa altura, o padre negou-lhe essa tarefa. “Já há muitas catequistas, não é preciso”, disse-lhe. Depois, disse-lhe que a discussão que tiveram no início do verão estava na raiz dessa decisão. “Mas quando foi falar à minha mãe, disse que era por causa do meu problema”, contrapõe João. “Problema”, leia-se, homossexualidade.

A longa Guerra Fria entre João Maria, o padre e o Conselho Económico

Ao longo dos meses seguintes, começou a abrir-se uma guerra entre o Coro de São Domingos e o padre José. Atrás do pároco, assegura João, estiveram sempre os membros do Conselho Económico. O mal-estar entre as duas partes era evidente — João deixou de passar tanto tempo na sacristia e o padre escolheu também afastar-se dele. Enquanto isso, cada um começou a cavar trincheiras num autêntico clima de Guerra Fria.

Foi preciso chegar dezembro para começar a cheirar a pólvora. Uma semana antes da Missa do Galo, o padre abordou João e informou-o: “Olha, vocês não vêm cá tocar na missa de Natal”. João, que já ensaiava com o coro músicas de Natal, tentou convencer o padre a mudar de ideias. Este respondeu-lhe que um outro coro local, que João diz ser “mais pequeno e com menos capacidade técnica”, já tinha assumido o compromisso de assegurar a Missa do Galo. Então, João propôs-lhe que os dois coros unissem esforços e cantassem juntos.

“Eu gostava muito que assim fosse, mas a senhora não quer”, respondeu-lhe o padre, referindo-se à líder do outro coro. Então, João perguntou-lhe: “Então e o senhor padre não tem critério dentro da paróquia? O senhor padre é uma nulidade?”. Mais do que tudo, a palavra “nulidade” não caiu bem no padre — e este manteve a decisão de o Coro de São Domingos não poder cantar na noite de 24 para 25 de dezembro. João também não mudou de ideias e continuou a ensaiar o seu coro para cantarem naquela cerimónia.

"O deserto é longo, o advento lembrou-nos como o deserto é longo. Mas hoje eu sei que comigo há mais uns tantos que acreditam que há Natal, e que há Páscoa, e essa é a maior das minhas alegrias."
João Maria, no Facebook, no dia de Natal

Já dentro da igreja, no dia 24 de dezembro, horas antes da missa, João foi chamado à sacristia pelo padre. “Não vou, se quiserem têm de falar cá fora, em frente a toda a gente”, disse. Irritado com a situação, e ladeado pelos membros do Conselho Económico, o padre José saiu da sacristia e disse para João e para o seu coro: “Não cantas e o coro acaba agora”.

Gerou-se uma revolta entre os coralistas de João, que seguiram o padre José para dentro da sacristia, num bruaá provavelmente inédito naquela casa. Uma das coralistas, mais exaltada do que os restantes, entrou na sacristia sem pedir licença. Neste momento, o tesoureiro do Conselho Económico tê-la-á agarrado durante momentos pelo pescoço, segundo testemunhas que estiveram no local. A comoção foi tal que, no final de contas, o padre cedeu: afinal, o Coro de São Domingos pôde cantar na Missa do Galo. “Ele comportou-se maravilhosamente, como se nada tivesse acontecido, provavelmente porque as pessoas ficaram contra ele, ele percebeu isso e para as acalmar deu um passo atrás”, reconhece João.

De novo, parecia haver paz. No dia 25 de dezembro, João escreveu um post no Facebook onde dizia que tinha sido dado “um passo de partida” e disse que “já não se queimam fogueiras com gente no meio, graças a dias como o de ontem”. “Hoje eu sei que comigo há mais uns tantos que acreditam que há Natal, e que há Páscoa, e essa é a maior das minhas alegrias”, concluiu.

Mas a guerra não tinha terminado — era apenas um intervalo.

Já nos primeiros dias de 2017, João começou a dar pela falta de coralistas nos ensaios. “Eu mandavam mensagens, metia as informações no blogue, deixava lá as partituras, mas depois apareciam muito poucos”, recorda. Passou-se um mês, até que um dos membros do coro que entretanto deixara de aparecer lhe contou que o padre José lhe tinha feito um ultimato: “Ou fica o João, ou fico eu”.

No dia 5 de fevereiro, domingo, João foi falar com o padre. “Se for para estarmos em guerra, tem de me avisar para eu me preparar”, atirou-lhe. E depois perguntou-lhe qual era o rumo que o pároco queria dar àquele caso. “Resolvemos isto a bem”, disse-lhe. E depois fez uma proposta a João: ele teria de pedir desculpas por tê-lo desautorizado em junho do ano passado e pela confusão da véspera de Natal, tal como ao Conselho Económico, que esteve presente. João aceitou esta solução, que seria posta em prática na missa do domingo seguinte, 12 de fevereiro.

O padre José, que terá sugerido João a fazer uma "cura" para a sua homossexualidade, está num "retiro espiritual" em parte incerta (João de Almeida Dias / Observador)

Quando chegou a data, o padre disse-lhe que isso já não ia ser possível. “Agora já não pode ser, não há pedidos de desculpas e já não há nada”, disse-lhe. “Isto agora já tomou outras proporções.” Entre 5 e 12 de fevereiro, explicou o padre a João, tinha sido feita uma queixa formal contra ele. “Eu não queria, eu não queria que isto fosse assim”, desculpou-se o padre. “Eu não queria, foram eles que quiseram, eles não te querem cá.” João perguntou quem eram “eles”, mas não teve resposta. Mas ficou com a convicção de que era o Conselho Económico. “O padre foi uma marioneta nas mãos deles”, acusa João.

Foi nesta altura que João decidiu contra-atacar e lançar um abaixo-assinado contra o fim do Coro de São Domingos e o seu afastamento como maestro. No texto apresentado, apontava o dedo ao Conselho Económico. “Essas pessoas são a grande parte influenciadora do Pe. José e das suas decisões”. E disse estar a ser vítima: “Isto é um ataque à minha dignidade, à minha honra, à minha dedicação e ao meu sentido de vida católico. Um ataque encabeçado por pessoas que constantemente blasfemam, inventam, e teorizam sobre a minha vida pessoal e sobre o modo como acham que eu vivo.”

"Isto é um ataque à minha dignidade, à minha honra, à minha dedicação e ao meu sentido de vida católico. Um ataque encabeçado por pessoas que constantemente blasfemam, inventam, e teorizam sobre a minha vida pessoal e sobre o modo como acham que eu vivo."
João Maria

Ao todo, e em apenas três dias, o abaixo-assinado recebeu quase 600 assinaturas entre os pouco mais de 3 mil habitantes de Castanheira de Pêra. E foi com ele na mão que se apresentou ao padre Pedro Miranda, vigário da diocese de Coimbra, quando este o chamou ao seminário conimbricense para discutirem a queixa que foi feita contra ele.

Entre portas, e numa reunião a dois, o padre Pedro lançou-lhe uma pergunta que João não esperava: “O que é que quer dizer isso de não ter entregue o dinheiro ao Conselho Económico em 2013?”.

A pergunta, percebeu-se mais tarde, remontava a uma iniciativa de João e dos seus amigos, que quiseram organizar as festas de São Domingos, padroeiro de Castanheira de Pêra, que seriam celebradas no primeiro fim-de-semana de agosto. Fernando David, amigo de João, tinha então 14 anos e explica essa empreitada ao Observador. “Nós éramos cachopos e não queríamos deixar morrer a Castanheira”, disse. Então, arregaçaram as mangas, sob a promessa de o lucro obtido ser usado para comprar um órgão de música sacra para a igreja, que custaria “cerca de 10 mil euros”.

Fernando David foi então escolhido para o cargo de tesoureiro da festa. Apesar de já terem passado alguns anos, tem os números na ponta da língua. Em 2013, a festa correu bem e deu 900 euros de lucro, que os jovens guardaram de lado para juntarem para a compra do órgão. Em 2014, ano em que o verão foi chuvoso, a festa correu mal, e deu 900 euros de prejuízo.

“Logo no primeiro ano, eles pediram-nos o dinheiro, tanto o padre como o Conselho Económico da igreja”, recorda Fernando. “Nós dissemos que não, que se era para guardar, então podíamos ser nós a fazê-lo.” Em 2014, já depois do fracasso e do prejuízo, os jovens reagiram como puderam: venderam bolos, croquetes e rifas. Além disso, o coro e o grupo de teatro também deram dinheiro. Outras “pessoas mais abastadas” fizeram donativos. Tudo junto, deu quase 2 mil euros.

Faltavam, portanto, cerca de 8 mil euros para comprar o órgão. Destes, o padre José tirou mil do seu próprio bolso. O resto, recorda Fernando, pagou a Junta de Freguesia de Castanheira de Pêra.

Esta história, garante João e corrobora o tesoureiro Fernando, pertence a 2014. “Então agora ao final destes anos todos é que o Conselho Económico anda a dizer que não entregámos dinheiro nenhum?”, interroga-se Fernando. “Nós até tínhamos as chaves da igreja naquela altura e tivemos durante muito tempo depois disso. Se fôssemos tão desonestos não seria mais fácil roubar uma imagem ou um castiçal banhado a ouro?” João não tem dúvidas: “Como agora não podem pegar pela minha homossexualidade, já que o Papa Francisco disse que são todos benvindos na Igreja, têm de pegar por outras coisas.”

Era essa a certeza que tinha quando estava diante do vigário, em Coimbra, quando este levantou a questão do dinheiro. Segundo o relato de João, este não lhe deu margem de manobra: “Por muito que tua agora fales, não tens como te justificar destas acusações”. E, recusando receber o abaixo-assinado de João, deixou-lhe uma explicação que o jovem interpretou como uma porta de saída aberta: “O padre é o pai. Por muito que o pai esteja errado, os filhos não se podem manifestar. E quando assim é temos duas coisas a fazer. Ou ficamos calados e deixamos as coisas seguirem ou então vamos embora.”

João saiu da reunião com o vigário a chorar.

“Mas tu és gay ou quê?”

A primeira vez em que João se apercebeu de que sentia atração sexual por homens foi na viagem de finalistas do 9.º ano, ao Porto. Era junho, estava calor e decidiram ir juntos à praia. “Eu sempre tive jeitinhos e os colegas chamavam-me maricas, mas eu achava que eles estavam sempre enganados”, recorda. Mas nessa ida à praia, apercebeu-se que ele próprio “olhava demais para os homens”. Uma amiga reparou e chegou a perguntar-lhe: “Mas tu és gay ou quê?”.

Nessa altura, João procurou uma cura — e a religião servia-lhe como meio de purificação. “Procurei imensos psicólogos na Internet”, recorda. “Muitos eram do Brasil, porque lá os evangélicos acham que têm a cura.” Enviou emails a todos os que encontrou. Pedia-lhes ajuda, num texto onde escrevia vezes sem conta “não acho normal que…”. Nunca teve resposta.

Durante a adolescência, João procurou uma cura para a homossexualidade. Na Internet, enviava e-mails a psicólogos evangelistas que diziam ser especialistas nessa área. Muitas vezes, ia sozinho à igreja para rezar e chorar.

No 11.º ano, começou a namorar com uma rapariga. “Eu até gostava dela”, dizia. Porém, nos emails que mandava aos ditos psicólogos, reconhecia que não sentia nenhuma atração por ela. “Mas porque é que não pode ser?”, perguntava nesses textos.

Durante esses anos, pegava nas chaves da igreja e ia para lá sozinho. De joelhos, rezava e chorava ao mesmo tempo.

Após quase dois anos naquela relação, acabou com a namorada. “Depois, desato à procura”, diz, para a seguir especificar: “À procura de homens. Porque tinha de saber o que isto era.” Foi nessa procura que encontrou o namorado, que também faz parte do coro.

A confissão pública que gelou a igreja

Hoje, João, o namorado e os restantes coralistas continuam a ir à igreja de Castanheira de Pêra. Mas fazem-no em luto. Todos os domingos, sentam-se nas filas da frente vestidos de preto, cada um com uma fita branca no braço ou ao peito. “É em sinal de paz”, explicam.

A primeira vez que o fizeram foi no domingo, 19 de fevereiro, numa missa presidida pelo padre Pedro, o vigário que partiu de Coimbra de propósito para presidir àquela cerimónia. A sua chegada causou um burburinho imediato. “Não é normal o vigário de Coimbra vir à Castanheira dar a missa, é quase como se o Tony Carreira viesse cá”, compara João. Já o padre José desaparecera sem aviso, sabendo-se apenas que estava em “retiro espiritual” e incontactável.

A acompanhar tudo isto estava Fátima Coelho de 53 anos. Até ter ouvido falar do coro da igreja de Castanheira de Pêra, passou mais de três décadas sem ir à igreja. Aos 17 anos, noutra terra que não esta, foi confessar-se. A experiência revelou-se traumática. “O padre foi indelicado comigo, fez-me perguntas muito constrangedoras, deixou-me pouco à vontade”, recorda. “Eu levantei-me e saí.”

Desde então, continuou a ir à igreja, mas apenas em casamentos, batizados e funerais. De resto, escolhia ficar em casa. Mas o Coro de São Domingos tirou-a de lá. “Quase todos os coros cantam a uma voz, às vezes duas”, explica. “Mas este canta a quatro. Eu gosto muito de música e gosto de ir a uma missa ouvir um canto daqueles”, explica. “Dizem que a música une os povos. A mim, une-me à Igreja.”

Zelinda Silva (membro do coro, à esquerda) diz que houve gente a chorar depois de a irmã, Fátima Coelho (à direita) ter pedido palmas pelo João na missa (João de Almeida Dias / Observador)

Foi por tudo isto que, no dia 19 de fevereiro, Fátima não aguentou mais o silêncio que imperava naquela missa. “Deixou-me muito triste ver o coro calado, eles estavam tristes por não poderem cantar e e eu estava triste por não poder ouvi-los”, recorda. No final da cerimónia, levantou-se e pediu a palavra ao padre Pedro. Disse-lhe que queria fazer uma confissão pública. Este, algo atrapalhado, cedeu-lhe o espaço.

Foi nessa altura que Fátima começou a discursar. Cedo se percebeu que estava ali para falar do Coro de São Domingos e do seu maestro. Falando de improviso, deixou algumas pessoas de boca aberta quando disse que “os senhores que representam Deus não podem resolver um problema criando outro”. E continuou a falar, desta vez dirigindo-se ao padre: “Se der pela minha falta nesta igreja, saiba que me pode encontrar noutra onde haja alma”. Depois, agradeceu-lhe o tempo cedido. E, no fim, pediu uma salva de palmas para o João.

A igreja irrompeu num aplauso geral, ao qual poucos resistiram. Zelinda Silva, de 62 anos, coralista e irmã de Fátima, diz que “havia pessoas a chorar de emoção” no meio desta ovação. Outras, gritavam: “Queremos o coro! Queremos o João!”. A missa terminou em balbúrdia, com o padre Pedro a refugiar-se na sacristia.

Já com as pessoas dispersas, e numa altura em que a GNR aparecera no local de forma tardia, João foi falar com o padre Pedro. “Temos de conversar”, disse-lhe o vigário. A conversa foi adiada para dia 1 de março, quarta-feira de Cinzas. “Só quero falar contigo”, insistiu o padre. Lá dentro, na sacristia, disse-lhe: “Agora não há volta a dar”.

“O teu afastamento está decidido e estás proibido de exercer o ministério da música sacra”, disse-lhe o padre Pedro.

“A excomungação que me está a fazer, que já dirijo o coro há sete anos, é muito grave”, devolveu-lhe João. “Sabe que quando me tira a música tira-me a fé?”

O padre Pedro procurou outros termos. “Não digas excomungar”, pediu-lhe. “Aquilo que tu tens de fazer é formar um coro civil, cantas por aí, tens pessoas que gostam de ti e cantam contigo, mas não cantam na igreja. Isto é assim em várias partes do país: há projetos muito bonitos, interessantes, com características especiais, mas que não interessam à igreja.”

Desde então, voltou a celebrar-se outra missa. Novamente de preto e com uma fita branca, o coro apresentou-se em silêncio. Uma das pessoas do Conselho Económico ofereceu-se para fazer algumas leituras. Sublinhando o mal-estar instalado, fazia questão de acentuar palavras como “Satanás” ou “pecadores”, com uma voz invulgarmente alta. No final, o tesoureiro do Conselho Económico, que tanto acusa João de ter agredido o padre José, como é acusado de ter agredido uma coralista, foi tomar a hóstia. Nesta altura, um dos membros do coro levantou-se e gritou: “A pessoa que apertou o pescoço a uma mulher não pode comungar!”.

No final da cerimónia, o coro rompeu o silêncio e desatou a cantar. O tema escolhido foi o “Se vos amardes”. “Se vos amardes uns aos outros / Deus permanece em vós / É este o meu mandamento: amai-vos como eu vos amei”, cantaram, em claro contraste com o ambiente ali vivido.

Arrumar as botas de elástico

Na vila de Castanheira de Pêra, não se fala de outra coisa. Neste momento, o Café Chicote, que fica a apenas dois minutos a pé da igreja, funciona praticamente como um posto de comando dos revoltosos. Maria Helena Tomás, a dona do café, passou ali grande parte dos seus 55 anos de vida, entre a coleção de 225 santos que tem espalhados em expositores. “Deus queira que os santinhos nos oiçam”, diz, em defesa de João.

Maria Helena não começou por lidar bem com a sexualidade de João. Como muitas pessoas que lhe eram próximas, sempre teve dúvidas. Depois, nos intervalos de tirar um café e outro, viu as fotografias dele em Paris no Facebook. Aí, foram-se as dúvidas. “Nós também não somos parvos, não é?”, pergunta.

Maria Helena Tomás é dona do Café Chicote, onde vários apoiantes de João se juntam. Quando soube que João era gay, zangou-se com ele, mas depois fez as pazes (João de Almeida Dias / Observador)

Quando soube, ficou triste e zangada — e João respondeu-lhe na mesma moeda. “Nós ainda somos um bocado botas de elástico aqui”, diz. “Se fosse em Lisboa, no Porto, até em Coimbra, ninguém se importava de ter um vizinho gay. Mas aqui as coisas são diferentes.” Aos poucos, depois de perceber que isso em nada alterava o “miúdo” que até aí tinha conhecido, aprendeu a lidar à sua maneira com os factos e fez as pazes com João.

Agora, brinca com a situação. “Já lhe perdoei tudo”, garante. “E se me aparecer uma gaja boa eu como-a já!”, diz, arrancando uma gargalhada das pessoas que estão do outro lado do balcão de zinco. “É já ali com a Ricardina”, diz, para uma cliente, que quase entorna o café quando ouve o seu nome. “É já com ela, que tem carro e tudo!”

Maria Helena, católica devota, faz agora uma crítica à Igreja. Sob o olhar atento das mais de duas centenas de santinhos, diz que a Igreja Católica é uma “seita”. “Ou pior do que isso!”, acrescenta. “Eles lá dentro é que são os piores.” Como exemplo disso, cita a descoberta, na Irlanda, de centenas de esqueletos de crianças nos esgotos de uma instituição católica que acolhia mães solteiras. Estima-se que o número de esqueletos possa chegar aos 800, sendo que todos dizem respeito a crianças recém-nascidas até a outras com três anos. “Estes andaram a fazer isto e ninguém diz nada”, queixa-se Maria Helena. “E agora só porque o puto é gay expulsam-no? Isto é pior do que uma seita!”

"Nós ainda somos um bocado botas de elástico aqui. Se fosse em Lisboa, no Porto, até em Coimbra, ninguém se importava de ter um vizinho gay. Mas aqui as coisas são diferentes."
Maria Helena Matos, dona do Café Chicote

Muitos dos que passam no Café Chicote, que assim se chama porque o avô de Maria Helena foi carroceiro, falam de João num tom defensivo. “A escolha é dele”, dizem muitos. “Mas isso não tem nada a ver com o coro”, contrapõem.

Ainda assim, nem todos são tão benevolentes com o maestro do coro. À boca pequena, diz-se que ele foi “malcriado” com o padre e que lhe “bateu”. Além disso, fala-se do dinheiro das festas de 2013 e 2014. Outros rejeitam que ele esteja a ser alvo de discriminação e perguntam: “Se ele foi afastado porque é gay, então porque é que o namorado dele continua lá?”.

Castanheira de Pêra é um sítio pequeno e tudo o que é dito sobre João pouco tarda a chegar aos seus ouvidos. “Eu nunca bati em ninguém, quanto mais num padre”, responde às acusações de agressão e más maneiras. Ao facto de o seu namorado continuar no coro, responde que em caso de expulsão definitiva ele sairá juntamente consigo. “O ataque para ele é demasiado óbvio, porque ele é neutro ali dentro”, explica. “Não exerce função nenhuma para além de meu cantor.”

Agora, João sabe mesmo que por decisão do padre Pedro não pode dirigir o Coro de São Domingos e que este também está proibido de tocar em Castanheira de Pêra. Ainda antes de ser conhecida esta decisão, João dizia que este caso o deixava “doente” e com um sentimento de “ódio”. “Eu inicialmente achava que teria de lidar com os parvalhões da parvalheira, mas que depois disso ia ser tranquilo”, disse. “Mas não foi assim. Agora, resta-lhes escolher se querem que 2017 seja o ano da visita de Fátima ou se querem que seja o ano do escândalo na Igreja Católica portuguesa.”

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