Amit Singh, da Google: “O investimento de Portugal em startups pode fazer a diferença”

08 Novembro 2017161

Entrevistámos o responsável pela realidade virtual da Google. Amit Singh abriu as conferências no segundo dia de Web Summit e acredita que o investimento português em tecnologia é um sinal positivo.

Foi o primeiro orador a subir ao palco principal no segundo dia da Web Summit. Singh é responsável por duas das maiores apostas da Google, a realidade virtual e a aumentada, mas não está por dentro do fenómeno português de startups. Contudo, não hesita: “a ideia de que Lisboa e Portugal estão a desenvolver a indústria tecnológica e a investir em startups da área é um sinal muito positivo. Isso pode mesmo fazer a diferença”, diz em entrevista ao Observador.

Amit é o vice-presidente da equipa de realidade virtual e aumentada da Google, por isso é um dos 24 oradores que não quisemos perder. Ao Observador, contou que o investimento dos portugueses em startups é positivo para a economia e para criar mais talento, mas ficou confuso quando lhe dissemos que Lisboa está mais perto de Madrid do que de Barcelona.

Os 24 oradores que não vai querer perder na Web Summit

Os principais produtos que vende no momento são os óculos Daydream View, a versão renovada dos dispositivo da Google que permitem ter uma experiência de realidade virtual com o smartphone. Prepara, para um futuro próximo, o lançamento da realidade aumentada em todos os smartphones com sistema operativo Android. O ARCore, que vai competir com o ARKit da Apple no iOS 11, ainda não tem data de lançamento definitiva, mas Amit deixou pistas que é uma tecnologia que pode vir a mudar o nosso dia a dia.

Amit Singh com os óculos Google Daydream View.

É a sua primeira vez em Portugal?
Sim. Eu queria vir antes porque nós [Google] temos agora um escritório em Lisboa. O mais perto que estive de Lisboa acho que foi em Madrid. É mais perto geograficamente do que Barcelona, certo?

Sim, correto.
Estive nos escritórios de Madrid, mas estou muito entusiasmado por estar agora aqui.

E é a primeira vez na vem à Web Summit?
Já falei na Web Summit no passado, mas em Dublin, em 2013. Na altura, estava numa função diferente na Google, estava responsável pelas aplicações para empresas.

O que acha de um evento como a Web Summit e o papel que tem na indústria tecnológica?
Acho que é uma grande oportunidade para programadores e empreendedores falarem diretamente com empresas que têm plataformas e sistemas operativos próprios como a Google. Penso que é muito bom para networking e para se encontrar oportunidades de negócio. Eu sou um grande fã de eventos como este.

E já participa desde quando?
Desde que trabalhava na Oracle [como responsável de vendas, antes de 2010].

Estes eventos são bons para dinamizar o talento na indústria tecnológica?
Definitivamente, em eventos como este, que juntam pessoas de todo o lado do mundo que trabalham nas mesmas coisas na indústria tecnológica, descobre-se sempre algo novo. Tive muitas pessoas a enviarem-me mensagens em que diziam que estavam a trabalhar em realidade virtual e aumentada. E algumas dessas ideias eram bastante interessantes, estou até interessado em responder para saber mais. Estes eventos dão uma montra a quem tem novos produtos e ideias. Isto funciona também para nós [Google], que estamos a construir as nossas plataformas. Ver outros que tenham uma ideia pode influenciar aquilo em que estamos a trabalhar.

Já contratou alguém que tenha conhecido num destes eventos como a Web Summit?
Não na Google, mas nas outras funções que já desempenhei, sim.

E está por dentro do movimento de startups que estão a aparecer em Portugal?
Eu sei apenas coisas muito básicas do que está a acontecer em Portugal. Está a tornar-se um polo tecnológico, essa é uma das razões porque o Paddy escolheu Lisboa depois do contrato com Dublin acabar. Ele sentiu que havia energia suficiente e, obviamente, habilidade para Portugal organizar um evento desta envergadura. Mas não sei muito mais do que isso.

Não sabe mais que isso?
Não.

Não ouviu falar da Farfetch, da Codacy?
Ouvi falar da Farfetch, da outra não ouvi falar.

A Codacy ganhou o Pitch em 2014 na Web Summit.
Ganharam? Boa, não ouvi falar deles.

E pensa que é por serem uma startup portuguesa que faz com que não sejam tão conhecidos, ou outra razão?
Não, eu apenas não me lembro dos vencedores. Mas estou entusiasmado por estar aqui e aprender.

"A ideia de que Lisboa e Portugal estão a desenvolver a indústria tecnológica e investir em startups da área é um sinal muito positivo. Isso pode mesmo fazer a diferença."

Continuando com startups portuguesas, acha que têm possibilidade para competir no mercado americano?
O que se passa com a tecnologia é que é uniformizadora. Há uma distribuição global graças aos telemóveis que tanto tu como eu temos no bolso e quaisquer ideias que as pessoas tenham podem chegar rapidamente a muita gente. A ideia de que Lisboa e Portugal estão a desenvolver a indústria tecnológica e investir em startups da área é um sinal muito positivo. Isso pode mesmo fazer a diferença. Assim que se consegue algumas empresas bem sucedidas isso pode atrair mais pessoas e daí adiante.

E Portugal já está a esse nível?
Sinto isso, mas, uma vez mais, estou na Web Summit para aprender. Se calhar no final tenho uma resposta para esta pergunta.

Há portugueses a trabalhar na equipa de realidade virtual e aumentada da Google?
Temos pessoas de todo o mundo, eu não sei é especificamente.

"O que lhe têm de dizer para convencer a Google a trabalhar com eles?
Eu tenho esta grande ideia que vai mudar o mundo com realidade virtual e aumentada, e é esta... E depois dizem a ideia em duas frases ou menos."

Situação hipotética: o fundador de uma startup acaba de conhecê-lo na Web Summit. O que lhe têm de dizer para convencer a Google a trabalhar com eles?
Devem dizer: “Eu tenho esta grande ideia que vai mudar o mundo com realidade virtual e aumentada, e é esta… E depois dizem a ideia em duas frases ou menos.

Que conselhos daria a startups que estão em Lisboa a tentar vender-se na Web Summit?
Vocês estão aqui por uma razão, sigam os vossos sonhos. Eu usaria o tempo ao máximo. Conheceria o maior número de pessoas possível e, definitivamente, escolhia uma ou duas pessoas chave que queria mesmo conhecer para saltar ao próximo nível: seja investimento, seja uma parceria.

A sua equipa trabalha tanto com realidade virtual, como com realidade aumentada?
Exato, o mesmo.

O ARcore é a próxima aposta da Google e isso deve-se à rápida disponibilização da Apple com o iOS 11 de opções de realidade aumentada. Mas inicialmente a aposta da Google era com o Tango que até teve telefones próprios. O que aconteceu, o projeto morreu?
Tem mais a ver com a tecnologia que está no Tango do que com os aparelhos em si. A ideia de a tecnologia conseguir perceber onde está o indivíduo e de para onde está virado são as ideias base em que o projeto estava focado. E nós estávamos a construir isso nos últimos quatro/cinco anos [para smartphones com Tango]. Mas a ideia de levar estas funcionalidades a todos os telefones Android era sempre o objetivo final. E nós andávamos a trabalhar nisso há um tempo e foi assim que anunciámos o ARcore. A ideia de levar uma plataforma de realidade aumentada para vários telefones era o objetivo e acho que fomos bem sucedidos com isso.

É um mercado de 404 mil milhões. Aumentar a realidade é a próxima “grande cena”?

E o que vai acontecer aos smartphones Tango que já foram lançados, como o ASUS Zenfone AR?
Eles estão no mercado, a Lenovo também tem um modelo. Eles são publicitados como smartphones para realidade aumentada e nós estamos a levá-los a escolas e a dar-lhes outros usos. Mas agora as boas notícias é que estamos a levar a mesma tecnologia a muitos muitos mais telemóveis.

Quando podemos esperar que o ARcore chegue aos nossos telefones, especialmente em Portugal?
Nos próximos meses a versão de teste vai ser disponibilizada para algumas pessoas, mas já está disponível nos topo de gama da Samsung e nos smartphones Pixel 1 e 2 da Google.

"Estamos a olhar para os vários mercados minuciosamente. Expandimos em Novembro para França, Espanha e Itália. Por isso, fiquem atentos."

Falando nos smartphones Pixel, quando podemos esperar que cheguem a Portugal juntamente com outros produtos da Google, como o DaydreamView?
Estamos a olhar para os vários mercados minuciosamente. Expandimos em Novembro para França, Espanha e Itália. Por isso, fiquem atentos.

Estávamos a falar do Google Daydream. É o produto que vai competir com o Oculus Go, do Facebook, ou devemos esperar outro produto da Google?
O DaydreamView são uns óculos que se põem no smartphone. E depois temos a plataforma Daydream, que funciona para todos os dispositivos de realidade virtual móveis. Anunciámos uma parceria com empresas para termos um dispositivo de realidade virtual que funciona sem o telemóvel. Uma dessas empresas é a Lenovo. O Oculus Go é uma tentativa do Facebook ter uns óculos de realidade virtual que também não precisem de um smartphone. As boas notícias são que os utilizadores têm mais escolha. Há também o Google Cardboard, se alguém quer um acesso rápido à realidade virtual. A vantagem de um aparelho que não use o smartphone é que tem mais qualidade na experiência, e por isso é que estamos a fazer também uma versão assim e, suspeito, a razão que leva a Facebook a fazer o mesmo.

Muitas pessoas a experimentarem realidade virtual ficam enjoadas, eu assumo que sou uma delas. O Amit já ficou?
Não, nunca. O meu corpo aguenta bem (risos).

E o que estão a fazer quanto a pessoas que ficam enjoadas a usar realidade virtual?
Uma das razões pela qual perdemos tanto tempo no DayDream foi essa. É por isso que somos tão rígidos quanto aos smartphones que podem ser usados na plataforma. Ainda não podemos garantir que as pessoas não vão enjoar, mas há uma correlação entre isso e o quão conseguimos que a imagem atualize em frente dos olhos dos utilizadores. Esse movimento chama-se “movimento de latência de fotões”. Se conseguirmos reduzir esse movimento a 20 milissegundos, aí não vão existir enjoos. Estamos a tentar resolver isso com a tecnologia. Uma das maneiras que enocntrámos com o Google Earth foi reduzir a visão periférica da imagem, desfocando os cantos e focando no centro e isso reduziu os enjoos. Mas ainda estamos a descobrir e o nosso objetivo é tornar o nosso produto cada vez melhor para as pessoas.

E devemos pensar em realidade virtual e realidade aumentada como um conceito só, como a Microsoft agora faz ao apelidar os dois de realidade mista, ou são dois mercados distintos?
Pensamos nisso numa forma de maior imersão quando usamos computadores: um computador poder reconhecer o que vês, seja pelo smartphone ou, no futuro, por wearables [tecnologia que se veste], ou de reconhecer o lugar em que estás e projetar experiências digitais à tua frente como se fossem quase reais. Pensa como se fosse uma linha. Numa ponta está o ambiente completamente imersivo, em que estás num mundo completamente digital, e isso é realidade virtual. No outro lado da linha está a realidade aumentada, em que pegas no teu smartphone com a câmara ligada, pões à tua frente e aparecem-te direções e informações em cima da imagem do mundo real. E há várias interações no meio da linha, é difícil arranjar um termo. Nós, na Google, chamamos a tudo imersive computing [“imersão com computadores”].

Estão a trabalhar com os Google Glass, os smartglasses (óculos que projetam imagem nas lentes) que eram para ser lançados há uns anos?
Não, só com experiências para smartphones. Isso é outro ramo da Google.

Quando podemos esperar smartglasses da equipa de realidade virtual e aumentada da Google?
Eu acho que um dia esse tipo de tecnologia vai realmente existir. Alguns produtos já estão disponíveis, mas têm usos específicos para indústrias. Nós acreditamos que ainda vai demorar um pouco até termos lentes óticas avançadas o suficiente.

Mas quanto tempo até termos essa tecnologia?
Não sei mesmo, qualquer palpite é tão bom como o meu. Sei que há empresas a trabalhar com isso e que nos próximos anos vários protótipos vão aparecer.

Trabalham com realidade virtual e aumentada da mesma forma?
Sim, apesar de terem fins diferentes, as ferramentas de base para criar conteúdos são as mesmas. Trabalhamos as duas realidades ao mesmo tempo.

E é a realidade virtual apenas uma moda ou algo que vamos ver no futuro cada vez mais?
Eu acho que com cada nova tecnologia as pessoas olham e perguntam-se isso mesmo: “isto é uma moda ou algo que vai ficar por algum tempo”. Nós achamos que é algo que vai ser usado a longo prazo cada vez mais. Está já a ser usado em várias áreas, da saúde ao entretenimento. E está a começar a ganhar mais consumidores um pouco por todo o mundo.

E enfrentamos o perigo de a realidade virtual ser imersiva ao ponto de não distinguirmos o real do digital?
A ideia de imersão é completamente diferente do que apenas vê-la. É entrar verdadeiramente na história. Mas acho que estamos seguros em usar estas tecnologias sem qualquer alarme.

"Eu acho que com cada nova tecnologia as pessoas olham e perguntam-se isso mesmo: "isto é uma moda ou algo que vai ficar por algum tempo". Nós achamos que é algo que vai ser usado a longo prazo cada vez mais."

Qual a sua experiência preferida com realidade virtual?
Sou um grande fã de desporto. Com o DayDream fazemos uma visualização nos bastidores dos eventos e de toda a ação à volta do jogo. Eu, por exemplo, gosto muito da opção de ver o campo através dos olhos do jogador. É algo muito diferente e nunca teríamos a oportunidade de ter esta experiência sem a realidade virtual.

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