Nada como um adversário em comum para reconciliar o que seria, à partida, irreconciliável. Num momento em que a União Europeia se divide (mais uma vez) entre países “frugais” e “amigos da coesão”, Luís Montenegro aproveitou a visita a Estrasburgo para almoçar com os eurodeputados portugueses e debater os desafios que Portugal enfrenta e enfrentará num contexto de cortes nos fundos comunitários. O primeiro-ministro fez logo questão de desarmadilhar o encontro, dizendo que “valoriza muito as diferenças” que separam o PSD dos demais partidos, mas acrescentando que não era aquele o momento de as sanar. E, à exceção de uma ou outra observação crítica, os eurodeputados fizeram-lhe a vontade. Até a esquerda poupou nas hostilidades.
De resto, o elogio mais improvável partiu mesmo de Catarina Martins, apurou o Observador. A bloquista destacou o facto de Montenegro ter usado a intervenção que fez no Parlamento Europeu para lembrar o esforço que Portugal faz para o orçamento comunitário. A ideia deixada pelo primeiro-ministro português — “Não se trata de um concurso de pedinchice. A contribuição portuguesa para o orçamento da União é superior à de todos os frugais (com exceção da Áustria). Dar 10 de 100 é muito mais do que dar 50 de 1000” — foi particularmente sublinhada pela eurodeputada bloquista.
Horas depois do almoço com Montenegro, Catarina Martins assumiria uma sintonia quase perfeita com Montenegro nesta matéria e na questão dos apoios às regiões ultraperiféricas. “O orçamento da União Europeia, tal como foi apresentado, é inaceitável. Portugal não ganhará absolutamente nada se ceder. Qualquer orçamento que ponha em causa o modelo de desenvolvimento que tem o Estado social no centro enfraquecerá a Europa.”
Também de Marta Temido, na qualidade de chefe de delegação do PS, Luís Montenegro recebeu um apoio original. Em contraciclo com aquilo que vem defendendo José Luís Carneiro, a ministra socialista, sentada mesmo à frente do primeiro-ministro, interveio no almoço para recordar que os “recursos eram finitos” e que, especialmente em momentos de crise, os governos deviam “privilegiar os mais desfavorecidos”.
O reparo pode aplicar-se não só ao Governo da AD, que avançou com a redução do IRS e o bónus para os pensionistas como medidas para mitigar o aumento do custo de vida, mas também a Carneiro, que insiste na redução generalizada dos impostos sobre os combustíveis e no cabaz alimentar — medidas que serviriam as pessoas com menos rendimentos, mas também as pessoas com mais rendimentos.
Esta não é a primeira vez que Marta Temido critica publicamente José Luís Carneiro. Ainda há dias, na Rádio Renascença, a antiga ministra da Saúde disse isso mesmo, distanciando-se das propostas apresentadas e defendidas pelo líder socialista: “O IVA é cego. Tem sempre esse desvirtuar. É uma medida que não discrimina positivamente nem negativamente e, portanto, é uma medida que deveria ser sempre temporária. Qual é o problema desta medida? É que nós não sabemos quanto tempo vai durar [esta crise]”.
▲ Montenegro à conversa com Carla Tavares (PS) ainda antes do almoço com os eurodeputados
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
A problemática da pera
Ainda sobre a crise energética, Montenegro repetiu que a União Europeia deve encontrar respostas coletivas para os desafios que agora se colocam, sem excluir nada e admitindo revisitar o mecanismo de formação do preço do petróleo no mercado internacional. Paulo Cunha, eurodeputado, chefe de delegação do PSD e membro da comissão parlamentar da Indústria, Investigação e Energia, fez uma intervenção no mesmo sentido, assumindo que estão a ser dados passos nesse sentido.
Na intervenção que fez perante os eurodeputados portugueses, segundo apurou o Observador, Montenegro elogiou o trabalho de Carla Tavares, a eurodeputada socialista que é correlatora e negociadora do Parlamento Europeu para o orçamento de longo prazo da União e tida neste momento como uma das parlamentares mais influentes de Estrasburgo. Antes do almoço, os dois, Montenegro e Carla Tavares, estiveram largos minutos à conversa, com Paulo Rangel a ouvir atentamente.
De resto, Montenegro repetiu o essencial do que havia afirmado no plenário, argumentando que a escolha da União Europeia não pode ser resumida ao falso binómio entre continuar a apoiar a agricultura e a coesão ou privilegiar o investimento em inovação e competitividade. A ideia do Governo português, sintetizada horas antes pelo primeiro-ministro, é uma: “Não há competitividade europeia sem coesão, nem coesão europeia sem competitividade.”
Ainda sobre a questão do investimento europeu em competitividade, Luís Montenegro deu corpo a uma ideia já apresentada pelo eurodeputado Sebastião Bugalho, que, há uma semana, no 8.º Congresso da Ordem dos Contabilistas Certificados, recordou que “80% dos fundos para inovação tecnológica, em projetos de excelência e inteligência artificial foram para cinco países: Alemanha, Itália, Holanda, França e Espanha”. Ora, argumentou Montenegro, os fundos do futuro não podem continuar a estar tão concentrados apenas nos projetos oriundos dos países mais ricos, mas têm de ter em conta a diversidade regional da Europa, sob pena de aprofundar as desigualdades já existentes.
O almoço, bife com massa, foi decorrendo sem grandes incidentes, com o primeiro-ministro a dar a palavra aos chefes de delegação de cada partido. A determinada altura, João Oliveira, eurodeputado do PCP, decidiu interromper Luís Montenegro, e instalou-se o silêncio na sala. “Senhor primeiro-ministro, faltou responder a um desafio… Como é que vai comer essa sobremesa só com uma colher?”, atirou Oliveira, provocando uma gargalhada geral.
Por essa altura, de tão dura que estava, a pera caramelizada servida no restaurante dos deputados junto ao bar das flores estava a dar muita luta aos eurodeputados que arriscaram a sobremesa. Um bocadinho como o próximo Quadro Financeiro Plurianual e os países frugais: duros de roer. Uma gestão quase tão difícil como a de Cristiano Ronaldo. João Cotrim Figueiredo ainda perguntou a Luís Montenegro se tinha resolvido a crise na seleção, mas não consta que a resposta tenha sido definitiva.
▲ Montenegro no almoço com eurodeputados portugueses em Estrasburgo
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Os jornalistas do Observador viajaram a convite do Parlamento Europeu
[Pela primeira vez em doze anos, Annie regressa finalmente a Lisboa. A revolução está nas ruas e Fernando Silva Pais está preso em Caxias. A filha vai fazer tudo para o tentar libertar, mas também vai aproveitar para festejar — e não só. Já pode ouvir “Uma ‘deusa’ no 25 de Abril”, o quarto episódio de “Os Escândalos de uma Revolucionária”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]