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Hitler conquistou o poder com um empurrão da França?

A “narrativa” mais difundida sobre a ascensão do nazismo na Alemanha apresenta esta como consequência da depressão económica que alastrou à Europa em resultado do crash de Wall Street em 1929 – e não falta quem, partindo desse pressuposto, estabeleça paralelismos com os nossos dias, vendo o crescimentos dos partidos de extrema direita pela Europa fora como resultado da crise económica decorrente do estoiro da bolha do subprime em 2008.

O historiador britânico Brendan Simms tem uma perspectiva bem diferente sobre o que aconteceu na Europa no início da década de 1930: em Agosto de 1930, Julius Curtius, Ministro dos Negócios Estrangeiros da República de Weimar, propôs à Áustria uma união aduaneira, que deixava antever uma possibilidade de alargamento a vários países da Europa de Leste. Esta abertura de portas “a uma parcial integração económica europeia sob liderança alemã […] e à unificação de facto da Alemanha e da Áustria, que o Tratado de Versailles expressamente proibia” era algo que a França, com as feridas da I Guerra Mundial ainda bem vivas e permanentemente receosa de um reerguer do poderio germânico, queria evitar a todo o custo. O acordo aduaneiro entre Alemanha e Áustria foi assinado em Março de 1931 e em Abril um “alto diplomata alemão” considerou que seria inevitável que a Checoslováquia também acabasse por aderir.

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Julius Curtius (à esquerda), ministro alemão da Economia (1926-29) e dos Negócios Estrangeiros (1929-31), ao lado de Gustav Stresemann, ministro dos Negócios Estrangeiros entre 1923 e 1929. Foto de 1929

Os franceses, alarmados, apressaram-se a retaliar, através da cessação de empréstimos que tinham feito ao Creditanstalt, a maior instituição bancária da Áustria, que já estava em dificuldades devido ao crash de 1929. Em Maio, foi declarada a falência do Creditanstalt – que, por ser “too big to fail”, teria de ser resgatado pelo Estado austríaco, à custa de cortes nos vencimentos dos funcionários públicos e de aumentos de impostos (é uma história conhecida) – o que acabou por arrastar vários bancos da Alemanha e de outros países da Europa Central e causar uma grave crise económica na Alemanha e na Europa em geral, que contribuiria para fazer ruir de vez a abalada economia dos EUA. Em 1930, escreve Simms, “o desemprego alemão estava em 3 milhões de pessoas; [após a falência do Creditanstalt] tinha saltado para mais de 5 milhões e ainda havia de subir mais. Paralelamente, a taxa de desemprego nos EUA era de 9% em 1930, mas subiria para uns debilitantes 16% em finais de 1931 e 24% em 1932”. Conclui Simms: “Foi a crise geopolítica europeia de princípios dos anos 1930 que causou a Grande Depressão e não o contrário”. Por outro lado, “a tomada nazi do poder na Alemanha […] não foi tanto um produto da depressão económica como do fracasso do desarmamento e da persistência do revisionismo. Adolf Hitler assumiu o poder com um mandato do povo e das elites para destronar o Tratado de Versailles. Partilhava a opinião predominante [na Alemanha] de que a posição central da Alemanha na Europa, rodeada como estava por todos os lados por potenciais inimigos, exigia fronteiras mais defensáveis”.

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21 de Março de 1933: o chanceler Adolf Hitler cumprimenta o marechal Hindenburg, presidente da República de Weimar, nas cerimónias do Dia de Potsdam. Dois dias depois, Hitler fará aprovar uma emenda constitucional que lhe permite governar sem o parlamento

A geopolítica europeia, o ambiente de suspeição, intimidação, provocação e conflito aberto que a dominou durante séculos, a “mentalidade de cerco”, são os focos assumidos por Brendan Simms em Europa: A luta pela supremacia, de 1453 aos nossos dias (Edições 70). Os europeus, habituados a viver em paz desde 1945 – se não se contar com os conflitos que marcaram o desmoronamento da Jugoslávia no final do século XX – parecem ter-se esquecido do que foi realmente o motor da história europeia durante séculos. Só essa falta de memória permite explicar a forma extremamente negativa ou até mesmo catastrofista com que a Europa se vê hoje a si mesma e, em particular, o descrédito com que é encarada a União Europeia. A leitura de Europa: A luta pela supremacia ajuda a recolocar em perspectiva o tempo em que vivemos e a valorizar o que hoje damos por adquirido.

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“Europa – A Luta pela Supremacia”, Brendan Simms. Edições 70. 800 páginas. Preço: 33€

A nação indispensável

A expressão “nação indispensável” foi usada por Madeleine Albright (e depois por Hillary Clinton) para se referir aos EUA, mas no entendimento que Simms tem da geopolítica europeia é a Alemanha que merece tal epíteto, “por causa da sua posição estratégica no coração da Europa [e] por causa do seu imenso potencial económico e militar”. Na verdade “Alemanha” é apenas um termo conveniente, já que tal entidade só surgiu em 1871, com a unificação promovida por Bismarck. Antes de 1871, a vinculação entre os estados germânicos foi assumindo diversas formas: entre 1815 e 1871, a Confederação Alemã e, antes dela, essa extravagante entidade que foi o Sacro Império Romano (ou Romano-Germânico), que, como Voltaire observou maliciosamente em 1756, “não era sacro, nem romano nem um império”.

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O Sacro Imperador Romano Carlos V no cerco de Mühlberg, por Tiziano, 1548

Por muitas disfunções e contradições que encerrasse, o Sacro Império Romano nunca deixou de ser, entre a coroação de Otto (Otão) I, em 962, e a abdicação de Francisco II, em 1806, fulcral na geopolítica europeia – a ponto de até o sultão Solimão o Magnífico (1494-1566) ter feito “um sério esforço para se apoderar do legado imperial germânico”, adoptando alguma da sua iconografia e promovendo exibições de poderio ao estilo imperial germânico – por aberrante que possa parecer, alguns príncipes alemães acreditavam que a sua liberdade seria mais preservada por Solimão do que pelos autocráticos Habsburgos. Francisco I de França (1494-1547) foi mais longe no ódio aos Habsburgos do que os príncipes alemães: não só declarou que “desejo ardentemente que o Turco seja poderoso e esteja pronto para a guerra […] para minar o poder do imperador, para o forçar a pesadas despesas com ele e para garantir todos os outros governos contra tão poderoso inimigo” como em 1536 firmou, para escândalo do mundo cristão, uma “ímpia aliança” com Solimão para combater o imperador Carlos V.

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A “ímpia aliança”: Francisco I de França e Solimão o Magnífico. Quadro de Tiziano, da década de 1530, resultante da fusão de dois retratos separados – Francisco e Solimão nunca se encontraram

O Sacro Império Romano tem sido retratado amiúde como um monstro desajeitado, anquilosado e ineficiente, mas tal imagem é contrariada pelo facto de ter durado quase 850 anos – um livro recentemente publicado de Peter H. Wilson, The Holy Roman Empire: A thousand years of Europe’s history (2016, Allen Lane), tenta, ao longo de um milhar de páginas, dissipar a aura negra acumulada em torno do Sacro Império Romano e demonstrar que este conseguiu governar com razoável eficiência uma manta de retalhos de centenas de minúsculos principados e territórios, com diferentes estatutos, línguas, etnias e religiões, ao longo de 1000 anos (Wilson toma a coração de Carlos Magno, em 800, como início do Sacro Império Romano).

De vítima a bully

Mas se o Sacro Império Romano era a mais extensa e populosa unidade política da Europa, tal não quer dizer que os territórios que hoje constituem a Alemanha gozassem de uma posição de supremacia. Pelo contrário, a sua extrema fragmentação retirava-lhes força e tornava-os frequentemente em vítimas das ambições das outras potências europeias

A Confederação Alemã, constituída em 1815 pelo Congresso de Viena, no rescaldo da derrota de Napoleão, continha 39 entidades territoriais, mas o vínculo entre eles era demasiado frouxo para garantir a segurança e impedir que fossem “inundados por cossacos, calmucos e quirguizes”, como receava um dos delegados à Dieta Unida de 1847, convocada por Frederico Guilherme IV da Prússia para tentar negociar uma forma de a Confederação se dotar de uma rede ferroviária, indispensável à economia e aos movimentos de tropas. Mas estava-se ainda muito longe da unificação e, em 1850, o Allgemeine Zeitung ainda exprimia o temor de que “a nossa terra volte a ser mais uma vez a arena onde estrangeiros arrogantes disputarão as suas querelas com o nosso sangue”, como acontecera, por exemplo, na Guerra dos Trinta Anos.

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Otto von Bismarck, c. 1871

A unificação de 1871, levada a cabo por Otto von Bismarck, veio mudar tudo, criando um gigante de 40 milhões de habitantes, só superado em população, na Europa, pelos 77 milhões do Império Russo. Ironicamente, a unificação alemã ficou a dever muito a França: Napoleão III estava embaraçado pela derrota sofrida no México – ao qual tentara impor, com a colaboração da Bélgica e Áustria, o imperador Maximiliano I, que acabara derrotado e fuzilado pelas tropas republicanas, em 1867 – e apreensivo pela vitória da Prússia sobre a Áustria em 1866 e entendeu que a forma de recuperar o prestígio seria conduzir uma política externa agressiva, fazendo exigências territoriais à Alemanha (e também à Bélgica e ao Luxemburgo). Acossado por fortes críticas internas, “à medida que a década se aproximava do fim, era claro que Napoleão III teria de averbar uma espectacular vitória na política externa ou ceder ainda mais terreno aos seus adversários internos”. Bismarck, através de jogadas de refinada astúcia, encorajou a postura agressiva da França e depois usou esta para atemorizar os restantes estados alemães, que trataram de se juntar à Prússia e seus aliados. Em Julho de 1870, a França precipitou-se para a guerra e foi clamorosamente derrotada pelo poderio concertado dos estados alemães. Napoleão III foi feito prisioneiro e Paris rendeu-se a 28 de Janeiro de 1871 – dez dias antes já Guilherme I, rei da Prússia, se fizera coroar Imperador da Alemanha, no Palácio de Versailles, para suprema humilhação dos franceses.

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Proclamação de Guilherme I como Imperador da Alemanha, na Galeria dos Espelhos do Palácio de Versailles. Quadro de Anton von Werner, 1885

Durante as sete décadas seguintes, a antiga “arena onde estrangeiros arrogantes disputavam as suas querelas” passou a ser a potência mais intimidante e desestabilizadora da Europa.

Um clima de suspeição e temor

Em 1871, a Grã-Bretanha, ao ver a França ser derrotada pela Alemanha, “foi tomada pelo pânico. Panfletos futuristas prevendo a invasão e conquista da Grã-Bretanha venderam-se às centenas de milhares” – isto apesar de o Império Britânico estar no auge do seu poderio. Poderiam atribuir-se tais reacções à histeria das massas e à paranóia, mas a verdade é que na conjuntura geopolítica daqueles tempos, todas as nações se imaginavam, com ou sem razão para tal, rodeadas de potenciais inimigos. A Alemanha unificada não era, pois, o único perigo que a Grã-Bretanha tinha a temer.

Em 1898, França e Grã-Bretanha estiveram à beira de se envolver numa guerra por causa de disputas territoriais na África Oriental que culminaram no “incidente de Fashoda”, um povoado perdido no Sudão (hoje Kodok, no Sudão do Sul).

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A disputa pelo controlo da África Oriental entre França (caniche) e Grã-Bretanha (bulldog), vista pelo cartoonista Joseph Morewood Staniforth, em 1898. Diz o caniche: “Bem, se não posso ficar com o osso, contentar-me-ei com uma das migalhas”

O “incidente” acabou por ter resolução pacífica, mas dois anos depois, como relata Simms, “Paris e São Petersburgo planearam em conjunto um possível ataque à Grã-Bretanha bem como uma invasão russa do Afeganistão. Falava-se até de uma partição do Império Britânico, ficando Espanha com Gibraltar, ganhos para França em África e para a Rússia na Ásia Central”.

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Cartoon inglês da segunda metade do século XIX: a Alemanha (representada por Bismarck) e o Império Austro-Húngaro (unidos, ao centro) urdem uma ardilosa teia de acordos internacionais de forma a deixar isolada a França (à esquerda)

Mas se, a partir de 1871, a Alemanha começou a povoar os pesadelos de muitos britânicos, também Bismarck vivia assombrado pelo “cauchemar des coalitions”: “o medo de ser esmagado entre as mós de uma poderosa aliança hostil”. Os político e os jornais alemães difundiam o angustiante cenário de uma Alemanha “cercada por todos os lados”, viam “um anel de ferro” a cerrar-se em seu torno. Os receios alemães não se confinavam aos países com quem tinha fronteiras: em 1895 o Kaiser Guilherme II, “lançou a ideia de uma liga continental de Alemanha, França e Rússia para conter as potências anglo-saxónicas, Grã-Bretanha e Estados Unidos” – num encontro com o czar, um ano depois sugeriu mesmo “que todo o continente europeu se devia unir para contrabalançar o poder ascendente de Washington”. Tal não significava que o Kaiser depositasse confiança nas potências a quem propunha alianças – e vice-versa – ou que as alianças não pudessem ser instantaneamente revertidas e os “amigos” de ontem não se tornassem nos “inimigos” de amanhã.

As relações internacionais eram comandadas pela paranóia e as nações assumiam políticas externas tanto mais erráticas e agressivas quanto mais assustadas se sentiam. Na viragem dos séculos XIX/XX, vendo gorar-se a possibilidade de aliança com a Rússia e França contra a Grã-Bretanha, a Alemanha de Guilherme II assumiu postura particularmente belicosa e descontrolada, com intervenções da China à Turquia, mas “o verdadeiro propósito desta atitude global era, contudo, assustar Londres de modo a que [esta] entrasse numa aliança [com a Alemanha] contra Paris e São Petersburgo. Na sua essência, a Weltpolitik [alemã] não era uma tentativa de dominar o mundo, mas um grito de socorro”.

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Cartoon de John Bernard Partridge num Punch de 1904: o Kaiser Guilherme II finge indiferença, enquanto John Bull é seduzido por uma França com ar de meretriz

Concebendo-se como estando rodeados de potências animadas de intenções malévolas, os países viam na expansão territorial indefinida a forma mais segura de fazer-lhes frente. O estadista russo Aleksandr Gorchakov escrevia em 1864 que “como os Estados Unidos na América, França em África […], a Grã-Bretanha na Índia, [a Rússia era obrigada a expandir-se] menos por ambição do que [por] absoluta necessidade [num mundo] em que é extremamente difícil ficar parado”. Em 1866, La Valette, Ministro dos Negócios Estrangeiros de Napoleão III, justificava as acima mencionadas pretensões territoriais francesas na Alemanha, Luxemburgo e Bélgica da seguinte forma: “há uma força irresistível […] que empurra os povos a unirem-se em grandes aglomerações e faz desaparecer as potências intermédias”. O escritor australiano Edward Morris reforçaria esta ideia em 1885: “o futuro pertence aos grandes Estados”, que, no seu entender, seriam os EUA, a Rússia e a Alemanha; para Morris, a sobrevivência do Império Britânico dependeria do estreitamento dos laços entre a Grã-Bretanha e os vários territórios do Império.

Embora Simms quase não dê atenção a Portugal e Espanha, vale a pena lembrar que, por esta altura, numa escala mais modesta, também nestes países se registou alguma agitação intelectual em favor de uma União Ibérica, por se entender que a marcha da história impunha a constituição de unidades políticas cada vez mais abrangentes: em 1848 constituía-se em Paris o Clube Democrático Ibério, reunindo 400 portugueses e espanhõis, seguido pela Liga Ibérica, fundada em Madrid em 1854. Um dos primeiros e mais difundidos manifestos “iberistas” foi La Iberia, do catalão Sinibaldo de Mas, publicado em 1852 e logo traduzido para português. Em contrapartida, Mas, que fora embaixador espanhol na China, advogava que a China deveria ser retalhada em unidades governativas menores, de forma a ser mais facilmente explorada pelas potências europeias.

Em Guerra! para que serve?, recentemente publicado em Portugal pela Bertrand e cujas páginas iniciais foram pré-publicadas no Observador, Ian Morris defende que foi o crescimento dos Estados, através de guerras “produtivas” que foram submetendo as entidades territoriais menores, que conduziu ao progresso da civilização e à subida dos níveis de vida das populações. Por paradoxal que possa parecer, argumenta Morris, “da guerra vem a paz; da perda, o ganho”. A guerra traz consigo um cortejo de horrores, mas “a história mostra que não é tão má quanto a alternativa – a violência quotidiana constante, do tipo da Idade da Pedra, sangrando vidas e deixando-nos na pobreza”. O Leviatã de Thomas Hobbes – um Estado tão poderoso que é capaz de intimidar os seus súbditos e impedi-los de recorrer à violência – é a solução para um mundo fragmentado de tribos e grupúsculos, em que todos lutam contra todos. E a segurança, a estabilidade e a prosperidade serão tanto maiores quanto maior for o tamanho e poder do Leviatã, o que defende Morris, pode ser comprovado pela comparação da evolução ao longo da história do tamanho dos impérios e das taxas de morte violenta.

É curioso confrontar esta mentalidade agregadora com o acirramento das ambições independentistas a que hoje se assiste pela Europa e de que a Catalunha e a Escócia representam os casos mais notórios. Já não existindo na Europa o perigo de um pequeno país ser abocanhado por uma potência predadora, há regiões que, crendo que a pertença a uma entidade política de grandes dimensões representa um empecilho ou a partilha da sua produtividade e dos seus recursos com madraços e parasitas, imaginam que a secessão lhes trará um futuro radioso.

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A Europa em 1914, segundo cartoon alemão da época

Canhões ou manteiga

Devido ao clima de suspeição mútua entre nações, a escolha que se põe a um país entre investir mais na produção de “canhões” ou de “manteiga” esteve durante séculos claramente inclinada na direcção dos “canhões”. Mesmo quando não estavam em guerra, ao verem-se rodeados de ameaças, eram impelidos a gastar boa parte da riqueza nacional na manutenção de forças armadas numerosas e bem equipadas. Este aspecto está subjacente no livro de Simms, mas quase não é mencionado explicitamente. É, todavia, instrutivo analisar quantitativamente a evolução das despesas militares (os dados que se seguem provêm maioritariamente do artigo “Military spending patterns in history”, de Jari Eloranta): na Grã-Bretanha, o orçamento militar representou em média 29.4% das despesas do Estado no período 1535-47, 74.6% no período 1685-1813 e 36.7% em 1870-1913; em França representavam 57% em 1683, 52% em 1714 e à volta de 30% durante o século XIX. Após a derrota de Napoleão, o século XIX foi relativamente pacífico na Europa, por comparação com os tumultuosos séculos precedentes, mas os orçamentos militares voltaram a subir desmedidamente na I Guerra Mundial, representando, como fracção da despesa do Estado, 77% em França (43% do PIB), 49% na Grã-Bretanha (22% do PIB) e 91% na Alemanha. Mesmo durante os períodos de paz, a tensão reinante mantinha a despesa militar a níveis elevados: em 1938, os gastos com as forças armadas como percentagem do PIB eram de 6.5% na Grã-Bretanha, 7% em França, 11% na URSS, 15% na Alemanha e 22% no Japão; em 2014, estes valores tinham caído para 2.0% na Grã-Bretanha, 1.9% em França, 1.1% na Alemanha e 1.0% no Japão – a excepção são os 4.1% na Rússia, mas é preciso considerar que em 2014 a Rússia regressara à “mentalidade de cerco” que regera o comportamento das potências antes da II Guerra Mundial: vendo-se ameaçada a ocidente por uma NATO expandida até às portas de São Petersburgo, a sul pela agitação no mundo islâmico e a oriente pela China, a Rússia de Putin voltou a consagrar uma fatia apreciável do orçamento às despesas militares e a exibir o comportamento agressivo e errático típico de quem está assustado e ainda não encontrou o seu lugar na nova ordem mundial.

Mas, de um modo geral, pode concluir-se que uma parte apreciável da abundância material de que o mundo industrializado tem desfrutado desde o final da II Guerra Mundial decorre de os Estados terem deixado de desviar muita da sua riqueza para o fabrico e aquisição de “canhões”.

Uma perspectiva distorcida

Comprimir 550 anos de história conturbada em pouco mais de 600 páginas leva, inevitavelmente, a que alguns aspectos sejam tratados mais superficialmente. Porém, Europa: A luta pela supremacia enferma, de um problema estrutural de focagem: os acontecimentos mais distantes no tempo são tratados sumariamente, os mais recentes com mais detalhe. Assim, os últimos 100 anos tomam quase 300 páginas, enquanto os primeiros 200 (1450-1650) são despachados em pouco mais de 40 – o que leva a que a Guerra dos Trinta Anos quase passe despercebida (é aludida, mas como se o leitor estivesse a par da natureza e detalhes desse conflito).

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“Os enforcados”, da série de 18 gravuras “As grandes misérias da guerra” (1632), por Jacques Callot, que retrata a devastação e crueldade da Guerra dos Trinta Anos

Este tratamento comparativamente ligeiro do período 1450-1650 e a ênfase dada à Europa Central fazem com que Portugal, cuja relevância na geopolítica mundial começou a declinar no final do século XVI, seja quase invisível no panorama esboçado por Simms.

Aqui e ali, são detectáveis algumas imprecisões: o navio de guerra alemão Panther, que esteve envolvido no “incidente de Agadir”, em Marrocos, em 1911, não era um “couraçado” mas uma modesta canhoneira (deslocando pouco mais de 1000 toneladas, por comparação com as 20.000 típicas de um couraçado); e não é muito rigoroso descrever sumariamente o 25 de Abril de 1974 como um golpe de “oficiais do exército determinados a acabar com a dispendiosa guerra colonial em África”. Mas, de uma forma geral, o livro revela sólida e vasta erudição (apoiada em quase 100 páginas de notas) e uma invulgar capacidade de síntese e é um precioso contributo para a compreensão da história da Europa. É provável que o desempenho e julgamento dos eurodeputados, dos funcionários das instituições europeias e dos dirigentes da União Europeia pudessem ser melhorados pela sua leitura, ainda que Simms não tenha a veleidade de oferecer soluções ou sequer de arriscar prognósticos sobre o futuro da Europa neste momento de encruzilhada.

Por último, cabe elogiar um aspecto que costuma ser descurado nas edições portuguesas de livros sobre história: o índice remissivo tende a ser suprimido ou substituído por um índice onomástico muito simplificado e de escassa utilidade, mas neste caso as Edições 70 asseguraram um índice remissivo detalhado e estruturado, que “consome” uma centena de páginas (um custo suplementar, é certo), mas permite que o livro seja consultável e não se torne num “tijolo” mudo e inescrutável, dormitando numa estante. E Europa: A luta pela supremacia é tão rico em informações, análises lúcidas e perspectivas reveladoras que justifica que a ele se regresse com frequência.