“E o Ed Sheeran? O que é que aconteceu ao Ed Sheeran?”: os Grammys vistos do sofá

29 Janeiro 2018146

Jay-Z era o mais nomeado, mas a festa foi de Bruno Mars e Kendrick Lamar. Alexandre Borges, que nunca ouviu um disco inteiro de nenhum, gramou com os Grammys. E sobreviveu para contar.

Não nos lembramos de qual terá sido a última vez que acompanhámos a cerimónia de entrega dos Grammys, mas é possível que Paul McCartney estivesse a receber o prémio de artista revelação. Sintonizamos a SIC Caras, um daqueles 200 canais incríveis que nem sabíamos que tínhamos, e instalamo-nos no sofá com muito café e um cartão com o nosso tipo de sangue, não vá dar-se o caso de cairmos para o lado durante a noitada. No fundo, é um treino para a maratona dos Óscares, sendo que há filmes com melhor música do que estes Grammys e mais texto nalguns raps do que no guião de muito filme intelectualão.

Este ano, os Grammys festejam a edição 60. Trocaram Los Angeles por Nova Iorque, qual Infarmed das Américas, e são apresentados pela segunda vez consecutiva por James-quem-Corden. Ao contrário do cinema, onde tantas vezes se fala da omnipresença dos homens brancos, a edição deste ano é dominada por artistas negros como Jay-Z ou Kendrick Lamar, os mais nomeados, com oito e sete indicações, respectivamente. Entre os nomeados a álbum do ano, não há um único homem branco: além de Lamar e Jay-Z, a lista conta com Childish Gambino, Bruno Mars e Lorde. Ah. E “Despacito” consegue a proeza de ser a primeira canção em língua não inglesa a conseguir nomeações para canção e disco do ano.

Uma coisa importante a saber acerca da cerimónia da entrega dos Grammys é que não há uma cerimónia da entrega dos Grammys; há duas, e nós só vamos ver em directo a segunda, que é a que a indústria da música norte-americana considera a mais importante, mas onde conhecemos ainda menos gente do que no casamento daquela prima afastada da nossa mulher a que fomos em 2005 sob ameaça de divórcio.

Os Grammys dividem-se em 84 categorias. Sim, 84. Porque há categorias do tipo: melhor actuação rap solo ao vivo num dia ímpar em si bemol não anteriormente gravada por nenhum artista com escoliose e menos de metro e setenta. 75 foram atribuídas na cerimónia não televisionada, e isso incluiu, basicamente, todos os momentos que nos poderiam realmente dizer alguma coisa do ponto de vista musical.

A vitória de “Tonite”, dos LCD Soundsystem, na categoria de dança; a de “You Want it Darker”, do imortal senhor Cohen, em performance rock (não perguntem); “Run”, dos Foo Fighters”, melhor canção rock; “A Deeper Understanding”, dos The War on Drugs, que bateu, por exemplo, os Metallica numa corrida com o seu quê de absurdo para melhor álbum rock. Os National venceram o seu primeiro Grammy (hell, yeah!) por “Sleep Well Beast”, batendo LCD Soundsystem, Arcade Fire, Father John Misty e Gorillaz na corrida a melhor álbum de música alternativa (a única categoria onde sabíamos escrever o nome de todos os candidatos sem ter de recorrer ao Google). Os Alabama Shakes ganharam com “Killer Diller Blues” em melhor performance de raízes americanas, uma categoria curiosa onde também estavam os Blind Boys of Alabama e, uma vez mais, o senhor Cohen.

Os Rolling Stones (fixem este nome) receberam o seu 546×34√½º Grammy, neste caso a distinguir como melhor álbum de blues tradicionais o belo “Blue & Lonesome” com que, no ano passado, regressaram aos discos de originais. “Mental Illness”, de Aimee Mann, foi melhor álbum folk, e “The Princess Diarist”, da falecida Carrie Fisher, o melhor em spoken word. “La La Land” levou dois prémios nas categorias de música para o audiovisual e a “Deluxe Edition” de “Pure Comedy”, de Father John Misty, o de melhor “Recording package” (sim, isto chega aos embrulhos). A edição do 40º aniversário do disco de ouro da Voyager ganhou em “melhor edição especial limitada em caixa” e as “Variações de Goldberg”, gravadas por Glenn Gould, o ”álbum histórico” (eu sei que se estava a perguntar).

Posto isto, só nos faltam mesmo quatro horas de cerimónia, com apenas nove entregas de prémios e mais actuações musicais que o último “Natal dos Hospitais”. E ver como estamos de #metoo na indústria da música.

00h30: Começa a transmissão. Sem som, coisa de somenos, tendo presente que é uma gala de entrega de prémios de música. O número de abertura tem Kendrick Lamar, dezenas de soldados em palco e a bandeira norte-americana ondulando atrás. Deve ser um manifesto anti-guerra, mas, como não há som, sabe-se lá.

00h32: Vem o som e entram os U2. Algumas pessoas dirão que estávamos melhor em silêncio. É “XXX”, de Lamar. O humorista Dave Chappelle completa o número, falando entre momentos da canção: “A única coisa mais assustadora do que ver um homem negro a ser sincero na América é ser um homem negro sincero na América”.

00h36: Termina a performance e a sala inteira aplaude de pé. Kendrick Lamar, porém, continua com aquele ar de quem está mais preocupado em lembrar-se de onde deixou as chaves do carro.

00h37: James Corden dá as boas-vindas ao Madison Square Garden. É o gémeo perdido do Cameron de “Uma Família Muito Moderna”, mas em mais sonso.

00h38: Actuação de Lady Gaga, “Joanne”, que introduz pedindo amor e compreensão. O piano está decorado com o que parece ser um cisne gigante abatido em pleno voo e que calhou esparramar-se precisamente ali.

00h43: John Legend e Tony Bennett brilham com um brevíssimo “New York, New York” em dueto e a cappella. Vêm entregar o primeiro prémio da noite, categoria: Performance rap/cantada (o que quer que isso signifique). Vencedor: Kendrick Lamar e Rihanna, por “Loyalty”.

00h45: Lamar agradece o prémio. Parece genuinamente feliz, ou então já encontrou as chaves.

00h47: Primeiro intervalo ao fim de 17 minutos. A este ritmo, espera-nos coisa de 139 intervalos – e outras tantas autopromoções do programa da Joana Latino e do Cláudio Ramos.

00h51: Voltamos ao vosso convívio. Corden faz o elogio encomiástico de Jay-Z, dizendo que é um dos maiores de todos os tempos. Assim. Porque sim. Se calhar, dispensávamos aquele pró-forma dos prémios e íamos já para casa.

00h52: Acordaram Sam Smith (rapaz de quem talvez se lembrem como aquele que não sabia quem eram os Radiohead) e ele veio prontamente cantar para nós, mesmo em pijama e roupão. Querido.

00h56: Segundo prémio da noite, artista revelação: Alessia Cara.

01h00: Ao fim de meia hora de cerimónia, rimos a primeira vez – e não foi graças ao apresentador. O comediante Jim Gaffigan entra e diz: “Está tudo bem. Eu também não sei quem sou.” Diz que vem de uma família de músicos; o pai – claro – era dos Abba e a mãe o Elton John. Antes de ir e nos deixar a lamentar não ser ele o anfitrião, introduz a actuação dos Little Big Town com a “Better Man” que ganhou, horas atrás, o Grammy para melhor performance por uma banda ou duo country.

01h10: Gary Clark Jr. e Jon Batiste fazem um número de homenagem a Chuck Berry e Fats Domino, lendas da música americana desaparecidas em 2017.

01h14: Terceiro prémio do serão, melhor performance pop a solo: “Shape of You”, Ed Sheeran. Sheeran, considerado um dos grandes esquecidos pelas nomeações, não está presente (não estamos a dizer que amuou. Pode ter tido um furo). Clark Jr. e Jon Batiste recebem o prémio em nome dele com o entusiasmo com que, no tempo do telefone fixo, a mãe daquela namorada que tivemos no 11º ano atendia e dizia que a filha não estava. Não. Com menos entusiasmo ainda.

01h20: O momento por que tanto esperávamos: Luís Fonsi e amigos tocam “Despacito”, ao vivo. Por sorte, ainda só o tínhamos ouvido 16 vezes esta semana. Não. 23. Desde ontem. À noite.

01h25: Childish Gambino, alter-ego musical de Donald Glover, canta “Terrified”. Tem uma percussionista cheia de pinta, que é uma apreciação extremamente científica da nossa parte.

01h37: David Chappelle, que veste um blusão a dizer “Chappelle” (facilitava-nos tanto a vida se toda a gente tivesse tido esta bondade de se identificar na lapela) anuncia o melhor álbum rap: “Damn.”, de Kendrick Lamar. Lá volta Lamar ao palco, fala repetidamente no que o hip-hop lhe deu, só para nos baralhar ainda mais quanto à distinção entre estes géneros musicais, e termina a sugerir Jay-Z para Presidente. Se a moda de mandar figuras do entretenimento para a política pega, os políticos vão mesmo ter de arranjar outra coisa para fazer na vida. Trabalhar, talvez. (Aplauso de pé aí em casa)

01h40: Pink canta “Wild Hearts Can’t Be Broken”. Se isto fosse realmente o “Natal dos Hospitais”, seria o equivalente ao “Maravilhoso Coração”.

01h48: Corden leva Sting e Shaggy para um sketch no metro de Nova Iorque. O resultado é… simpático.

01h53: Bruno Mars, com Cardi B, canta “Finesse”. Não envergonharia ao lado do melhor Michael Jackson (dizemos nós, que nunca fomos grandes entendidos em jacksonismo).

01h56: Estamos mais ou menos a meio. Quinto prémio da corrida, melhor álbum de comédia: “The Age of Spin & Deep in the Heart of Texas”, Dave Chappelle (a par de Kendrick Lamar e Jay-Z, o cavalheiro que mais parece o dono da festa, esta noite). Para que os derrotados não fiquem tristes, Corden dá cãezinhos a todos (vá. Aos poucos, é capaz de passar com o 10).

02h00: Sting canta “Englishman in New York” – defina óbvio. Ainda assim, sabe bem ver uma cara conhecida. Daquelas do tempo em que estavam a dar o prémio lá ao miúdo McCartney. Shaggy, entretanto, junta-se ao número. Por sua vez, faz lembrar o tempo em que a MTV era um canal que passava música. Coisa remota, miúdos. Deixem lá isso.

02h12: Enésima actuação musical: DJ Khaled, Rihanna e Bryson Tiller, “Wild Thoughts”. Tem um sample de “Maria, Maria”, de Santana, e Khaled aos gritos a mandar-nos pôr as mãos no ar e a lembrar que estamos nos Grammys, para o caso de alguém ter batido com a cabeça numa coisa pontiaguda e esquecido esse pormenor.

02h21: Um dos New Kids on the Block está a anunciar o melhor álbum country do ano. Significa que, pelo menos um deles está vivo e em liberdade – e que alguém ainda tinha o número de telefone dele – já valeu a pena ter ficado acordado até tão tarde. Quanto ao prémio, vai para Chris Stapleton, por “From a Room – Volume 1”. Temos quase a certeza de que o vimos no último Astérix.

02h25: Maren Morris, Eric Church e os irmãos Osborne tocam “Tears in Heaven”, em homenagem às vítimas dos ataques de Las Vegas e Manchester.

02h35: Cabe a Janelle Monáe o discurso do “Time’s Up”. Reclama direitos iguais para homens e mulheres, oportunidades de trabalho, lugares e ordenados, e explica que o problema não está só em Hollywood nem Washington; está também ali, na indústria deles. Em todo o lado, diríamos. A mensagem continua, depois, na actuação de Kesha: “Praying”, acompanhada pelo Resistance Revival Chorus e por Cindy Lauper, entre outras.

02h44: Camila Cabello, jovem cantora de origem cubana, introduz a actuação dos U2, 30 anos depois do seu primeiro Grammy, por “The Joshua Tree”, a sua visão do sonho americano, lembra. Num belo número gravado dois dias antes, Bono e companhia actuam num palco flutuante no porto de Nova Iorque, com a Estátua da Liberdade por pano de fundo. Os versos iniciais de “The New Colossus”, de Emma Lazarus (“Give me your tired, your poor”) dão entrada a “Get Out of Your Own Way”. Para lembrar que os Estados Unidos, e Nova Iorque em particular, foram construídos por pobres imigrantes das paragens mais distintas.

02h55: Sting, o branco que mais tem aparecido nesta cerimónia, anuncia a canção do ano: “That’s What I Like”, de Bruno Mars. Paciência, Luís Fonsi. Há sempre os Grammys latinos – se o Carlos do Carmo não limpar aquilo outra vez.

02h58: Bom momento anti-Trump, finalmente. James Corden lembra que vários ex-Presidentes e candidatos ganharam Grammys no passado por causa da categoria “álbum de spoken word”. Lança, então, uma peça acerca do disco que poderá ganhar no ano que vem: um casting onde uma série de estrelas lê passagens de “Fire & Fury”, incluindo John Legend, Cher, Snoop Dog e… Hillary Clinton.

03h01: Elton John, sempre no seu ar José Cid com mais lantejoulas, actua com Miley Cyrus. Perguntamo-nos se os millennials perceberão que forma é aquela que tem o galardão do Grammy e que relação terá com esse nome: “Grammy”.

03h15: Homenagens a Leonard Bernstein e Andrew Lloyd Webber. Uma senhora razoavelmente parecida com a Dina Aguiar, e que ora gargareja, ora desafina como provavelmente Dina Aguiar desafinaria, canta “Don’t Cry for me Argentina”. Não voltamos a fazer isto sem um subsídio de risco.

03h33: Alicia Keys vem entregar o penúltimo prémio da noite: gravação do ano (não nos perguntem qual a diferença para álbum do ano). Vai para “24K Magic”, de Bruno Mars. O vencedor faz um agradecimento simples e sincero à equipa, à namorada e ao pai: “Olha para mim! Estou nos Grammys!” Ainda assim, faz pensar que a mais desinspirada noite de Óscares dá 10-0 a tudo isto, em termos de comoção.

03h42: Corden dá a entender que vai chamar Barack Obama e a sala quase vem abaixo. Afinal, está só na hora do discurso do Presidente da Recording Academy, Neil Portnow (aparentemente mais autêntico do que costumam ser os da Academia de Artes e Ciências, há que dizer).

03h48: Chris Stapleton e Emmylou Harris, ele já duplamente premiado este ano, ela já galardoada com um Grammy de carreira, tocam durante o ‘in memoriam’ que presta tributo às personalidades da música que desapareceram no último ano. E não foram poucas: Tom Petty, Charles Bradley, Dolores O’riordan, Chuck Berry, Fats Domino, Jerry Lewis, Chris Cornell, Chester Bennington, entre outros.

03h53: Actuação conjunta de Logic, Alessia Cara, Khalid e um coro de sobreviventes a tentativas de suicídio. Uma canção de esperança, a promover um número telefónico de ajuda, e que Logic aproveita para todas as causas: direitos dos negros, das mulheres e dos imigrantes que, ao contrário do que diz o outro, não vêm de nenhuns “shit holes”.

04h00: Entram Bono e The Edge para entregar o prémio final, o de álbum do ano. Um discurso curioso: “Podem fingir que isto não é importante, mas vocês sabem que é muito importante. Ter os vossos pares, as pessoas que estão aqui na sala, as pessoas que vos inspiraram e que sabem de música, a elegerem o vosso disco como o melhor”. É a consagração de Bruno Mars – “24K Magic”.

04h04: Acaba a noite. Mars fez o pleno com seis prémios em seis nomeações; Kendrick Lamar ganhou cinco em sete; Jay-Z muita pancadinha nas costas e zero em oito. Nós vamos para a cama a pensar que também a canção dos patinhos nunca teve o reconhecimento que merecia.

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