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Existem pais hooligans no desporto jovem? Muitos…

22 Fevereiro 201611.294

Aviso

Este artigo contém linguagem e descrições que podem ferir a sensibilidade dos leitores

Berros contra tudo e todos, invasões de campo, jogos interrompidos por tareias nas bancadas. Já se viu de tudo e o Observador ouviu relatos de seis treinadores de futebol, voleibol e basquetebol.

Pouco passava das 11 da manhã. Era domingo, Dia dos Namorados, e essa manhã até começou com mel. Uma adepta da equipa da casa — um clube tradicional de Lisboa contra um dos grandes — recebeu um ramo de rosas pela mão de um coração com pernas (a sério). Sorrisos, muitos vídeos para partilhar nas redes sociais e graçolas para a pombinha, era assim a disposição durante os primeiros minutos daquele jogo de iniciados (miúdos com 13, 14 e 15 anos). Depois, com o temporal que prometia chegar, bateu à porta o primeiro golo dos visitantes. E o furacão no verbo…

— Se ele não tem colhões para jogar, não o mete!!
— Esta cultura de dar a bola aos outros… É a coisa mais estúpida que já vi!
— É isso, deixa-o lá dentro! Levas meia dúzia hoje para ver se abres os olhos…
— Vamos é todos para o Colombo, ó caralho!
— Se ele fosse bom não estava aqui…

Foi mais ou menos assim durante toda a partida, com os decibéis desenvergonhados. Ao intervalo, houve uma pausa para o farnel, com Favaios, tinto e sandes. Faltavam 20 minutos para o meio-dia, com o temporal a cerrar os dentes e os chapéus de chuva a lembrarem os escudos dos espartanos do filme “300”. O recomeço do jogo devolveu o tom áspero àquela gente. Os miúdos, lá dentro, mantinham a compostura, pediam desculpa quando davam um toque no adversário, só queriam jogar à bola. Não bastava a tareia que estavam para levar, que só pararia nos nove, como também continuariam a ouvir gritos, críticas e até ameaças à integridade física de um fiscal de linha aquando da marcação de um penálti:

— Eles treinam a sério, pá! Não andam aqui a brincar como este, a brincar à apanhada e depois não sei o quê…
— Oh Rodrigo! Joga! Não é só chuto para a frente, man
— [Prrrii, penálti] Foi fora da área, ó filho da puta!
— Mas estes palhaços de merda têm de fazer isto!? Estão a ganhar, estão a ganhar. Mas há necessidade disto!? Os miúdos a levar quatro…
— Estes gajos só estão bem quando levarem nos cornos [cerra o punho, a menos de dois metros do fiscal de linha]. Não viste, pá!? Não fazes parte da equipa de arbitragem? Só estão bem quando levarem…
— Eii, tem calma, pá. Então os miúdos não jogam nada e a culpa é dos árbitros?

E lá terminou, nos 9-1. Os mais novos dão apertos de mão e seguem para o banho, com os olhos cravados no chão. Os mais velhos encolhem os ombros e descem à terra, a adrenalina serenou. “Toda a gente sabe e conhece o panorama desportivo em Portugal, como existem muitos comportamentos completamente inaceitáveis dos pais em relação aos treinadores e em relação à prática desportiva dos filhos”, explica ao Observador Carlos Neto, professor e investigador da Faculdade de Motricidade Humana. “O foco dos pais está centrado na performance desportiva e não na vulnerabilidade do próprio praticante.”

É preciso não confundir a beira da estrada com a Estrada da Beira. Este comportamento não é o da maioria das pessoas que vão ver jogos de crianças e adolescentes. Os pais não são os maus da fita, querem obviamente o melhor para os filhos, mas há muitos que perdem a cabeça. Durante o jogo descrito em cima, houve uma ocasião em que se percebe o efeito dessas palavras azedas. Um miúdo alheou-se do jogo durante uns segundos e olhou para a bancada com olhos enigmáticos, o que até levou um pai a comentar “ele ainda te manda é para o caralho”. Fica a dúvida se o rapaz sentia revolta, vergonha ou angústia e impotência. Ou se estava apenas sem rumo. É que muitas vezes as indicações e ordens dos pais, que batalham com as do treinador, confundem os atletas, minam a autoridade e eventualmente prejudicam o miúdo. O Observador ouviu seis treinadores de futebol, voleibol e basquetebol para entender melhor o papel deste tipo de pais no desporto jovem.

“Basta o pai começar aos gritos e ele começa logo a tremer. Depois não sabe o que fazer. Fica com medo”

Vítor Silva passou muitas horas de quase 15.330 dias a formar miúdos. “Meninos”, como prefere dizer. Este homem entregou-se à causa vai para 42 anos e continua a viver irrequieto com o que rodeia o desporto jovem. Voluntário na Cercica, numa Aldeia SOS e na Santa Casa da Misericórdia, recebeu em 2013 a Medalha de Mérito do Comité Olímpico Português, pelos serviços relevantes prestados ao desporto nacional.

Passou mais de uma década no Estoril Praia, clube que há pouco tempo abandonou. “O Estoril está a formar meninos para o futebol, não é o futebol para os meninos. Não estava para isso.” Vítor criou um modelo, prioridades, focos, regras e, lá mais para a frente, aprendeu o “processo de surdez”.

“Os pais acham que o seu filho joga sempre melhor do que os outros que lá estão”, explica. Esta será a génese de todos os comportamentos questionáveis que se veem pelo país fora, seja em bancadas de um campo de futebol ou num qualquer pavilhão. Ou seja, é transversal a todos os desportos.

“Eu tinha uma regra: quando o pai interfere no jogo, de uma forma visível, o menino sai. ‘Estou farto de dizer para ele estar calado’, chegaram-me a dizer miúdos. Se o pai diz joga para a esquerda ou centro, faz aquilo, faz assado, à segunda vez vou tirar o menino. Depois explico-lhe muito bem: o pai é muito amigo dele, mas neste caso não está a ser.” Esta estratégia levou os miúdos do clube canarinho a dizerem entre eles “com este não pega”, por isso é seguro dizer que os pais foram, de certa maneira, educados. “Uma vez, em Vila Franca, eles estavam lá em cima a dar gritos que se ouvia no campo, a 500 metros, se calhar… É uma doença autêntica!”

"Uma vez em Vila Franca, eles estavam lá em cima a dar gritos que se ouviam no campo, a 500 metros, se calhar... É uma doença autêntica!"
Vítor Silva

O primeiro passo, diz Vítor Silva, é compreender e definir a filosofia da formação. “O desporto não é só para aqueles que jogam bem. O que interessa é a entrega, andar de cabeça levantada. Muitas vezes, o menino é o que o pai lhe diz em casa. E diz-lhe de tudo, que não devia ter saído, que devia ter sido assim… A criança fica baralhada.” O treinador entregava um livrinho aos jovens, nos quais ensinava e explicava o porquê de jogarem na tal posição e os princípios de jogo. “Nunca se falava no que é melhor [jogador], porque se ganha e perde… Fala-se, sim, na capacidade de se entregar à dificuldade.”

Vítor tentava aproximar os pais — “sem os pais não fecha o triângulo” –, dando-lhes documentos, marcando três a quatro reuniões por ano. “No primeiro ou no segundo jogo, os pais iam ao balneário para ouvir a conversa antes do jogo, para perceberem que eles nem estavam a ver bem, nem sabiam o que a equipa queria para aquele jogo.” Depois, não havia conflito com a escola: quem falha treinos para estudar, não será riscado da convocatória.

Este homem não tem dúvidas: “Se tivéssemos aqui o Mourinho, o Guardiola e mais quatro ou cinco, se calhar havia diferenças [nas decisões]. Os pais podem ler muito e ver muitos jogos, mas não é possível comportarem-se assim. O prejuízo vai cair sobre o menino. Basta o pai começar aos gritos e ele começa logo a tremer. Depois não sabe o que fazer. Fica completamente a tremer, com medo.”

“O prejuízo vai cair sobre o menino. Basta o pai começar aos gritos e ele começa logo a tremer. Depois não sabe o que fazer. Fica completamente a tremer, com medo”

Agora, Vítor está no Talaíde, “com miúdos de bairros mais complicados de Lisboa”, por ser mais preciso ali. “Tudo isto é muito diferente. Uma coisa é o Estoril, outra é isto. A maioria dos pais não quer saber de nada. É gravíssimo. Um menino vem ter comigo e diz-me ‘eu vou embora’ e ‘nestas equipas há poucos ciganos e muitos pretos’. Isto dito por uma criança de oito anos.” Lembrando a realidade do Estoril, esboça a primeira gargalhada: “É preciso ter alguma firmeza. É que por terem vidas boas julgam que os treinadores sem aquilo [futebol], coitados, morriam à fome”.

Neste clube mais modesto é complicado levar à risca a tal regra de tirar um jovem caso o pai esteja mais exaltado. É que no futebol de 7 tirar um ou dois, não havendo mais ninguém para entrar, torna-se uma tarefa difícil. “Temos de entrar num processo de surdez. Claro que depois falamos, explicando o que poderá acontecer. Tem de haver esta postura de falar com os pais, sem isto [o triângulo] fechar não vai correr bem. Depois juntam-se os estudos e relatórios que fazemos — uma trabalheira! A criança beneficia com isso.”

“Quando o miúdo falhou, o pai levantou-se, encostou-se à grade e gritou: ‘És uma merda!'”

No basquetebol a coisa não fica mais pacífica. Quem o diz é Ricardo Reis, de 36 anos, atualmente a treinar as juniores do Queluz. “Já vi pais a entrar em campo para agredirem árbitros. Já vi pais a agredirem-se”, conta, ressalvando que tais cenas aconteceram no basquetebol masculino.

“No feminino nota-se menos, há um grande sentimento de proteção dos pais. Ainda há umas semanas, fiquei a ver o jogo dos iniciados masculinos na bancada e fiquei ao lado de um pai e fiquei chocado. O miúdo estava dentro de campo, mas não se estava a divertir. Estava a ser terrível para ele. O miúdo até é dotado e tem capacidades técnicas, mas não conseguia fazer nada, porque o pai estava a colocar-lhe uma pressão em cima…”, lembra.

E continua: “Quando o miúdo falhou um lançamento na passada, o pai levantou-se, encostou-se à grade e gritou: ‘És uma merda! Hoje não jantas, não te vou dar jantar!’ Era um menino de 11, 12 anos. São muito poucos estes casos, mas acontecem. E isso depois tem influência em tudo, nas aulas também. Ir para o basket passa a ser castigo”, explica.

“Por norma, vemos pais que foram jogadores, que acabam por transferir para os filhos as frustrações deles. Queriam ter uma grande carreira e não conseguiram, então obrigam os filhos a seguir basket, querem que vinguem e sejam grandes jogadores. Esta pressão é muito mais evidente nos clubes que têm grande historial e palmarés.”

"Por norma, vemos pais que foram jogadores, que acabam por transferir para os filhos as frustrações deles. Queriam ter uma grande carreira e não conseguiram, então obrigam os filhos a seguir basket, querem que vinguem e sejam grandes jogadores. Esta pressão é muito mais evidente nos clubes que têm grande historial e palmarés."
Ricardo Reis

Pedro Marques jogou basquetebol dos 8 aos 23 anos e nunca viu grandes filmes tristes, mas centra a atitude negativa dos pais nos árbitros. “Tinhas de tudo: os que não iam aos jogos, como os meus, os que iam para cumprir o sacrifício semanal e os que até se interessavam e aprendiam o suficiente para ir para a mesa de jogo e se insurgiam com os árbitros”, conta ao Observador. “Eu acho que o futebol nisso é capaz de ser um caso à parte porque, bem ou mal, toda a gente sabe os mínimos para duvidar de certas decisões. No basquetebol, que não faz parte da cultura portuguesa, é preciso um processo de aprendizagem para se refilar com razão.”

Marques representou as Oficinas de S. José, por isso, explica, não existia a pressão e dinâmica de clubes como Algés, Benfica, Queluz, Belenenses ou Barreirense. Num desses pavilhões, as tabelas chegavam a ser abanadas e a sua equipa alvo de cuspidelas. “Não sei se algum pai pensa em fazer do filho uma mina de ouro, como no futebol, até porque nenhum basquetebolista português é rico ou reconhecido”, desvaloriza.

“Mais tarde fui árbitro, quando não havia ninguém, e cheguei a parar o jogo, com a polícia a pedir-me para não responder aos pais.”

“Nós tínhamos um pai que era ao contrário”, recorda Pedro Marques, de 28 anos. “Ele ameaçava o filho que o tiraria do basquetebol se ele continuasse a ser excluído por fazer as cinco faltas. De resto, não havia nenhum pai muito chato. (…) Mais tarde fui árbitro, quando não havia ninguém, e cheguei a parar o jogo, com a polícia a pedir-me para não responder aos pais. É a velha história: não tendo eu pernas e idade para isso, e sabendo o que sei hoje, vou moldar o meu filho à imagem do meu sonho.”

Pedro recorda também o caso de um colega que chegou a ser rival, que depois conseguiria atingir o estatuto de profissional naquele desporto. “O pai dele, nosso conhecido, e militar de carreira, era meio avariado. Como a coisa estava negra para eles (no Atlético), e provavelmente porque achou que o filho estava a levar muita cacetada — fazes o que podes com os gigantes –, refilou tanto com o árbitro que o jogo parou. O árbitro mandou a polícia identificá-lo. Não sei se isto obriga a ir à esquadra, mas não voltam a entrar no pavilhão, isso é certo.”

“No basket acontece uma coisa com muita frequência: os árbitros, caso não sintam segurança, têm a possibilidade de parar o jogo para pedir ao responsável para dizer a uma pessoa para sair do pavilhão. Vejo isso quase todos os fins de semana”

“No basket acontece uma coisa com muita frequência”, explica Ricardo Reis. “Os árbitros, caso não sintam segurança, têm a possibilidade de parar o jogo para pedir ao responsável para dizer a uma pessoa para sair do pavilhão. Vejo isso quase todos os fins de semana.”

É possível educar os pais? Ricardo Reis acredita que é “impossível”, que terá de partir do bom senso. “No início de cada época, faço uma reunião com os pais, para perceberem os seus limites. Um pai que tem determinados comportamentos na bancada legitima qualquer coisa que o filho faça no campo. O exemplo vem de cima. Vê-se facilmente miúdos a entrarem em confrontos, vê-se miúdos a responder aos treinadores. É isso que acontece em casa. E nas bancadas.”

“Os pais são uns índios, mas em relação aos árbitros”

Sarah Saint-Maxent tem 24 anos e foi treinadora, até recentemente, de voleibol feminino. “Os pais são uns índios, mas em relação aos árbitros. Têm uma frustração muito grande. Diria que isso é transversal aos outros desportos. O árbitro está muito a jeito para ouvir”, explica.

“Os pais das minhas jogadoras eram bastante civilizados, elas eram novas. Quando passamos para escalões mais velhos — juvenis e juniores –, aí é uma grande peixeirada, em direção às próprias filhas, adversárias, treinador e árbitro. É o que estiver mais à mão”, conta. Sarah considera que há menos ofensas gratuitas nos pavilhões, precisamente porque estes estão fechados e porque se ouve muito mais, sendo fácil identificar as pessoas. “Entre pais, irmãos, avós e amigos, os pais são claramente a pior assistência”, considera.

​”Como não tinha carteira de treinador, ficava do lado dos pais na bancada. Por isso, acho que havia mais contenção. É diferente, não dizem as mesmas coisas”, sublinha.

“Os pais das minhas jogadoras eram bastante civilizados, elas eram novas. Quando passamos para escalões mais velhos, juvenis e juniores, aí é uma grande peixeirada. Em direção às próprias filhas, adversárias, treinador e árbitro."

Poderá a atitude dos pais refletir-se nos comportamentos dos filhos? “Depende da personalidade dos miúdos. Quando dei treinos no Belenenses, quanto mais tímidas eram, pior reagiam aos pais a mandar bocas. Notava-se que algumas miúdas ficavam incomodadas, menos confiantes. O jogo delas às vezes mudava. Na hora do remate, por exemplo, faz muita diferença, porque se nota que a crítica reflete-se no jogo delas. Para outras, é igual ao litro ouvirem coisas. Há ainda aquelas que dizem que a única voz que manda é a do treinador. É uma coisa com a qual elas têm de aprender a lidar.”

“Há jogos em que se perde o controlo por berros que os pais mandam contra árbitros, colegas e adversários”

Bernardo Vaz, de 29 anos, tem alguns anos de experiência no futebol jovem e sénior e já viu de tudo. “Existem todos os tipos de pais: os desportistas e com fair-play — mesmo que o filho não jogue muito, estão lá a apoiar; há também aqueles que dizem mal de tudo e todos, até dos próprios filhos; outros que para eles o filho é o maior e devia jogar sempre, portanto o culpado é o treinador; e outros que estão sempre com falinhas mansas para ver se o filho é titular — pagam cervejas e até almoços ou jantares.”

A influência, apesar de tudo, era normalmente positiva, diz. “Mas alguns pais colocavam bastante pressão no filho — ‘tens de jogar mais!’, ‘remata!’, ‘burro!’. Outros, infelizmente, nem apareciam”, conta. “Nós tentávamos que existisse uma boa relação com todos, pais incluídos. Muitos miúdos já eram amigos fora de campo e os pais conheciam-se, o que facilitava. Organizávamos dois, três jantares por ano.”

“Há pais que incentivam a violência: o miúdo leva uma porrada e o pai diz para lhe dar também. Já vi a andarem à tareia na bancada, o que fez com que o filho subisse à bancada para ‘proteger’ o pai. Vê-se pais a queimarem [criticar duramente publicamente] os filhos — ‘não jogaste nada’, ‘és muito fraquinho’.
Bernardo Vaz

Os capítulos infelizes são muitos e variados. “Há pais que incentivam a violência: o miúdo leva uma porrada e o pai diz para lhe dar também. Já vi a andarem à tareia, o que fez com que o filho subisse à bancada para proteger o pai. Vê-se pais a queimarem [criticar duramente publicamente] os filhos — ‘não jogaste nada’, ‘és muito fraquinho’. Em alguns casos é em tom de brincadeira, mas há miúdos muito frágeis a nível psicológico e isso reflete-se. Os pais deviam saber isso melhor do que ninguém!” E há mais: ofensas ao treinador ou o caso de um pai, conta Bernardo, que invadiu e interrompeu o treino para pedir justificações por o filho ser suplente, porque era muito melhor do que o que jogava.

“É complicado educares adultos. As atitudes podem dever-se a várias situações: problemas no trabalho, no casamento, há problemas com o álcool (já apanhei alguns). Penso que, de certa forma, até são os próprios filhos, sendo mais inocentes, que podem fazê-lo, chamando-os à razão e mostrando vergonha pelo comportamento”, explica.

Rui Silva, de 31 anos, coincidiu com Bernardo Vaz num dos clubes e não tem dúvidas: os pais respeitam cada vez menos quem tem responsabilidade sobre os filhos — treinadores e professores. “Em casa, o jogador não tem qualquer impulso positivo do pai, sobre ter de respeitar o treinador”, diz.

“Os pais, muitas vezes, não têm o distanciamento necessário para saber o que o filho pode dar. Exercem influência negativa na atividade do filho, quando essa é apenas lúdica. Enquanto o treinador diz uma coisa, o pai diz outra. Para uma criança, fica complicado perceber a quem deve obedecer. Essa luta de esferas é uma grande complicação para o treinador conseguir afastar a voz do pai.”

“Vieram-me dizer no final que havia pais lá em cima na bancada que me tinham estado a chamar todos os nomes e mais alguns. Não teria feito nada, o problema é a imagem que passam aos filhos”

Rui Silva lembra alguns episódios da época em que era treinador de iniciados, nomeadamente na parte final de um jogo em que apostou na tática 3-2-5. “Vieram-me dizer, no final, que havia pais lá em cima na bancada que me tinham estado a chamar todos os nomes e mais alguns. Não teria feito nada, o problema é a imagem que passam aos filhos. Os próprios pais, que supostamente deveriam ter uma postura pedagógica, são os primeiros a perder o raciocínio lógico.”

Impensável aos seus olhos foi o que aconteceu quando era jogador, algo que não é assim tão improvável ver-se pelos campos do país. “Houve um jogo que foi interrompido porque os pais estavam à porrada na bancada. Acabou por ser decidido na secretaria. Na segunda volta, os clubes optaram por jogar à porta fechada.” Noutra ocasião, Rui chegou a mandar o pai de um colega calar-se: “Há jogos em que se perde o controlo por berros que os pais mandam contra árbitros, colegas e adversários. É um péssimo exemplo que dão”, esclarece.

“Só com uma campanha focada e global, a nível nacional mesmo. Só envergonhando quem faz isso, filmando, é que se consegue mostrar às pessoas a figura ridícula que fazem.”

Haverá solução? “Só pode ser através do bom senso. Só com uma campanha focada e global, a nível nacional mesmo. Só envergonhando quem faz isso, filmando, é que se consegue mostrar às pessoas a figura ridícula que fazem. Aquilo que se vê nos estádios nos seniores, o descarregar de adrenalina, faz-se também nos jogos de crianças. Não se justifica.”

Os maiores prejudicados, segundo as pessoas ouvidas pelo Observador, são sempre as crianças. “Perdem a sensação de autoridade. Como na escola, antes havia o ‘se o professor diz, o pai está do lado dele’, agora a situação reverteu-se. Com o treinador é a mesma coisa”, explica Rui Silva. “Os treinadores fazem um esforço para impor essa relação de autoridade e de respeito com os jogadores, mas os pais vão minando, com várias ações. Essas atitudes geram também frustração. Pior: podem criar uma geração inteira de gente insubordinada que terá dificuldades a nível laboral, ao deixar de saber ouvir e respeitar as instruções dos outros.”

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