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Há 80 anos, a tragédia de Guernica foi a glória de Picasso

08 Abril 20171.448

“Piedade e terror em Picasso. O caminho até Guernica” é a exposição do Museu Reina Sofia que assinala a data histórica. Recuamos a 1937, até aos motivos do bombardeamento e às origens da pintura.

Conta-se que quando, durante a II Guerra Mundial, um oficial alemão que visitava o estúdio de Picasso, em Paris, ao ver uma reprodução fotográfica de Guernica, perguntou ao pintor “Foi você que fez isto?”, Picasso terá respondido “Não, foram vocês”.

Não se sabe se este diálogo foi efectivamente travado e, a tê-lo sido, em que ano terá decorrido. Seja como for, quando os alemães ocuparam Paris, a 14 de Junho de 1940, já o mundo percebera que Guernica tinha sido “apenas” um ensaio preliminar para um novo tipo de guerra assente no poder devastador dos bombardeiros e na legitimação do ataque a populações civis.

Porém, o bombardeamento de Guernica ficou firmemente implantada no imaginário como um ponto de viragem no percurso da humanidade (ou melhor, da desumanidade), em boa parte graças ao quadro que Picasso pintou e que agora está no centro de uma exposição em Madrid (ver 80 anos de Guernica: Grande exposição sobre Picasso em Madrid). Recordamos a história de ambos, inevitavelmente ligados pela História.

Pré-história do bombardeamento aéreo

Mal a aviação nasceu, logo aos espíritos empreendedores e pragmáticos ocorreu que o novo engenho poderia ter aplicações militares. Ainda no tempo dos mais-leves-do-que-o-ar, os austríacos foram pioneiros ao lançar bombas sobre Veneza a partir de balões, em 1849, durante a Guerra Italiana da Independência. O primeiro aparelho mais-pesado-do-que-o-ar deu o seu salto de gafanhoto em 1903 e em 1909 já Giulio Douhet, um oficial do Exército italiano, vaticinava que, tal como o mundo estava consciente da importância do domínio do mar, “no futuro próximo seria igualmente crucial obter a mesma supremacia nos ares”.

Seria também um italiano a protagonizar o primeiro bombardeamento aéreo de que há notícia, dois anos depois, no conflito que opunha a Itália ao Império Otomano na Líbia: a 1 de Novembro de 1911, um monolugar Taube, de fabrico austríaco, pilotado pelo tenente Giulio Gavotti, lançou quatro granadas Cipelli, de cerca de 2 Kg cada, sobre as linhas otomanas.

Um aeroplano Rumpler Taube

Este ataque pioneiro foi alvo de tais distorções e aproveitamento propagandístico por ambos os beligerantes (os turcos atribuíram ao raid aéreo uma explosão num hospital que se apurou ter sido, afinal, causada por um obus de artilharia) que não é hoje possível apurar os seus efeitos reais – é provável que não tenha feito mais que abrir umas crateras no deserto.
O primeiro ataque aéreo a uma cidade teve lugar no ano seguinte e o alvo foi, mais uma vez, otomano: a 29 de Outubro de 1912, durante a Guerra dos Balcãs, Adrianópolis (hoje Edirna, na parte europeia da Turquia) foi alvo de duas bombas largadas de um avião búlgaro sobre a estação de caminho de ferro.

Zeppelin Schütte Lanz SL2 bombardeando Varsóvia, em 1914, uma imagem difundida em bilhetes-postais pela propaganda alemã, reclamando sucesso na luta contra o Império Russo

O eclodir da I Guerra Mundial daria oportunidade a mais demonstrações do poder da aviação militar, mas, nos primeiros tempos, a incipiência da tecnologia aeronáutica e a limitada capacidade de carga dos aviões fizeram com que o principal papel destes estivesse nas missões de reconhecimento, cabendo aos dirigíveis alemães os primeiros bombardeamentos aéreos relevantes. O primeiro raid de dirigíveis sobre a Grã-Bretanha teve por alvo as cidades costeiras de Great Yarmouth, Sheringham e King’s Lynn, a 19 de Janeiro de 1915, e fizeram quatro mortos. O objectivo designado era Humberside, mas os dirigíveis foram desviados pelo vento para estes infortunados alvos.

Efeitos do raid de 19 de Janeiro de 1915, sobre Great Yarmouth

Até ao fim da guerra os zeppelins largaram 5.806 bombas sobre a Grã-Bretanha, causando 557 mortos – mas sofrendo, no processo, a perda de metade da frota e de 40% dos tripulantes. Um cartaz de recrutamento britânico de 1915 afirmava que era “de longe preferível enfrentar as balas do que ser morto por uma bomba em casa”, mas a taxa de mortalidade nas trincheiras e entre as tripulações de aviões e dirigíveis era incomparavelmente maior do que entre os civis bombardeados.

Cartaz de recrutamento britânico, 1915

Os primeiros raids alemães sobre território britânico com aviões recorreram a uma nova geração de bombardeiros, os Gotha G.IV, baseados na Bélgica, que se mostraram mais eficazes do que os zeppelins. A 13 de Junho de 1917, sobre Londres, lograram o mais sangrento raid aéreo da I Guerra Mundial, causando 162 mortos e 432 feridos, sem perder nenhum aparelho. A elevada mortalidade dos primeiros raids diurnos dos Gotha tem uma explicação: a população não se apercebera do potencial destruidor dos bombardeamentos por aviões e saía para a rua para assistir ao “espectáculo”.

Bombardeiro Gotha G.IV

Não tardou que a consciência deste novo perigo levasse a um investimento em defesas anti-aéreas, que obrigou os alemães a transferir os seus raids para a noite – e a primeira experiência, a 3 de Setembro de 1917, foi coroada de sucesso, com 152 mortes em Chatham. Entretanto, o desenvolvimento tecnológico acelerava vertiginosamente e em 1917 os alemães colocaram em operação o quadrimotor Zeppelin-Staaken R.IV, um monstro de 42 metros de envergadura, que era capaz de carregar uma bomba de 770 Kg (de uma tonelada na versão R.VI).

O raid pioneiro do tenente Giulio Gavotti, com os seus risíveis quatro petardos de 2 Kg, tinha ocorrido apenas seis anos antes, mas nada aguça mais o engenho humano do que a vontade de infligir morte e destruição.

Bombardeiro Zeppelin-Staaken R.VI

Depois de 1918

Finda a I Guerra, os britânicos passaram de vítimas a agressores, usando bombardeamentos aéreos contra populações civis como forma de impor o seu domínio colonial no Iraque e na Somalilândia, em 1920. O eufemístico conceito de “policiamento aéreo” (“aerial policing”) foi introduzido por Winston Churchill e consistia em bombardear indiscriminadamente a população “indígena” revoltosa, de forma a “amaciá-la” para uma eventual repressão adicional exercida pelas tropas no terreno. A estratégia nasceu da necessidade de conter os custos da ocupação e pacificação do Iraque (então denominado Mesopotâmia), onde as rebeliões eclodiam aqui e ali, as distâncias a cobrir eram imensas e escasseavam infra-estruturas de comunicação e abastecimento e onde um ataque pelo ar tinha uma fracção do custo de um ataque terrestre, que envolvia sempre uma logística pesada e vulnerável. São episódios que fazem lembrar guerras conduzidas do ar em tempos mais recentes, no Iraque, Afeganistão e Líbia.

Outro caso de uso desproporcionado de poder e supremacia tecnológica contra populações indefesas teve lugar na Segunda Guerra Italo-Abissínia (1935-36), com os bombardeamentos aéreos italianos a causar, pelas estimativas etíopes, 17.800 mortes civis.

Na Segunda Guerra Sino-Japonesa (1937-1945), também os japoneses procederam a bombardeamentos indiscriminados contra populações civis.

Mas os números exactos de vítimas destes bombardeamentos no período entre-guerras nunca foram apurados e o Ocidente, que é quem escreve a história da humanidade, só se comove mesmo quando os mortos têm a cor de pele certa, pelo que ficou consagrado que o evento inaugural do terror aéreo contra populações civis é o raid da Legião Condor contra Guernica.

A Legião Condor

A intervenção da Alemanha nazi e da Itália fascista na Guerra Civil de Espanha, para lá do fito óbvio de auxiliar as forças nacionalistas, com as quais tinham afinidades ideológicas, serviu também para os dois países, que tinham declaradas ambições expansionistas, testarem equipamentos e tácticas a empregar nas guerras que estavam a planear. Se é verdade que a URSS de Stalin também interveio em favor dos republicanos, o seu apoio foi menos decisivo do que o dos alemães, que não hesitaram em colocar em Espanha as suas máquinas de guerra mais sofisticadas, a sua tecnologia mais recente e o seu pessoal mais bem treinado, sob a égide da Legião Condor, comandada por Hugo Sperrle e com Wolfram Freiherr von Richthofen (primo de Manfred von Richthofen, o maior ás alemão da I Guerra Mundial) como chefe de Estado-Maior.
A Alemanha começou por fornecer os Junkers Ju 52 que transportaram as tropas marroquinas de Francisco Franco para o outro lado do Estreito de Gibraltar, em Agosto-Outubro de 1936, mas o envolvimento alemão foi evoluindo em resposta à intervenção soviética.

Ponte aérea entre Marrocos e Espanha: soldados do Exército de África embarcam num Junkers Ju 52

Assim, quando os republicanos ganharam momentânea superioridade aérea graças aos caças Polikarpov I-15 (a que os espanhóis chamavam “Chato”) e Polikarpov I-16 (conhecido como “Rata” pelos nacionalistas e “Mosca” pelos republicanos), a que os biplanos Heinkel He 51 não conseguiam dar luta, os alemães trataram de fazer entrar em cena os modernos e sofisticados Messerschmitt Bf 109 e reforçaram a frota de lentos Junkers Ju 52, que desempenhavam dupla função de transporte e bombardeamento, com os novos Heinkel He 111.

Polikarpov I-16 com as cores da República Espanhola

O bombardeiro em voo picado Junkers Ju 87 Stuka, que ganharia sinistra fama nos primeiros anos da II Guerra Mundial, também fez em Espanha o baptismo de fogo, sendo alvo de testes de equipamento e tácticas, com os resultados dos bombardeamentos a serem meticulosamente fotografados e estudados, para aferir da sua eficácia (muitos destes testes foram supervisionados pelo então major Leopold Graf Fugger von Babenhausen, descendente da famosa família de banqueiros de Augsburg).

O que foi aprendido pelos alemães em Espanha terá servido para a Luftwaffe obter vitórias esmagadoras na invasão da Polónia e da França e nas primeiras semanas da Operação Barbarossa (destruindo 2000 aviões de combate soviéticos nas primeiras 48 horas).

Guernica, 26 de Abril de 1937

Em Abril de 1937, os republicanos estavam a perder terreno a olhos vistos no País Basco e os nacionalistas avançavam para Bilbao, o principal porto de abastecimento dos republicanos. Guernica (Gernika para os bascos) estava dez quilómetros atrás da linha da frente, era um nó relevante na estrutura de abastecimento republicana e nela estavam momentaneamente estacionados dois batalhões republicanos, o que poderá ter legitimado o ataque na perspectiva de Richthofen.

Junkers Ju 52 ao serviço da Legião Condor

O ataque da Legião Condor, com uma pequena ajuda da Aviazione Legionaria italiana, designado como Operação Rügen, iniciou-se às 16.30 de 26 de Abril, com a cidade cheia de gente e animais, pois era dia de mercado, a que se somavam também refugiados, pelo que se estima que a cidade de 5.000 habitantes albergasse naquele dia mais alguns milhares. Quando os sinos tocaram a rebate, a população buscou refúgio nas caves, mas surgiu apenas um bombardeiro solitário, que lançou as suas bombas e partiu. A população saiu dos abrigos e foi então que chegou uma vaga de bombardeiros Heinkel He 111, a que se seguiu uma vaga de Junkers Ju 52. Enquanto os bombardeiros largavam uma combinação de bombas explosivas, incendiárias e de fragmentação, num total de 40 toneladas, os caças Heinkel He 51 e Messerschmitt Bf 109 metralhavam as pessoas que, em pânico, fugiam da zona urbana e procuravam abrigo nos campos em redor.

Bombardeiro Heinkel He 111 da Legião Condor

O saldo divulgado na altura pelas autoridades bascas foi de 1.654 mortos e 889 feridos, mas investigações mais recentes apontam para 200-300 mortos.

A tragédia de Guernica pode parecer, retrospectivamente, de pouco significado face aos grandes bombardeamentos da II Guerra Mundial, empreendidos por vastas frotas aéreas – 100.000 mortos, 286.000 edifícios destruídos e um milhão de feridos e desalojados no raid americano sobre Tóquio a 9-10 de Março de 1945, envolvendo 334 B-29; 46.000 mortos e 214.000 casas destruídas durante uma semana de bombardeamentos anglo-americanos sobre Hamburgo, em Julho de 1943, em que estiveram envolvidos 3000 aviões – mas um evento desta natureza era inédito na Europa de 1937 e teve forte repercussão nos meios de comunicação e na opinião pública, sobretudo devido ao facto de ter sido testemunhado por George Steer, correspondente do The Times, que estimou terem ocorrido 800-3000 mortes.

Seja como for, o bombardeamento abalou o moral dos republicanos e, em apenas três dias, as forças nacionalistas do general Emilio Mola apoderaram-se de Guernica, o que tornou quase impossível um apuramento das baixas reais.

Guernica, 1937

Factos alternativos

Os nacionalistas estavam conscientes da má publicidade que Guernica representava para a sua causa, pelo que fizeram os possíveis para distorcer os factos, atribuindo a destruição da cidade aos republicanos em retirada e Queipo de Llano, comandante do Exército Nacionalista do Sul, chegou a especificar que fora obra de dinamitadores asturianos.

Num comunicado emitido a 29 de Abril pelo quartel-general de Franco podia ler-se: “Queremos revelar ao mundo, em voz sonante e clara, alguns factos sobre a destruição de Guernica. Foi consumida por fogo e gasolina. As hordas vermelhas ao serviço de [José] Aguirre [presidente do Governo Provisório do País Basco] converteram-na em ruínas […] Aguirre, sendo um criminoso, propalou a infame mentira de atribuir esta atrocidade às nossas nobres e heróicas forças”.

A propaganda franquista agarrou-se com unhas e dentes a esta “narrativa”: “Os nossos aviadores não receberam ordem alguma para bombardear essa povoação. Os incendiários são os que, no Verão passado, incendiaram Irún e Éibar. Sendo incapazes de conter o avanço das nossas tropas, os vermelhos destruíram tudo e acusaram os nacionalistas de factos que mais não são do que a aplicação prática dos seus próprios desígnios. Aguirre mente! E mente vilmente. Em primeiro lugar porque não há aviação estrangeira na Espanha nacionalista. Há aviação espanhola. A nobre e heróica aviação espanhola que luta constantemente contra aviões vermelhos de fabrico russo e francês, pilotados por aviadores estrangeiros. Em segundo lugar porque Guernica não foi incendiada por nós, pois a Espanha de Franco não ateia fogo. A tocha incendiária é monopólio dos incendiários de Irún e Éibar, dos que trataram de queimar vivos os defensores do Alcazar de Toledo”.

Guernica, 1937

A versão nacionalista dos acontecimentos obteve desde logo o apoio da Igreja Católica e, escreve Antony Beevor em The battle for Spain: The Spanish Civil War 1936-1939 (2006, Phoenix), “um professor de teologia em Roma foi ao ponto de afirmar que não havia um único alemão [a combater] em Espanha”.

As mentiras franquistas sobre Guernica tiveram escasso acolhimento na opinião pública internacional e mesmo entre os nacionalistas muitos sabiam o que se passara na realidade. Pelo seu lado, os veteranos da Legião Condor viriam mais tarde a tentar suavizar o seu papel, alegando que o alvo era a ponte de Renteria, junto a Guernica, mas que o vento desviara as bombas para a cidade. Toda esta argumentação se desvanece quando se consulta o diário de Richthofen, que revela que a operação, concebida conjuntamente pela Legião Condor e pelos nacionalistas, visava mesmo a cidade e decorrera conforme planeado. Há indicações de que o coronel Vigón, chefe de Estado-Maior de Emilio Mola, deu, por duas vezes, à Legião Condor o seu assentimento à escolha do alvo, na véspera e umas horas antes do ataque. Antony Beevor conclui que, embora o ataque a Guernica tivesse também um objectivo militar – o bloqueio das vias de comunicação imediatamente atrás das linhas republicanas – foi, antes de mais “um grande teste sobre os efeitos do terror aéreo”.

A controvérsia prolongar-se-ia durante anos e em 1970, o jornal franquista Arriba, embora reconhecendo que a destruição de Guernica fora responsabilidade da Legião Condor, imputava-lhe apenas 12 mortes (!).

Guernica, 1937

Um génio em bloqueio criativo

Pablo Picasso não era um republicano desde a primeira hora. Quando a República foi proclamada, a 14 de Abril de 1931, o pintor vivia em Paris há muitos anos e Espanha não mostrara ter compreendido inteiramente o génio deste seu filho. Quando, em 1933, Ricardo Orueta, Director-Geral das Belas Artes sugeriu fazer uma exposição de Picasso em Madrid, o embaixador espanhol em Paris, dissuadiu-o, queixando-se de que o pintor tinha para com ele, quer pessoalmente, quer na qualidade de embaixador, uma atitude “francamente grosseira”.

Porém, em Julho de 1936, a relação estreitou-se: Picasso foi nomeado por Josep Renau, sucessor de Orueta no posto de Director-Geral das Belas Artes, director do Museu do Prado, um cargo que o encheu de orgulho, mas que nunca assumiu formalmente e que se ficou por um cariz honorário. Pela mesma altura, tinha início a Guerra Civil.

No início de Janeiro de 1937, Picasso recebeu a visita de uma delegação chefiada por Josep Renau, que lhe encomendou um mural para o Pavilhão de Espanha na Exposição Internacional das Artes e Técnicas da Vida Moderna, inserida na Feira Mundial de 1937, em Paris, que deveria ter início em Maio. A encomenda não apanhou Picasso num bom momento: em 1935, a esposa, Olga Khokhlova, descobrira que Picasso mantinha, desde 1927, um affaire com Marie-Thérèse Walter (que tinha 17 anos à data do início da relação) e abandonara o pintor, levando consigo o filho Paul e exigindo o divórcio, que Picasso nunca aceitou, porque este implicaria ceder a Olga metade do que possuía. Quando o escândalo rebentara, Marie-Thérèse estava grávida de Picasso – a criança, María de la Concepción (Maya), nasceu a 5 de Setembro – mas por essa altura já Picasso tinha um novo interesse amoroso, a fotógrafa Dora Maar (Henriette Theodora Markovitch, de seu verdadeiro nome), pelo que remeteu Marie-Thérèse e a criança para uma casa no campo, perto de Paris, embora sem quebrar a relação. Marie-Thérèse ficaria como “amante privada”, que visitava aos fins-de-semana, Dora Maar como “amante pública”, reinando no novo estúdio na Rue des Augustins, para onde o casal se mudou no início de 1937, enquanto Olga Khokhlova permaneceria, ainda que separada, sua esposa até à morte, em 1954.

Da esquerda para a direita: Dora Maar, Nusch Éluard, Pablo Picasso e Paul Éluard, que foi quem apresentou Maar a Picasso. Foto de Setembro de 1937

Talvez esta turbulência sentimental lhe afectasse a inspiração e o que é certo é que, no início de 1937, Picasso estava num impasse criativo – mais tarde dira ter sido este “o pior período da minha vida”.

Entre Janeiro e Abril, o mural para o Pavilhão de Espanha não mereceu grande atenção de Picasso e a causa republicana e a Guerra Civil apenas lhe suscitaram a criação (que apenas lhe consumiu um dia de trabalho) de “Sueño y mentira de Franco”, um conjunto de 2 x 9 imagens (que podem ser entendidas separadamente ou como uma espécie de banda desenhada), que se destinavam a ser impressas como bilhetes-postais ou gravuras e assim angariar fundos para os republicanos. “Sueño y mentira de Franco”, uma sátira juvenil e escatológica ao general Franco e à sua pretensão de ser um Cruzado dos tempos modernos, surgido para salvar Espanha do bolchevismo, foi apresentada por Picasso como a sua “opinião sobre a casta militar que mergulhou Espanha na dor e na morte!”.

Uma das duas folhas de Sueño y mentira de Franco, 1937

As guerras civis de Picasso

Foi a leitura da republicação nos jornais franceses do artigo sobre Guernica de George Steer no The Times, que funcionou como faísca para arrancar Picasso à modorra. A 1 de Maio começou a trabalhar freneticamente nos estudos e a 11 de Maio lançou mãos à tela, de dimensões épicas – 3.49 metros de altura por 7.76 metros de largura – que terminaria a 4 de Junho.

Esboço de Guernica

Pelo meio, apesar da pressão do tempo, concedeu-se uma semana de interregno, para visitar Marie-Thérèse no seu refúgio campestre, o que encorajou esta a surgir, dias depois, no estúdio da Rue des Augustins. Ao deparar-se com Dora Maar, que acompanhava de perto a progressão de Guernica, documentando-a detalhadamente através de fotografias, Marie-Thérèse exigiu que ela saísse dali. Dora fez-lhe ver que tinha tanto direito quanto ela a estar ali e a discussão foi subindo em acrimónia, enquanto Picasso continuava a pintar. Quando Marie-Thérèse lhe disse que tinha de escolher entre uma delas, Picasso sugeriu que resolvessem o assunto à pancada – o que as duas mulheres fizeram com fervor, puxando cabelos e rasgando roupas.

Picasso trabalhando em Guernica

Enquanto arbitrava (ou acicatava) as disputas entre as amantes, Picasso orquestrava na tela uma síntese da sua carreira: tomou elementos da sua fase cubista, mas em vez da frieza geométrica usual nesta, insuflou-lhes um dramatismo exacerbado; à “Minotauromaquia” (1935), às gravuras da Suite Vollard (uma reinterpretação pessoal do mito do minotauro), e às suas explorações do tema da luta tauromáquica foi buscar os touros e cavalos e um imaginário de crueldade e dilaceramento;

Minotauromaquia (1935)

Mas Picasso era também um profundo conhecedor da história da pintura e a “Os horrores da guerra”, de Rubens, foi buscar a mulher de braços erguidos.

Os horrores da guerra, de Pieter Paul Rubens, 1637-38, Palazzo Pitti, Florença

Os fuzilamentos de 3 de Maio, a homenagem de Goya aos mártires da resistência espanhola aos exércitos napoleónicos e “a primeira pintura sobre a brutalidade do Estado moderno” (Simon Schama, em The Power of Art), foram, provavelmente, a sua inspiração principal – comparem-se os corpos tombados e retorcidos – e o motivo para que transpusesse o drama de Guernica, ocorrido numa ensolarada tarde de Abril, para uma escuridão iluminada por uma luz malsã.

Os fuzilamentos de 3 de Maio, de Francisco Goya, 1814

Quando a tela ficou terminada, Picasso receou que a sua massa de negro, branco e cinzento fosse demasiado monótona, e começou a colar papéis coloridos pela tela, com o vermelho a dominar. Quando consultados, os amigos que tinham vindo apreciar a obra exprimiram silenciosamente a sua desaprovação e Picasso acabou por concordar, ainda que relutantemente. Um desses amigos, o poeta José Bergamin conta que Picasso foi descolando os papéis coloridos um a um, até que apenas sobrou “uma pequena lágrima de sangue. Obstinadamente e com um laivo de maldade infantil, recusou-se a prescindir dela. Mas a lágrima acabou por desaparecer”.

Foi uma decisão justa, pois o preto e branco confere ao quadro a qualidade de testemunho que se associa a uma foto de jornal (no tempo em que os jornais eram a preto e branco, claro).

Pavilhão de Espanha na Exposição Internacional de Paris, 1937

A 12 de Julho (sete semanas depois da abertura da Exposição Internacional), Guernica ficou, finalmente, patente ao público no Pavilhão de Espanha, mas talvez tenha desiludido o Governo republicano: nada no quadro indicia a identidade das vítimas ou dos carrascos, não há menção a Guernica ou sequer a Espanha, o tempo é indefinido e, não fosse pela lâmpada eléctrica, nem haveria ligação ao século XX.

Houve quem, intimidado pelo vanguardismo agressivo e tenebroso da obra pretendesse colocar no seu lugar o quadro “Madrid 1937 (Aviones Negros)”, de Horacio Ferrer, num estilo mais realista e mais do agrado do público em geral.

“Madrid 1937 (Aviones Negros)”, de Horacio Ferrer (1894-1978)

Talvez desolados por não verem bombas com uma suástica pintada, houve comunistas que lamentaram o escasso empenhamento político da pintura. No seu entendimento panfletário, pueril e estulto da arte, também se queixaram da ausência de um sinal de esperança nos amanhãs que cantam, como se naquele sufocante teatro de crueldade e trevas, pudesse haver espaço para flores a desabrochar ou pombas com raminhos de oliveira.

Aos que apontaram a crueza da obra, Picasso respondeu que “a pintura não serve para decorar apartamentos, é um instrumento de guerra […] contra a brutalidade e o negrume”. E aos pedidos de esclarecimento quanto à simbologia do quadro, que tantas dúvidas e discussões gerou (e continua a gerar), retorquiu: “Não cabe ao pintor explicar os símbolos, de outro modo, mais valeria que ele os explicitasse por escrito! Quem contempla o quadro deve interpretar os símbolos tal como os entende”.

Picasso trabalhando em Guernica

Resta assinalar que a Guernica de Picasso, sendo a mais famosa homenagem à cidade-mártir, não foi a primeira, honra que coube à escultura homónima do francês René Iché (1897-1954), amigo de Picasso, Apollinaire e Max Jacob. No próprio dia em que foi divulgado pela rádio o terrível evento, iniciou a sua homenagem, em gesso, às vítimas do bombardeamento, que concluiu na noite seguinte – contudo, a obra resultou tão cruel e agreste que preferiu não a expor e só em 1997 seria exibida ao público, ainda assim efemeramente.

Guernica, de René Iché, 1937

Guernica depois de 1937

Formalmente, Guernica pertencia ao Governo espanhol, mas com os republicanos a recuar em todas as frentes, estava fora de questão remetê-la para Espanha, e, de qualquer modo, Picasso entendeu que era desejável que o resto do mundo pudesse ser confrontado com a sua reacção às atrocidades nacionalistas. Em 1938, Guernica foi a peça central de uma exposição colectiva promovida pelo marchand Paul Rosenberg, que viajou por Oslo, Copenhaga e Estocolmo, a que se seguiu uma tournée britânica em 1938-39.

A 1 de Abril de 1939, o governo republicano capitulou e Picasso deliberou que enquanto Franco fosse vivo Guernica não seria exibida em Espanha, ficando à guarda do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (MoMA).

A pintura só regressou a Espanha em 1981, tendo actualmente por casa o Museu Reina Sofia.

Duas ironias da história

O primeiro grande ataque aéreo da II Guerra Mundial contra uma cidade teve lugar durante a invasão da Polónia pela Alemanha, quando a 25 de Setembro de 1939, os bombardeiros da Luftwaffe lançaram sobre a capital polaca 560 toneladas de bombas explosivas e 72 toneladas de bombas incendiárias. Foi o maior raid aéreo de que havia registo até à data e como, por aquela altura, a aviação polaca tinha sido aniquilada, até os ronceiros Junkers Ju 52 foram convocados, no que deverá ter sido uma das últimas intervenções do aparelho na qualidade de bombardeiro. Quem comandou a operação sobre Varsóvia foi alguém com curriculum no massacre de civis por bombardeiros: o major Wolfram Freiherr von Richthofen, o responsável pelo ataque a Guernica.

A 5 de Fevereiro de 2003, o Secretário de Estado norte-americano Colin Powell anunciou que daria uma conferência de imprensa na sala do Conselho de Segurança, no edifício da ONU, em Nova Iorque, em que exporia os argumentos em prol da urgência de uma intervenção militar no Iraque. À última hora, alguém percebeu que o fundo sobre o qual Powell iria falar era uma reprodução de Guernica (oferecida à ONU por Nelson Rockfeller) e a obra foi apressadamente coberta por um pano negro. Seria difícil imaginar melhor prova da pertinência e intemporalidade de Guernica.

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