Legislativas e presidenciais: Como vão decidir as elites

04 Abril 2015507

Os portugueses vão ser chamados a fazer duas escolhas políticas: um novo Governo, um novo Presidente da República. O Observador foi ouvir 18 personalidades: como vão decidir em quem votar?

Os portugueses vão ser chamados a fazer duas escolhas políticas no próximo outono e no inicio de 2016: um novo Governo, um novo Presidente da República.

Escolher? Segundo o dicionário Aurélio, trata-se de “dar preferência; eleger;  preferir, fazer seleção; joeirar; optar entre duas ou mais pessoas ou coisas”.

É isso: depois do próximo verão, há que “joeirar”, termo simpático, mas não será fácil “joeirar” por entre as dúvidas, incertezas e incógnitas, provindas de Portugal, da Europa e do mundo tal como eles estão.

(Pequena revisão da matéria: esse passado começou no dia 6 de abril de 2011 o seu arauto foi Fernando Teixeira dos Santos, então ministro das Finanças, anunciando ao país uma bancarrota iminente. O resto é conhecido, embora nem sempre bem contado: trazida pela mão dos socialistas, a troika faz a sua entrada em cena em Portugal em maio, negociou-se – PS, PSD e CDS – um “SOS” sob drásticas condições e o PSD, vencedor das eleições entretanto convocadas pela demissão do então primeiro-ministro José Sócrates, formou governo em junho. O verão de 2011 traria com ele a arquitetura de um caminho de pedras chamado “ajustamento”. Quatro anos depois será essa história que, no diminuto espaço da cabine de voto, ditará a mão do votante).

Portugal melhor, portugueses pior como houve quem dissesse? Ambos melhor, na perspetiva otimista – que ela diz “realista” – da coligação PSD/CDS ? Ou na versão mais fatalista das oposições – que elas afirmam “realista” – estão o país e o seu povo pior?

Justamente para fugir da dicotomia poder/oposição e da enquistada rede de argumentação que ela quase sempre produz, saímos intencionalmente do reduto das formações partidárias e das suas opiniões mais comprometidas e fomos ter com a sociedade civil. Podíamos ter também recorrido à sabedoria dos números, estatísticas e percentagens, mas afinal esse vasto rol de informação está aí e à mercê de quem o quiser interpretar.

Preferimos ouvir os que costumam pensar o país. Ou nele criar riqueza, ou nele produzir, ou nele ensinar. Ou escrever, ou criar ou inventar. Como pensam o Portugal de hoje e que expectativas têm as nossas elites – seja lá o que, para o bem e para o mal, elas signifiquem no país?

Que querem essas elites na sombria incerteza destes dias, um “tempo” politico, cuja agenda confunde e inquieta: fragilidades da situação portuguesa interna; incerteza da evolução da Grécia no futuro da vida do euro e da própria União Europeia; consequências nas economias dos Estados Membros do Quantitative Easing; aplicação do Plano Juncker; consequências políticas e geoestratégicas, na Europa – e além dela – das “ambições” imperiais de Putin. Para ficarmos por aqui.

Como pensam o Portugal de hoje e que expectativas têm as nossas elites - seja lá o que, para o bem e para o mal, elas signifiquem no país?

Que respostas querem gente tão diversa como Rui Vilar, Daniel Bessa, Daniel Proença de Carvalho? Académicos e intelectuais como Francisco Veloso, Ricardo Reis, João Cardoso Rosas ou jovens com pouco mais de vinte anos como o premiado escritor Afonso Reis Cabral ou o empreendedor social Diogo da Silva? Banqueiros como José Maria Ricciardi, empresários como Luís Portela ou Pedro Ferraz da Costa, diplomatas como Vasco Valente, embaixador jubilado? Protagonistas culturais como António Lamas -presidente do CCB -, Guta Moura Guedes – Presidente da Experimenta Design -, ou António Felipe Pimentel – diretor do Museu Nacional Arte Antiga. Ou mesmo gestoras como Vera Nobre da Costa ou Isabel Vaz, Presidente da Comissão Executiva do Grupo Luz Saúde?

E last but not the least, cidadãos como Guilherme Oliveira Martins, Presidente do Tribunal de Contas?

Querem”estabilidade política”, condição sine qua non de quase tudo e querem “compromissos”; evocam a “consolidação orçamental” (cujo “preço” é porém aqui objeto de olhares opostos); adivinham o “fulcral” papel do próximo Presidente da República face “à previsível falta de maioria governativa monocolor” após as próximas legislativas; têm uma aguda consciência da “importância da Europa” e do lugar que ela ocupa no nosso futuro coletivo.

Defendendo uns que se avance para “um  modelo mais federalista”, outros pedindo maior velocidade numa “ verdadeira união política, económica, fiscal” ; outros exibindo a anemia deste momento politico ( “a Europa em vias de integração e solidária de Delors, Kohl e Mitterrand a que aderimos em 1985 já não existe, o sonho que partilhámos esfumou-se…”); outros ainda duvidando da sua capacidade de se afirmar externamente, “designadamente nas negociações transatlânticas (TTIP), no conflito Ucrânia/Rússia; no Mediterrâneo e nos movimentos islâmicos”.

E finalmente outros, com poucas ilusões: “o nosso sucesso depende mais de outros do que de nós próprios e de múltiplos fatores que não dominamos”.

Querem”estabilidade política”, condição sine qua non de quase tudo e querem “compromissos”; evocam a “consolidação orçamental” (cujo “preço” é porém aqui objeto de olhares opostos); têm uma aguda consciência da "importância da Europa” e do lugar que ela ocupa no nosso futuro coletivo.

Descendo agora ao concreto da realidade partidária, houve quem esgrimisse argumentos opostos sobre a “austeridade”; a incerta navegação do PS; os receios de que vindouros governantes “deitem tudo a perder”, da “ consolidação orçamental” à “credibilidade externa”; a “necessidade de uma revisão constitucional” ou, ao menos, de uma “releitura do seu texto”; a escolha dos “melhores”.

Ainda no que toca os  fatores internos, ficaram aqui porém “reclamações” quase tão velhas quanto a idade do nosso próprio país: a reforma do Estado, (“há a perceção que a reforma do Estado mal começou…”);  o “modelo” do Estado, o “papel” do Estado”, as “funções” do Estado;  a “doentia” dependência dos portugueses face ao Estado; a definição de um modelo económico para Portugal”; o imperativo das  “reformas” na Educação, Justiça, Administração Publica, Defesa.

Dejá vu? Claro. Trivial? Sim, de certo modo. Mas o que é preciso é perguntar porque é que tais temas voltam invariavelmente – ano após ano, programa eleitoral, após programa eleitoral, ciclo após ciclo – à tona de qualquer reflexão ou estudo sobre Portugal. Questionando o lugar de um sempre ressuscitado “trivial” na evolução do país, apurando as causas que levam a que Portugal esteja permanentemente encalhado nesse trivial. Aparentemente incapaz de subir um patamar e se transformar num projeto, num desígnio, num destino.

(E já agora questionando também o empenho que têm tido – ou não –  as elites para impedir, travar ou inverter este estado de coisas. Nunca será de mais fazê-lo)

Em resumo: foram olhares cruzados sobre o modo de tratar “este doente ainda mal curado” que é o país.

Eis alguns exemplos sobre as respostas que poderá ver em quatro textos diferentes, nos próximos dias, que reunirão na íntegra as respostas que nos chegaram.

João Cardoso Rosas: “Vai estar em causa a atitude dos portugueses face à política austeritária, a avaliação por parte dos eleitores do que foi feito e a sua opinião em relação a uma continuação dessa política”.

Ricardo Reis:  “É preciso perceber se a estratégia económica de António Costa vai seguir as afirmações dos seus conselheiros mais ao centro, que são realistas, sérias e competentes, e que percebem que Portugal tem de mudar mas acham que podem fazer melhor do que o governo atual; ou se vai antes adotar as propostas defendidas pelos seus membros mais à esquerda e mais próximas e elogiosas do Syriza que preferem confrontos e utopias que podem fazer o país andar para trás.”

Luis Portela: “Escolherei a partir de pessoas, quero seres humanos competentes e íntegros”

Francisco Veloso: “Apoiaria um projeto político capaz de trazer para as suas linhas pessoas com competência, experiência e trajeto muito para além do percurso político…”

Daniel Bessa: “No meu caso, mais do que num Governo, voto num candidato a Primeiro Ministro. O partido político conta pouco, ou nada. Confio em pessoas (mesmo sabendo que essa confiança pode ser traída) (…) A União Europeia é o meu projeto político – o “novo desígnio” que me foi proposto para Portugal. E, na União Europeia, revejo-me no Euro. Penso nisso, quando intervenho na escolha de um primeiro-ministro para Portugal”.

João Cardoso Rosas: (….) em Portugal, a grande incógnita é o posicionamento do PS. (…) Só o PS é instável. Por vezes alinha com o discurso anti-austeritário e anti-tecnocrático, outras vezes critica-o. Como acabará o PS? Provavelmente, atendendo ao seu ADN e à sua liderança atual, a tendência seria manter-se próximo da política austeritária, seguindo o velho princípio de “piscar à esquerda e virar à direita”. É o que acontece na Europa, com os partidos do centro-esquerda presos na armadilha do seu apoio inicial ao euro, a toda a sua arquitetura institucional e ao próprio tratado orçamental.”

Francisco Veloso: “Um projeto político apelaria mais fortemente ao meu voto se defendesse o imperativo de usar a próxima legislatura para repensar o modelo do Estado, incluindo a necessária revisão constitucional.”

Pedro Ferraz da Costa: “O que estará portanto em causa é se o reajustamento futuro se fará com o mesmo rumo ou se, com mudança de governo, vamos perder parte importante do que já se fez….”

Afonso Reis Cabral: “….a  credibilidade dos políticos e das políticas que melhor me garanta que Portugal não volta a necessitar de ser resgatado.”

Ricardo Reis: “Continuar a ter um Governo que não ceda tentações de salvar empresas e sindicatos mas deixe o mercado funcionar sem grupos protegidos.”

Termino com uma duvida aqui manifestada, por me parecer ela merecedora de destaque e reflexão:

“Se confiança é a palavra-chave, como restaurá-la com a fragilização da classe política em geral, a sucessão de “casos”, o pessimismo que os telejornais debitam durante hora? Existirá algum político que escape ao feroz escrutínio que explora qualquer debilidade no seu curriculum? “

Eis, então, as quatro perguntas que fizemos a 18 personalidades nacionais. As respostas, poderá lê-las até segunda-feira, dia a dia, no Observador.

O questionário

Tendo em conta a situação vigente no país na primavera de 2011; as dificuldades encontradas e os sacrifícios pedidos desde então a Portugal e aos portugueses; a situação em que nos encontramos hoje; a evolução da União Europeia com a ocorrência de alguns atos eleitorais nos Estados-membros e o delicado desenrolar da questão grega, igualmente imprevisível, e para só mencionar estas dois pontos, as próximas escolhas eleitorais revelam-se cruciais. Pergunta-se:

  1. O que vai sobretudo estar em causa para si quando for chamado a votar um novo Governo?
  2. Que fatores – internos e externos, do passado e do presente – irão determinar a sua escolha?
  3. Para tornar o seu voto um instrumento útil na evolução que quer para Portugal, que políticas económicas e sociais é que essa escolha deveria incorporar? Quais estaria disposto a apoiar?
  4. É vox populi que os partidos estão exaustos e que o regime precisa de mais saúde. No inicio de 2016 o país vai necessitar de que perfil na Presidência da Republica? Alguém que assegure pequenas cosméticas ou que proponha uma grande cirurgia ao regime?

As respostas aparecerão nos próximos dias, assim organizados, aqui no Observador.

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