O problema não é ser gordo, é a discriminação

14 Janeiro 2017611

O estigma do peso a mais resulta em discriminação. “Um gordo vive como qualquer outra pessoa, a diferença é que tem de lidar com este discurso", diz Isabela Figueiredo, autora do livro "A Gorda".

Isabela Figueiredo não andava muito confortável com o título do seu livro, quando o entregou ao editor. Sugeriu que se substituísse por A Baleia por ser “metafórico”. “Achei que era menos forte”, explica ao Observador. “O meu editor disse: nem pensar, A Gorda é muito bom.” Alguns amigos comentaram com Isabela que o título poderia repelir leitores, afastar o público que assim iria evitar pegar-lhe nas livrarias, mas a autora comprometeu-se com o risco. “Há um pouco de raiva nesse título, quis devolver aos outros essa designação. Houve sempre uma atitude política da minha parte: era um título forte mas era isto que eu queria dizer, queria expor isto.”

O livro lançado no final do ano pela Editorial Caminho acompanha a vida de Maria Luísa, uma mulher com excesso de peso, da infância à gastrectomia e, embora o corpo da personagem não seja o tema da obra — concorda Isabela — o título cria uma leitura que é propositada e que nos quer fazer repetir despudoradamente “gorda, gordo, gordos”. “Vou assumir essa adjetivação como se dissessem o meu nome, porque para mim deixou de ter qualquer conotação negativa como teve no passado”, declara a escritora.

O excesso de peso é motivo de discriminação e de um estigma social documentado cientificamente mas difícil de abordar: está por toda a parte, não só na publicidade e nos média, como nas lojas de roupa e nos serviços de saúde; é interiorizado por quem o vive, é tolerado e até incentivado pela sua aparência benigna — a ideia de que rejeitar o excesso de peso é o melhor para a saúde. Mas o discurso de que um gordo tem de estar permanentemente na busca de um outro corpo, mais magro, tem um efeito contrário e pode encorajar processos de autodestruição. O estigma social alicerçado na falácia de que ser gordo não é saudável ameaça o direito à diversidade dos corpos e, embora ainda não tenham chegado a Portugal, os movimentos ativistas para a aceitação dos corpos com excesso de peso reclamam o direito de existir como são, sem pressões para mudar.

Isabela Figueiredo, a autora do livro “A Gorda”. © HUGO AMARAL/OBSERVADOR

“Ela só está gorda porque ela está doente, ela está doente porque ela está gorda” é uma das ideias com que Jéssica Ipólito está sempre a lidar. “É como se não existisse outra possibilidade de existência que não em doença. As pessoas não concebem a ideia de que você esteja bem de verdade”, conta a brasileira de 25 anos ao Observador, numa conversa por Skype. Há quatro anos iniciou o blogue Gorda & Sapatão, quando vivia em São Paulo e se tornou ativista em núcleos feministas. Deu-se conta da importância política do seu corpo: “Eu sou uma mulher, sou lésbica, sou negra, eu sou o combo a opressão. Além de ser sapatão, você ainda é gorda e fica falando para as pessoas que está tudo bem? É difícil, é ‘foda’, eu nunca estou certa.”

O peso é mesmo um perigo para a saúde?

Existe a conceção generalizada de que uma pessoa com excesso de peso está sempre em trânsito para se tornar magra, num esforço para perder peso, não apenas porque isso é comummente visto como mais estético, mas também (se não principalmente) por questões de saúde. Marlene N. Silva, professora da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa, faz parte do grupo de investigação PANO – Physical Activity, Nutrition and Obesity e não hesita em dizer que é possível ser gordo e saudável. Os estudos atuais tendem a preterir o Índice de Massa Corporal (IMC) em detrimento da análise individual de indicadores de risco. A comunidade científica fala em fit versus fat e as definições destes estrangeirismos não são necessariamente as imagens estereotipadas de alguém musculado e alguém com barriga. “Fit [e fat] não tem a ver com o peso, tem a ver com a capacidade aeróbica, com as características cardiometabólicas. Há um fator de risco maior numa pessoa magra mas que não tem parâmetros fit, ou seja, a sua saúde cardiometabólica está comprometida, do que numa pessoa que tem excesso de peso, mas cuja saúde está em bom estado, pela prática de exercício, por exemplo”, explica Marlene Silva.

Para a médica endocrinologista do Centro Hospitalar São João de Porto, Paula Freitas, o risco de o excesso de peso trazer doenças associadas “é uma questão de tempo”. Reconhece que o IMC tem vantagens e limitações e que se devem olhar outros fatores para além deste, mas é taxativa ao dizer que “quanto maior o IMC, maior o risco de doenças associadas: doenças metabólicas, doenças cardiovasculares, determinados tipos de cancro, problemas ortopédicos”. “É possível ter pessoas com obesidade e excesso de peso metabolicamente saudáveis numa determinada fase, mas é uma questão de tempo. Se tem 20 anos e a obesidade é recente ainda não tem as complicações, mas amanhã vai ter diabetes ou hipertensão. Se não fizer nada vai caminhar para ter as complicações todas”, afirma a presidente da Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade (SPEO). Paula Freitas explica que pequenas perdas de peso — que devem ser de massa gorda e não de líquidos, massa muscular ou óssea — já se refletem numa redução do risco destas complicações cardeometabólicas. No caso específico da obesidade, que se verifica quando o IMC é superior a 30, “as pessoas neste processo têm de a olhar como uma doença crónica, que é para toda a vida”: “o importante não é perder peso, é impedir o regresso de peso” mudando hábitos de vida estruturalmente.

"É como se não existisse outra possibilidade de existência que não em doença. As pessoas não concebem a ideia de que você esteja bem de verdade."
Jéssica Ipólito, autora do blogue Gorda & Sapatão

A relação entre excesso de peso e saúde é uma questão controversa, diz Paula Freitas, e a investigadora Marlene Silva avisa logo no início da conversa telefónica que o tema da obesidade é denso e é perigoso cometer generalizações. As razões para uma pessoa ser gorda ou obesa são individuais e portanto também as dietas e estratégias para perder peso deveriam ser construídas caso a caso. “Quando dizemos que uma pessoa é gulosa, por exemplo, é normalmente atribuído a uma falha de carácter. Mas sabe-se que há certas pessoas que têm maior predisposição genética para alimentos doces. Para essas pessoas é mais difícil resistir a determinados alimentos do que para outras. Não é que tenham menos força de vontade, é objetivamente mais difícil”, exemplifica, para mostrar como nos serviços de saúde o acompanhamento deveria ser individualizado, deveria ensinar-se quem quer perder peso a adaptar e construir a sua própria alimentação, ler rótulos, ouvir o próprio corpo. Em vez disso “ainda há muita dieta tipo ou plano de exercício tipo” aplicados em série, sem resultados, e que por isso intensificam o estigma da preguiça, falta de vontade, gula e falta de controlo sobre o corpo ligado às pessoas com excesso de peso.

Ilustração de Giovana Pinhata para o blogue Gorda&Sapatão

Ilustração de Giovana Pinhata para o blogue Gorda & Sapatão.

“Há sempre uma ideia de deformidade, falta de disciplina, desleixo, não ter capacidade para me controlar, ser preguiçosa”, diz Isabela Figueiredo. “E eu pelo contrário sou uma pessoa altamente racional e disciplinada. Sempre achei que estava a ser maltratada. E era realmente maltratada.” Tal como a protagonista do seu livro, fez uma gastrectomia, passou dos 117 quilos para os 76 que tem agora e que não quer perder. “Gosto de me chamar gorda, até tenho algum orgulho nisso.”

Ainda no início da entrevista, Isabela avisa que gostava de questionar o que é excesso de peso. “Há uma tabela que os médicos e nutricionistas usam para calcular o IMC. Por exemplo, eu sinto que o meu peso normal está acima daquilo que a tabela determina. De acordo com a minha altura, eles dizem que eu devia ter 50 e tal quilos; eu acho que não, eu acho que o peso ideal para mim é algures entre os 70 e 75, é o peso com que me sinto bem. Não quero questionar que um excesso de peso seja prejudicial à saúde, mas as minhas análises estão maravilhosas e mesmo com 117 quilos nunca tive análises más”, diz lembrando um pouco mais à frente dores de costas por causa do peso e reforça que hoje se sente bem com o seu corpo, que gosta “de se ver gordinha” e que tem pena que a palavra “gorda” não seja usada da mesma maneira inócua que a palavra “morena”.

Pode ser o médico a atirar a primeira pedra

“As pessoas têm muita vergonha de dizer que acham uma mulher gorda bonita”, nota Jéssica. “Nós fugimos muito ao padrão, principalmente quando você é uma mulher: tem uma indústria de moda que não vai-te vestir, a medicina vai-te patologizar o tempo todo — se você está com dores de ouvidos é porque você precisa emagrecer, tudo na vida de uma pessoa gorda vai ser resolvido se ela emagrecer”, revela sobre a sua experiência nos serviços de saúde.

"Se uma pessoa com excesso de peso procurar um médico porque tem dores nas pernas ou nas costas, por exemplo, a probabilidade de um médico lhe dizer 'pois, com esse peso é normal que tenha dores' é elevadíssima. Pedem-se menos exames de diagnóstico a pessoas com excesso de peso, o problema é logo atribuído ao peso."
Marlene N. Silva, investigadora

Em 1979, Marge Dean filmou nos Estados Unidos uma série de depoimentos pessoais e entrevistas que desmitificavam falácias acerca do excesso de peso, em jeito de manifesto para o movimento ativista pelo fim desta discriminação. O movimento ganhou o nome de Fat Underground e era um dos mais marginais movimentos ativistas numa época de movimentos marginais. Aqueles que deram a cara nestas filmagens descrevem experiências semelhantes à de Jéssica no médico: uma mulher diz que a sua malformação na coluna vertebral não foi diagnosticada porque as dores foram consecutivamente atribuídas ao seu peso; outra conta que ouviu ginecologistas discutir qual haveria de examiná-la enquanto repugnavam o seu corpo – “não me examinaram porque nem sequer queriam olhar o meu corpo”. Este movimento abriu caminho para a fundação da NAAFA – Nation Association to Advance Fat Acceptance, em 1969, que continua o trabalho de informação, desmantelamento do estigma e discute legislação como a que define a obesidade como deficiência. Deste lado do Atlântico, no Reino Unido, e bem mais recentemente, em 2015 o grupo Overweight Haters Ltd (Inimigos de Gordos Limitada, numa tradução livre) entregaram cartões, na rua, a pessoas com excesso de peso. “A nossa organização odeia e censura pessoas gordas”, lia-se no pedaço de papel com FAT escrito no verso. “Somos contra o facto de consumirem grandes quantidades de comida enquanto metade do mundo passa fome. Não aprovamos que o serviço nacional de saúde gaste dinheiro para tratar a vossa gula egoísta.”

Validando agressões como esta, o estigma está longe de estar superado, está documentado e um pouco por toda a parte. “O estigma existe quando generalizamos determinadas características por causa de um determinado fenótipo. Nós fazemos isto implicitamente, não temos consciência de que estamos a fazer estas associações, mas fazemos”, explica Marlene Silva, que dedicou o parte do seu trabalho especificamente a este estigma social. “Se refletirmos criticamente todos nós o fazemos: se entrarmos num café e virmos uma senhora com excesso de peso sentada a comer uma bola com creme vamos pensar ‘com aquele peso todo, está a comer aquilo?’, mas se virmos uma pessoa magrinha e até vestida com umas leggings de desporto a comer a bola não fazemos nenhum reparo interior e até achamos engraçado. São construções sociais que começam a acontecer muito cedo, em crianças — confrontadas com fotografias, quando se pergunta com quem querem brincar, tendem a deixar a criança com excesso de peso de fora”, refere a experiência feita em contexto científico.

Ilustração de Jackie Paola para o blogue Gorda&Sapatão

Ilustração de Jackie Paola para o blogue Gorda & Sapatão.

Para a investigadora, a forma de estigmatização mais preocupante é aquela que acontece nos serviços de saúde, feita por profissionais de saúde. “Se uma pessoa com excesso de peso procurar um médico porque tem dores nas pernas ou nas costas, por exemplo, a probabilidade de um médico lhe dizer ‘pois, com esse peso é normal que tenha dores’ é elevadíssima. Há estudos a demonstrarem que se pedem menos exames de diagnóstico a pessoas com excesso de peso porque o problema é logo atribuído ao peso”, explica, garantindo que são frequentes expressões como “já viu ao que se deixou chegar?”, “olhe-se ao espelho”,“tem de aprender a fechar a boca”, ou esgares, olhares e risos da parte de profissionais de saúde. O lugar onde o corpo deveria ser acolhido, compreendido e tratado, se caso disso, torna-se um lugar de martírio, castigo e censura, reduz a autoestima do paciente que, em resultado, se afasta dos cuidados médicos e agrava problemas de saúde, relacionados ou não com o excesso de peso, explica a professora da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa.

A investigadora é clara na resposta que alguém estigmatizado num serviço de saúde deve ter: fazer queixa – uma atitude estigmatizante face a um doente pode levar à perda de licença profissional. “Durante muito tempo acreditou-se que a insatisfação corporal facilitava a perda de peso, hoje em dia sabe-se que é o contrário. A insatisfação corporal leva a uma guerra com o corpo, a ver o corpo como inimigo, que leva a comportamentos extremos”, acrescenta ainda a investigadora. Para a comunidade científica é claro que o amor-próprio e a aceitação do corpo resultam em escolhas e estilos de vida mais saudáveis, enquanto a constante chamada de atenção para o peso acentuam o problema, resultam em ansiedade, culpa e, por exemplo, maior vontade de comer.

Orgulho gordo

“Um gordo vive como qualquer outra pessoa, a diferença é que tem de lidar com este discurso sobre o gordo. A diferença é que tem de estar sempre à defesa por causa deste discurso. Não há nada de extraordinário em ser gordo”, diz Isabela Figueiredo. “A Maria Luísa é normal, é atraente, capaz de tomar conta da sua vida, não tem anormalidade nenhuma. E no entanto há todo um trabalho psicológico à volta da culpa.” Na vida da autora, o que mudou na forma como olha o seu corpo é a culpa que antes sentia e que agora diz ter desaparecido. Assumir a narrativa vigente era a única forma de pertencer a uma sociedade que ostraciza, explica. “A forma de nos tornarmos iguais é iniciarmos uma luta contra o peso e assumirmos como excesso de peso aquilo que é simplesmente o nosso corpo.”

No livro, Maria Luísa também assume esse discurso — “o meu corpo está fora de controlo. O que me aconteceu? Como pude deixar-me chegar a este ponto? O que fiz eu da minha vida?” A gastrectomia é aí uma mutilação do corpo e o início de uma penitência em que só se comem sopas – “esqueça o prazer da comida”, diz-lhe o médico. A mãe concorda “que a amputação era o melhor, porque tinha de ‘controlar o meu corpo a mal’, se não tinha conseguido a bem” — “isso era a tua salvação”. Para a protagonista, é a tomada de controlo perante um corpo que não obedece: “Agora vais ver quem manda”.

"A forma de nos tornarmos iguais é iniciarmos uma luta contra o peso e assumirmos como excesso de peso aquilo que é simplesmente o nosso corpo."
Isabela Figueiredo, autora do livro "A Gorda"

Nos antípodas deste discurso está o do Fat Underground dos anos 1970, de movimentos que se identificam como fat pride, fat power ou fat acceptance um pouco por todo o mundo anglo-saxónico; em Espanha surge a expressão “ativismo gordo”, ligada a movimentos feministas; no Brasil é fácil encontrar blogues ou páginas de Facebook, grupos organizados, especialmente de bases feministas, dedicados à discussão do assunto. Surge uma palavra para o estigma: gordofobia. Em Portugal não se encontram movimentos ativistas que reivindiquem um espaço de debate e informação sobre esta discriminação. Uma chamada telefónica para a UMAR – União de Mulheres Alternativa e Resposta levou a uma reação de estranheza do outro lado da linha quando perguntámos se conheciam algum movimento com estas premissas no país – menos de um minuto ao telefone: não conheciam ninguém. Um telefonema para a ILGA – Intervenção Lésbica, Gay, Bissexual e Transgénero e a mesma conclusão.

A relação com o feminismo e o ativismo LGBT acontece já que estes defendem a presença e visibilidade no espaço público de corpos que fogem ao padrão dominante ou que são reprimidos. No Brasil, conta Jéssica, a lógica positiva perante os corpos gordos é recente e cresce a partir da internet, associada à efervescência feminista que o país agora vive. “Se vai ramificando a partir das premissas feministas, é algo relacionado com autonomia do nosso corpo e os movimentos feministas têm na sua cerne os direitos do corpo. E apesar dos homens também passarem por determinadas dificuldades por serem gordos, a cobrança social não é a mesma em cima deles, em cima de nós mulheres é muito forte e para eles acaba sendo uma questão mais invisível. Não conheço homens gordos com uma postura pública a respeito, não sei como funciona para eles”, afirma Jéssica.

© Francois Guillot/AFP/Getty Images

Uma rápida pesquisa pela internet mostra como os rostos dos movimentos de fat pride são maioritariamente femininos. Gabriela Altaf, investigadora nos estudos do corpo e guionista do documentário Diários sobre o Corpo (em rodagem), apoiado pelo Ministério da Cultura brasileiro, afirma claramente que é impossível comparar o que sofrem uma mulher e um homem quando a sociedade aponta o dedo ao corpo. A justificação traça-se desde o Renascimento, quando o feminino se associa ao atributo da beleza. “A ‘tarefa’ de ser belo é delegada especialmente às mulheres, como evidencia a expansão das indústrias e tratamentos estéticos criados especificamente para o público feminino”, lembra a investigadora apontando, no campo do peso, o exemplo do jogo Plastic surgery & plastic doctor & plastic hospital office for barbie version, que convidava crianças a fazer uma lipoaspiração a uma rapariga gorda, num telemóvel ou tablet.

"Emergem os reality shows, como o 'Biggest Loser', em que você vê, constantemente, a tentativa de 'invisibilização' da identidade da pessoa gorda. Ela só pode existir no futuro, num futuro em que estará magra."
Gabriela Altaf, investigadora

Gabriela Altaf é brasileira e fez a sua tese de mestrado na Universidade Católica de Lisboa, entrevistando mulheres portuguesas que se achavam feias. “Algumas entrevistadas apontaram o peso como sendo uma questão que lhes trazia sofrimento. Elas não eram obesas – a obesidade é uma medida oficial, um parâmetro médico. Muitas ouviram dos parceiros que o peso era um desestímulo sexual; outras sofreram humilhações no local de trabalho, ouvindo chacotas por parte dos colegas.”

Isabela Figueiredo reconhece esta resistência no campo sexual e lembra uma censura quotidiana — “o que é que ela está aqui a fazer? ela não pertence aqui”. Jéssica Ipólito tem a mesma experiência. “É algo que se revela na forma como você se preocupa com as pessoas não estarem rindo de você. Você olha em seu redor”, descreve a blogger, “e alguma coisa lhe chama a atenção, você fica meio sem entender, mas depois cai a sua ficha — você está comendo e é alvo de olhares, de investigação, como se fosse a coisa mais absurda do mundo, uma pessoa que é gorda, mas que poderia ser magra, ser alta, ter quaisquer outras características, estar comendo.”

Um corpo grande não quer ser invisível

Numa era em que o corpo é a mais importante forma de presença e identidade, diz Gabriela Altaf, “os cuidados com o corpo ganham a dimensão da moralidade” e assim “emergem os reality shows, como o Biggest Loser, em que você vê, constantemente, a tentativa de ‘invisibilização’ da identidade da pessoa gorda. Ela só pode existir no futuro, num futuro em que estará magra”. Isabela Figueiredo considera que este programa “existe para todos nós na nossa vida normal. Parece menos grave porque é individual, mas eu acho que uma pessoa muito gorda pode sentir-se sempre num programa daqueles”. A escritora destaca “a violência gratuita” que está na “exibição das pessoas como se fossem monstros, como se fossem desumanas na sua fisicalidade, o que importa é mostrar tudo aquilo que nas pessoas é considerado horrível — marcam-se as características físicas através das roupas que usam, das fotografias que tiram, dos contextos em que são mostradas, das incapacidades que são obrigadas a mostrar para no final se ver como aquela pessoa mudou e como se tornou ‘normal’. É como se toda a sociedade se juntasse ali para pegar naqueles freaks todos e torná-los normais.”

Ilustração de Amanda Gotzfrits para o blogue Gorda&Sapatão

Ilustração de Amanda Gotzfrits para o blogue Gorda & Sapatão.

A par deste programa de televisão surgem outros, de menos expressão, que mostram uma tendência contrária, de aceitação do corpo: no reality show My Fat Fabulous Life (exibido em Portugal no TLC) Whitney Thore é professora de dança, obesa e adora o seu corpo; na ficção, em Girls (transmitido pela RTP 2), Lena Dunham expõem o seu corpo sem pudores, tendo sido criticada por isso na primeira temporada. Na internet, algumas vozes defensoras atribuíram as críticas com o facto de ela não ser magra.

Jéssica Ipólito não colabora de forma nenhuma com as tentativas que vêm de fora para tornar transparente o seu corpo – “sou descredibilizada o tempo todo. Tenho de estar lutando pelo meu espaço o tempo todo — espaço literalmente, não é só espaço de fala, é espaço físico de ter onde sentar porque às vez tem lugares onde você não cabe, não fica confortável, ninguém se liga que pode ter outras pessoas”. Também não há muitas roupas bonitas para vestir — a indústria da moda não está preocupada em vesti-la. Na televisão e no cinema quase não há atrizes gordas a representar o papel da mulher normal. Só que Jéssica pintou o cabelo frisado de roxo, fez piercings, não teve medo de ser ainda mais diferente, está na luta.

ilustração sofia-coeli

Ilustração de Sofia Coeli para o blogue Gorda & Sapatão.

No seu blogue Gorda & Sapatão nunca quis ignorar a imagem, mas começou por ser difícil arranjar “representações artísticas contra-hegemónicas”, como as define. Lançou o desafio Arte Gorda aos seus leitores para que produzissem imagens que tivessem em conta quem tem excesso de peso. “Pensei que as pessoas que produzem arte precisam ser conquistadas para que possam produzir um outro tipo de arte, para que possam questionar o que estão fazendo e desenhando. Foi muito legal, o resultado foi muito lindo: várias pessoas me mandaram e-mail falando ‘eu não imaginava o quanto eu reproduzia esse padrão de beleza nos meus desenhos, eu achava que os meus desenhos fossem o mais livre possível’. A arte também tem uma influência política, também transmite uma ideologia. Tudo o que nós vamos fazer já é influenciado por premissas que já são estabelecidas historicamente. Para a gente que é ativista e tal parece óbvio, mas para as outras pessoas não. O desafio era produzir novas artes no sentido de conseguir transformar aquilo que elas já desenhavam. A gente precisa perceber a diversidade que existe nas pessoas, na sociedade, e parar de homogeneizar. Conforme a gente vá vendo mais imagens diferentes, imagens que condizem com a realidade das pessoas, a gente vai limpando a nossa consciência que está muito poluída com esses padrões de beleza e começamos a repensar as coisas: o que é que a gente considera bonito?”

A relação do corpo com o mundo é ambígua, não é estável nem definitiva. Isabela gosta do seu como é agora, mas, como a Maria Luísa de A Gorda, “ainda pensa como uma gorda”. “Quando penso num Sumol penso ‘açúcar mais gás — isto não é muito bom’, diz enquanto olha para a lata à sua frente. “É uma culpabilização inerente a tudo, que eu sei que não pode ter lugar, mas o meu disco rígido ainda tem estas definições. Assumi um discurso do qual ainda estou a aprender a libertar-me.” É uma lenta caminhada ser positivo perante um corpo que a sociedade tenta erradicar – a medicina, a indústria da moda, a programação física do espaço público, e não só os padrões de beleza nos média e publicidade. “É um trabalho de formiguinhas”, o de mostrar que “está tudo bem” quando se é gordo, que se é “feliz e desejado”, e que “como todo o mundo, tem dias em que eu não quero me arrumar, não tenho vontade de fazer nada. Mas só me permito sentir essas coisas num nível seguro, não tenho essas coisas de acordar e dizer ‘odeio o meu corpo’” resume Jéssica. A ativista perspetiva uma luta para todos os dias, para o resto da sua vida, para mostrar que o seu corpo está tão certo como todos os outros.

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