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Robert G. Picard: “O jornalismo nunca foi um produto comercial”

24 Abril 2016

Especialista na economia dos media, o americano esteve em Lisboa para conferências e aulas sobre o futuro dos meios de comunicação. Em entrevista, afirmou que os jornalistas têm que ser "mais locais".

É um dos gurus do estudo dos media enquanto negócio. Representante norte-americano no Reuters Institute, na Universidade de Oxford, Robert Picard tem dedicado o seu tempo a estudar a relação entre os media e a economia, do ponto de vista do negócio. Num tempo em que jornais fecham por todo o mundo e os órgãos de comunicação enfrentam as maiores dificuldades financeiras da sua história, não lhe faltam objetos de estudo. Esteve em Portugal para dar uma conferência na Universidade Católica. Conversou com o Observador, olhando para o futuro dos jornais e do jornalismo, que diz ter de ser salvo. O resto “talvez se salve pelo caminho”.

Está em Lisboa para conferências e aulas sobre as relações entre os media, as políticas económicas e as novas tecnologias. O mundo mudou nos últimos anos e o jornalismo tem vindo a sofrer essas mudanças. Há um futuro possível para o jornalismo?

Há um futuro mas ainda tem que ser descoberto. O jornalismo tem uma função social importante e por isso de alguma forma vamos descobrir como o manter. Mas há uma profunda transformação na forma como as pessoas procuram e obtêm informação, como descobrem o que se passa à sua volta, como procuram entretenimento. E há uma mudança fundamental na forma como interagem umas com as outras. Todas estas transformações surgiram num espaço de tempo muito curto, o que provoca grandes mudanças nas relações sociais, na cultura, na forma de fazer negócios. E os media tradicionais foram apanhados no meio disto. O entretenimento está a encontrar formas de lidar com isto. Mas o jornalismo ainda está a lutar para encontrar uma saída.

Porquê?

O jornalismo nunca foi um produto comercial. Era feito por uma série de motivos: políticos, culturais e sociais. Foi apenas no último século que se tornou comercial, devido à publicidade. Mas agora os anunciantes têm muito melhores maneiras de atingir as suas audiências e comunicar com elas, já não investem no jornalismo. E as pessoas têm muitas outras formas de receber informação e notícias por isso não as estão a ir buscar onde costumavam ir: jornais, telejornais, revistas. A questão é: como assegurar que o jornalismo permaneça? E será com os meios tradicionais? Claro que os meios tradicionais querem que seja e claro que os jornalistas que trabalham nestes meios também o querem. Mas o certo é que lhes está a ser muito difícil sobreviver, em todos os países, devido a esta falta de financiamento. Vale a pena perguntar: é algo a que a sociedade deve dar resposta? Deve fazer alguma coisa ou deve deixar que as coisas sigam o seu rumo? Os jornais são uma forma extremamente cara de produzir notícias. Apenas 10 ou 15% dos seus custos se relacionam com a produção de notícias. A distribuição tem custos altíssimos.

Mas os jornais digitais, que não têm custos de distribuição, também enfrentam constrangimentos económicos.

Aí o problema é que têm pouco lucro. Há pouca publicidade e a maioria não cobra aos leitores.

"O problema é que o jornalismo não tem feito muito bem aquilo que é suposto fazer. Os próprios jornais fornecem links para blogues. Os jornalistas têm que perceber o que podem acrescentar a isso. Penso que o melhor que podem fazer é ajudar a perceber o que realmente interessa de toda a informação que está disponível. Antes os jornalistas criavam valor ao dar muitas histórias. Agora a Internet dá mais histórias do que um jornalista alguma vez conseguirá dar."

A internet mudou tudo.

Tudo. Destruiu as relações comerciais existentes. E até que algumas pessoas estejam dispostas a pagar pelo que leem online vai continuar a existir um problema. Mas as coisas já começam a mudar: no Canadá praticamente não há livre acesso, quase tudo é pago. As pessoas estão a pagar e os jornais estão a ganhar dinheiro suficiente para continuarem o seu trabalho.

É uma exceção: em quase todo o mundo os jornais ainda não sabem bem para que direção ir, se ter livre acesso ao site, pago, ou um misto.

Estão a tentar descobrir o que funciona melhor. Um dos problemas é que os jornalistas acreditam que toda a gente deveria querer e poder ler jornais. Logo não querem vedar o acesso. Mas a verdade é que nem toda a gente quer ler jornais. Nos últimos 25 anos apenas cerca de 20% a 30% das pessoas compram jornais. E parece que na Internet apenas 15% irão comprar. Há muitas notícias disponíveis em portais como o Google e o Yahoo, na rádio, na televisão. É cada vez mais difícil que as pessoas paguem por notícias comuns. Agora, se se quiser notícias realmente boas, análises realmente boas, aí sim, vai ser preciso começar-se a pagar.

E haverá pessoas suficientes dispostas a pagar dinheiro suficiente para que os jornais possam subsistir?

Considerando o que temos visto, penso que sim. Se o New York Times passasse a ser exclusivamente digital seria lucrativo. Alguns jornais estão, aliás, a fazer essa transição. Mas é necessário equilíbrio. Não há motivo para se abandonar a edição impressa caso se esteja a fazer dinheiro. E em muitos casos a edição em papel ainda gera receitas. Agora, nunca se fará o mesmo dinheiro no digital como se fez um dia no papel. Não há publicidade para isso. Mas basta fazer dinheiro que chegue para pagar aos jornalistas, ao setor administrativo… Para fazer face aos custos.

Mas hoje os jornais são detidos, na sua maioria, por grandes empresas que têm os lucros como objetivo. O paradigma mudou.

Estamos num período de mudança. Há 30 ou 40 anos os jornais não eram detidos por grandes empresas, que só os compraram porque houve uma altura em que podiam realmente ser muito rentáveis.

Isso ainda é possível?

Por um curto período de tempo talvez. E algumas empresas vão querer manter os títulos por uma questão de reputação. Outras não. Vai ser uma mudança. Outra vez.

Há uns anos disse que os jornalistas ganhavam demais. Mantém essa afirmação?

O que disse é que os jornalistas têm que criar valor para que o consumidor esteja disposto a pagar. E agora não o estão a fazer. As notícias de última hora, por exemplo, são hoje dadas não por jornalistas mas por pessoas no local com os seus smartphones. E depois os jornalistas vão lá tentar perceber o que está a acontecer. O que retira valor ao seu trabalho. Era também habitual que os jornalistas explicassem o que as notícias significavam. Agora há economistas a fazê-lo, banqueiros, professores de relações internacionais. Peritos de várias áreas que o fazem sozinhos, online, sem precisarem que um jornalista fale com eles e ponha o que dizem num artigo. É devido a tudo isto que os jornalistas ganham cada vez menos. O jornalismo tem que repensar no valor que vai acrescentar.

"Até que algumas pessoas estejam dispostas a pagar pelo que leem online vai continuar a existir um problema. Mas as coisas já começam a mudar: no Canadá praticamente não há livre acesso, quase tudo é pago. As pessoas estão a pagar e os jornais estão a ganhar dinheiro suficiente para continuarem o seu trabalho."

Essa ideia do cidadão jornalista pode ser perigosa: não está preparado profissionalmente para fazer um trabalho jornalístico rigoroso, não obedece a regras profissionais.

Verdade. Mas o problema é que o jornalismo não tem feito muito bem aquilo que é suposto fazer. Os próprios jornais fornecem links para blogues. Os jornalistas têm que perceber o que podem acrescentar a isso. Penso que o melhor que podem fazer é ajudar a perceber o que realmente interessa de toda a informação que está disponível. Antes os jornalistas criavam valor ao dar muitas histórias. Agora a Internet dá mais histórias do que um jornalista alguma vez conseguirá dar. Antes os jornalistas eram os primeiros a dar a notícia. Agora são ultrapassados pela Internet. O que podem fazer? Uma triagem da informação e uma análise cuidada. E a maior parte dos jornalistas ainda não o está a fazer. E é preciso distinguir os jornalistas dos jornais. Temos que encontrar uma forma de salvar o jornalismo. E nesse processo talvez se salvem os jornais, talvez não.

Foi em tempos jornalista.

Fui. Adorei ser jornalista. Cobria política local.

Tem saudades?

Sim e não. Acho que prefiro estudar o jornalismo do que fazer jornalismo.

Compra jornais?

Todos os dias. Leio o Guardian e o Times.

Que são jornais globais. É possível também para os locais sobreviver?

Quanto melhor se for a fazer a cobertura do que se passa na sua comunidade, no seu país, melhor se vai ser. No futuro penso que a maior parte dos jornais vai deixar de fazer a cobertura do mundo, porque basta um ou dois fazerem-no. Não adianta muito encher um jornal de textos de agências internacionais que as pessoas já leram online. Mas notícias sobre a comunidade em que se insere nenhum outro jornal já deu. Para sobreviver, os jornalistas têm que se tornar cada vez mais locais. E explicar a importância do que acontece lá fora para as pessoas da comunidade ou do país a que o jornal se destina.

Se ainda fosse jornalista, em que estaria a trabalhar?

Estaria a olhar para as câmaras, para as cidades, para os bairros. Para a sociedade. Mas os jornalistas ainda preferem fazer as grandes notícias, nacionais e internacionais.

Nesta semana um tema dominou todas as conversas: The Panama Papers. Não servem estas grandes histórias para mostrar que o jornalismo, feito por jornalistas, é cada vez mais necessário?

É um trabalho que mostra o valor do jornalismo. Os papéis estarem disponíveis não seria suficiente. A sociedade precisa de quem os leia e explique o que significam, explique qual a sua importância interna em países por todo o mundo.

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