Logo Observador

Talento e ironia. Jane Austen, 200 anos depois

18 Julho 2017518

No bicentenário da morte de Jane Austen, Maria João Marques escreve sobre o seu "vício austeniano" e recorda a vida e a obra da escritora britânica, "mulher não tradicional".

É uma verdade universalmente reconhecida que sou a maior fã viva de Jane Austen em Portugal, possivelmente da Península Ibérica. (Não admito a existência de outros pretendentes a este título.) Este estado de coisas devo-o à RTP, que em 1995 passou por cá a adaptação televisiva da BBC do segundo livro de Austen, de 1813, Orgulho e Preconceito (quem diria que uma liberal como eu viria a ter uma dívida destas a uma empresa pública?).

Não esperava de uma autora com quase dois séculos, com reputação de conformismo, tanta leveza, humor e natureza humana da boa. Ou que fosse uma mestre da ironia, esse recurso estilístico que eu venero. As personagens são credíveis e propensas a criarem imbróglios desnecessários (tal como as suas primas do mundo real). A pomposidade, a idiotia, a falta de escrúpulos, a fraqueza, tal como a inteligência, a bondade, a honra – tudo isto está espalhado pelos dois sexos, sem nenhuma inferioridade intelectual ou moral feminina. Nos pares românticos dos livros, sobressai claramente que Jane vê ambas as partes como iguais – não porque ela é pura e ele um cavaleiro que a salva de uma vida de complicações financeiras, mas porque ambos intelectualmente e psicologicamente estão nivelados.

Em Orgulho e Preconceito lemos um clamor contra a exigência de perfeição nas mulheres. Austen não tem paciência para nos apresentar de forma binária como seres etéreos e imaculados ou como diabos dissolutos que tudo fazem para desgraçar homens bons – ao gosto de alguns autores. Perante a afirmação de Darcy que uma mulher ‘accomplished’ tinha de saber desenhar, tocar, dançar e cantar razoavelmente, ser socialmente adequada, conhecer línguas, saber vestir-se e caminhar, e ler de forma a melhorar a sua mente, e que não conhecia mais de seis mulheres assim tão capazes, Lizzy Bennett logo lhe respondeu que ficava espantada que conhecesse uma única mulher que reunisse tanta perfeição e capacidade.

Lizzy Bennett e Mr. Darcy na capa da edição da Relógio d’Água.

Com estes auspícios se iniciou o meu vício austeniano, que já me levou em peregrinação a Chawton – o pequeno cottage, atualmente um museu, perto de Basingstoke, no Hampshire, onde Jane Austen viveu os últimos oito anos da sua vida. Um canto rural, verde e húmido como vem no caderno de encargos de qualquer pedaço do campo inglês, onde Jane escreveu e reescreveu, publicou quatro livros e deixou mais dois terminados.

Também peregrinei até Winchester, cidade com centro histórico reminiscente de sabor medieval, onde Jane Austen morreu há 200 anos, a 18 de julho de 1817, com 41 anos. Estava doente – supõe-se que com a doença de Addison ou um linfoma – e trocou Chawton em maio daquele ano pela cidade onde médicos mais prestigiados melhor a poderiam curar. Não curaram e Jane lá ficou, desde 1817 sepultada na Catedral de Winchester, com uma placa na parede, perto do túmulo de Henry Beaufort, irmão da nossa Filipa da Lencastre.

Escritora vitoriana?

1817, ano da morte de Austen, questiona-se o leitor atento a datas? Vinte anos antes de Vitória, rainha e imperatriz, aceder ao trono britânico? Mas não é Jane Austen uma autora vitoriana, como tanto se ouve e lê? Não, caro leitor atento (ou desatento), não é. Jane viveu e escreveu no período da Regência, quando o futuro Jorge IV se tornou príncipe regente porque o seu pai, Jorge III, enlouqueceu. Foram tempos dissolutos, de trauma da habituação à perda de umas certas colónias na América do Norte que declararam independência em 1776 (meses depois de Jane nascer), com uma família real permanentemente envolta em escândalos sexuais e conjugais (é uma tradição familiar, portanto), guerras napoleónicas pelo meio. Nenhum destes temas invadiu os livros de Jane Austen (exceto indiretamente com a presença de militares em alguns romances), mas em bom rigor os livros de Austen são filhos do seu tempo, não das mais puritanas longas décadas vitorianas que vieram de seguida.

Se os livros de Austen forem lidos de maneira muito superficial, um leitor pouco talentoso poderá pensar que se enquadram bem no puritanismo vitoriano. Afinal todas os romances de Austen contam a história de respeitáveis meninas casadoiras e virginais que encontram os seus maridos na forma de homens ricos ou, pelo menos, com situações financeiras apetecíveis.

E, contra Jane Austen, há que dizer que escreveu Mansfield Park, o terceiro romance, insuportavelmente moralista. A heroína, Fanny Price, é a única desta categoria austeniana que não comete uma imprudência, é perfeita, sempre sensata, sem falhas. Inevitavelmente, é sensaborona. As restantes heroínas – como qualquer pessoa – são produtoras de disparates e sofrem-lhes as consequências. Inevitavelmente, adoramo-las. Em todo o caso, caridosamente perdoemos a Jane Austen esta má fase da sua vida e concentremo-nos nos restantes romances.

Crónica de costumes, crítica social, paixão, e a obsessão pelo dinheiro. E ironia e humor

Jane Austen é uma autora da vida quotidiana. Sir Walter Scott recomendava-a como tendo ‘um talento para descrever o envolvimento e os sentimentos e personagens da vida comum que é, para mim, o mais maravilhoso que já encontrei’.

Os livros de Austen são de alguma forma uma crónica social dos tempos da Regência, da vida rural da pequena nobreza, dos clérigos de boas famílias, dos proprietários de terras ricos. Os bailes nos assembly rooms dos edifícios municipais das pequenas cidades, ou nas imponentes casas senhoriais dos indivisos domínios rurais britânicos. Os clérigos anglicanos que eram, no fundo, assalariados dos donos das vastas propriedades.

Mas nesta respeitável vida das boas famílias rurais existe paixão e desejo. No pequeno romance Lady Susan – que partilha com Ligações Perigosas de Choderlos de Laclos a forma epistolar e uma protagonista dissoluta e manipuladora – a personagem que dá o nome ao livro é recompensada pelos pecadilhos. Apesar de manter um romance com um homem casado, e causar infelicidade em várias famílias, termina premiada casando com um homem rico e muito mais novo. Lydia Bennett, de Orgulho e Preconceito, foge com um militar sem escrúpulos, vive maritalmente com ele escondida em Londres antes do casamento, transtorna toda a família e, ainda assim, o casal de destemperados é recompensado com a união oficializada, a compra de uma posição no exército para o marido e o pagamento de todas as dívidas de jogo que Wickham (ele) contraíra.

Se os livros de Austen forem lidos de maneira muito superficial, um leitor pouco talentoso poderá pensar que se enquadram bem no puritanismo vitoriano. Mas em bom rigor os livros de Austen são filhos do seu tempo, não das mais puritanas longas décadas vitorianas que vieram de seguida. 

Sem sexo à mistura, mas com desejos claramente à solta, Marianne Dashwood, de Sensibilidade e Bom Senso, e Mr Darcy são dois bons exemplos de personagens que não conseguem controlar a paixão. Marianne, em tendência suicidária galopante, provoca em si própria uma doença que quase a mata. E Jane diverte-nos descrevendo um Darcy tremendamente atraído e apaixonado por Lizzy Bennett, fazendo-lhe uma proposta de casamento onde detalhadamente explica como a família da sua apaixonada é pavorosa e insuportável, o casamento é uma insensatez pela diferença social de ambos, concede que lutou até ao limite das suas forças contra aquele sentimento mas falhou e, portanto, está ali a dizer-lhe a contragosto quanto ‘a admira e ama’. (Não correu bem.)

Na tal respeitabilidade das boas famílias, Jane também vislumbrava o ridículo, que nos conta com uma impiedade que o humor e a ironia que usa (em abundância) só reforçam. O clérigo de Orgulho e Preconceito, o pomposo, snob e bajulador Mr Collins, é das personagens mais geniais de toda a literatura. (Consta nos anais também uma proposta de casamento épica de Mr Collins à sua estarrecida prima Elizabeth Bennett.) Sendo Austen filha de um pároco de província (em Steventon, no Hampshire, não muito distante de Chawton) e irmã de outro, é difícil não supor que alguma inspiração para Mr Collins tenha vindo de exemplares que encontrou durante a sua vida convivendo com os ordenados da Igreja de Inglaterra.

A ânsia casamenteira da mãe de Lizzy Bennett, no mesmo livro, é alvo de igual humor e ridículo. Mas Jane faz-nos rir e sorrir com a agitação da mãe Bennett para pôr as filhas no caminho de homens elegíveis e, preferencialmente, ricos. Em todo o caso, neste tema, apesar da leveza da forma como esta preocupação maternal nos é apresentada, lê-se algo muito sério.

Jane Austen não é disruptiva e não pretende subverter a ordem social. Porém, é impossível não ler uma crítica mordaz à necessidade das mulheres, excetuando as herdeiras, casarem para terem uma vida financeiramente segura. Tirando Emma Woodhouse – de Emma, o quarto livro que publicou em 1816 – todas as heroínas de Jane são raparigas sem boas perspetivas financeiras, obrigadas a casarem bem – i.e., com detentores de fortunas ou rendimentos apreciáveis. Jane Austen – ela própria ainda mais desapossada que as suas personagens – mostra de forma contundente a precariedade das mulheres nessa posição, sem heranças, sem maridos e sem possibilidade de se sustentarem adequadamente numa atividade digna.

Tirando Emma Woodhouse, protagonista do quarto livro, todas as heroínas de Jane Austen são raparigas sem boas perspetivas financeiras, obrigadas a casarem bem.

Na mesma linha, não há como negar a antipatia que Jane devota ao esquema de heranças inglês, que transmite as propriedades indivisas pela linha masculina, impedindo as mulheres de herdarem os bens imóveis geradores de grandes rendimentos. Em Orgulho e Preconceito temos cinco irmãs que verão a sua casa passar para o acima mencionado Mr Collins quando o pai morrer. Em Sensibilidade e Bom Senso, as irmãs Dashwood e a sua mãe são empurradas sem delicadeza para fora de Norland Park quando o pai e marido morre. O único herdeiro era o filho do primeiro casamento, que não estava para se maçar a conviver e sustentar meias irmãs e madrasta a quem não tinha podido calhar quinhão conveniente da herança do pai Dashwood.

Na verdade, o dinheiro é uma obsessão em todos os livros de Jane Austen. Depressa nos tornamos conhecedores dos arranjos financeiros de todas as personagens. Mr Darcy tem dez mil libras por ano, Lizzy herdará só mil libras, tanto a mulher de Mr Elton, o pároco de Emma, como a mãe de Henry Tilney, de A Abadia de Northanger, herdaram vinte mil libras. O Capitão Wentworth, de Persuasão, o último livro de Jane, só deixou de ser ‘ninguém’ quando enriqueceu vinte e cinco mil libras.

Não surpreende esta obsessão financeira dos livros de Jane Austen. Apesar do irmão Henry (o seu irmão preferido) garantir que nada queria saber de finanças e que escrevia sem qualquer interesse económico nessa atividade, é claro, pelas poucas cartas que sobreviveram, o deleite de Jane pelo dinheiro que recebeu pelos seus livros. Sensibilidade e Bom Senso foi publicado com patrocínio financeiro de Henry Austen e rendeu a Jane 140 libras. O segundo livro, Orgulho e Preconceito, foi vendido ao editor por 110 libras (cerca de 6.300 euros atualmente). Com o terceiro livro, Mansfield Park, ganhou 350 libras. Estes valores foram tanto mais saborosos quanto Jane não tinha absolutamente nenhuns rendimentos e vivia sustentada pela mãe e pelo irmão Edward Knight (herdeiro de uns primos afastados ricos).

Jane Austen não é disruptiva e não pretende subverter a ordem social. Porém, é impossível não ler uma crítica mordaz à necessidade das mulheres, excetuando as herdeiras, casarem para terem uma vida financeiramente segura. 

Não obstante Jane Austen aproveitar para ironizar e fazer humor com as inconveniências na vida das suas heroínas provindas da falta de dinheiro e da injustiça nas heranças, e de a autora aceitar o mundo como era e não ter ímpetos revolucionários declarados, lê-se bastante fel com esta organização financeira e social do mundo. Em boa verdade, foram os constrangimentos pecuniários que a mantiveram afastada da sua maior paixão (de que há registo): Tom Lefroy.

A maior paixão, Tom Lefroy

A relação de Austen com Tom Lefroy está contada – e romanceada – no filme Becoming Jane. Floreados cinematográficos à parte, é certo que ambos se apaixonaram. Nas cartas (sobreviventes) que Jane enviou à irmã Cassandra por alturas do Natal de 1795 – quando Tom foi visitar uns primos Lefroy que viviam perto de Steventon e eram grandes amigos da família Austen – a paixão dela é notória, apesar da autora, como de costume, apresentar a ligação num tom zombeteiro. E de Tom temos uma confissão taxativa: nos últimos anos da sua longa e bem-sucedida vida, quando questionado por um sobrinho se tinha estado apaixonado por Jane Austen, disse que sim, com um ‘boyish love’. (Perante esta descrição, sentimo-nos libertos para concluir que terá sido uma paixão pouco consequente, como todas as de juventude, mas intensa, como também costumam.)

Mau grado a paixão mútua, nem Jane nem Tom tinham dinheiro próprio, e as esperanças financeiras de Tom dependiam de um tio rico que esperava dele um casamento sensato – i.e., com uma herdeira. Não se sabe se foi Tom que, regressado a Londres e ao convívio com o tio, desistiu do romance com Jane por implicar um preço demasiado alto. Ou se, como algumas cartas de parentes de Jane sugerem, foi Anne Lefroy, a prima que o recebeu e apresentou aos Austen, que enviou Tom de volta para Londres a tempo de impedir que o romance se tornasse demasiado sério.

Tom Lefroy deixou marcas em Jane Austen – trespassadas para os livros. Foi a seguir ao romance com Tom que Jane escreveu, de rajada, a primeira versão da sua obra mais magnífica e adorada (incluindo pela autora): Orgulho e Preconceito, à época ainda chamado de First Impressions. Várias personagens das obras de Austen vão buscar os nomes a Tom Jones, o romance de Henry Fielding de que Lefroy tanto gostava. Acima de tudo, Tom Lefroy trouxe-lhe algo muito mais importante para colocar nos livros: o conhecimento direto da paixão, do desencanto e do poder que as particularidades financeiras tinham sobre a vida amorosa de homens e mulheres na viragem do século XVIII para o século XIX.

Jane Austen, mulher não tradicional

Seria muito desonesto reivindicar Jane Austen como feminista precoce. Desde logo porque o feminismo era uma realidade inexistente durante a vida da nossa autora, as sufragistas apareceriam décadas depois, Mary Wollstonecraft não criou um movimento nem corpo de seguidoras, e considero bastante pueril atribuir preocupações do século XXI a gerações passadas que nunca viram o mundo com as lentes da atualidade.

Isto dito, é difícil não ver em Jane Austen resistência e afronta aos papeis tradicionais das mulheres que são caras às feministas. Um exemplo desta têmpera não convencional de Jane foi a sua decisão de não casar. No outono de 1802, Harris Bigg-Wither, vizinho no Hampshire e herdeiro de Manydown, uma propriedade invejável, surpreendeu Jane com uma proposta de casamento. Jane aceitou, para se arrepender durante a noite e recusar na manhã seguinte.

O filme “Becoming Jane”, de 2007, explora a paixão entre Jane Austen (Anne Hathaway) e Tom Lefroy (James McAvoy).

Assim, não havendo nenhuma inclinação romântica para Harris, Jane recusou a segurança económica e a importância social que aquele casamento lhe traria, bem como uma vida familiar mais de acordo com o que as mulheres eram ensinadas a desejar. Em boa verdade, a Jane não fascinava a vida de gravidezes constantes e rodeada de crianças pequenas que assistia nas suas cunhadas – que lhe produziram um número considerável de sobrinhos. A realidade do casamento não lhe era muito apelativa. Casar sem amor implicava que Jane prescindisse da sua independência e, porventura, da sua escrita – com pouca recompensa. Por outro lado, via bem que os casais mais afetuosos e apaixonados produziam muitos filhos, com os desconfortos descontinuados que essa realidade oferecia ao seu sexo.

Em Emma, Jane Austen revela as suas preferências. Numa conversa entre Emma Woodhouse e a sua amiga Harriet, a primeira garante à segunda que não quer casar. Esta horroriza-se e declara que uma solteirona é sempre ridicularizada. Mas Emma discorda e informa: ‘eu não serei uma solteirona pobre. E é apenas a pobreza que torna o celibato desprezível […] Uma mulher solteira com poucos rendimentos deve ser uma solteirona ridícula e desagradável, o alvo preferido de rapazes e raparigas; mas uma mulher solteira com uma boa fortuna é sempre respeitável e pode ser tão sensata e agradável como qualquer um.’

Para Jane, portanto, o casamento era, para uma mulher, mais uma necessidade que uma escolha feita livremente. Exceto existindo amor ou paixão – e aí o sexo feminino pagava um preço que podia subir tão alto até arruinar a saúde com tanta gravidez ou mesmo morrer durante o parto. E Jane não tinha qualquer vontade de casar apenas para se enquadrar num papel tradicional feminino. Se virmos bem, muito poucos casais são funcionais e felizes nos livros de Austen. A pena de Jane não é caridosa para este estado civil.

Austenmania

O primeiro livro de Jane foi publicado aos 35 anos, e olhando em retrospetiva cedo se percebeu que desde 1811 se estavam a cultivar as sementes que um dia cresceriam até à austenmania dos dias de hoje. Adaptações de cinema e televisão dos romances de Jane – o último, que eu desse conta, foi o filme Love and Friendship, uma adaptação de Lady Susan que foi buscar o nome a outro pequeno trabalho de Austen. Filmes e livros em número respeitável sobre a própria Jane. Sequelas de autores presumidos que julgam ter talento para continuar as histórias das personagens austenianas – que, em bom rigor, deviam ter como castigo uma qualquer tortura medieval (incluindo P.D. James, autora do policial Death Comes to Pemberley, sequela de Orgulho e Preconceito). Livros e filmes roubaram os enredos de Austen, um ou outro com bons resultados. Os Diários de Bridget Jones seguem os enredos de Orgulho e Preconceito, o primeiro – com um Mark Darcy com personalidade semelhante ao Mr Darcy original -, e Persuasão, o segundo. A lista continua.

É difícil não ver em Jane Austen resistência e afronta aos papeis tradicionais das mulheres que são caras às feministas. Um exemplo desta têmpera não convencional foi a sua decisão de não casar. No outono de 1802, Harris Bigg-Wither, herdeiro de uma propriedade invejável, surpreendeu Jane com uma proposta de casamento. Jane aceitou, para se arrepender durante a noite e recusar na manhã seguinte.

Tirando as diferenças tecnológicas de 200 anos depois, foi sempre assim. Poucos meses após a publicação de Sensibilidade e Bom Senso, em 1811, a duquesa de Bessborough e o Duque de York elogiavam o livro. A Princesa Charlotte, filha do Príncipe Regente, considerava-se igual à impulsiva Marianne Dashwood. O próprio Príncipe Regente, sob os préstimos do seu bibliotecário, viu ser-lhe dedicado Emma. O poeta Sheridan reputou Orgulho e Preconceito de ‘uma das coisas mais inteligentes que já tinha lido’.

Apesar deste frenesim que rodeou logo de início os livros de Jane, e de ter tido o seu quinhão de críticos, como é obrigação de qualquer autor decente (as irmãs Brontë não gostavam de Austen), é a dois homens que se deve a atual loucura com todas as coisas Austen. Andrew Davies e Colin Firth – o argumentista e o ator da adaptação da BBC de 1995 com que abri o texto. A cena apócrifa – mas ligada para sempre ao imaginário austeniano – do mergulho no lago de Pemberley de Mr Darcy, na sua versão Colin Firth, é épica. Depois dela, o mundo não mais foi o mesmo.

Inevitavelmente, há quem não saiba ler e vanglorie Jane Austen como estandarte das suas ideias néscias e perigosas. Com a argúcia intelectual que se esperaria da alt right americana, estes bons moços e moças deram em ver nos livros de Austen a sua utopia. Mulheres inteiramente dependentes dos homens, nada de liberdade sexual feminina, o casamento como o destino de vida das mulheres, um mundo de personagens brancas – para estas almas argutas, é isto que Jane Austen defende. Escapa-lhes que a autora escreveu sobre a Inglaterra rural no início do século XIX, pelo que teria sido desconcertante introduzir nelas um mandarim chinês aqui e um selvagem da Papua Nova Guiné ali. A ironia austeniana sobre as circunstâncias periclitantes da vida das mulheres é também demasiado fina para estes cérebros de amendoim.

Os partidários da alt right não foram os únicos que tentaram tornar Jane um estandarte do mundo puritano onde as mulheres não se valem a si próprias. Depois da morte da autora, os irmãos e sobrinhos garantiam a conformidade da sua irmã aos papeis disponíveis e às qualidades desejáveis para o sexo feminino, mormente na biografia que escreveu o sobrinho James Edward Austen-Leigh. Mas aqui devemos usar as palavras para os escritos masculinos sobre as deficiências das mulheres que Jane, em mais um assomo reminiscente do feminismo, usou através de Anne Elliott em Persuasão: ‘Os homens têm toda a vantagem sobre nós a contar a sua história. A educação tem sido deles num nível muito mais elevado, a caneta tem estado nas suas mãos. Não vou permitir que livros [escritos por homens] provem alguma coisa.’

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt