O antigo governante espanhol José Luis Rodríguez Zapatero afirmou em tribunal na passada quarta-feira que as joias avaliadas em 1,3 milhões de euros apreendidas pela polícia foram uma “oferta” pessoal do então rei da Arábia Saudita Abdullah Bin Abdulaziz Al-Saud (que morreu em 2015), noticiou o El País. O monarca terá decidido presentear Zapatero em 2007 como “demonstração de agradecimento e respeito” pelo seu apoio, alegou a defesa do ex-primeiro-ministro e antigo líder do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE). Entre as peças confiscadas, há um colar avaliado em cerca de 278 mil euros.

As doze peças foram encontradas no passado mês de maio no escritório de Zapatero, onde estava também guardado o seu acervo de “origem familiar e ofertas de amigos, sem qualquer uso ou destino, e sem consciência do seu valor material”, afirmou a defesa, que está à espera de uma confirmação da monarquia saudita para comprovar os factos. Trata-se de três conjuntos de colares, pulseiras, anéis e brincos em ouro branco, com rubis e diamantes. Havia ainda um conjunto de esmeraldas e outro de safiras. Zapatero entregou 531 ofertas ao património público quando deixou o Palácio da Moncloa, mas estas não foram incluídas.

O juiz José Luis Calama havia emitido um prazo de três dias para que Zapatero esclarecesse a origem das joias e se estão relacionadas aos crimes fiscais e de contrabando dos quais está a ser investigado. Em junho, o espanhol recusou-se a responder a perguntas sobre o tema em tribunal. Passados três meses, fontes próximas ao antigo governante revelaram que foram realizadas “conversações diplomáticas” para definir a origem das joias. O advogado, no entanto, considerou o valor atual apresentado pelo juiz “muito superior ao valor real das peças” na altura em que estas foram cedidas ao seu cliente. Foi então solicitada uma nova análise das peças, que deve ser divulgada nas próximas semanas.

Zapatero enviou uma carta à casa real da Arábia Saudita a pedir a confirmação. “A corte, por ocasião da viagem oficial de sua alteza real saudita, o custódio das duas sagradas mesquitas, sua majestade o rei Abdullah Bin Abdulaziz Al-Saud, nos dias 18 e 19 de junho de 2007, e no âmbito das relações entre os nossos dois países, entregou as demonstrações de consideração de que fomos objeto”, diz um trecho do documento. Nessa carta, em que se pede confirmação da oferta, é afirmado pelo próprio Zapatero que as joias foram oferta “estritamente pessoal”.

A 12 de agosto, a defesa reforçou o pedido, solicitando ao juiz que confirmasse a oferta junto das autoridades sauditas.

Caso os sauditas confirmem a versão de Zapatero, a suspeita de contrabando poderá ser invalidada ao considerar que as joias chegaram a Espanha através do monarca. Seriam também extintas as suspeitas de crimes fiscais devido ao tempo decorrido para a prescrição dos crimes. Terá, no entanto, de ser verificado se as joias foram declaradas e pagos os respetivos impostos.