Logo Observador
Estado

Acabou o namoro entre Marcelo e Costa

Autor
3.651

“2017” não é, claramente, “2016” O estado de graça de Costa acabou-se. Regressado das férias, cometeu um erro enorme: para relativizar o roubo das armas de Tancos, traiu o Presidente da República.

1. Como todos os namoros, o do Presidente da República e do Primeiro Ministro não resistiu a cenas de ciúmes e a uma traição. Costa foi o ciumento e o traidor. Observando a actividade frenética e a “agenda” da última semana, percebemos que as famosas “férias” do PM foram na verdade uma fuga. Costa não aguenta quando as coisas correm mal. Recordam-se da última semana de campanha das eleições legislativas de 2015? Quando os socialistas perceberam que iam perder as eleições, a prestação de Costa tornou-se penosa. Afirmações lamentáveis, momentos disparatados, iniciativas desastradas – como o jantar da Trindade – até lhe faltou a voz no discurso de encerramento da campanha. Só não foi de “férias”, porque não podia. Mas aquela semana foi um sofrimento para Costa. Não conseguiu lidar com a adversidade. Quando tudo lhe corre mal, Costa precisa de desaparecer. Depois é habilidoso a reaparecer e a retomar a iniciativa.

Após as semanas desastrosas da segunda metade de Junho, aconteceu o mesmo. Costa foi incapaz de lidar com as dificuldades e aquelas “férias” foram oportunas. Desapareceu, não foi obrigado a responder a perguntas e a enfrentar os problemas. Deixou Santos Silva para o fazer (e percebeu-se que o MNE é o verdadeiro número dois do governo; Costa não governa sem ele). Quando passou a tempestade, Costa reapareceu com iniciativas. Mas desta vez, o regresso não lhe correu bem. Para se redimir, prejudicou a relação com Marcelo, e duvido que possam voltar aos tempos felizes de 2016.

Além da dificuldade de lidar com momentos difíceis, Costa tem outro problema enorme: não consegue estar à altura de Marcelo na competição dos afectos com o povo. O Presidente é imbatível e o PM, como segunda figura do regime, é o que mais perde com a comparação. Irritada com o namoro de Costa com Marcelo, a direita não consegue ver o sofrimento e os ciúmes do PM. Durante as “férias” de Costa, lembrei-me de outra famosa fuga do PM: a visita à Índia durante o enterro de Mário Soares. Costa tem sempre marcações inadiáveis nos grandes momentos de emoção popular e, curiosamente, sempre fora de Portugal. Senão é de propósito, é uma sorte incrível.

Obviamente, se quisesse, Costa teria adiado a visita à Índia para ficar em Lisboa para a última homenagem ao fundador do PS, ao “Pai” da democracia portuguesa e à figura mais marcante da história do socialismo em Portugal. Só mesmo a complacência da imprensa nacional e o estado de graça de Costa na altura é que permitiram que uma enorme anormalidade se tornasse num momento absolutamente normal. Como foi possível que um PM socialista não estivesse presente na última homenagem a Mário Soares? Não me venham com a treta da visita à Índia. Só acredita nisso quem quer.

A verdadeira razão chama-se Marcelo Rebelo de Sousa. Para Costa, é um pesadelo estar na sombra do Presidente nos momentos de grande emoção nacional ou de tragédia. Não aguenta. Um PM que aposta tudo nas boas notícias, nos afectos e na proximidade com a população, tem ao seu lado um Presidente que é melhor do que ele. Nesses momentos, Portugal torna-se demasiado pequeno para ele e para Marcelo. Caros leitores, acreditem. A comparação com Marcelo, para o PM, é um drama. No primeiro momento de pânico, foi para a Índia. No segundo, foi de férias.

Mas “2017” não é, claramente, “2016” O estado de graça de Costa acabou-se. Regressado das férias, cometeu um erro enorme: para relativizar o roubo das armas de Tancos, traiu o Presidente da República. Enquanto Costa gozava as suas “férias”, Marcelo foi a Tancos, convocou um Conselho de Defesa Nacional e pediu um inquérito para apurar tudo o que se passou. Para Marcelo, o que se passou em Tancos foi muito grave. Costa regressa e na sua primeira iniciativa pública desautoriza Belém. Ao lado dos chefes militares, desvalorizou o roubo das armas. Mais, obrigou o Chefe de Estado Maior das Forças Armadas a dizer o contrário do Comandante Supremo das Forças Armadas, o Presidente da República. Como foi possível que o PM tenha forçado um acto de desrespeito pela hierarquia da Estado português? E como foi possível que o general Pina Monteiro se tenha sujeitado aquele triste papel?

Bem sei que vivemos um momento em Portugal em que não há respeito pelo sentido de Estado nem pelas instituições e o PM, como se viu, dá o mau exemplo. Mas Marcelo Rebelo de Sousa é um institucionalista. O desrespeito e a desautorização públicos de Costa não lhe escaparam. E não vai esquecer. Ninguém tenha dúvidas sobre isso. O Presidente terá que repor rapidamente a sua autoridade de Comandante Supremo das Forças Armadas, posta em causa pelo PM. E o namoro não sobrevive à traição de Costa. Aliás, o namoro do último ano e maio é que foi estranho. No sistema político português, os conflitos entre o PM e o PR são inevitáveis, como se tem visto nos últimos 40 anos.

2. Os ataques de Costa à Altice na Assembleia da República foram um verdadeiro momento Trump do PM português. O ataque foi de tal modo inusitado que dei por mim a pensar se Costa não seria acionista de um dos concorrentes da PT. Como é possível um PM atacar daquela maneira uma empresa, defendendo implicitamente um concorrente cotado em bolsa? Não esquecendo que a empresa adquirida pela Altice também está cotada em bolsa. A afirmação mostra a prepotência, a arrogância e a falta de cultura económica e financeira de António Costa. Como podem os mercados e as agências de rating confiar num governo chefiado por um PM que faz afirmações deste tipo?

3. Os portugueses já pagaram mais de cinco mil milhões de Euros para capitalizar a Caixa Geral de Depósitos. Foi o resultado de créditos oferecidos a amigos e parceiros de negócios, especialmente durante os governos de Sócrates, que utilizaram a CGD como se fosse o seu tesouro privado. A Assembleia da República preparava-se para branquear este escândalo financeiro. Devemos estar agradecidos ao Ministério Público por o ter evitado. Percebe-se a oposição da nossa oligarquia política à privatização da CGD. No fundo, já o privatizaram, estando-se nas tintas para o interesse público. O “interesse público” significa os portugueses pagarem os desvarios do banco privado da oligarquia política.

4. A FLAD, sob a presidência do Vasco Rato, tem oferecido um contributo exemplar às relações entre Portugal e os Estados Unidos. Manteve e aprofundou programas científicos e académicos entre instituições norte americanas e portuguesas, iniciativas culturais e projectos de investigação, nomeadamente sobre energia, plataformas digitais e o oceano Atlântico. Além desta vocação mais natural, a sensibilidade do seu Presidente para as relações com os Estados Unidos, numa altura em que a presidência de Trump complica as relações transatlânticas, é uma mais valia política para Portugal.

5. Por uma vez, um elogio a uma decisão de António Costa. A nova Secretária de Estado para os Assuntos Europeus, a Embaixadora Ana Paula Zacarias, é uma excelente escolha. O seu desempenho como diplomata em Bruxelas, ao serviço de Portugal, foi respeitado e elogiado por todos. Depois, no serviço externo da União Europeia, teve um percurso exemplar, nomeadamente como primeira Embaixadora europeia no Brasil e depois na Colômbia. É muito bom quando uma alta funcionária competente e com muita qualidade serve o nosso Estado no governo. Sobretudo, nos dias que correm.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Venezuela

Eles não mudam mas o PS está a mudar

João Marques de Almeida
1.059

Não basta fazer discursos eloquentes nas comemorações do 25 de Abril. O apoio do PCP e do BE ao regime Chavista não surpreende. Mas a indiferença do PS face ao que se passa na Venezuela é preocupante.

Marcelo Rebelo de Sousa

Belém é o centro da vida política

João Marques de Almeida
478

Chegando a PM após perder eleições, Costa colocou-se numa posição de fraqueza em relação a Marcelo, eleito pela maioria dos portugueses. A presidencialização do regime pode ser o preço da geringonça. 

Fogo de Pedrógão Grande

A ignorância de Estado

Rui Ramos
3.571

Pedrógão Grande já é a maior vergonha desta democracia. Um mês depois, ninguém explicou, ninguém pediu desculpa, ninguém se demitiu, e o Estado nem sequer resolveu as dúvidas sobre o número de mortos.

Educação

O Filipa e a escola pública

Maria José Melo

Portugal só será realmente um país civilizado quando existir consciência cívica por parte de todos os cidadãos. Foi esta visão que adquiri no Liceu D. Filipa de Lencastre e me acompanhou toda a vida.