A maioria dos dirigentes socialistas acha que cada vez que o PS está na oposição, é como se tivesse surgido um novo partido, tocado pelo milagre da virgindade política. No passado, não se toca, até porque os eleitores já julgaram os governos socialistas anteriores. Este argumento é uma falácia. As eleições não julgam apenas o governo, mas também os outros partidos concorrentes às eleições. O argumento dos socialistas transforma as eleições num referendo ao governo, o que deturpa a natureza da democracia. Por isso, todos os partidos apresentam programas eleitorais. Os partidos que estiveram no governo no passado, como o PS, também terão que ser avaliados pelas suas experiências executivas.

O PS não é um novo partido, há uma continuidade doutrinal, ideológica e de dirigentes em relação aos últimos anos em que esteve no poder. Aliás, os socialistas usam políticas que correram bem nos seus governos do passado para efeitos de campanha eleitoral. Por vezes, recuam até a António Arnault e à criação do SNS.

Vejamos dois exemplos. Nos últimos meses, o PS tem atacado o governo na educação. A direção do partido diz mesmo que o actual ministro da Educação é o pior do regime democrático, por causa dos atrasos das notas nos exames no último ano lectivo e agora por causa do adiamento do início das aulas. Os governos socialistas enfrentaram problemas semelhantes no passado. Durante os governos de António Costa, houve vários anos lectivos que começaram com dezenas de milhares de alunos sem professores (e não estou a referir-me aos anos afectados pelo Covid). Durante os governos de António Costa também houve vários anos lectivos com atrasos de notas finais. Aliás, não houve durante os últimos governos socialistas a paz social que existe hoje entre governo e sindicatos. Recuperando a famosa definição de Churchill sobre a democracia, talvez Fernando Alexandre seja o pior ministro da educação de sempre, tirando todos os outros. Ou seja, olhando para a herança socialista na educação, a questão central é a seguinte: quais são as garantias de que um governo socialista faria melhor do que o actual? Se os socialistas fossem sérios, reconheceriam que os problemas da educação têm mais a ver com problemas funcionais do Estado português do que com o governo.

Vamos agora às reformas. Entendo perfeitamente que se critique o governo por falta de ambição reformista. Por exemplo, não consigo entender que se publique um estudo sobre os problemas da segurança social e das pensões, e depois o governo coloque imediatamente o estudo na gaveta e adie reformas numa área onde elas são indispensáveis. Tal como há problemas com a quase ausência de explicações do governo sobre reformas indispensáveis para o país. Um governo deve ter coragem para tomar decisões, depois deve ter coragem para as explicar e, finalmente, deve ter coragem para as executar.

Mas ao PS falta seguramente autoridade para atacar o governo pela ausência de reformas. O governo procurou fazer uma reforma laboral, os socialistas opuseram-se, juntando-se à UGT. Mais, quais foram as reformas marcantes dos governos de António Costa, incluindo durante os dois anos de maioria absoluta? Reformas laborais? Nada. Reformas fiscais? Nada. Reformas da segurança social? Nada. Reformas na justiça? Nada. Reformas no Estado? Nada. Reformas na educação e na saúde? Nada. Aliás, na saúde conseguiram acabar com o que funcionava bem, comos as PPPs. Na segurança das fronteiras, os socialistas acabaram com o SEF, causando um caos migratório, resolvido por este governo.

Quer o PS convencer os portugueses que mudou radicalmente e se transformou num partido reformista? Desconfio que nenhum português acredita nisto, a começar pelos dirigentes socialistas.