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Catalunha

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Que, além de ilegal, o pseudo-referendo catalão tenha sido uma paródia de si mesmo, com as mesmas pessoas a votarem várias vezes e mil outras coisas assim, mais uma vez nada conta.

Chegou cá a casa, sob vestes novas, uma vetusta relíquia de outros tempos: um gira-discos, objecto que dantes recebia também o mais sofisticado nome de pick-up (suponho que hoje se escreveria picâpe). A minha mulher trata-o com a veneração devida a um artefacto misterioso pertencendo a uma civilização passada com a qual não teve nunca verdadeiro contacto. De qualquer modo, foi a maneira de ouvir uma colecção de discos, comprados sensivelmente entre 1970 e 1985, que, por uma razão ou outra, sobreviveram a um número absurdo de mudanças de casa e a violências sortidas. Nem tudo é propriamente memorável. Descobri até na pilha um lp de um grupo rock chamado Slade, que encarnava na perfeição um conceito por aqueles tempos muito na moda, o de “pop-trolha”. Os especialistas na matéria reconhecerão a força de carácter exigida para uma tal confissão.

Mas descobri também coisas boas, em particular um disco de um dos meus grupos favoritos, os Kinks, de seu nome Misfits (creio que de 1978). As canções, com as letras de Ray Davies, são do mais adulto que a música pop produziu e deixam-se ouvir hoje como se ouviam na altura. Suspeito até que, por uma razão ou outra, melhor, como uma liberdade que vem do passado e já não há agora. As canções lidam, com brutal franqueza e ironia ao mesmo tempo, com os sentimentos de inadequação e perda do comum das pessoas face às transformações do mundo à sua volta (Black Messiah é um bom exemplo). E falam também das vozes que pretendem explicar-nos como sobre tudo devemos pensar, como em Live Life:

Trendy intellectuals always take action
For every cause that’s ever been in fashion
Weekend revolutionaries protest and sing
Because they’re dedicated followers of any old thing
They got every solution for every revolution

Por razões óbvias, lembrei-me muito desta canção de Ray Davies por estes dias de clamor e má-fé em que, a propósito da Catalunha, a esquerda mais vocal se resolveu lembrar-nos, sem vergonha nem reticência alguma, do seu absoluto desrespeito pela democracia em nome do mais alto valor da revolução ou do seu substituto mais à mão. Não vem de agora, é claro. Foi sempre assim. A “democracia formal” conta pouco. Que o referendo catalão fosse declaradamente ilegal em nada conta. Como nada conta a existência do vasto número de catalães anti-independentistas cuja vida se está a transformar num inferno que só ameaça piorar. A irresponsabilidade é um modo de consciência bem asseguradoe aparentemente pagante. Nada conta. They got every solution for every revolution.

Falam da história, falam muito da história, os fanáticos do costume e os inteligentes inúteis. Não falam da história para contextualizar e procurar perceber. Falam da história, de uma história convenientemente parcial e ideologicamente domesticada, sem aberturas nem aporias, para justificar exclusivamente o seu desejo, um desejo que assenta numa versão mitológica das coisas em que sempre encontram assento para pensar o que se passa. Vivem no mito revolucionário que, no fundo, nunca abandonaram. Because they’re dedicated followers of any old thing.

E censuram a violência policial, nalguns casos perfeitamente inventada, sem por um só momento se interrogarem sobre o patente facto de ela ter sido desde o princípio desejada pelo núcleo independentista, que nela viu o arremedo único de uma justificação do acto. Uma justificação que os modernos tempos mediáticos obviamente quase garantiam, já que tal arremedo oferece um paraíso para o jornalismo televisivo. Crianças e velhinhas foram usadas como carne para canhão de imagens, com todo o velho e brutal pragmatismo leninista. Sobretudo, não lhes interessa em nada a vida real das pessoas. Interessa-lhes unicamente encontrar na superfície dos acontecimentos o lugar para a projecção dos seus próprios fantasmas revolucionários. E para se reunirem em comícios e abaixo-assinados, se possível com alguma cantoria pelo meio. Weekend revolutionaries protest and sing.

Trendy intellectuals always take action for every cause that’s ever been in fashion. Está-lhes no sangue. É praticamente compulsivo. Que, além de ilegal, o pseudo-referendo catalão tenha sido uma paródia de si mesmo, com as mesmas pessoas a votarem várias vezes e mil outras coisas assim, mais uma vez nada conta. Tudo sucumbe ao fascínio do que mais se assemelhe a um grupo em fusão e à encenação de uma luta entre um Bem e um Mal imaginariamente puros. A legalidade não interessa. Praticamente nunca interessou.

E aqui entra, de facto, a questão da violência: da verdadeira violência, daquela que as câmaras televisivas não transmitirão. A violência exercida sobre os excluídos do novo regime que se deseja. Mas isso não é novidade. A esquerda radical sempre a adorou. Nem falo dos vários regimes totalitários que iluminaram o seu pensamento. Ao longo da vida, sempre os vimos fascinados com o IRA, com Arafat, com a ETA, com os Baader-Meinhof e com tudo aquilo que fornecesse a excitação adolescente necessária para alimentar a sua visão do mundo. São os mesmos, pensam o mesmo, não mudaram em nada. Respeito que merecem? Zero.

Com efeito, nada mudou. O desprezo pelo comum das pessoas está ali, como sempre esteve. Está ali, como sempre esteve, o secreto gosto pela violência que se crê justa. E está sobretudo ali, às vezes dizendo o seu nome, outras não, a convicção da existência de um sentido da história, para o qual se encontram cientificamente virados. Nada, nada, mudou. Nem sequer a forma da linguagem da indignação que hipocritamente encenam. Uma tristeza, uma enorme tristeza.

Resta procurar, no meio desta loucura, manter a cabeça fria e, sem abdicar de denunciar a colossal, criminosa e muito antiga impostura que aquela gente representa, viver a vida como se pode:

Don’t panic, don’t lose control
Keep your head, keep a hold
Act normal, there’s nothing wrong
Stay cool, just carry on.

Bom conselho, amigo Ray. Pelo menos é de tentar.

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