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Mário Soares

A coerência de Mário Soares

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Custa talvez a reconhecer que o Mário Soares da Fonte Luminosa em 1975 é o mesmo da prisão de Évora em 2014. Mas é. Ele não mudou. E vai entrar na história com tudo isso.

Para muita gente, Mário Soares é uma dificuldade. Como é possível que o político que confrontou Vasco Gonçalves na Fonte Luminosa em Julho de 1975 seja o mesmo que defendeu José Sócrates diante da prisão de Évora em Novembro de 2014? A propósito, menciona-se a idade ou contradicções. Ora, Soares envelheceu certamente, mas não mudou. Há, na sua vida, uma coerência que convém reconhecer. Não é uma coerência doutrinária, como a que celebrizou Álvaro Cunhal, mas uma coerência prática, que explica, entre outras coisas, porque é que, tendo sujeito o país à austeridade em 1983, ao lado do PSD, a contestou em 2013, ao lado do PCP.  

O “enfant terrible” da democracia

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O que nos impede de perceber Mário Soares é a vontade de o elevar acima de controvérsias e divisões. Há muito tempo que Soares parece pronto para ficar na história. É o último político em actividade que conheceu os barões assinalados da I República, como António Sérgio ou Jaime Cortesão. Está em fotografias com Norton de Matos em 1949 ou com Humberto Delgado em 1958. A ditadura salazarista prendeu-o, deportou-o e exilou-o. Depois de 1974, venceu e perdeu eleições, foi primeiro-ministro, foi presidente da república. Mas Soares, por mais avançado nos anos, nunca se dispôs a ficar-se pelo papel do velho estadista consensual. Com efeito, mais do que o clássico “pai fundador” do actual regime, ele foi acima de tudo o seu “enfant terrible”: o “sapo” que muitos tiveram de engolir, a pedra no caminho de quase todos. Soares enfrentou e contestou toda a gente: em 1975, Álvaro Cunhal; em 1980, o general Eanes, mas também Francisco Sá Carneiro; em 1994, Cavaco Silva e António Guterres; este ano, Passos Coelho e António José Seguro.

Não houve ninguém em Portugal, da direita à esquerda, que não tivesse tido Soares como adversário num momento ou noutro. Todas as correntes de opinião o acusaram, incluindo o partido que fundou: a direita nacionalista selecionou-o como principal responsável civil da descolonização de 1974; o PCP culpou-o pelo fracasso do PREC em 1975 (Álvaro Cunhal nunca lhe perdoou); muitos dos seus correligionários socialistas lamentaram a sua negligência ideológica e o seu favorecimento da direita, em 1978 (governo com o CDS), em 1983 (governo com o PSD) ou em 1987 (quando proporcionou a primeira maioria absoluta de Cavaco Silva); e a direita passou a encará-lo como um dos seus adversários mais radicais na fase final do governo de Cavaco Silva (1994-1995) e agora durante o último programa de ajustamento (2011-2014). Estes rancores têm uma razão: toda a gente, em certo momento, pensou que podia contar com Mário Soares, apenas para ficar desiludida com ele.

Oposicionista sem quixotismo

Mário Soares contestou todas as grandes propostas e situações de poder do seu tempo. Foi esse o papel histórico deste filho-família, literato e advogado da Baixa de Lisboa. Antes de 1974, combateu a ditadura salazarista, mas também a hegemonia que o PCP procurou exercer sobre a oposição. Depois de 1974, resistiu à aliança do PCP com o militarismo progressista, combateu o “eanismo”, e contrariou o reformismo liberal que a direita tentou protagonizar. Em geral, embora sem sempre, conseguiu polarizar conjugações de forças variadas para contrariar o que pareciam ser movimentos irresistíveis.

Soares parece ter concebido a oposição como um ponto de partida vantajoso. Em 1969, foi sondado por marcelistas liberais para se aproximar da ditadura, provavelmente em troca de um tratamento privilegiado. Recusou, para não deixar ao PCP o monopólio da resistência. Em 1974, aconselhou ao general Spínola que encaixasse o PCP no I Governo Provisório, mais uma vez para não deixar os comunistas aproveitar a oposição. Em 1978, quando o general Eanes forçou a sua demissão de primeiro-ministro, declarou que se sentia “livre como um pássaro”. Todos julgaram que ironizava. Era provavelmente mesmo assim. Fundamentalmente, Soares percebeu que numa sociedade plural e complexa, todo o poder suscita dúvidas e resistências, criando oportunidades de acção política.

cavaco

Através dos seus protestos e impugnações, Soares marcou o desenvolvimento do actual regime: primeiro, impediu o estabelecimento de uma ditadura militar influenciada pelos comunistas, e ajudou à fundação de uma democracia pluralista, com uma economia de mercado, enquadrada pela NATO e pela União Europeia; desde então, identificou-se com todos os que contestavam a adaptação do Estado e da sociedade portuguesa à globalização e à integração monetária europeia.

Inicialmente, Soares acreditou que o seu Partido Socialista, fundado em 1973, seria um pequeno partido, fiel da balança entre uma grande Democracia Cristã e um grande Partido Comunista, como na Itália. Nada se passou assim. Em vez disso, o PS tornou-se em 1975, não só o maior partido, mas o único partido verdadeiramente nacional, com votos no sul e no norte. Em 1976, quando formou governo, discutiu-se a sua vocação “mexicana”. De facto, Soares acabou por passar os primeiros vinte anos do regime sobretudo na oposição, mesmo quando foi primeiro ministro ou presidente da república: no governo, entre 1976 e 1978 e entre 1983 e 1985, confrontou o presidente, o general Eanes; na presidência, entre 1986 e 1996, chocou com o governo chefiado por Cavaco Silva.

Soares tem assim pouco a ver com as figuras tutelares de outros regimes portugueses, como Fontes Pereira de Melo durante a Monarquia Constitucional ou Salazar sob o Estado Novo. Soares foi acima de tudo um político de oposição. Por isso, para além dos filiados no seu partido, reuniu à sua volta sobretudo personalidades em transição, desgarrados das suas famílias partidárias de origem: antigos marcelistas, ex-CDS, ex-comunistas, ex-PSD.

A tendência de Soares não foi tanto a de constituir um poder dominante, mas para reagir aos poderes tendencialmente dominantes em cada momento. Foi assim que se afirmou, que adquiriu poder e influência. Porque nunca o fez quixotescamente, para perder. No Verão de 1975, teve uma epifania numa praia do Oeste, cheia de famílias e de automóveis: num país com uma classe média veraneante, o comunismo não era possível. Kissinger julgou-o destinado a ser um Kerensky. Ele sempre soube que era possível ganhar. Em 2011, perante uma população envelhecida e uma Europa dividida, ter-se-á convencido de que a rejeição da Troika seria outra causa auspiciosa. E não hesitou em misturar-se com os seus antigos inimigos na Aula Magna, nem em permitir-se os maiores excessos verbais.

Se nunca foi um Dom Quixote, também nunca foi simplesmente um irrascível, dominado pelo simples gosto de contrariar. Em 1970, no exílio, evitou isolar-se e estendeu a mão a toda a gente, incluindo o PCP, que o atacara ferozmente no ano anterior. Nunca perdeu o instinto de sobrevivência política. Em 1974, conseguiu definir uma plataforma política abrangente: fim da guerra em África através da negociação com as guerrilhas, pluralismo partidário (“valor essencial”), e “abertura à Europa”. “Socialismo”, sim, mas com “rosto humano” e realista. Foi-lhe assim possível, em 1975, conspirar ao mesmo tempo com a igreja católica, a diplomacia americana e os moderados do MFA.

Republicano, laico, socialista e… político

Mário Soares

Alguém perguntará: e o que é que ele era de facto? Mário Soares fez questão de se definir: “homem de esquerda”, ou mais detalhadamente, “republicano, laico e socialista”. Era, com efeito, de esquerda, sem os alçapões biográficos de François Mitterrand. Vinha de uma família republicana, com uma passagem pelo partido comunista no imediato pós-guerra. Mas aprendeu, na oposição ao salazarismo depois de abandonar o PCP, que não devia excluir ninguém em princípio. O seu republicanismo, numa época em que a forma republicana já não dividia, e o seu laicismo, extirpado de rigores anti-clericais, nunca o limitaram nos seus contactos, como haviam limitado os velhos republicanos de 1910. Tratou com católicos e monárquicos sem problemas de consciência. Também não estava condicionado, como os sociais democratas do norte da Europa, por uma máquina sindical pesada (em 1974, aliás, o PS quase não existia para além de um grupo de amigos). Pôde fazer política com todo o virtuosismo e desassombro, capaz de charme mas também de brutalidade, implacável num momento e magnânimo no outro.

Acima de tudo, Mário Soares é um político. “Desde criança que fui atingido pela política”, escreveu este ano de 2014 no prefácio ao seu livro mais recente, “Cartas e Intervenções Políticas no Exílio”. Em 1950, no seu primeiro livro, “As Ideias Políticas e Sociais de Teófilo Braga”, examinou a questão do “primado da luta política sobre todas as outras actividades”. A política que o “atingiu” não foi uma qualquer política, mas a política de uma sociedade democrática e aberta. Na primeira “Carta de Paris” publicada no  jornal “República” em 1971, explicou aos seus leitores portugueses que os debates, conflitos, antagonismos e “complicadas coligações dos partidos” da França eram uma fonte de dinamismo e até de força. Pouca gente, num país com uma cultura anti-política, partilhada igualmente pelos tecnocratas da ditadura e pelos revolucionários da oposição, era capaz de conceber a política dessa maneira. Ele foi.

 

 

 

 

 

 

 

 

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