Ambiente

O aquecimento global arrefeceu a esquerda fracturante

Autor
125

O aquecimento global estagnou. O facto representa uma derrota política da corrente ideológica que usou a ciência para legitimar o seu radicalismo contra o capitalismo.

Diz a esquerda fracturante que o aquecimento global é uma evidência dos nossos tempos – e só alguém cego e pleno de má-fé poderia pôr em causa o que é evidente. É este o ponto de partida para qualquer debate sobre o assunto, que tem como cenário uma previsão apocalíptica quanto ao futuro do planeta. E com uma causa simples de identificar: a poluição causada pelo homem. Ou seja, o aquecimento global é resultado directo da acção humana, nomeadamente de um modo de vida ligado ao ócio, ao individualismo e ao consumo. Em suma, ao capitalismo. Foi esta a convicção que dominou o debate público e, durante anos, foram raros os que se atreveram a desconfiar. Até porque, como sempre nos relembravam, nunca se tratou de uma questão de opinião ou de visão política, mas de ciência – isto é, de factos incontestáveis e, consequentemente, de evidências.

Só que, recentemente, as evidências deixaram de ser evidentes. De acordo com um artigo publicado na reputada revista “Science”, o aquecimento global estagnou no início deste século e, tudo indica, assim permanecerá até cerca de 2030. Isto apesar do aumento das emissões de gases com efeito estufa – ou seja, isto apesar da acção humana –, sendo o oceano Atlântico a (provável) principal explicação para o fenómeno. Ora, a descoberta é particularmente relevante, por duas razões principais: mostra como é complexo o equilíbrio de factores que têm influência sobre o clima (e como sabemos pouco acerca desse equilíbrio), e mostra que a acção humana não é o factor dominante nessa relação. Dito de forma simples, a conclusão é que, por mais que tantos o desejem, o homem não controla o clima.

De facto, acreditar no contrário foi sempre demasiado fácil. Essa relação de causalidade entre a acção do homem e o clima impõe uma visão do mundo que nos é querida: a de que o homem é a razão e a causa de tudo. Da mesma forma que, na idade média, se acreditava que tempestades e terramotos eram castigos divinos pelos pecados humanos, hoje há quem identifique num furacão a consequência directa da exploração petrolífera. A ciência substituiu a religião, mas o raciocínio manteve-se – continuamos a acreditar que tudo depende só de nós.

Mas mais do que fácil, foi útil acreditar. Politicamente útil. Porque o que verdadeiramente interessa é o carácter político da alegada relação causal entre a acção humana e o clima. Essa não foi um acidente, foi deliberada. E não foi imposta pela ciência, foi mesmo uma opção ideológica. Para alimentar os activismos e moralizar debates. Para fixar o modo de vida ocidental como raiz da ameaça à sustentabilidade do planeta. Para impor como solução a ruptura com esse modo de vida. Para, no fundo, fazer do aquecimento global o alibi para legitimar a luta contra o capitalismo e a defesa do socialismo. Durante décadas, funcionou. Manifestos, protestos, agendas fracturantes. Houve de tudo. Agora, está na hora de virarmos a página.

Olhando para trás, é de certo modo chocante verificarmos que tanta gente tenha escolhido acreditar numa relação de causalidade tão fragilmente demonstrada em termos científicos. Sim, porque a questão-chave nunca foi reconhecer que há aquecimento global ou que a acção humana pode contribuir para o efeito estufa (isso está efectivamente demonstrado), mas sim o estabelecer de uma relação causa-efeito entre a acção humana e esses fenómenos climatéricos. Esse salto lógico, que nunca foi devidamente sustentado, foi rápida e acriticamente aceite. Confirmou-se a regra: uma boa mentira, para ser credível, tem de ter uma ponta de verdade.

Obviamente que nada disto significa que o ambiente não deva ser cuidado ou que, perante estas descobertas, ganhámos o direito de esburacar a camada de ozono à nossa vontade. Nada disso. O que está em causa é uma dupla lição. A de que o homem não controla tudo. E a desta importante derrota política. A de uma corrente ideológica que usou a ciência para esconder o seu radicalismo contra o capitalismo. Pela ciência se ergueu. Pela ciência caiu.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Web Summit

#aculpaédoPassos

Alexandre Homem Cristo
1.734

Sob pressão, o governo atira com acusações falsas. Foi assim sempre que algo correu mal. Este comportamento constitui uma irresponsabilidade muito mais indigna do que qualquer jantar no Panteão.

Catalunha

Estar do lado da República

Alexandre Homem Cristo
207

A Catalunha é o campo de batalha onde prossegue a guerra destes tempos – a do ataque ao liberalismo. São os valores republicanos que precisam de defesa. Contra Puigdemont, como contra Trump e Le Pen.

Só mais um passo

Ligue-se agora via

Facebook Google

Não publicamos nada no seu perfil sem a sua autorização. Ao registar-se está a aceitar os Termos e Condições e a Política de Privacidade.

E tenha acesso a

  • Comentários - Dê a sua opinião e participe nos debates
  • Alertas - Siga os tópicos, autores e programas que quer acompanhar
  • Guardados - Guarde os artigos para ler mais tarde, sincronizado com a app
  • Histórico - Lista cronológica dos artigos que leu unificada entre app e site