A verdade é que as coisas não vão nada bem, cá na paróquia. Quem o afirma é o Joaquim, compadre do falecido Padre Júlio. Filho de um dos principais homens da comarca, que em paz descanse, que foi anos a fio presidente da junta e mordomo das festas da freguesia, é pai do Micael, que teve por padrinho o falecido Padre Júlio, santo homem que Deus tem. Mas, desde que o Padre Paulo se fez cargo da paróquia, as coisas não têm corrido pelo melhor e, diga-se de passagem, não é por culpa dos paroquianos.

Logo de início, caiu mal aquela ideia do Padre Paulo não autorizar que, na procissão, saíssem os andores de Nossa Senhora da Saúde e o de Nossa Senhora dos Remédios. É verdade que sendo uma só e a mesma ‘santa’, a repetição das imagens seria excessiva, mas também é certo que a tradição vale muito e, quem começa por desrespeitar os usos locais, não se pode depois dar ao respeito. Sobretudo quando se trata de uma questão tão importante!

A seguir, foi o caso do sobrinho, o Quim, que, apesar de ser baptizado e ter feito a comunhão solene, que até os tios vieram da França, foi recusado para padrinho, só por não ter a Confirmação. Também é certo que não pratica e já vive com a namorada, a Soraia, que é muito boa moça e também anda a estudar para doutora no Politécnico. Mas, não há por aí tanta gente que até vai à comunhão e tem vidas bem piores?Além do mais, a Senhora Dona Maria da Luz, do solar da vila, foi madrinha, há um ror de tempo, de uma data de miúdos e, que se saiba, nunca foi crismada! Mas, claro, como era fidalga … Depois, é óbvio que os jovens deixam de ir à missa … Os padres queixam-se de que eles crescem e desaparecem, mas também é verdade que, com atitudes destas, não atraem ninguém. Que eu saiba, não é com vinagre que se caçam moscas!

Outro desaguisado ocorreu quando o novo pároco não presidiu ao funeral da tia Benvinda, uma mulher que nunca faltava às festas e ia muitas vezes a Fátima, para cumprir promessas. E até ia muito à igreja, embora fosse só à do Reino de Deus, que fica mesmo ao lado de casa, porque tinha que aprontar o comer para o ti Arlindo e não lhe dava jeito de espécie nenhuma ir à do Padre Paulo. Desde que o actual prior alterou o horário das missas, à conta das outras igrejas onde também tem serviço, a tia Benvinda nunca mais lá pôs os pés. Não por culpa dela, entenda-se, mas por causa destas novas manias dos padres, que pensam que sabem tudo e que podem fazer o que lhes apetece nas paróquias.

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Também deu muito falatório na aldeia não ter aceite a Albertina para zeladora da capela de São Julião do Monte. Apesar de deitar as cartas, até é muito boa senhora e, às vezes, faz o favor de não levar nada. Além disso, nas suas encomendações das almas penadas, a Albertina da Ladeira, que é muito religiosa, inclui sempre missas para serem rezadas e novenas aos santos, para além de muita água benta, que nunca falta nas suas benzeduras. E a sua casa, de tantos santinhos e imagens piedosas, mais parece um santuário. É verdade que o Padre Paulo lhe tinha dito que não devia fazer aqueles trabalhos, mas a coitadinha nem faz por mal, mas apenas para aliviar os aflitos, que não têm quem lhes valha nestas situações. Não é que eu seja supersticioso, mas a verdade é que aquilo resulta, porque uma vez ela disse que o Senhor António já cá não estaria por muito tempo e, de facto, o homem finou-se uns anos depois, já velhote.

Não sou dado a comparações nem a intrigas, mas bom a valer era o meu compadre, o Padre Júlio, grande caçador e amigo de toda a gente. Quase todos os homens da terra eram seus colegas de jogatanas até altas horas e seus compadres, porque o escolhiam para padrinho dos filhos. É verdade que tinha a catequese um bocado desleixada e que em dias de caça não dizia a missa nem fazia funerais mas, fora isso, era uma pessoa sempre pronta a fazer a vontade do freguês e, verdade seja dita, tinha a igreja cheia.

Mas agora, com estas novidades todas, há quem se afaste… e, não me venham cá com histórias, porque a culpa é dos padres. Depois não digam que eu não avisei!