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Cinema

Onde está a liberdade?

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Eastwood lembra que hoje em dia toda a gente caminha sobre cascas de ovos, com medo de as partir. O policiamento total e perfeito da linguagem e dos sentimentos torna o mundo invivível.

Às vezes uma pessoa apanha-se com um grande horror à subjectividade, sobretudo quando ela invade tudo e quer tomar conta dos momentos todos da nossa vida. Vem lírica e pesada, fardada de bons sentimentos e obrigatória, muito viscosa, a dizer-nos que devemos ser desta maneira e não ser daquela, que devemos sentir isto e não devemos sentir aquilo, que devemos pensar aquilo e não aqueloutro, sem que a gente lhe tivesse encomendado qualquer sermão. Convém nestes casos sacudi-la da roupa e procurar alguma objectividade, que é onde podemos encontrar a maior liberdade. Por onde é que ela anda?

Graças a Deus, anda por muitos sítios. No outro dia descobri-a numa entrevista à Esquire, de há meio ano, de Clint Eastwood e do seu filho Scott. O crítico literário inglês F. R. Leavis, eminentemente influente em meados do século passado, recusava-se a atribuir grande importância literária a romances em que a questão das decisões morais não fosse, de uma maneira ou de outra, central. Por estranho que pareça, é possível que no cinema isso seja ainda mais fundamental do que na literatura, e os filmes de Clint Eastwood vivem todos no elemento desse tipo de escolha. Mesmo aqueles, não por ele realizados, do Dirty Harry, que a muito estimável Pauline Kael com grande estupidez chamava “fascistas”.

Eastwood, a propósito do seu último filme, Sully, que quero mesmo ver, lembra que hoje em dia toda a gente caminha sobre cascas de ovos, com medo de as partir. O policiamento total e perfeito da linguagem e dos sentimentos torna o mundo invivível. É com esta reserva céptica em relação aos modos mediaticamente dominantes do nosso tempo que ele encara Donald Trump. Sem excessiva simpatia, mas com alguma compreensão. Nomeadamente face às acusações de racismo, que considera tontas. Para ele, Obama foi péssimo, inteiramente divorciado das pessoas. É bem possível que tenha toda a razão. Eu, pelo menos, cada vez mais penso assim.

Clint Eastwood é, à sua maneira, um cineasta da objectividade trágica. Alguém comparou o díptico The Flags of Our Fathers / Letters from Iwo Jima aos Persas de Ésquilo. Guardadas as devidas proporções, a comparação parece justa. Trata-se, nos dois casos, de encontrar espaço para o ponto de vista do outro, de o poder albergar, de tentar experimentar os seus sentimentos e o seu modo de ver. É um bom modo de nos defendermos da embaraçosa e tirânica infantilidade da subjectividade e de ganharmos alguma liberdade.

O que nos pode levar a um génio infinitamente maior, ao Tucídides da História da guerra do Peloponeso. Outra vez a objectividade, mas desta vez naquele que é verosimilmente o maior livro de história jamais escrito. Ninguém foi nunca como ele capaz de escrever história que estivesse a tal ponto próxima de nós, e relê-lo é assistir a um milagre sempre renovado. Encontramos tudo, sob uma forma tão definitiva quanto é possível.

A natureza da democracia, na oração fúnebre pronunciada por Péricles, com a célebre menção ao respeito pelas diferenças individuais. O risco do aventureirismo político e militar, na deliberação que precedeu a fatal (para os atenienses) expedição a Siracusa: é Alcibíades, o aventureiro, que persuade, contra os sábios conselhos de Nícias, a assembleia. A demagogia populista (ou uma das suas várias formas) no discurso de Cléon, opondo a mítica justeza do homem da rua ao fatal erro da gente educada. A real e efectiva natureza do poder, tal como explicada pelos embaixadores atenienses à ilha de Milos: o padrão da justiça depende da igualdade da capacidade de compelir pela força. E a desagregação dos valores, nos seus mais ínfimos e fundamentais detalhes, provocada pelas grandes catástrofes: políticas, como os conflitos em Corcira (Corfu), ou naturais, como a peste.

Nunca ninguém como Tucídides nos mostrou de forma tão clara e evidente a natureza e o modo de funcionamento das paixões políticas, fora de qualquer retórica empolada ou emoção forçada. Lê-lo é, literalmente, uma libertação. Relê-lo é experimentar para lá de qualquer dúvida que essa libertação não é imaginária. Uma cura de sanidade mental.

Falei de Eastwood e de Tucídides porque têm sido bons amigos meus por estes dias. Mas tudo o que nos possa libertar do delírio ambiente é bem-vindo e há muita coisa que serve para o efeito. Em geral, tudo o que nos permita ver o mundo com os olhos o mais possível limpos de preconceitos. A experiência da liberdade encontra-se mesmo mais na busca da objectividade do que na tirania da subjectividade. E é liberdade que a gente quer, não é?

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