Brexit

Quem disse que sair da Europa era fácil?

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Esperemos que o executivo britânico se reorganize depressa. Ainda que o divórcio tenha tido até agora pouco de litigioso, uma das partes põe paus na engrenagem. E nas separações todo o cuidado é pouco

A semana passada assistiu-se ao fim da primeira ronda negocial do Brexit. É certo que tudo parece ter acabado bem, com as duas partes satisfeitas. Mas a verdade é que o Reino Unido está a pagar o preço de uma dupla derrota: teve que ceder mais do que queria e, ainda assim, o parlamento chumbou o acordo na especialidade. Esperam-nos a todos tempos morosos. Mas para Londres vai ser tudo muito mais difícil.

As matérias em apreço eram as menos polémicas: o estatuto dos cidadãos europeus em território britânico e vice-versa, a fronteira da Irlanda do Norte (parte da Grã-Bretnha) com a Irlanda e as contrapartidas financeiras que o Reino Unido tem de pagar à União Europeia até se consumar a saída em definitivo. Os dois primeiros pontos não tiveram grande dificuldade: convencionou-se manter o status quo: quem tem visto de residência mantém-no. Isso aplaca os receios britânicos de aumento de imigração e sossega os residentes de outros estados europeus no Reino Unido – e os britânicos que moram noutros países da EU – relativamente à estabilidade da sua situação. Há omissões no acordo, não tão claro como muitos gostavam. Mas os líderes dos dois lados dizem que se está no bom caminho.

Quanto à fronteira Irlanda-Irlanda do Norte, regressou-se ao Acordo de Belfast de 1988, o que, bem vistas as coisas, não muda nada. O acordo contempla a livre circulação de bens e pessoas e foi essencialmente construído em nome do mercado livre e da união dos irlandeses dos dois lados da fronteira – vista como necessária para manter a estabilidade social, que não tem sido famosa, historicamente, para aqueles lados. Não interessa nem ao Reino Unido desbaratar esse capital (nem acender fervores nacionalistas), nem interessa à União a desestabilização de um estado membro, mais ainda um dos mais castigados pela crise de 2008.

As duas derrotas britânicas são relativamente aos pagamentos que terá que efetuar para sair da União e “a própria oposição interna ao Brexit. Theresa May queria que a conta não ultrapassasse os 20 mil milhões de euros, mas a imprensa britânica assegura que o valor vai, no mínimo, duplicar (os números finais não estão contidos no acordo). Ora assim, passa-se à segunda ronda de negociações sem nada verdadeiramente definido a não ser que a fatura britânica vai ser muito mais avultada (ainda que não tão avultada como a Comissão Europeia gostaria).

Talvez não fosse um grande preço a pagar por um soft Brexit, a estratégia escolhida por Theresa May e do agrado da União Europeia. Mas o Parlamento britânico chumbou a lei do Brexit na especialidade, espelhando aquilo que já sabíamos: que as elites do Reino Unidos estão tão divididas quanto a este passo como a população em geral – que dá cada vez mais mostras de arrependimento. Por vários motivos: porque a economia britânica cresceu menos que a da União Europeia, porque a ideia abstrata de Brexit até podia parecer boa (bem se sabe que os britânicos são ciosos da sua soberania e os populistas deram uma mãozinha ao descrever um maravilhoso mundo pós-UE), e porque a confusão é generalizada. Já ninguém percebe para onde o país vai, mas muitos já intuem que não vai no bom caminho. Theresa May chegou a um impasse: tem um país dividido, uma casa (parlamentar) dividida e, à sua frente, uma ronda de negociações muito mais difícil: a que se relaciona com o comércio e a liberdade de circulação de bens e serviços, e que terá consequências diretas nos bolsos dos cidadãos.

Podem dizer – e bem – que a União Europeia também perde. Mas acontece que o que tinha para perder já perdeu, e foi no dia do referendo. Isso liberta-a para negociar com uma assertividade que nem sempre a caracteriza.

Afinal, as instituições contam. Contam e muito, quase sempre, especialmente na hora da entrada e da saída. O Reino Unido terá agora que lidar com uma situação quase insustentável que poderá fazer cair governos, enredar-nos a todos em avanços e recuos, e mergulhar-nos (a todos, mais uma vez) numa crise ainda maior. E deixem-me que vos diga, crises é o que não nos falta. Esperemos que o executivo britânico se reorganize rapidamente. Ainda que o divórcio tenha tido, até agora, pouco de litigioso, uma das partes está a pôr paus na engrenagem. E já se sabe que nisto das separações todo o cuidado é pouco.

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