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Crise no GES

Uma lição de Ricardo Salgado a António Costa

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Não sei quantos ex-governantes teriam sido capazes de dizer "não" a Ricardo Salgado como disse Passos Coelho. Agora parece simples e óbvio, mas foi um momento de ruptura com velhos hábitos políticos

O dinheiro não aparece sempre. Há coisas que afinal acabam por mudar. Mesmo.

De forma muito sintética, talvez sejam estas as duas principais lições a tirar do que se passou e está a passar com o grupo Espírito Santo. Lições para que António Costa devia olhar.

Em poucos dias, a Espírito Santo Internacional, depois a RioForte, por fim a Espírito Santo Financial Group pediram protecção contra credores. O que significa que iniciaram um processo de falência por não conseguirem pagar as suas dívidas. O que significa sobretudo que deixou de ser possível ao grupo alimentar dívida com mais dívida. E dívida a prazos cada vez mais curtos. Ou seja, o dinheiro acabou-se: mais ninguém quis ou quer correr o risco de emprestar a um grupo sem activos suficientes e sem capacidade de gerar resultados sustentados.

A espiral de dívida que engoliu o grupo é fruto de erros de gestão e de muita megalomania, da convicção de que o imenso poder da família e de Ricardo Salgado – associado a um nome antigo e prestigiado – continuaria a abrir todas as portas, e cofres, que fosse necessário. Mas isso não sucedeu porque nunca sucede de forma indefinida. Quando essas portas ficaram reduzidas à PT, percebeu-se que tudo tinha acabado – e acabou agora para o GES como tinha acabado em 2011 para o nosso país e o governo de José Sócrates. Como país aflito, tivemos então a ajuda de quem nos assegurou o financiamento destes três anos; como família endividada, os Espírito Santos não tiveram, nem poderiam ter, a ajuda do erário público ou do banco do Estado. É isso que explica que a família tenha falido e nós ainda não.

Os “mercados” não foram mais generosos com o “dono disto tudo” do que foram com este pobre país à beira mar plantado: quando chegou o momento crítico, cortaram o crédito.

Não estou aqui a falar dos possíveis crimes que possam ter sido cometidos ao longo de todo o processo do GES – estou apenas a dizer que ir acumulando dívidas hoje à espera de lucros de amanhã, e fazer isso décadas a fio, dá, por regra, muito mau resultado.

É por isso que é inquietante ouvir António Costa dizer que o problema das finanças públicas é um “problema de curto prazo” (”curto prazo” uma geração?) e meramente “instrumental”. É um argumento que mostra muita ligeireza e que só pode deixar-nos inquietos, muito inquietos. Sobretudo por mostrar o pouco que se percebeu sobre o processo que nos colocou à beira do abismo em 2011.

O dinheiro, repito, não aparece sempre – nem sequer para António Costa. Mas isso não quer dizer que estejamos condenados a ver a história repetir-se sempre. Até porque ela, pelo menos neste momento e neste caso, não está a repetir-se.

Pelo que sabemos até ao momento, há pelo menos duas coisas que se passaram de forma muito diferente do que antes era hábito. Primeiro, o Banco de Portugal, mesmo sem fazer estardalhaço público, estava há muito tempo a tratar de separar o BES dos activos contaminados do grupo. Se não o tivesse feito não sei como estaríamos hoje. Depois, houve um governo e um primeiro-ministro que disseram não a Ricardo Salgado, alguém que se recusou a pedir ao banco do Estado para ajudar a família em dificuldades, uma recusa que, sejamos claros e francos, não era sequer imaginável há dois ou três anos. Sobretudo não seria imaginável no tempo no tempo do governo anterior, no tempo em que Ricardo Salgado era cúmplice (e parceiro) da estratégia política de José Sócrates.

Hoje todos acham natural, até obrigatório, o “não” de Passos Coelho ao velho banqueiro. É fácil afirmá-lo, não tem custo, até é popular, mas não sei se algumas das almas que agora aparecem com tantas certezas teriam, há dois ou três meses, se confrontados com o cenário de falência iminente do grupo Espírito Santo, um “centro de decisão nacional”, agido da mesma forma ou se não teriam feito ou defendido exactamente o contrário. Penso que não teriam. Por medo das consequências. Por deferência para com o “dono disto tudo”. Por acharem que não se podia deixar cair assim uma família que se confundia com o regime (este e os anteriores). Outros governantes, não duvido, teriam começado por fazê-lo discretamente, a ver se ninguém notava. Ou então teriam invocado os interesses nacionais, batendo no peito e dizendo-se patriotas. Arrisco mesmo acrescentar: não sei se algum dos anteriores primeiros-ministros, colocados no lugar de Passos Coelho, teriam sido igualmente firmes no “não” (suspeito que talvez só um deles o fosse, mas prefiro não arriscar o nome).

É também assim que as coisas mudam. Por uma vez um governante acusado de ser “hiper-liberal” comportou-se realmente como um liberal e deixou que os mercados funcionassem. Resistiu à tentação de intervir. E tratou do interesse público (preservou a Caixa) e não de um interesse particular (não preservou o poder da família).

Por isso acabo como comecei: há coisas que acabam mesmo por mudar, até quando menos se espera.

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