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O principal sindicato turco convocou para esta quinta-feira uma greve geral em protesto contra aquele que já é considerado o pior acidente com minas da história do país. Uma explosão seguida de incêndio numa mina de carvão em Soma, na província de Manisa, vitimou na noite de terça-feira pelo menos 282 pessoas. As operações de salvamento continuam mas as esperanças de encontrar sobreviventes diminuem de hora para hora.

O último balanço do ministério da Energia aponta para 282 mortos, depois de terem sido retirados mais corpos do local. Há ainda um número indeterminado de mineiros encurralados na sequência do acidente de terça-feira, considerado o mais grave da história da Turquia.

A tensão política no país também subiu de nível – num ano que não tem sido fácil para o Governo turco. “Aqueles que continuam com as políticas de privatização, que ameaçam as vidas dos trabalhadores para reduzir custos, esses são os culpados pelo massacre de Soma e devem ser responsabilizados”, escreveu no seu site a Confederação dos Sindicatos dos Trabalhadores Públicos (KESK), que representa um total de 240 mil trabalhadores.

Os sindicatos apontam desta forma o dedo ao Governo, que acusam de negligenciar a segurança nas minas, especialmente depois de ter privatizado o setor. A mina de Soma foi privatizada em 2005. O ministro do Trabalho, no entanto, já veio afirmar que a última inspeção à mina decorreu a 17 março e que a empresa aplicava as normas de segurança em vigor.

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Erdogan volta à mira dos protestos

Os protestos aumentaram de tom na quarta-feira à medida que se perdem as esperanças de resgatar sobreviventes. O primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan foi recebido entre vaias e ecos de demissão à chegada a Soma para uma conferência de imprensa. Segundo relatos da BBC no local, Erdogan foi mesmo visto a procurar refúgio numa loja enquanto os guarda-costas o tentavam proteger dos manifestantes.

A sua intervenção na conferência de imprensa aumentou ainda mais a fúria dos manifestantes, uma vez que procurou relativizar a seriedade do acidente. “Em 1862, 204 pessoas morreram numa mina no Reino Unido e, em 1864, morreram 361”, disse. E esta não é a primeira vez que Erdogan faz declarações nesse sentido. Em 2010, depois de um desastre do mesmo género ter vitimado 30 mineiros, o primeiro-ministro causou polémica ao dizer que, “infelizmente, coisas como esta estão previstas nesta profissão”.

O impacto do acidente em Soma chegou rapidamente a outras cidades do país. Em Ancara a polícia usou gás lacrimogéneo e canhões de água para dispersar cerca de 3 mil pessoas que se manifestavam na praça central de Kizilay, e cerca de 800 manifestantes que marchavam em direção ao ministéro da Energia, escreve a AFP. Cenário semelhante aconteceu em Istambul.

As explosões em minas são frequentes na Turquia. O acidente mineiro mais grave foi em 1992, quando 263 trabalhadores morreram numa explosão de gás na mina de Zonguldak, no norte do país, zona da maior bacia mineira de carvão na Turquia.