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Uma vez pode ser azar. Desatenção até. A coisa passa. À segunda já é para desconfiar. Se chegar à terceira ou à quarta, aí não dá para perdoar. E não deu mesmo. Foram vários os encontros da seleção alemã sub-21 aos quais chegara atrasado. As desculpas não importavam. Não era desculpável e tinha que aprender uma lição. Por isso, Boateng ficou de fora e lá foi a Alemanha sem ele para o Europeu sub-21, em 2009.

Foi a gota de água. Para Boateng, pois claro. O Kevin-Prince. Sim, o atual ganês. Jerôme, o outro, esse nada fez de mal e seguiu para a competição com a seleção alemã. Não estaremos a confundir os Boatengs? Não. As histórias é que são distintas.

Kevin ficou de fora da competição e não gostou. “Eu apoio-o. Conheço-o desde os 15 anos, mas há regras que têm de ser cumpridas. Podes ultrapassar a linha uma ou duas vezes, mas chega um ponto em que isso começa a ser demais”, chegou a dizer Sami Khedira, o hoje graúdo tanque da seleção alemã que está no Mundial do Brasil. Na altura, o médio falava do amigo que era riscado da lista de jogadores para o tal Europeu. Afinal, há algum tempo que Boateng insistia em meter o pé do outro lado da linha.

Em 2007, a imprensa alemã não se calava. As convocatórias sucediam-se e Dieter Eilts não chamava Kevin-Prince para a seleção sub-21. Porquê? Alegadamente, a viagem até ao Torneio de Toulon, nesse verão, foi recheada de problemas causados pelo então jogador do Hertha de Berlim. Ele que, na época anterior, respondera com um ‘não’ aos convites que os responsáveis ganeses lhe fizeram para jogar pelo Gana no Mundial de 2006. Tinha 19 anos e, na altura, já contava 41 internacionalizações nas seleções alemães (desde os sub-15).

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A vida continuou. E, pelos vistos, as asneiras também. Kevin não foi ao tal Europeu de 2009 e pronto. Chegava. No ano seguinte, o objetivo foi arranjar um passaporte ganês e esperar que a FIFA o deixasse vestir a camisola do país no Mundial da África do Sul. “Até 2010 nunca tinha ido ao Gana, mas a seleção recebeu-me bem”, disse, após a prova. Não estava a mentir. Tanto Kevin como Jerôme nasceram em Berlim, filhos do mesmo pai e de mães diferentes. Por lá cresceram e aprenderam a dar pontapés na bola. Eram alemães em tudo.

Quando os irmãos o deixaram de ser

Para Kevin, isso não interessava. Aos 23 anos, ia a um Mundial com o Gana. Como? Graças ao pai, ganês de nacionalidade. E, por obra do sorteio, calhava logo no mesmo grupo que a Alemanha. E esta, hein? O jogo daria uma derrota aos africanos (1-0) na primeira vez que dois irmãos se defrontavam na prova por seleções distintas. O problema, contudo, foi o alarido que se criou antes.

Em 2009/10, Kevin jogou no Portsmouth, em Inglaterra. A equipa chegou à final da FA Cup, onde o médio pisou Michael Ballack, estrela alemão que então alinhava pelo Chelsea. O resultado não foi o melhor — Ballack lesionou-se. Rotura de ligamentos no tornozelo. Era grave, tão grave que o fez perder o Mundial. Visto de outra forma, a Alemanha ficava sem o seu craque.

Tragédia. E a imprensa não tardou a desenterrar coisas até conseguir avançar com uma conclusão — tudo se tinha tratado de um ato de vingança de Boateng. Afinal, era o próprio pai do jogador, Prince Boateng (daí o nome do meio de Kevin) que o sugeria. “Têm de olhar para a história toda”, dizia. Ok, vamos a isso. Em 2006, Kevin Boateng estreava-se a marcar na Bundesliga, com 19 anos, pelo Hertha de Berlim (Jerôme, o irmão, também lá estava). “Jogaram contra o Bayern de Munique e ele teve uma discussão com o Ballack, que lhe disse: ‘Marcaste um golo e já te achas o melhor’”, contou o pai do jogador.

E história continua. “O Kevin nunca esqueceu isto e, infelizmente, não é muito diplomata, mas tenho a certeza que não queria lesionar o Ballack”, prosseguiu, ao falar ao Hamburg Morning Post do lance que roubou à seleção alemão o seu capitão. No meio disto tudo, o irmão Jerôme tinha uma opinião sobre o incidente. Joachim Low, seleccionador germânico, pediu na altura para “não o arrastarem para isto”, afirmando que a equipa o “apoiaria” sempre. Danke, mas este Boateng não ficou quieto.

E terá mesmo feito questão de transmitir o que pensava a Kevin. E este não gostou. “Depois das coisas que disse acerca da minha falta sobre o Ballack, afastámo-nos”, resumiu o lado ganês da irmandade. “Não quero ter mais contacto com ele. O Kevin achou que eu devia ter criticado o Ballack para o defender”, respondeu Jerôme. Jogo feito, nada mais.

O frio aperto de mão, no Alemanha-Gana de 2010, no Mundial, mostrou que a conversa era séria. Depois, o tempo passou, curou as feridas e a amizade reatou-se. Em 2013/14, Kevin transferiu-se do Milan para o Schalke 04 e até reencontrou o irmão no relvado, duas vezes, quando a equipa defrontou o Bayern de Munique. Aí, contudo, já ambos tinham imposto uma regra — deixarem de comunicar nos dias prévios a um duelo no relvado. Uma máxima que ambos cumprem à risca.

Até que a Copa do Mundo do Brasil se aproximou. E o sorteio voltou a fazer das suas. De novo, Gana e Alemanha ficavam no mesmo grupo. Com Portugal e EUA à mistura. E pronto, relações cortadas outra vez. “Não temos tido qualquer contacto, cada um está concentrado na sua seleção”, assegurou Jerôme, citado pelo The Guardian.  Só voltarão a falar quando a noite de sábado estiver a dar as últimas, após ganeses e Alemanha fecharem hora e meia de duelo futebolístico.

E será bem mais pacífico. A par de algumas palavras que Kevin dirigiu à seleção alemã –criticou-a por não ter nenhum líder no meio de jogadores de “classe mundial” –, a coisa tem estado tranquila. Falta ver como ficará quando a bola começar a rolar, às 20h, no Estádio Castelão, em Fortaleza. O irmão ganês começou o primeiro jogo (contra os EUA) no banco, mas já frisou que este será “o jogo mais fácil de sempre” pois “independentemente do que aconteça, só [pode] ganhar”. Em que é que ficamos então?