Argentina — Bélgica, às 17h (RTP1)

Diego Maradona. É isto que nos apraz dizer e lembrar em dia de duelo entre argentinos e belgas. Contextualizemos: falamos do Mundial de Maradona, perdão, do México-86. Três dias antes do confronto contra a Bélgica, Maradona havia destroçado Peter Shilton e companhia com dois dos golos mais memoráveis da história dos Campeonatos do Mundo. Mais do que um mero jogo de futebol, aquilo foi uma batalha emocional e política, onde escorria sangue em forma de orgulho, já que aconteceu apenas quatro anos depois da disputa das Ilhas Malvinas, entre Argentina e Reino Unido. Maradona, qual general das pampas, afundou seis porta-aviões e deu uma mãozinha no orgulho nacional. Épico.

Se o dez já estava no topo do mundo, curvando-se para olhar para os demais, o que veio a seguir contra a Bélgica nas meias-finais ofereceu-lhe a imortalidade. De vez. A Argentina era favorita contra Vercauteren, Jean Marie Pfaff e Enzo Scifo, que sonhavam com a primeira final de um Mundial. Maradona não permitiria.

“Valdano, Enrique, Olarticoechea, agora apareceu Diego [Maradona] a tocar na direita, Burruchaga, devolução, linda jogada… Maradona, Maradoooona! O ressalto atenção: goooolo!”, bonito relato, de uma jogada que mais parecia uma imitação do tiki-taka catalão. Maradona recuperou uma bola perdida e enviou um autêntico míssil, que Pfaff defendeu com asas. Mas a bola sobrou para Valdano, que tocou com a mão (outra vez?) para o fundo das redes. Anulado. O aviso à tripulação estava dado.

A magia chegaria na segunda parte. Maradona marcaria dois golos e colocaria a Argentina na final de mais um Mundial. O primeiro nasceu de uma diagonal a uma velocidade alucinante, que até teve o acompanhamento de dois belgas, mas que o canhoto tocaria, qual flecha sedenta de glória, por cima de Pfaff. O segundo, bom, o segundo é Maradona. Que dizer? Ultrapassou três defesas e escolheu onde colocar a bola, como quem escolhe o sabor do gelado numa tarde quente de verão. Simples.

Boas notícias para a Bélgica em 2014: Maradona já não joga futebol. Más notícias: agora há Messi, que foi eleito o melhor jogador em campo nos quatro jogos da Argentina até agora. A seleção não tem os jogadores de 1986, até porque Sabella teima em apostar em Gago e Mascherano para dar mais consistência a um meio-campo lento, que se arrasta, mas continua a ser favorita. Nem que seja porque há Messi. O sucessor de Diego.

Os belgas podem sempre agarrar-se à memória açucarada de 1982. No Mundial de Espanha, em pleno Camp Nou, Maradona, Kempes e companhia, os campeões do mundo em título, não conseguiram travar a armada belga, que venceu com um golo de Erwin Vandenbergh no arranque da fase de grupos.

 

Holanda — Costa Rica, às 21h (RTP1)

Inspetor Gadget. Lembram-se dele? Era um desenho animado, assente num detetive, meio humano meio robot, que no corpo tinha mil e uma ferramentas para resolver problemas. Foi criado no final da década de 80, por coincidência mesma altura em a Holanda trocava as voltas a quem via futebol. Rinus Michells, velho génio da tática laranja, pegou na seleção e guiou-a à vitória no Europeu de 1988, assente na ideia de que não existiam posições fixas e na ordem para que os jogadores teriam de andar por todo o lado.

Em 2014, Louis Van Gaal não é tão revolucionário. Mas inventa. Contra o México, nos oitavos de final, foi um festival. Dirk Kuyt, avançado habituado a marcar golos, começou a defesa esquerdo. Às tantas, passou para a direita. Daley Blind, o canhoto defensor, arrancou a central e acabaria a médio defensivo. O resultado: vitória por 2-1, sim, mas só após a laranja ser bem espremida.

Os dois golos holandeses que reagiram ao mexicano só apareceram aos 88 e 94 minutos. Como? Quando Van Gaal interrompeu as invenções, devolveu os dois extremos à equipa (Arjen Robben e Memphis Depay) e remontou a equipa em 4-3-3. Agora, terá pela frente o 3-5-2 que a Costa Rica desenhou para castigar os erros que, no relvado, cometam à sua frente.

A surpresa desta Copa é costa-riquenha. Só pode. Além de sair com vida de um grupo onde só lhe antecipavam morte (acabou à frente de Uruguai, Itália e Inglaterra), sobreviveu durante quase uma hora com dez homens frente à Grécia, de Fernando Santos. Depois, nos penáltis, tinha Keylor Navas na baliza, e pronto. No meio campo tem Bryan Ruiz, o capitão, e no ataque a flecha em forma de Joel Campbell.

Apenas sofreu dois golos em quatro jogos e Van Gaal já o saberá — sempre que a Holanda perder a bola contra a Costa Rica, estará a fazê-lo diante da equipa que, neste Mundial, mais se especializou em castigar o adversário por cada erro que comete. Nunca teve o prazer de o fazer contra a laranja (não há nenhum confronto prévio entre as duas seleções). Mas há uma primeira vez para tudo.