O timing poderia ter corrido mal, mas acabou por até parecer propositado. Horas depois da vitória do FC Porto contra o Benfica no primeiro clássico da temporada, uma rara entrevista de André Villas-Boas foi lançada para o mundo — e as linhas de pensamento sobre o funcionamento interno dos dragões, a rivalidade com os principais adversários e o que já mudou entre a era de Jorge Nuno Pinto da Costa e a atual parecem desenhadas com regra e esquadro por alguém que sabia que ia ganhar este domingo.
O presidente do FC Porto deu uma entrevista a John Obi Mikel, antigo médio do Chelsea que chegou a treinar nos blues e que atualmente é o anfitrião do podcast “The Obi One Podcast”. Numa conversa informal, até porque os dois interlocutores conhecem-se há bastante tempo, André Villas-Boas sublinhou a importância de proteger e preservar “a cultura e a história” dos dragões numa altura em que o futebol parece estar a fugir cada vez mais à tradição.
“Não há muitos clubes de associados no mundo neste momento. Nós competimos de forma desigual com clubes que têm vários donos. Todos estes clubes são muito ricos, claro, mas os clubes de associados têm uma vantagem competitiva. Nós sabemos onde estamos, o que somos, temos a nossa própria história e cultura, que foi construída pelos sócios. Independentemente de quem for o presidente, ele será sempre o responsável por dar continuidade a esta cultura que já está enraizada no clube. No FC Porto, os funcionários são portistas desde que nasceram, enquanto que nos outros clubes, muitas vezes, os diferentes departamentos são liderados por pessoas de outras cidades, que pensam fora da caixa, mas não têm o conhecimento cultural para se aproximarem das pessoas que gostam do clube. Nós não funcionamos assim. Todas as pessoas que trabalham aqui são portistas. Não podemos ter um benfiquista a trabalhar no departamento de ‘marketing’, por exemplo. Temos de proteger a nossa cultura, a nossa história, o que representamos e o que somos”, atirou.
Para vincar precisamente essa competição “desigual” com os clubes que têm um milionário investimento externo, Villas-Boas deu o exemplo de Caleb Yirenkyi, médio ganês que estava no Nordsjælland, interessava ao FC Porto e acabou por rumar ao Coventry, que subiu à Premier League. “É cada vez mais difícil competir com os clubes da Premier League. Posso falar do Caleb Yirenkyi. Estávamos a negociar com o Nordsjaelland e fomos o mais longe que podíamos para o trazer, mas tivemos de parar e ele acabou por ir para o Coventry por 27 milhões de euros mais bónus. É um jogador muito talentoso e tínhamos grandes expectativas para o futuro dele. Queríamos trazê-lo, desenvolvê-lo e, mais tarde, provavelmente transferi-lo para um dos grandes clubes da Premier League, mas não conseguimos. Isto acontece cada vez mais”, explicou.
“A habilidade que os clubes ingleses têm para construir grandes departamentos de ‘scouting’ capazes de identificar talentos mais rápido do que nós permite-lhes antecipar-se. Noutra altura qualquer, o Caleb teria vindo para o FC Porto e depois seguiria para um grande clube da Premier League. O caminho típico dos jovens talentosos seria parar em Portugal ou Espanha antes de rumar à Premier League, mas isso já não acontece. Os jovens vão diretamente para a Premier League, não para os clubes de topo, mas para outros que lutam pela manutenção. Nós também vendemos para esses clubes e isto é uma nova tendência”, acrescentou.
Mais à frente e tal como tem feito muitas vezes desde que venceu as eleições, André Villas-Boas voltou a detalhar a difícil situação financeira que encontrou no FC Porto. “Quando chegámos ao FC Porto a situação financeira era terrível. Tínhamos oito mil euros na conta, 15 milhões para pagar em 15 dias e 100 milhões para saldar em quatro meses. Chegámos a janeiro mal no Campeonato, estávamos no terceiro lugar. Tivemos de vender jogadores, vendemos o Galeno ao Al Ahli por 50 milhões de euros e vendemos o Nico González ao Manchester City por 60 milhões. Levantámos 110 milhões de euros. Contratámos um treinador de topo, jovem e ambicioso, e devolvemos ao treinador o maior mercado da história do FC Porto, investindo 100 milhões de euros em jogadores”, explicou, recordando que os dragões têm atualmente “o plantel mais valioso da sua história”, avaliado em 425 milhões de euros, com a “resolução da parte financeira” garantida com William Gomes, Samu, Victor Froholdt ou Diogo Costa.
Sobre Francesco Farioli, precisamente, o presidente do FC Porto justificou o porquê de o italiano ter uma cláusula de rescisão de 20 milhões de euros — utilizando a sua própria história, já que em 2011 tornou-se um dos treinadores mais caros de sempre ao levar o Chelsea a investir 15 milhões para o roubar aos dragões. “É um pouco mais caro do que eu era quando fui para o Chelsea. A cláusula dele é de 20 milhões de euros. Grandes profissionais, com muito talento, valem muito dinheiro. Por isso fixámos uma cláusula de 20 milhões de euros”, defendeu.
Presidente há mais de dois anos, Villas-Boas não esconde que tem algumas saudades do trabalho no relvado e vincou um momento específico em que essa nostalgia se tornou visível. “Houve um dia que mexeu muito comigo. Eu vinha a preparar-me há dois anos para as eleições e o choque emocional veio quando ganhei as eleições e fui ao centro de treinos pela primeira vez, para me encontrar com o Sérgio Conceição. Reencontrar o relvado, sentir o cheiro da relva, ver as bolas, a organização… Foi um momento difícil, senti que aquele era o meu lugar, mexeu comigo. Foi impactante, mas foi só nesse dia”, garantiu.
Por fim, contudo, o presidente do FC Porto assegura que não pretende voltar a ser treinador. “Não, na verdade não. Eu separei as coisas, dediquei a minha vida a este projeto, a servir o FC Porto. Nasci como adepto do FC Porto, lembro-me de ir aos jogos nos ombros do meu tio, aos seis anos. Ocupei vários cargos no clube e quando Mourinho chegou tornei-me seu adjunto, como analista. Saí e voltei como treinador principal, ganhei a Liga Europa, o Campeonato… Agora voltei como presidente, tenho uma ligação muito especial com este clube. Isso é um propósito de vida que preciso cumprir. É o destino”, concluiu.