Em nome de uma maior eficiência na condução da espionagem cibernética, a privacidade individual está posta em causa. É isto que demonstram as notícias publicadas hoje pelo Washinton Post, que detalham as cerca de 160 mil mensagens – entre e-mails, fotografias e conversas na internet – recolhidas pelos serviços de espionagem da Agência de Segurança Nacional (NSA, em inglês).

O conjunto de documentos disponibilizados por Edward Snowden, que abandonou a agência de vigilância norte-americana no ano passado, demonstram que apenas um décimo dos cidadãos visados nas recolhas de informações é de facto suspeito de algum crime. As comunicações interceptadas entre 2009 e 2012 envolveram sobretudo utilizadores comuns, a maior parte norte-americanos, que eram muito mais do que os cidadãos estrangeiros que a agência norte-americana estava de facto autorizada a investigar.

Em 22 mil e-mails vistos pelo jornal da capital americana, apenas 11% correspondiam a alvos da NSA, já de si uma definição bastante vaga e abrangente. Os restantes cidadãos não são suspeitos de nada, e a vida é escrutinada e arquivada para ficar permanentemente à disposição das autoridades norte-americanas.

Numa investigação de quatro meses, o Washington Post analisou mais de 160 mil e-mails e mensagens interceptadas nas redes sociais, associadas a mais de 11 mil contas online, confirmando o que um responsável da NSA já tinha admitido, quando reconheceu que a agência recolheu dados de cidadãos norte-americanos sem autorização legal.

Quase metade dos ficheiros analisados, que continham nomes, endereços de e-mail ou outros detalhes pessoais, diziam respeito a cidadãos norte-americanos aleatórios, e levantaram o véu de um dilema profundo: a vigilância apertada levou à descoberta de informações de relevância considerável para a agência de inteligência, mas ao custo de derrubar as barreiras de privacidade numa tal escala que será impossível a administração de Barack Obama defender-se.

Entre as informações de conteúdo relevante para a inteligência norte-americana, que o jornal norte-americano diz não detalhar para não interferir com as investigações em curso, estarão, por exemplo, revelações novas sobre projetos nucleares no estrangeiro. Mas a maior parte dos ficheiros, no entanto, diz respeito a informação descrita como inútil, mas ainda assim interceptada, de caráter íntimo, como relações amorosas e sexuais, crises psicológicas, conversas políticas e religiosas, anseios financeiros, etc. Ou seja, diz o jornal da capital norte-americana, a intercepção de tais mensagens chega quase ao nível do voyeurismo.

Os materiais recolhidos remetem para o primeiro mandato de Barack Obama, de 2009 a 2012, um período de crescimento exponencial da base de dados da NSA.