A transição foi lenta e difícil, mas concretizou-se: a marca NOS substituiu o Optimus no nome, e o Alive lá arrancou. Mais um grande cartaz às portas de Lisboa, casa cheia (55 mil pessoas, os bilhetes esgotaram há semanas) de muita juventude e muitos estrangeiros, principalmente espanhóis, ingleses, italianos e franceses. O dia foi quente e a noite amena, ao final da tarde sentiu-se um pouco o vento mas não pediu agasalho, tudo correu bem neste primeiro dia do NOS Alive. Mas vamos à música.

As principais atrações voltaram a estar divididas entre três recintos. Às 18h00 o britânico Ben Howard abriu o palco principal, o som estava excelente e a sua voz afinadissíma. Folk melancólica, muito bem orquestrada pelos cinco elementos da banda. O cantor-compositor-surfista cumpriu com o desígnio da ocasião, e desfilou os seus êxitos. “Keep Your Heads Up”, assim foi. À mesma hora, na outra ponta do recinto, o português David Santos (Noiserv) manteve idêntica melancolia, mas noutro estilo. Com os brinquedos com que faz música, foi meticuloso, disciplinado e comunicador. Despediu-se dizendo que “vale a pena sonhar”, e todos os que assistiam sentados no chão bateram palmas. Consciente que tinha os minutos contados para terminar a atuação, construiu um loop da sua própria voz, levantou-se e foi-se embora, até que a ditadura do tempo desligou o som. Foi uma saída em grande, de um músico português que vai crescer ainda mais.

Seguiram-se os britânicos Temples no mesmo palco, às 18h55. A pop psicadélica pôs toda a gente em pé, e em minutos o recinto encheu-se de gente e de curiosidade. Com apenas um álbum editado (“Sun Structures”), seguiram em marcha lenta, apresentaram o que havia para apresentar, ponto. Às 19h20, no palco NOS, a vez dos The Lumineers, banda folk de Denver. A este nível já é raro podermos dizer que uma banda toca mal, pelo contrário; a competência técnica é, regra geral, exemplar, e muitas vezes maior do que a artística. Por isso o que se assistiu foi a uma banda capaz, comunicativa, som impecável, até que arrancam com o tema “Ho hey” e o público rejubila, muitos braços no ar e na ponta dos dedos claro, máquinas a gravar o momento. E eis que, ainda a canção não ia a meio, o vocalista Wesley Schultz dá ordem de paragem, e pede a todos que baixem os telemóveis, “sintam a música!”, disse. O público cumpriu e substituiu os telefones pelas palmas, e quase todos deixámos de conseguir ouvir a música. Dá que pensar.

20h05, de volta ao Palco Heineken, para assistir ao arranque poderoso dos The 1975 (Manchester, UK). Público aos gritos, saltos e braços no ar, música ao pôr do sol, indie rock sem paragens. Matthew Healy (vocalista) foi uma figura ousada, semidespido, tatuagem no peito, pose rebelde, afinal de contas a música sempre foi feita de mais que apenas som.

público nos The 1975

The 1975

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Ao mesmo tempo (20h10) ali ao lado no Palco NOS Clubbing, a batida forte e melódica do germânico Hendrik Weber – Pantha Du Prince. Sem o aparato técnico das atuações exclusivas, manteve-se concentrado, dançou a sua música e não tirou os óculos escuros. Competente como esperávamos, foi recebido por um recinto às moscas. A eletrónica era imaculada, mas também eram horas de jantar, ou outros os interesses (os The 1975). Foi a primeira grande oportunidade perdida do dia.

Com o cair da noite, o vento de oeste arrefeceu um pouco e encheu o ambiente de pó. No palco principal isso não foi problema, os Imagine Dragons estavam em cena – 20h50. A juventude aderiu em peso ao soft rock do quarteto americano, que justificaram plenamente porque foram a banda sensação de 2013. Pouco depois, às 21h15, o português Tiago Bettencourt fazia as honras da casa no palco Heineken, mas estava toda a gente no outro, poucos foram os que assistiram à boa produção nacional.

22h30, a vez dos nova-iorquinos Interpol encherem o palco NOS. Há quem diga que o trio devia ter acabado logo depois do primeiro álbum “Turn on The Bright Lights” (2002). Não precisamos de ir tão longe, mas aquilo a que assistimos foi a um desfilar de canções que soam todas ao mesmo, muito à conta do timbre vocal de Paul Banks. Mas o público é soberano, e a avaliar pelas reações, os Interpol estão para as curvas. 15 minutos mais tarde (22h45), outra banda inglesa subia ao palco Heineken: os Elbow, e em contraste absoluto, Guy Garvey apresentou aquela voz que “existe mesmo” e não cansa ninguém. Com uma carreira iniciada em 1997, tinham muitas músicas para apresentar, mas concentraram-se no último “The Take Off and Landing of Everything”, sexto álbum de originais, cuja capa serviu de pano de fundo. “Viemos de Manchester para tocar umas músicas para vocês”, disse o vocalista. E fizeram-no muito bem, foram sete elementos experientes em palco que partilharam ali do melhor que o rock alternativo britânico tem para oferecer. O recinto estava composto, e foi onde vimos concentrada a média de idade mais elevada.

00h10, os Arctic Monkeys puseram-se em marcha para provar porque esgotaram este primeiro dia do NOS Alive: 12 anos de carreira, cinco álbuns de estúdio, uma reputação indie rock que sempre se esforçou por resistir ao comércio da fama. A enchente estava lá e ouviu uma banda focada no último “AM” (2013), mas que não se esqueceu de temas mais antigos:

arctic monkeys alinhamento

À mesma hora (00h20) no palco Heineken, a norte-americana Kelis Rogers iniciava, provavelmente, a melhor atuação da noite. Uma voz e presença extraordinárias, músicos exímios – incluindo secção de sopro e backing vocals – distribuídos por uma decoração dourada de grande contraste. Mas eram muito poucos os que ali estavam para os ver e ouvir. O público começou a sair do palco grande muito antes do final da atuação dos Arctic Monkeys, mas diretamente para a rua. E talvez não tenha sido apenas para evitar confusão ou porque hoje é dia de trabalho, a banda mereceu. E para quem não conhecia a Kelis, foi outra oportunidade perdida. Os festivais são eventos de descoberta, mas às vezes também, de sacrifício .

Quando vamos a um festival ver este ou aquele artista, se nos mexermos um pouco e estivermos atentos podemos descobrir novos (ou velhos) talentos. Ninguém troca um espetáculo em sala dedicado à sua banda preferida, mas seguindo esta linha de raciocínio, os festivais apresentam vantagens. Acontece que a partir de uma certa dimensão surge um problema inevitável: a sobreposição de horários. Tal como sugeria o artigo que publicámos ontem, duas das principais atrações atuaram precisamente ao mesmo tempo. E esta noite foi dos Arctic Monkeys, foram eles que esgotaram os bilhetes. Comeram a fruta toda, e o público perdeu a oportunidade de conhecer a brilhante Kelis. Amanhã há mais, sobreposições.

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