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“O rap e o hip-hop equivalem hoje à música de intervenção dos anos 60 e 70”. Quem o diz é o sociólogo Boaventura Sousa Santos, um curioso admirador deste género musical. Ou deveremos dizer que se trata do alter-ego Queni N.S.L. Oeste, que escreve rimas e também é capaz de as interpretar? A semelhança entre este nome e o do americano Kanye West não é definitivamente pura coincidência.

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Este espetáculo encerra Alice – Epistemologias do Sul, que decorre de 10 a 12 de Julho em Coimbra. É um colóquio do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, inclui centenas de investigadores internacionais e tem como mote “A Europa está esgotada”. Por sua vez, o concerto une temas e textos propostos por Boaventura Sousa Santos à escrita e interpretação dos rappers Capicua, Chullage, Hezbollah e LBC. Decorre na madrugada de Sábado para Domingo, pelas 0:30h, na Praça do Comércio, em Coimbra.

A paixão de Boaventura pelo hip-hop já tem alguns anos. “A origem deste estilo estava na luta contra a discriminação e as desigualdades sociais. E isso tem muito a ver com o meu trabalho.”, justifica. E vai mais longe: “Há uma afinidade familiar entre o rap e a sociologia”. Depois, foram muitos percursos a pé entre casa e o escritório a ouvir rap. Começou com Kanye West e Jay-Z e foi “entrando na batida, nos ritmos, nas líricas”.

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Do prazer à concretização foi um passo. “Até porque escrever rimas permitiu-me ir mais além do que a sociologia. E fazer uma crítica em outros moldes à modernidade ocidental”, assegura. Criou o alter-ego Queni N.S.L. Oeste, autor do livro “Rap Global”. É numa dessas rimas que se encontra o título do espetáculo.

“Há palavras que nasceram para a porrada” não pretende incitar à violência e à agressividade. Segundo o sociólogo, as palavras aqui ditas são “a reação de quem leva porrada e não de quem a dá”. “Porrada” seria uma palavra proibida num ensaio científico. “Se algum estudante apresentasse um ensaio ou uma tese com este título, eu não o permitiria”, assume com firmeza. Ao mesmo tempo que confessa: “Como o rap permite essa transgressão, acaba por ser uma forma de levar para dentro o que está fora da Universidade”.

Os temas do espetáculo passam pela discriminação social, pelo racismo e pelo sexismo. Uma visão fora do sistema ou, como garante Capicua, “outras versões da história de Portugal e da atualidade que não figuram nos grandes livros e na opinião dominante”. E, como três dos músicos são também sociólogos e todos pertencem a movimentos sociais semelhantes, a rapper do Porto acrescenta que é um “cruzamento de interesses sociais, políticos, científicos e artísticos em comum”.

“Há Palavras que nasceram para a porrada” esteve para representar Portugal em termos internacionais. Foi na Bienal de Veneza, por proposta de Joana Vasconcelos. Não foi possível por questões financeiras, mas grande parte dos temas foram compostos entretanto. De tal modo que o repertório interpretado por Capicua já foi gravado anteriormente, nomeadamente no último disco “Sereia Louca”. Mas a rapper-socióloga garante que este é um concerto completamente novo. A novidade está na “junção dos quatro músicos em palco e na coerência da seleção dos temas”.

Segundo Sousa Santos, uma parte do hip-hop é hoje machista e comercial, sem nenhum espírito de denúncia. Alguns dos músicos “exibem mesmo uma ostentação grosseira do estatuto que atingiram”. Mas o investigador exclui a team que o acompanha deste cenário. Até porque, pegando no exemplo de Capicua, “que ostentação seria possível quando uma doutorada em sociologia tem dificuldade em encontrar o seu lugar”? Assim, Chullage, Capicua, Hezbollah e LBC são a companhia desejada para a acutilância e o espírito crítico de Boaventura Sousa Santos. Ou deveremos dizer Queni Oeste?