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Duas vitórias e seis derrotas. Seis golos marcados e 14 sofridos. Não pode ser. Mas foi. Pelo meio, houve de tudo: jogadores a acenarem em despedida, reforços a darem pouca força e preocupações quanto ao que aí vinha. Eis o resumo, muito resumido, da pré-temporada do Benfica. Mas não há problema. Palavra de Jorge Jesus. Então porquê? “As pré-épocas servem para preparar as épocas”, lembrou, antes de chegar a Aveiro.

Nada a dizer. Jesus falou verdade. E, pelos vistos, tinha razão. Sobretudo pelo que os encarnados deram à vista durante os primeiros 45 minutos a sério da época. Afinal, tudo não passou de preparação. Ou melhor, de testes. “Fizemos as experiências que tínhamos que fazer para tomar decisões”, explicou o técnico, um dia antes de discutir a Supertaça de Portugal com o Rio Ave. O teimoso inimigo que, em quase quatro meses, chegava à terceira final com o Benfica e que, esta época, não sofrera golos em 180 minutos de jogos europeus.

As tais decisões de Jesus, porém, encolheram os vila-condenses. Tanto que, na primeira parte, quase não conseguiram esticar-se para lá da linha de meio campo. O coração encarnado não o permitia. O tal que foi reanimado e que, este domingo, voltou a bombear. Ou seja, Enzo Pérez regressou à equipa. E, com ele, o Benfica reapareceu: não deixou a bola quieta, mantinha-a na relva, circulava-a rápido e pouco tempo demorava a fazê-la chegar perto da área do Rio Ave.

Aos 10 minutos lá estava ela, a sair do pé direito de Maxi que, à força, misturou um cruzamento com um remate e não deixou que Anderson Talisca chegasse à bola para a desviar. Sim, o moleque de 20 anos e 1,90m foi titular e não mostrou o que dele se dizia no Brasil — que era o melhor amigo das bolas paradas — aos 12’, num livre à entrada da área, só obrigou Cássio a esticar o pescoço para ver a bola passar uns bons metros por cima da baliza.

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Aos 15’, a bola já passava mais perto. Graça a Eliseu, o reforço há anos ansiado por Jesus, que de pé direito (o mais pitosga) rematou à entrada da área, em jeito, e fez a bola passar a um palmo do poste direito da baliza. Outro palmo faltou ao remate de Lima, cinco minutos volvidos, para não passar por cima da barra. E um palmo, este de espaço, também faltou a Sálvio, aos 24’, quando as pernas de Marcelo, primeiro, e as mãos de Cassio, depois, não deixaram que dois remates seus entrassem na baliza.

Com Enzo é diferente

À meia hora, Enzo, o coração argentino, deitou na relva o guarda-redes do Rio Ave com um domínio de bola e o chapéu que lhe quis colocar também passou por cima da baliza. Era outro palmo a faltar. E o Rio Ave? Nada. Na defesa, os vila-condenses só olhavam para a bola e raro era acompanharem um jogador do Benfica que se desmarcasse. No ataque, passar a linha do meio campo era missão que poucas vezes conseguiam concretizar. Culpa dos cercos que os encarnados montavam sempre que a bola tocava em pés inimigos.

No meio de tudo isto, Gaitán armava-se em solidário. Do argentino, com o ‘10’ nas costas, só saíam passes servidos numa bandeja, dos que facilitam a vida aos outros e lhes deixam a bola no sítio certo. Como o tal que, aos 22′, obrigou Talisca a mexer-se (estava parado na área) e a tentar aproveitar uma oportunidade para marcar. O brasileiro, porém, facilitou e rematou rasteiro, ao lado da baliza. Facilitar, aliás, foi coisa em que, do outro lado do relvado, Artur pensou demasiado quando, aos 46’ — e após receber o terceiro passe atrasado consecutivo –, decidiu fintar dois adversários. Correu mal. O guardião atrapalhou-se, afastou em demasia a bola dos seus pés quase deixou que Del Valle o castigasse com um golo. Era o primeiro brinde.

A segunda parte trouxe pouco. O que mostrou foi curto. Tão curto quanto este parágrafo. A equipa abrandou, Enzo desacelerou e a bola deixou de fazer tantas viagens até à área adversária. Aos 63’, Lima ainda foi destino de uma delas e, após fintar Prince, central do Rio Ave, rematou a bola com força, mas sem a fazer coincidir com a baliza. Com 83 minutos no relógio, o brasileira repetia o filme. O Rio Ave, entretanto, já visitava mais vezes o meio campo encarnado, sobretudo graças a Diego Lopes, médio que entrara aos 54’ e se tornou no farol que guiava os ataques da equipa.

Os vila-condenses, porém, nada de perigoso faziam. O Benfica, idem. E tudo foi para prolongamento. Logo aos 92’, o central Jardel quis mudar as coisas cedo, mas Cássio defendeu a bola cabeceada pelo brasileiro. A partir daqui, o Rio Ave, por fim, começou a incomodar o Benfica. Filipe Lopes reclamava a bola para si e poucas o conseguiam desarmar. Del Valle, nos contra-ataques, esgotava a energia a Luisão. E Ukra, o outro extremo, ia tentando rematar sempre que a bola lhe chegava aos pés. E oportunidades para marcar? Nada. Pelo menos até ao intervalo.

Penáltis para Artur se redimir

Porque aos 107′, Ola John enganou Wakaso, deitou-o no relvado e cruzou a bola, mas Lima, só com Cássio à frente, rematou por cima. Aos 111′, o mesmo Lima reforçava a amizade com o guardião brasileiro e, num livre, rematava a bola direitinha para as mãos de Cássio. Por esta altura, Enzo Pérez já era o reflexo do Benfica — emperrava, baixava as meias e queixava-se do cansaço. Aos 117, o Rio Ave quase aproveitou.

Ou melhor, Artur e Jardel quase deram um presente ao adversário. Num canto, o guarda-redes deu uma palmada na bola, ela ressaltou num defesa do Benfica e sobrou para Jardel que, a dois metros da baliza, deu um chutão na bola que a fez embater na barra. O brinde, desta vez, era dividido. Depois desta cena, nada mais. O árbitro apitava três vezes e confirmava os penáltis como o próximo destino.

Quem lá chegou primeiro foi o Rio Ave. E Tarantini, o capitão, avançou, rematou, viu Artur defender-lhe o remate e deu o exemplo — para o adversário. Logo a seguir, Derley também falharia, mas seria o único vestido de encarnado a deixar Cássio tocar numa bola. Os remates de Lima, Bebé e Luisão só pararam nas redes da baliza e Artur fez o resto: defendeu o de Diego Lopes e, por último, o de Tiago Pinto. Festa.

O Benfica conquistava a Supertaça de Portugal, único caneco nacional ao qual Jorge Jesus ainda não tinha colado o nome, e tinha que agradecer ao seu guarda-redes. O mesmo que, em Londres, na Emirates Cup, fizera pouco de si próprio. O mesmo que, na época passada, perdera o lugar a meio da temporada para Oblak. O mesmo que, durante o encontro, arrancou assobios quando tocava na bola. “Estou há quatro anos com o Artur”, começou por dizer Jesus, após o jogo, já com a medalha à volta do pescoço. “E conheço os seus defeitos e as suas qualidades”, completaria, logo depois. Este domingo, por coincidência, o guarda-redes fez questão de mostrar os dois lados.