“Gosto de fantasiar que, chegado o apocalipse zombie, terei a hipótese de salvar ou deixar a minha ex para ser comida. Ainda não sei qual escolher”. Este é um dos segredos que um utilizador da aplicação Secret decidiu partilhar com os seus amigos, seguro de que nenhum deles saberia quem era, de facto, a pessoa que fantasiava com mortos-vivos e o que isso implicaria para a sua anterior relação.

Apesar de este segredo não ser tão importante quanto outros que a aplicação permite partilhar, este utilizador poderá, à semelhança de todos os outros, ver-se obrigado a dar algumas explicações sobre essa sua fantasia. Tudo porque a aplicação não é tão anónima como a própria anunciava. A revelação foi feita pela revista Wired, que pediu a um hacker que testasse a segurança da aplicação e este rapidamente conseguiu identificar um dos utilizadores e o seu segredo.

Para se poder abrir o coração na Secret, o utilizador cria uma conta através de um número de telefone, um endereço de e-mail ou uma conta no Facebook e a Secret liga-o automaticamente a outros utilizadores da rede que estejam na lista de contactos. Qualquer pessoa inscrita pode publicar os seus segredos, ver e comentar os dos seus amigos e os dos amigos dos amigos, sem que ninguém saiba quem disse o quê.

O processo usado pelo hacker contactado pela Wired é relativamente simples. “Fomos capazes de manipular o processo de adicionar amigos à aplicação e substituir os amigos reais por contas falsas que nós criámos. Fizemos com que a aplicação acreditasse que tínhamos um grande grupo de amigos e que o segredo de qualquer um deles seria anónimo. Na verdade, adicionámos apenas uma pessoa real – a vítima – pelo que quaisquer segredos seriam identificados como sendo dela”, explicou ao Washington Post o hacker, Benjamin Caudill, que se define como um hacker ético – ou seja, não utiliza as suas capacidades para provocar danos.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Em sua defesa, David Byttow, co-fundador da empresa, explicou que “anónimo não significa indetetável”. “Não dizemos [às pessoas] que vão estar completamente seguras e completamente anónimas”, disse o responsável, que tem enfrentado outras críticas. No Brasil, por exemplo, a aplicação foi mesmo proibida judicialmente, depois de um cidadão se ter queixado de ofensa por causa de publicações a seu respeito. Bruno Machado, o cidadão em causa, descobriu na Secret fotografias suas todo nu, acompanhadas de mensagens que diziam que tinha SIDA e que participava em orgias. Além da proibição de continuar a disponibilizar a aplicação, a Justiça brasileira determinou também a desinstalação da Secret de todos os dispositivos que já a tivessem instalado.

A Secret foi lançada em janeiro e alcançou grande popularidade não só nos Estados Unidos mas também na Rússia, Israel e China, o que, aliás, tem provocado reações negativas de muitos utilizadores que não sabem ler russo, hebraico ou mandarim.