Jerôme Kerviel fez o banco onde trabalhava perder 4,9 mil milhões de euros em 2008. Foi condenado a cinco anos de prisão, três de pena efetiva, mas cumpriu apenas pouco mais de cinco meses. Esta segunda-feira, saiu da prisão em liberdade condicional com pulseira eletrónica.

Foi um dos rostos mais conhecidos dos excessos descobertos com a crise financeira que começou em 2007 e atingiu o seu ponto crítico em 2008, com a falência do banco de investimento norte-americano Lehman Brothers em setembro desse ano.

Jerôme Kerviel trabalhava para o banco francês Société Général desde 2000, tendo passado para o que veio a ser conhecida como a infame equipa de produtos Delta One em 2005, e quase vergou a Société Générale, com uma série de operações que, continua a garantir, a administração do banco teria conhecimento.

Foi condenado por abuso de confiança, falsificação e introdução fraudulenta de dados no sistema informático da sala de mercados do banco. Inicialmente ainda tinha sido condenado também ao pagamento de uma multa de 4,9 mil milhões de euros (equivalente aos prejuízos do banco com as suas operações), mas esta foi anulada.

O ‘rogue trader’ foi condenado em 2010, mas a sua sentença só foi efetivada em março deste ano, depois de dois meses entre Roma e França. Agora, saiu em liberdade condicional, obrigado a usar uma pulseira eletrónica e a ficar em casa nas noites durante a semana.

Kerviel, agora com 37 anos, disse aos muitos jornalistas que aguardavam a sua saída que está muito feliz pela sua libertação e que pretende reconstruir a sua vida

“Quero ter uma vida normal com as pessoas que me são queridas, começar uma família e finalmente poder aproveitar a minha vida”, disse o francês.

Mas desengane-se quem ache que o corretor se vai ficar por aqui na questão judicial. Um dos pontos mais fortes que usou na sua defesa foi que a administração do banco sabia perfeitamente as operações que estava a realizar, mas fechou os olhos. Kerviel garante agora que vai “continuar a lutar” na justiça para demonstrar a responsabilidade da Société Générale no escândalo que no final levou à sua condenação.

Até lá, o francês retomará o emprego que tinha numa empresa de consultoria de sistemas informáticos onde trabalhou entre 2008 e 2010, antes de começar a ser julgado.

Mas o que fez Jerôme Kerviel?

Para se entender o que fez, é preciso entender primeiro que um futuro é (em termos simples) um acordo entre duas partes para vender um ativo numa determinada data a um preço, também ele, pré-determinado.

Normalmente existem três objetivos para a negociação de futuros: o hedging (cobertura de risco), a especulação ou a arbitragem.

A cobertura de risco pode ser usada, por exemplo, no caso de uma transportadora área que se quer prevenir do risco de uma movimentação do preço do petróleo e acorda já pagar um preço acrescido mas que limita a dimensão das suas perdas caso o preço oscile mais que o esperado. (Se o petróleo custar hoje 60 dólares por barril, a empresa comprar um futuro a 70 dólares para o próximo ano e o preço subir acima desses 70 dólares, acaba por estar protegida).

Na especulação, o trader faz uma aposta no mercado: ou está a apostar que o preço vai subir ou que o preço vai descer.

Já a arbitragem é uma abordagem supostamente menos arriscada, consistindo em encontrar a discrepância de preços entre dois ativos em duas praças diferentes e tentando encaixar a diferença. Por exemplo, comprar ações de uma empresa que estejam mais baratas em Nova Iorque (ainda que a diferença seja a taxa de câmbio entre o dólar e a libra) e vendê-las em Londres, encaixando a diferença.

Era isto que Kerviel deveria estar a fazer quando em 2005 passou para a infame Delta One, como corretor júnior: negociar títulos de índices bolsistas (como o Dax alemão, ou o francês CAC 40 e o Euro Stoxx 50), encontrando encontrar oportunidades de arbitragem entre os futuros destes índices.

Kerviel usou ao invés o seu conhecimento dos procedimentos do banco para fazer uma aposta, ou seja especulação, sobre a direção do mercado. Para isto, investiu muito dinheiro do banco (chegou a ter em jogo mais de 50 mil milhões de euros) em títulos destes índices e criou negociações fictícias no sistema da sala de mercados para dar a aparência que estas operações tinham cobertura (hedging). No entanto, as suas apostas estavam todas do mesmo lado.

Em janeiro de 2008, as suas operações sem autorização foram descobertas pela Société Générale, que em três dias desfez todas as operações de Jerôme Kerviel, acabando com um prejuízo de 4,9 mil milhões de euros à custa destas.

Este foi, na altura, o maior prejuízo da história da finança com operações fraudulentas (mais tarde nesse mesmo ano vir-se-ia a descobrir o esquema ponzi de Bernard Madoff, 10 vezes maior).