Fazem-se passar por médicos, funcionários dos CTT, da segurança social ou de bancos e têm todos um objetivo: chegar às economias dos idosos. Os argumentos dos burlões saem, normalmente, em forma de conversa bondosa e convincente e a polícia já os conhece bem. No dia em que a nova nota de 10 euros foi colocada em circulação, militares da GNR estão no terreno para alertar os mais velhos para os perigos de burla. A PSP já fez o mesmo e revelou, esta terça-feira, ter feito 700 ações de norte a sul do País. A ideia é evitar os crimes que foram cometidos aquando a entrada em vigor da nota de 5 euros.

“Quando alguém vos aparecer em casa a dizer que é da segurança social e que está ali porque vocês recebem uma reforma baixa e querem ajudar-vos, não acreditem”, diz o cabo Baptista, do destacamento da GNR de Vila Franca de Xira, perante uma plateia com mais de uma dezena de idosos, que passam o dia na Instituição de Apoio Social de Bucelas, arredores de Loures.

“As novas notas não substituem as antigas. As antigas continuam a ser válidas”, alerta o militar da GNR.

Os argumentos dos burlões são vários e o militar, que já dispensa apresentações, conhece-los bem. O médico que consegue convencer que está na casa do idoso para um tratamento. E que, depois, lhe pede o pagamento com as antigas notas de 10 euros. “Diz que vão sair de circulação”. O funcionário dos CTT que diz que traz uma encomenda, mas que tem que se pagar um valor monetário. “E depois lá dentro há pedras ou esferovite”. O funcionário do banco que vem trocar as notas ou o da segurança social, que vem à procura de ajudar os idosos mas que, por fim, cobra um valor pelo processo. “Eles querem todos a mesma coisa, o dinheiro”, diz o cabo.

Um burlão, continua, é bem-falante, bem parecido e consegue sempre convence-los. Pode ser homem ou mulher. “E como é que vocês acham que ele consegue informações sobre vocês?”. Na plateia, ninguém responde. “Porque às vezes vocês estão no café e passam informações perante desconhecidos”. “Depois é muito fácil saberem o vosso nome, que têm familiares no estrangeiro…”. Há até casos, explica, de burlões que conseguem informações sobre as suas vítimas nos caixotes de lixo. “Estão a ver as cartas de publicidade que chegam com o vosso nome? Rasguem tudo muito bem!”.

Outros cuidados, como não deixar a chave na porta de casa, não andar com muito dinheiro ou não mostrar-se ausente de casa durante muito tempo. “Quando quiserem guardar dinheiro em casa, espalhem-no. Não ponham tudo debaixo do colchão”. “Ah! Mas isso agora não se usa”, atira da plateia uma das idosas. O cabo da GNR contradiz. E lembra a história de uma idosa que foi burlada em Vila Franca de Xira e que entregou os 10 mil euros que tinha em casa. “Eram as poupanças de uma vida”, diz o cabo. A mulher cala-se e escuta.

gnr idosos,

José Ventura tem 81 anos e garante que não deixa a chave de casa no exterior da porta

José Ventura, 81 anos, não se manifesta. No final, diz ao Observador que estas ações “são importantes”. Há nove anos a viver num bairro de Bucelas, diz que é impensável deixar a chave de casa no lado de fora. “Às vezes faço rondas, aviso as pessoas e, no outro dia, têm novamente a chave de fora. Os tempos são outros”, justifica o cabo. José Ventura sabe disso. A filha que vive com ele trabalha em Lisboa e, por vezes, “fica em casa do namorado”. Ele não passa confiança aos vizinhos e tranca-se a sete chaves. Nos tempos de trabalhador rural não era assim. Mas a vida obrigou-o a adaptar-se.

O cabo Baptista lembra que há casos que acabam em extrema de violência. Durante a ação de sensibilização, que dura cerca de uma hora, avisa que os idosos não devem abrir a porta a estranhos e até devem ter uma relação saudável com os vizinhos. “Às vezes são eles que se apercebem de situações suspeitas e chama as autoridades”.

No final da sessão, distribui magnéticos com um número de telemóvel. O serviço de apoio ao idoso está disponível 24 horas por dia. “Sabem porque é que fizeram uma nota nova?”, pergunta, por fim, à plateia. No fundo da sala ouve-se: “porque não tinham mais nada com que se ocupar”. “Não, porque esta nota começou a ser muito contrafeita”, responde o cabo. O cabo Baptista ainda tentou trazer uma nota nova para mostrar aos idosos. Ficou-se por um vídeo. Nos bancos da zona ainda não tinha chegado nenhuma.

Os idosos que vivem isolados

Na Instituição de Apoio Social de Bucelas há 50 idosos que todos os dias ali tomam as refeições. “Estamos perto de Lisboa mas esta freguesia é muito grande e há muitos idosos isolados”, explica o presidente da instituição Manuel Marecos. Os “Censos Sénior 2014”, realizados pela GNR, identificaram 33 963 idosos que vivem sozinhos e isolados.

O cabo Baptista e o cabo Rodrigues, chefe da secção de Programas Especiais, cobrem três concelhos e conhecem muitos casos. Há dias, o Baptista chegou a casa e tinha, ainda, um nó no estômago. “Uma mulher de 92 anos que vivia sozinha em Lousa e que não sabia em que dia estava. Dizia que falava com a mãe que tinha 125 anos e que vivia numas casas mais abaixo. No frigorífico havia carne que já tinha larvas”, descreve.

O alerta foi dado por uma filha da idosa que vive no Alentejo e chegou à GNR por intermédio da assistente social. “Era necessária uma intervenção imediata mas é preciso articular com as instituições. E nem sempre é fácil porque não há vaga”. O militar recorda a história do “Senhor Feliz” que de “Feliz não tinha nada”. Ainda hoje o visita no lar e ele próprio agradece a estadia. Mas, até lá chegar, deu muito trabalho aos militares. “Vivia numa casa em tijolo sem luz e sem água e não queria sair dali”.

A filha não quis saber dele. E o militar da GNR nada pôde dizer. “Disse que ele tinha bebido toda a vida e que a tinha expulsado de casa. Perante estas histórias nada pode fazer”. Histórias que lhe chegam todos os dias. “E que vão além da minha farda”.