Rádio Observador

Crise no GES

Suíça Eurofin deu “um jeitão” para tirar 800 milhões de euros do BES

287

Esquema triangular de venda de obrigações terá permitido ao Grupo Espírito Santo, por via da suíça Eurofin Securiti, extrair pelo menos 800 milhões do banco, prejuízos decisivos para a queda do BES.

A suíça Eurofin Securiti terá tido um papel central num conjunto de operações ruinosas para o BES, em benefício do grupo.

MARIO CRUZ/LUSA

Foi através de um esquema triangular de venda de obrigações entre o Grupo Espírito Santo (GES), o Banco Espírito Santo (BES) e a sociedade financeira suíça Eurofin Securiti que a administração retirou pelo menos 800 milhões de euros do banco para pagar dívidas do grupo nos meses que antecederam o colapso. O presidente dessa sociedade suíça, com ligações de longa data com o GES, Alexandre Cadosch, deu “um jeitão ao grupo em várias áreas”, afirmou Ricardo Salgado durante uma reunião do Conselho Superior do GES a cujas atas o jornal i teve acesso. Tratava-se de uma “fraude” que causou um “prejuízo brutal ao BES”, como viria a acusar José Maria Ricciardi, primo de Salgado e membro do conselho.

A 3 de agosto, a noite em que Carlos Costa anunciou a resolução do BES, o governador do Banco de Portugal indicou que parte do “agravamento dos resultados do Banco Espírito Santo face ao que era previsível” estava “relacionada com a realização de operações de colocação de títulos, envolvendo o Banco Espírito Santo, o Grupo Espírito Santo e a Eurofin Securities, que determinaram um registo de perdas nas contas do Banco Espírito Santo no valor total de 1.249 milhões de euros, com referência a 30 de junho de 2014”. As operações, detetadas pelo auditor externo (KPMG), foram um dos “factos supervenientes” a que o Banco de Portugal já se havia referido a 30 de julho, na noite que o BES apresentou os resultados trimestrais, com o reconhecimento de prejuízos recorde.

Pelo menos parte das perdas referidas pelo Banco de Portugal começaram com a emissão, por parte do BES, de obrigações sem juro periódico (cupão) a 40 anos.

Esta quarta-feira, o jornal i publica novas informações sobre os contornos exatos de como essas operações foram conduzidas. E também declarações de membros do Conselho Superior do GES que ajudam a compreender as relações entre o grupo e, em especial, de Ricardo Salgado com a Eurofin Securiti.

Pelo menos parte das perdas referidas pelo Banco de Portugal começaram com a emissão, por parte do BES, de obrigações sem juro periódico (cupão) a 40 anos. O jornal i explica que essas obrigações chegavam depois a clientes do BES com gestão discricionária de carteiras, através de quatro sociedades veículo usadas pela Eurofin, a um preço diferente da emissão. Gerava-se uma mais-valia que terá servido para abater dívida de empresas do GES. O lucro das empresas do grupo equivalia a um prejuízo contabilístico para o BES, um prejuízo que passou a ser real quando, em julho, segundo o jornal i, o BES começou a recomprar esses títulos, com uma perda que rapidamente se avolumou.

A operação terá decorrido numa altura bem posterior ao momento em que o Banco de Portugal deu indicações à administração do banco para que este não aumentasse a exposição às dívidas do grupo, o que aconteceu no final de 2013.

No centro desta estratégia estava, então, a Eurofin Securiti, uma sociedade sedeada em Lausanne, na Suíça. criada em 1999. Uma sociedade que garantiu em agosto, ao The Wall Street Journal, ser “totalmente autónoma e independente” do BES e do GES.

Foi numa reunião de emergência do Conselho Superior do GES a 24 de julho que José Maria Ricciardi disse que “hoje soube aí de uns assuntos que já desconfiava. Essa massa toda que veio da Eurofin foi toda introduzida fraudulentamente pelo Departamento Financeiro de Mercados e Estudos do BES”, uma divisão à responsabilidade de Amílcar Morais Pires, em conjunto com a diretora da área financeira Isabel Almeida. “São uns valores absolutamente astronómicos. A Isabel Almeida parece que confessou”, terá dito Ricciardi, citado pelo jornal i. No fundo, prejuízos do BES estavam a ser passados para a conta que o Banco de Portugal obrigou a ter para o reembolso dos clientes que haviam comprado papel comercial do grupo.

No centro desta estratégia estava, então, a Eurofin Securiti, uma sociedade sedeada em Lausanne, na Suíça. criada em 1999. Uma sociedade que garantiu em agosto, ao The Wall Street Journal, ser “totalmente autónoma e independente” do BES e do GES, apesar de já ter sido participada pelo GES e de reconhecer ter feito vários negócios com o grupo português, sempre “no cumprimento total” da lei. Nas atas de um reunião do Conselho Superior do GES, Ricardo Salgado afirmou, citado pelo jornal i, que “o sr. Cadosh [presidente da Eurofin] tem feito um jeitão ao grupo em várias áreas”.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: ecaetano@observador.pt
Filosofia Política

A doença mental chamada Amazónia

Gabriel Mithá Ribeiro

Resta decretar o estado de emergência climática que, na prática, se traduz no combate ao capitalismo em nome do socialismo, mas na condição daquele disponibilizar muitos mil milhões de dólares a este.

Trabalho

Ficção coletiva, diz Nadim /premium

Laurinda Alves

Começar reuniões a horas e aprender a dizer mais coisas em menos minutos é uma estratégia que permite inverter a tendência atual para ficarmos mais tempo do que é preciso no local de trabalho.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)