Foi através de um esquema triangular de venda de obrigações entre o Grupo Espírito Santo (GES), o Banco Espírito Santo (BES) e a sociedade financeira suíça Eurofin Securiti que a administração retirou pelo menos 800 milhões de euros do banco para pagar dívidas do grupo nos meses que antecederam o colapso. O presidente dessa sociedade suíça, com ligações de longa data com o GES, Alexandre Cadosch, deu “um jeitão ao grupo em várias áreas”, afirmou Ricardo Salgado durante uma reunião do Conselho Superior do GES a cujas atas o jornal i teve acesso. Tratava-se de uma “fraude” que causou um “prejuízo brutal ao BES”, como viria a acusar José Maria Ricciardi, primo de Salgado e membro do conselho.

A 3 de agosto, a noite em que Carlos Costa anunciou a resolução do BES, o governador do Banco de Portugal indicou que parte do “agravamento dos resultados do Banco Espírito Santo face ao que era previsível” estava “relacionada com a realização de operações de colocação de títulos, envolvendo o Banco Espírito Santo, o Grupo Espírito Santo e a Eurofin Securities, que determinaram um registo de perdas nas contas do Banco Espírito Santo no valor total de 1.249 milhões de euros, com referência a 30 de junho de 2014”. As operações, detetadas pelo auditor externo (KPMG), foram um dos “factos supervenientes” a que o Banco de Portugal já se havia referido a 30 de julho, na noite que o BES apresentou os resultados trimestrais, com o reconhecimento de prejuízos recorde.

Pelo menos parte das perdas referidas pelo Banco de Portugal começaram com a emissão, por parte do BES, de obrigações sem juro periódico (cupão) a 40 anos.

Esta quarta-feira, o jornal i publica novas informações sobre os contornos exatos de como essas operações foram conduzidas. E também declarações de membros do Conselho Superior do GES que ajudam a compreender as relações entre o grupo e, em especial, de Ricardo Salgado com a Eurofin Securiti.

Pelo menos parte das perdas referidas pelo Banco de Portugal começaram com a emissão, por parte do BES, de obrigações sem juro periódico (cupão) a 40 anos. O jornal i explica que essas obrigações chegavam depois a clientes do BES com gestão discricionária de carteiras, através de quatro sociedades veículo usadas pela Eurofin, a um preço diferente da emissão. Gerava-se uma mais-valia que terá servido para abater dívida de empresas do GES. O lucro das empresas do grupo equivalia a um prejuízo contabilístico para o BES, um prejuízo que passou a ser real quando, em julho, segundo o jornal i, o BES começou a recomprar esses títulos, com uma perda que rapidamente se avolumou.

A operação terá decorrido numa altura bem posterior ao momento em que o Banco de Portugal deu indicações à administração do banco para que este não aumentasse a exposição às dívidas do grupo, o que aconteceu no final de 2013.

No centro desta estratégia estava, então, a Eurofin Securiti, uma sociedade sedeada em Lausanne, na Suíça. criada em 1999. Uma sociedade que garantiu em agosto, ao The Wall Street Journal, ser “totalmente autónoma e independente” do BES e do GES.

Foi numa reunião de emergência do Conselho Superior do GES a 24 de julho que José Maria Ricciardi disse que “hoje soube aí de uns assuntos que já desconfiava. Essa massa toda que veio da Eurofin foi toda introduzida fraudulentamente pelo Departamento Financeiro de Mercados e Estudos do BES”, uma divisão à responsabilidade de Amílcar Morais Pires, em conjunto com a diretora da área financeira Isabel Almeida. “São uns valores absolutamente astronómicos. A Isabel Almeida parece que confessou”, terá dito Ricciardi, citado pelo jornal i. No fundo, prejuízos do BES estavam a ser passados para a conta que o Banco de Portugal obrigou a ter para o reembolso dos clientes que haviam comprado papel comercial do grupo.

No centro desta estratégia estava, então, a Eurofin Securiti, uma sociedade sedeada em Lausanne, na Suíça. criada em 1999. Uma sociedade que garantiu em agosto, ao The Wall Street Journal, ser “totalmente autónoma e independente” do BES e do GES, apesar de já ter sido participada pelo GES e de reconhecer ter feito vários negócios com o grupo português, sempre “no cumprimento total” da lei. Nas atas de um reunião do Conselho Superior do GES, Ricardo Salgado afirmou, citado pelo jornal i, que “o sr. Cadosh [presidente da Eurofin] tem feito um jeitão ao grupo em várias áreas”.