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A nona convenção do Bloco de Esquerda arranca este sábado sem algumas das caras que há dois anos subiam ao mesmo palco do Pavilhão do Casal Vistoso, em Lisboa. Pelo caminho, ao longo dos últimos 15 anos desde a fundação do partido, ficaram nomes que deixaram de se rever na génese bloquista e procuraram outras forças políticas. Recorde-se aqui quem são e quais foram os motivos que levaram à rutura.

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Ana Drago saiu do Bloco em julho e com ela deu-se a desvinculação daquilo que restava de uma das correntes fundadoras do partido – a Associação Fórum Manifesto, originária na Política XXI. A ex-bloquista alegou divergências sobretudo no processo de convergências e alianças políticas. “Governar ou ser governado” era o que a afastava do caminho escolhido pela direção do BE.

Na altura, Drago disse que a desvinculação da corrente era “um passo necessário” e que a Fórum Manifesto iria prosseguir o seu caminho, possivelmente rumo a outras alianças de esquerda e “plataformas de compromisso”. “Neste momento são urgentes soluções para o país”, disse, alegando que “não era possível tê-las no Bloco de Esquerda”. “Amigo não empata amigo”, disse a ex-militante. Em janeiro já se tinha demitido da Comissão Política, tendo continuado como militante e membro da Mesa Nacional. Também já tinha saído da bancada bloquista no fim de agosto do ano passado, sendo substituída no Parlamento por Mariana Mortágua. A saída de Ana Drago deixava antever a criação de uma nova força política.

Essa confirmação chegou esta semana, pelo anúncio da “candidatura cidadã” às legislativas de 2015, que junta a estrutura do partido Livre (de Rui Tavares) com a Associação Fórum Manifesto, o movimento 3D (de Daniel Oliveira), a Renovação Comunista e outros nomes independentes. Uma candidatura que apela à governação da esquerda numa inevitável proposta de aliança com o Partido Socialista.

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Em março de 2013 foi a vez de Daniel Oliveira (também originário da corrente Fórum Manifesto) anunciar a desvinculação ao Bloco, por achar que o partido se tinha transformado num “fator de bloqueio, alimentando-se e alimentando o sectarismo” e por afirmar que Francisco Louçã não tinha deixado de coordenar mesmo depois de se afastar da liderança. Acabou por cortar com o partido em total discordância com a escolha da liderança bicéfala – entre João Semedo e Catarina Martins – e com a estratégia política seguida pela continuidade.

Em dezembro, fundou o movimento 3D, onde apelava à convergência da esquerda, e ao longo deste ano voltou várias vezes a manifestar a sua divergência face à estratégia do partido de ser um partido de protesto e recusar alianças e pontes para governação. Com o título ‘Ou queres governar ou serás sempre governado’, Daniel Oliveira escreveu no Expresso no verão que “a esquerda precisa de compromissos” e entendimentos, por na sua opinião ser esse “o único caminho para vencer a alternância da desilusão ou o pântano do bloco central”.

Depois da fundação do movimento 3D, e fazendo já parte da Manifesto de Ana Drago, aliou-se ao partido Livre e à Renovação Comunista, e a “todos” os independentes que queriam juntar-se a eles, para anunciar uma nova candidatura às legislativas assente na democracia direta e na máxima de “poder nas mãos dos cidadãos”. E, claro, na admissão de que sem o PS não pode haver governo virado à esquerda.

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Já não tinha grande atividade no Bloco e já não era dirigente desde 2006, mas foi em maio que a psicóloga apresentou a carta de desfiliação do partido. As razões eram semelhantes: as políticas de alianças e entendimentos com o PS. A ex-deputada desvinculou-se assim em maio, apenas dois dias antes de se juntar ao PS numa convenção do Novo Rumo. A justificação foi a ausência de políticas de alianças à esquerda e a vontade de ter “liberdade para atuar” politicamente de acordo com a sua consciência, como disse na altura ao Público.

O afastamento da psicóloga em relação ao Bloco (e a aproximação ao PS), no entanto, já era antigo. Em 2006, tinha sido mandatária para a juventude da candidatura de Mário Soares à Presidência da República. Já nessa altura a sua ligação ao PS não foi bem vista dentro do BE, até porque nessas eleições Francisco Louçã concorria pelo Bloco. Em 2009, foi excluída da Mesa Nacional – órgão máximo entre convenções -, deixando nessa altura de ser dirigente do partido.

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Saiu em junho de 2011. Originário da Política XXI mas candidato independente nas listas do Bloco às europeias, o afastamento do historiador, que veio depois a fundar o partido Livre, aconteceu em divergência clara com o ainda coordenador do partido Francisco Louçã.

Em causa estava um conflito entre os dois que começou quando Louçã publicou na sua página de Facebook uma mensagem onde culpava Rui Tavares de ser fonte em duas notícias que davam como fundadores do Bloco Francisco Louçã, Miguel Portas, Luís Fazenda e Daniel Oliveira – em vez de Fernando Rosas. Louçã acusou Tavares de ter feito a troca propositadamente e o historiador veio dizer que tinha perdido a “confiança pessoal e política” no líder do partido.

Sairia então da lista do Bloco às europeias e juntar-se-ia aos Verdes no Parlamento Europeu. Viria depois a fundar o partido Livre, no início de 2014, que acabou por ser a sexta força política mais votada nas europeias de maio, com 2,1% dos votos. Esta semana anunciou a candidatura do novo movimento de esquerda às legislativas de 2015, cujo programa será discutido numa convenção em janeiro e que conta com o contributo da associação Fórum Manifesto, de Ana Drago e Daniel Oliveira, assim como com a Renovação Comunista, de Cipriano Justo, bem como com vários nomes independentes.

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Protagonizou a primeira dissidência no Bloco de Esquerda. Aconteceu entre março e maio de 2011, quando a corrente Ruptura/FER (Frente de Esquerda Revolucionária), liderada por Gil Garcia, anunciou que iria desvincular-se do Bloco. Em causa estava a recusa do partido em formar uma aliança eleitoral com o PCP e de não avançar no sentido da renovação. Em agosto de 2013, com um grupo de dissidentes do BE, Gil Garcia legaliza um novo partido – o Movimento Alternativa Socialista.

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Nota ainda para a histórica divergência do partido com José Sá Fernandes, que chegou a ser vereador independente da Câmara de Lisboa integrando a equipa do socialista António Costa. Em 2005, no decorrer da IV Convenção do BE, o partido aprovou o apoio da candidatura de Sá Fernandes à Câmara de Lisboa, como independente pelas listas do Bloco.

Mas três anos depois o desentendimento foi notório, e a concelhia de Lisboa do Bloco de Esquerda apresentou uma proposta de resolução, assinada por Luís Fazenda, onde se lia que “o programa eleitoral ‘Lisboa é Gente’, com o qual o Bloco de Esquerda se comprometeu com os lisboetas, deixou de encontrar a devida representação no vereador José Sá Fernandes”, pelo que era anunciado o fim do entendimento com o bloquista independente.