Trabalhos encerrados, decisões à porta. O Bloco de Esquerda sai dos três dias de convenção tal como entrou: dividido mas refugiado na bandeira da “unidade pela diferença”. “Parece que não serviram para nada este dias”, disse ironicamente João Semedo no discurso de encerramento da convenção: “entramos bloquistas e todos saímos bloquistas”. Mas a verdade é que o Bloco sai do Casal Vistoso sem líder(es) confirmado(s). Apesar de a moção de Catarina Martins e João Semedo ter sido mais votada, a eleição dos dirigentes para a Mesa Nacional terminou empatada – e é a Mesa quem decide a liderança.

Como vai o Bloco de Esquerda sair deste impasse é a pergunta que todos fazem. A resposta deverá ser conhecida já no domingo, data em que terá lugar a primeira reunião da Mesa Nacional. Dela fazem parte 34 dirigentes afetos a Pedro Filipe Soares, 34 dirigentes próximos de João Semedo e Catarina Martins e outros 11 dirigentes eleitos pelas listas minoritárias: sete pela lista B e 4 pela lista R. Quem dá a cara pelo Bloco até lá? Luís Fazenda, fundador bloquista que alinha ao lado de Pedro Filipe Soares, arrisca uma resposta em tom de provocação: “todos nós”, disse aos jornalistas.

Na prática, no entanto, é preciso concretizar e fazer escolhas. Uma escolha que poderá, nessa lógica, estar nas mãos dos 11 dirigentes eleitos para a Mesa Nacional pelas duas listas minoritárias.

Lista B recusa desempatar

Ao Observador, um dos sete dirigentes eleitos pela lista B recusou a necessidade de ter de escolher entre uma coordenação a uma ou duas vozes, afirmando que não vai ser favorável nem à dupla Catarina Martins/João Semedo nem a Pedro Filipe Soares.

“Ao ter dado um empate nas listas votadas à direção, a convenção quis dizer que não quer nem uma solução de um coordenador nem uma solução de dois coordenadores”, disse João Madeira ao Observador, sublinhando a necessidade de a decisão da Mesa Nacional ir ao encontro daquilo que seja mais adequado face ao momento particular em que vive o Bloco de Esquerda.

A solução defendida pela lista B, que este ano conseguiu eleger sete delegados para a direção, e que podia ser decisiva no desempate, passa assim por uma coordenação coletiva baseada na Comissão Política (que será designada pela Mesa Nacional) e assente em porta-vozes.

Ao contrário do que acontecia até aqui, a Comissão Política – órgão executivo da direção do BE – sairá da Mesa Nacional num regime de proporção pelas listas eleitas, de acordo com a alteração aos estatutos que foi aprovada no primeiro dia da convenção. Mas há dois anos não foi assim. A lista de Catarina Martins e João Semedo teve, na altura, maioria na Mesa Nacional e daí saíram os dois coordenadores. Também a Comissão Política foi composta pela lista vencedora, num regime de maioria e não de proporcionalidade.

A decisão sobre o modelo de coordenação deverá ser tomada no domingo. Francisco Louçã, fundador do Bloco que deixou este fim de semana qualquer cargo de dirigente voltando à função “honrosa” de militante de base, afirmou aos jornalistas que a escola da Mesa se trata de uma escolha política. “A Mesa Nacional tem a obrigação de olhar para o debate político” que foi travado na convenção para decidir quais serão as “representações públicas do BE”, disse, deixando claro o recado sobre o facto de a moção de orientação política de Catarina Martins e João Semedo ter sido a mais votada, por oito votos. Oito votos que, no seu entender, devem pesar.

Menos assertivo é Luís Fazenda, que prefere lembrar que está tudo em aberto. “Neste momento, é prematuro falar acerca do desenlace. No Bloco, a coordenação não é uma figura estatutária e será uma escolha política da Mesa Nacional”, afirmou Fazenda, adiando as decisões sobre os coordenadores para o debate que será travado entre os 79 dirigentes eleitos para aquele órgão máximo entre convenções.

Semedo apela ao fim da luta pela liderança

Ainda assim, e para dar sinais de união e de que o Bloco “sai melhor e mais forte desta convenção”, João Semedo chamou ao palco do Pavilhão do Casal Vistoso os 87 dirigentes eleitos este fim de semana para a Mesa Nacional e a Comissão de Direitos. “Vai ser muito mais bonito quando começarmos todos aqui em cima a cantar a internacional”, disse o coordenador referindo-se ao hino bloquista cantado no encerramento dos trabalhos.

Mas não fugiu a uma palavra sobre as decisões que a Mesa Nacional tem pela frente para escolher a nova liderança bloquista. Para Semedo, cuja moção venceu por oito votos, a Mesa Nacional eleita “deve saber interpretar refletidamente” as votações da convenção. E deixou o peso todo sobre os 79 dirigentes que compõem a Mesa, e onde ele também se situa, dizendo que a Mesa tem uma “responsabilidade especial” sobre o futuro do Bloco, que arranca agora para um “novo ciclo”.

“A disputa interna deve acabar”, disse, “sem prejuízo das diferenças”, num recado dirigido a Pedro Filipe Soares e Luís Fazenda que se encontravam em cima do palco, atrás dele. Numa ponta do grupo, Fazenda, deputado e dirigente histórico mais uma vez eleito para a Mesa Nacional, era, no entanto, a figura que estava mais isolada no retrato de família que se tinha construído em cima do palco.

De voz rouca e cansada depois de três dias de debate e discussão política, João Semedo preferiu dizer que a sua rouquidão não se devia à disputa interna que, admitiu, se travou na IX convenção do BE. “Foi um debate intenso mas não houve nem gritaria nem algazarra nesta sala”, disse, sublinhando que o Bloco “respeita a diferença” e assumindo que é a diferença que “dá a unidade que queremos ter na luta politica”.