Os maiores porta-aviões pertencem à marinha norte-americana. Têm mais de 300 metros, pesam qualquer coisa como 90 mil toneladas e custam muitos, muitos milhões. Jesus comparou a eliminação da Taça de Portugal com um tiro no porta-aviões. E não é que este Benfica parece mesmo um porta-aviões? Com uma, duas ou três âncoras. Está lento, desencantado, pesado, sem grande vontade (ou capacidade) de galgar os oceanos verdes com cheirinho a relva. Desta vez até teve problemas nos motores da máquina: Salvio e Enzo Pérez estavam fora de serviço, assim como Luisão, Fejsa, Eliseu, André Almeida e Rúben Amorim. Apesar de tudo, o Benfica ganhou (1-0). Resolveu Gaitán, com um golo irregular.

BENFICA: Júlio César, Maxi, César, Jardel, Benito, Ola John, Samaris, Talisca, Gaitán, Jonas, Lima

GIL VICENTE: Adriano, Gabriel, Pecks, Enza-Yamissi, Evaldo, João Vilela, Luís Silva, Diogo Viana, Paulinho, Jander, Simy

A equipa visitante ocupava o último lugar. O Gil Vicente conta com apenas seis pontos, que resultaram de seis empates. A vida não está fácil para José Mota e companhia. Mas até entrou muito bem no relvado do Estádio da Luz. A pressionar, sem deixar o Benfica trocar a bola, deixando os jogadores que vestiam de vermelho ansiosos e nervosos. Diogo Viana foi o primeiro a ameaçar a tranquilidade de Júlio César. Foi este extremo que marcou na última deslocação dos gilistas à Luz, um golo que até ameaçava o lugar de Jesus. Mas Markovic e Lima, depois dos 90′, deram a volta e o Benfica nunca mais foi o mesmo, acabando a época a festejar no Marquês de Pombal.

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A Luz não viu o Benfica durante os primeiros dez minutos. Depois apareceu Gaitán, que decidiu despertar e agitar as coisas com tabelas e um ou outro drible dignos da camisola 10. Ou de um comandante valente que tenta combater a inércia de um porta-aviões adormecido, sem gás. Seguiu-se Talisca, com um remate de longe. O brasileiro voltou ao meio-campo para fazer dupla com Samaris, o que não augurava nada de bom. Não funciona bem ali, apesar de ser favorável para o canhoto jogar de frente para o jogo. Há muito que não se vê a melhor versão deste brasileiro. Mas bater na bola como ele bate na hora de rematar há poucos. É esse o dom de Talisca.

O jogo estava lento, sem intensidade, aborrecido até. O Benfica mandava na bola desde o minuto 10 e o Gil Vicente, quais guerreiros apaixonados pelo rigor, não largavam as posições e lutavam com bravura por cada duelo. Jonas quase marcou, quando Talisca picou a bola por cima da defesa. Valeu Facchini, com uma mancha das grandes. Foi o melhor lance até aos 20 minutos. O golo chegaria dez minutos depois…

Após um carrossel e boas trocas de bola — o Benfica estava mais mexido nesta fase –, Ola John recebeu no meio e levantou a cabeça. O jovem holandês decidiu remar contra a maré das movimentações que via à sua frente e piscou o olho ao mais difícil: Maxi (a fazer lembrar as movimentações dos laterais no Barcelona de Guardiola) arrancou, cortou para dentro e ganhou as costas à defesa gilista. O passe de Ola John foi impecável, Maxi dominou e tocou por cima de Facchini, que voltou a ser muito rápido a sair. A bola seguiu em direção ao poste, mas por perto estava Gaitán para corrigir a rota da glória, 1-0. O lateral uruguaio estava em fora de jogo no momento do passe de John.

O descanso estava quase a bater à porta. O Benfica de Jesus assinava 69% de posse de bola. Mas era num ritmo lento, sem grande criatividade e com poucas ideias. O camisola 10 voltou a abanar com a Luz com um cruzamento que tinha como destino a cabeça de Jonas. O homem que gosta de marcar na Taça de Portugal cabeceou ao lado. Intervalo na Luz.

O segundo tempo arrancou praticamente com um momento de aflição para as gentes da Luz. João Vilela, um homem formado no Benfica, descobriu um buraco na defesa encarnada e isolou Simy. O gigante avançado nigeriano (1.95m) correu, correu, hesitou, demorou uma eternidade e permitiu o excelente corte de César para canto. O empate esteve à vista. A malta da bola gosta de dizer uma coisa muito apropriada neste caso: “estão a pôr-se a jeito”. Pois.

Talisca voltou a tentar de longe, aos 62′, procurando assim o regresso à rota dos golos, a arte que o tornou famoso. Mas nada. Seguiu-se um cabeceamento de João Vilela, que deu asas a Júlio César. Grande defesa. Os cerca de 40 mil adeptos continuavam com o coração nas mãos. Derley e Bebé entrariam durante esta segunda parte, mas o ataque não ganhou outro andamento nem cor. Esta equipa está presa ao chão, amarrado às posições, sem magia. Ou sem “nota artística”, como gosta de dizer Jorge Jesus. Gabriel, ao segundo poste, quase empatou já com o relógio a namorar o minuto 90. Foi um Gil Vicente corajoso, e às vezes melhor que a equipa da casa, o que esteve no Estádio da Luz.

Ponto final no Estádio da Luz. O Benfica vence e volta a distanciar-se do FC Porto, que está novamente a seis pontos. Notas positivas para César e Samaris, que parece estar a querer mudar a opinião de quem vê esta equipa. Talisca voltou a demonstrar fragilidades: não funciona bem como “8” e tem problemas quando há uma pressão do rival mais intensa. O remate é o seu dom, e o golo o que o salva das críticas. O Gil Vicente assustou várias vezes e talvez merecesse outro resultado…