O empresário timorense Julio Alfaro disse esta quinta-feira estar interessado em ampliar a sua participação na Timor Telecom, caso a PT coloque a sua participação maioritária à venda e se o Estado timorense assumir o controlo da operadora.

“Sentimos grande preocupação pela oscilação que se vive em Portugal relativamente à PT. Para mim, como acionista, a única e maior tranquilidade seria o Estado timorense comprar as ações da PT, podendo até beneficiar da gestão dos profissionais atuais que já cá estão”, disse em entrevista à agência Lusa.

“Esta seria a melhor saída para o atual cenário. Se o Estado ampliasse o seu capital, ficando como maior acionista e gestor da empresa, nessa altura eu teria confiança e teria tranquilidade para comprar uma parte das ações de acordo com a minha participação”, disse.

Julio Alfaro é o único investidor timorense com capital na TT, em concreto 4,49%, com o restante capital da operadora dividido pela participada da PT, a TPT (54,01%), o Estado timorense (20,59%), a empresa com sede em Macau VDT Operator Holdings (17,86%) e a PT Participações SGPS (3,05%).

O capital da TPT é controlado pela PT (76%), pela Fundação Harii – Sociedade para o Desenvolvimento de Timor-Leste (ligada à diocese de Baucau) que detém 18% e pela Fundação Oriente (6%).

Recorde-se que quando a OI anunciou a intenção de vender a PT à Altice, em dezembro, explicou que iria definir a estratégia a seguir nos negócios da PT não alienados na venda, incluindo os investimentos na Africatel e na TT.

Num cenário de alienação Julio Alfaro admite ser comprador, mas apela a que a PT contacte, desde logo, o Governo timorense e a que o executivo diga sim à operação.

“Não sabemos ainda o que vai acontecer. Se a PT quer ou não vender, ou como reagirá o Governo. Mas para mim a TT é uma operadora nacional”, disse.

“Agora já há capacidade de vários timorenses participarem no negócio. Mas fica sempre uma preocupação e dúvida. Enquanto não houver intervenção direta no Estado ninguém terá coragem de dar o passo. É preciso essa intervenção do Estado para dar tranquilidade e confiança aos investidores, quer aos acionistas atuais quer a outros”, disse.

Julio Alfaro mostra-se “surpreendido” com toda a forma como o negócio PT tem sido conduzido, questionando porque é que o Estado português não interveio para proteger uma empresa “num negócio que faz dinheiro todos os dias, todos os minutos, todos os segundos”.

“Esta é agora a nossa preocupação em relação à TT. Espero que o nosso Governo não cometa o mesmo erro que o Governo português cometeu na PT em não atuar”, afirmou.

Questionada sobre se as ligações da TT a Portugal são ou não prejudiciais, Alfaro disse que “a TT é uma operadora timorense”.

“E se queremos ter orgulho em alguma operadora das três que operam em Timor, tem que ser a operadora timorense, a TT”, disse.

Considerando o projeto da TT, “um investimento modelo” numa altura em que ninguém estava interessado em investir nessa região, Alfaro admite que em algum período a operadora esteve algo “paralisada”.

“Poderia ter sido mais proativa. Se tivesse sido mais ativa com a ampliação dos serviços ou alterações aos preços, poderia ter sido mais dinâmica. E a dívida criada pelo desenvolvimento das infraestruturas teria tido um pagamento mais rápido.

Mas, ao mesmo tempo considera que a liberalização do setor concretizada em 2012 foi feita “de forma atabalhoada” continuando em falta um regulador que verifique as atuações das operações existentes.

As operadoras que entraram, a Telemor do Ministério da Defesa vietnamita e a Telksomsel da Indonésia vieram para cá para destruir o mercado e poderem, depois, apoderar-se do mercado e implementarem as suas próprias regras”, disse.

“Os quadros médios e superiores são todos indonésios e vietnamitas. Há timorenses, mas nos cargos mais baixos e com salários baixos. Isso não acontece na TT. É pena que os outros dois operadores atuem como querem, perante a ausência de um regulador”, disse.