Em 2013, no auge da crise, uma petição para exigir à Alemanha as reparações de guerra que nunca foram pagas na totalidade à Grécia juntou mais de 190 mil pessoas e fez algumas manchetes por todo o mundo. Agora o argumento saltou para a política internacional com Alexis Tsipras, primeiro-ministro grego, a dizer que tem a “obrigação moral” e “histórica” de pedir as reparações de guerra que são devidas ao seu país. De Berlim a resposta chegou rapidamente: a Alemanha vai pagar “zero” porque não deve nada à Grécia.

As forças nazis ocuparam o país entre 1941 e 1944, mataram centenas de milhares de pessoas, deportaram judeus para campos de concentração e forçaram empréstimos (retiram ouro e dinheiro dos bancos gregos). Apesar de a Alemanha ter acordado com as forças aliadas ressarcir as vítimas da guerra em vários países, as suas dívidas aos países vencedores foram amenizadas pelos acordos sobre a dívida de 1953, onde ficou estipulado que o país pagaria a totalidade das suas dívidas quando se voltasse a estabelecer a paz. Isso aconteceu em 1990, com a reunificação das duas Alemanhas e a Grécia diz agora que falta pagar o que lhe é devido.

Entre 2012 e 2013, o Governo grego então liderado por Antonis Samaras, pediu a vários investigadores que avaliassem o volume das dívidas da Alemanha ao país, e calculou que esse valor se situaria nos 162 mil milhões de euros a valores atuais. Este dossier nunca terá sido utilizado, apesar de haver na altura intenção de levar esta matéria aos tribunais internacionais, porque a Grécia conseguiu, com o apoio da Alemanha, novo empréstimo junto da troika. O tema volta agora a agitar as relações entre Atenas e Berlim com Tsipras a dizer que a ocupação nazi “arruinou financeiramente” o país.

“A nossa obrigação histórica é exigir os empréstimos e reparações de guerra”, disse Tsipras no domingo, enquanto apresentava o seu programa de Governo.

Na Alemanha, o vice-chanceler Sigmar Gabriel disse que a probabilidade disto acontecer é “zero”, referindo-se que com o Tratado de Reunificação (também chamado Dois por Quatro), em que ficaram definidos os termos e garantias da reunificação das duas Alemanhas para com a França, Reino Unido, Estados Unidos e da URSS. Segundo Gabriel, a Grécia também assentiu a este acordo que põe de lado quaisquer reparações adicionais. “Passados 70 anos, as reparações de guerra perderam legitimidade”, acrescentou ainda o líder do SPD e parceiro de coligação de Angela Merkel.

Contas com quase 70 anos

Mesmo após a Conferência sobre as dívidas da Alemanha organizada em 1953 que veio rever (e atenuar) os termos do pagamento das sanções aplicadas nas Conferências de Paris, após o fim da II Guerra Mundial, a Alemanha pagou até aos anos 60 mais 115 milhões de marcos às vítimas dos nazis na Grécia e enviou maquinaria pesada para restituir o setor produtivo do país. No entanto, Tsipras defende, tal como vários economistas gregos apuraram no relatório para Samaras, que a dívida atual se situa em 162 mil milhões de euros – 108 mil milhões devido às infraestruturas destruídas e 54 mil milhões dizem respeito ao ouro e dinheiro retirado dos bancos gregos durante a ocupação.

Esse empréstimo chegou a ser avaliado pelo regime de Hitler antes do fim da guerra em 476 milhões de reichmarks e foi avaliado pelo Bundestag em menos de 7 mil milhões de euros em 2012.

Numa visita à Grécia em 2014, o Presidente Joachim Gauck disse que a Alemanha tinha “uma dívida moral” para com os povos massacrados pelo regime nazi e propôs a criação de um fundo chamado “fundo do Futuro” que sirva para relembrar os alemães dos erros passado, recusando, no entanto, falar sobre as reparações de guerra. “[O fundo] Vai disponibilizar somas consideráveis de dinheiro, o que fará os alemães confrontarem o seu passado”, disse o Presidente alemão, apesar de não ter explicado como seria financiado este projeto.